Choryon
1 Prólogo
Notas iniciais
Com o passar das estações, o movimento estava se tornando cansativo para ele. Em mãos tinha tudo aquilo que desejava, embora sempre que um novo prêmio lhe fosse conquistado, ele desejava um novo. Perseguira um coelho durante dias, andando calmamente atrás dele, intrigado para ver se ainda que estivesse ciente de sua presença, ousaria dormir. O coelho resistiu menos; embora no final o predador estivesse exausto, o saltitante resolveu dormir num buraco de folhas. Nunca mais acordaria. Nenhuma presa, fosse um coelho ou um leão, era párea para o caçador. Nenhuma era párea para Rengar.
Quando chegou à seu casebre abandonado, sentiu falta do homem mais uma vez. Era irritante que sua mente ainda se confundisse: ele estava morto. O hipócrita o havia ensinado durante toda a vida que em momento algum um predador poderia fraquejar e ainda assim fraquejara: morrera. Um predador não morre. Não naquelas condições. Havia enterrado a ossada — o que sobrara daquele que o criara — numa cova atrás do casebre que ele construíra enquanto Rengar ainda era um filhote, abaixo de uma chuva que encharcara sua pelagem branca. Branca, notava o homem, sua presença é facilmente notável. Mais de uma vez Rengar provara que não importava se a presa estava ciente do predador; não havia escapatória.
Forçou seu tronco contra a porta para abri-la. As mãos estavam ocupadas segurando as lâminas ensanguentadas; outro leão, cada vez mais comum; cada vez menos como as bestas de Kumungu que o homem o havia uma vez levado para caçar. Ao redor dele, os crânios lamentavam em sua morte: um, dois, três, estavam espalhados pelas paredes; alguns empalhados, outros apenas osso. O homem tinha o costume de fixar na parede as cabeças de suas presas. Costume esse que Rengar adquirira. No fundo da casa havia uma cabeça de homem. Mas haviam tantas cabeças. Algumas eram do tamanho de maçãs, outras eram tão grandes quanto uma janela. Havia sabotado aves do topo de árvores, havia exterminado os mais ladinos jaguares, e nenhuma das temíveis criaturas de Valoran pareciam ser suficientemente fortes para fazer altura à sua caça.
Quando a noite chegou, Rengar sentiu a repulsa do cheiro de homem. Não era nada semelhante ao fedor exalado pelo seu criador, mas um fedor de bárbaro. Rghm, murmurou enquanto abandonava o casebre.
Rengar parou embaixo de uma árvore e farejou, seu pelo claro manchado pela sombra. Um sopro de vento por entre os pinheiros trouxe o rastro humano até ele, juntamente com cheiros mais fracos que falavam de raposas, lebres, focas, veados, até mesmo de lobos. Aqueles eram odores humanos também, Rengar sabia; o fedor de velhas peles, mortas e azedas, quase encoberto pelos rastros mais fortes de fumaça, sangue e podridão. Somente o homem tirava a pele de outros animais e vestia couros e pelos.
Rengar não têm medo do homem como os lobos têm. Ódio e fome faziam espirais em sua barriga, e ele deu um rosnado baixo. Conforme ele corria por entre as árvores, ouvia calcanhares de animais assustados correndo para longe. Sua respiração resfolegava quente e branca das longas mandíbulas cinzentas. O gelo havia congelado entre suas patas, duro como pedra, mas a caçada começara, a presa à frente. Carne, Rengar pensava, comida. Caça.
Um homem sozinho é uma coisa frágil. Grande e forte, com bons olhos afiados, mas obtuso na audição e insensível aos odores. Cervos, alces e até mesmo lebres são mais rápidos, ursos e javalis são mais ferozes na luta. Já homens em matilhas são perigosos. Haviam também lobos se aproximando da mesma presa. Estes são meus. E vocês passaram a ser meus também. Rengar escutou o choro de um filhote, a crosta da última neve da noite quebrando sob as desajeitadas patas humanas, o crepitar dos couros endurecidos contra as longas garras cinza que os homens carregavam.
Nas árvores haviam crescido dentes de gelo que pendiam arreganhados dos ramos castanhos sem folhas. Um dos lobos correu rapidamente por entre a vegetação rasteira, espalhando neve. Os companheiros de matilha o seguiram. Rengar foi logo atrás. Subiram uma ladeira e desceram a encosta depois dela, até que a floresta se abriu diante deles e os homens estavam lá. Um era fêmea. O pacote embrulhado em pele que ela segurava era seu filhote. Deixe-a por último, a voz sussurrava, os machos são os mais perigosos. Eles rugiam uns para os outros como os homens fazem, mas Rengar podia sentir o terror entre eles. Um dos homens tinha um dente de madeira mais alto que ele mesmo. O homem atirou o dente, mas sua mão tremia e o arremesso saiu alto demais. Então a matilha caiu sobre eles. E Rengar foi logo atrás.
Um dos lobos jogou o atirador de dentes em um monte de neve e rasgou a garganta do homem enquanto ele lutava. Sua irmã escorregou por trás do outro e o pegou pela retaguarda. Isso deixava a fêmea e o filhote para Rengar.
Ela tinha um dente também, pequeno, feito de osso, mas o derrubou quando as mandíbulas de Rengar se fecharam em torno de sua perna. Conforme ela caiu, enrolou ambos os braços ao redor do filhote barulhento. Por baixo das peles, a fêmea era apenas pele e ossos, mas suas tetas estavam cheias de leite. A carne mais doce era a do filhote. Os lobos deixaram as melhores partes para Rengar. Em volta das carcaças, a neve congelada se tornava rosa e vermelha, enquanto a matilha enchia a barriga.
A léguas dali, em uma choupana de taipa de um cômodo só, telhado de palha com buraco para fumaça e chão de terra batida, Rengar estremeceu, tossiu e lambeu os lábios. Seus olhos estavam azuis como o gelo, os lábios rachados, a garganta seca, mas o gosto de sangue e gordura enchia-lhe a boca, enquanto a barriga inchada gritava por alimento. A carne de uma criança, ele pensou, lembrando-se do criador. Carne humana. Havia ele descido tão baixo a ponto de correr atrás de carne humana? Quase podia ouvir o homem resmungando para ele.
Abominação. Essa sempre foi a palavra favorita do homem. Abominação, abominação, abominação. Comer carne humana era abominação, acasalar-se como lobo com outro lobo era abominação, e tomar os ossos de outro homem era a pior abominação de todas. O homem era fraco, tinha medo do próprio poder. Morreu chorando e sozinho quando lhe arranquei a vida. Rengar devorara-lhe pessoalmente o coração. Ele me ensinou muito, e ainda mais, e a última coisa que aprendi com ele foi o gosto da carne humana.
Os lobos estavam tão famintos quanto ele, magros, com frio e com fome, e as presas... dois homens e uma mulher, um bebê em seus braços, fugindo da morte. Eles teriam perecido em pouco tempo, de qualquer maneira, de exposição ao frio ou de inanição. Dessa maneira foi melhor, mais rápido. Uma bênção.
– Uma bênção – ele disse em voz alta. A garganta estava em carne viva, mas era bom ouvir uma voz humana, mesmo que a sua própria. O ar cheirava a mofo e umidade, o chão estava frio e duro, e o fogo fornecia mais fumaça que calor.
De repente, um clarão de luz roxa sobrepôs-se sobre seus olhos. Era claro demais, mais do que poderia aguentar com olhos tão perspicazes. Perguntava-se se eram mais homens, e se aprumava para o combate. Quando saiu da pequena construção de homem não teve tempo para analisar o que seria aquela criatura bizarra que via; era claramente desconhecida. Perturbadora e distante de qualquer realidade que já vira neste mundo. Havia saído da esfera arroxeada que havia se formado nas partículas do ar, e postava-se agora contra ele. Seu pelo é branco, pensou. É fácil demais de ser notado.
As lâminas se ejetaram para a ereção. O monstro aprumou-se para um salto. Com urros, foram se encontrar na metade do caminho de cada um, prontos para a batalha. A força do monstro era muito maior; Rengar foi arremessado junto com suas patas pegajosas para trás, onde o monstro agora colocava-se sobre ele. Teve de usar a força das pernas para impulsionar o alienígena; era a vez dele de voar. Com um empurrão, o monstro deu cambalhotas desajeitadas até conseguir voltar à posição de luta. Não viu como, mas o monstro deu um jeito de derrubá-lo não muito depois. O chão veio ao encontro da sua cabeça; sentiu o sangue fluindo pelas narinas. O monstro estava vindo num outro salto. Com as lâminas das mãos, conseguiu cortar uma das patas do alienígena. O grito mais bizarro então ecoou pela floresta.
Rindo ensandecido, pegou numa das patas do monstro e começou a rodopiá-lo como se fosse algum brinquedo. Só o soltou quando a força dos braços o abandonou, e o monstro foi parar aturdido após chocar-se contra uma árvore bem longe. Quando se aproximou, com um sorriso, sabia que aquela seria mais uma presa. Uma a altura, adicionou. Finalmente. Seria, se no mesmo clarão arroxeado não tivesse desaparecido. Desaparecido apenas para aparecer num clarão arroxeado logo atrás de Rengar novamente.
Esse último salto veio repentinamente; ele sentiu um choque de frio, como se tivesse sido mergulhado nas águas de um lago congelado. Então se viu correndo pela floresta enluarada quando uma das garras do monstro atravessou o lado direito do seu rosto. Metade do mundo estava escuro.
Não conseguia ver, mas antes de tudo escurecer, tudo que conseguiu ouvir foi uma voz estridente, clara e rouca.
Tema o Vazio...
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