– Rayato! — ouviu o grito estridente da avó. — Akira chegou! Ela veio te buscar.

Não! Estou atrasado outra vez. Sempre que Akira decidia buscá-lo, ele conseguia achar um jeito de se atrasar. Era absurdo. Quando ele a buscava, sempre chegava cedo demais e acabava tendo que esperar horas enquanto ela vestia-se, mas quando era a vez dele, sempre estava amarrando os cadarços ou arrumando os cabelos. Eram brancos, mesmo tendo apenas cinco anos de idade.

– Mal posso esperar para ver meu netinho, Rayato — disse a avó, quando ele finalmente chegou à porta e encontrou Akira.

– Vovó, eu tenho cinco anos — franziu a testa. — E além do mais...

– Rayato, vamos logo! — interrompeu Akira, colocando as mãos fechadas ao redor da boca, parecendo animada. — Vai começar logo logo!

Quando chegaram ao seu destino, um homem gordo e grotesco assomou sobre eles, com uma barba amarela bifurcada, segurando um martelo de madeira e um cinzel de ferro. Seu roupão era grande o bastante para servir como pavilhão de torneio, mas o cinto atado frouxamente tinha se desfeito, expondo uma gigantesca barriga branca e um par de peitos pesados que pendiam como sacos de sebo cobertos de grossos pelos amarelos. Fazia Rayato lembrar-se de um peixe-boi morto que certa vez dera ao mar.

Ao redor deles seis cerejeiras montavam guarda ao redor de uma piscina de mármore, seus ramos delgados desfolhados e marrons. Um rapaz nu estava na água, pronto para um duelo, com uma lâmina ioniana na mão. Era flexível e bonito, com não mais do que dezesseis anos e um cabelo loiro liso que lhe caía sobre os ombros. Parecia tão real que levou um longo tempo até que Rayato percebesse que era de mármore pintado, embora a espada brilhasse como aço de verdade.

Do outro lado da piscina havia uma parede de tijolos, com quase quatro metros de altura e pontas de ferro no topo. Além dela estava a cidade. Um mar de telhados cercava uma baía. Era possível ver torres de tijolo quadradas, um grande templo vermelho e, distante, uma mansão sobre uma colina. Bem longe, a luz do sol brilhava nas águas profundas. Barcos de pesca se moviam pela baía, as velas tremulando ao vento, e, mais distantes, mastros de navios maiores disputavam espaço ao longo da costa. Certamente algum deles vai para Bilgewater ou para Freljord. Mas Rayato não tinha como pagar a passagem, nem servia para puxar um remo. Eu poderia entrar como grumete e ganhar um lugar no navio deixando a tripulação me mandar de um lado para o outro no mar. Mas só se Akira fosse comigo.

– Rayato! — ela chamou sua atenção para uma pequena katana brilhante. — Este é o prêmio que nós vamos ganhar quando você mostrar pra eles do que é capaz!

– Ela é tão legal! — confirmou Rayato.

Teve que observar os oponentes. Eram fracos, nenhum entendia do Estilo Hiten como o Mestre Lito o havia feito entender. Se são esses os meus inimigos, eu vou me dar bem demais!

Quando foi chamado para a plataforma de apresentações de suas habilidades, concentrou sua mana como o mestre o havia ensinado. Pegou suas shurikens e a mana fluiu através dos seus braços. Nenhuma força humana de energia teria conseguido atirá-las tão longe quanto quando ele berrou o nome da habilidade e a lançou. Para ele, tudo havia sido perfeitamente estupendo, mas os jurados sabiam que qualquer um com qualquer noção do uso de mana poderia ter lançado as shurikens um pouco mais longe.

Mas Akira havia aplaudido e vibrado por ele. Isso era para ele tudo o que realmente importava. Quando chegou até ela, confessou que não estava em sua melhor forma para o uso de mana, mas tinha certeza que aquilo era uma vitória certa. Akira gostava muito de katanas, e aquela em especial seria o presente que Rayato pretendia lhe dar. Mas então o último competidor foi anunciado.

Yi.

Simples como duas letras, o garoto que devia ter não mais do que quatro anos surgiu num salto e caiu no palco perfeitamente como se fosse um acrobata treinado. Tinha um olhar desinteressado e cabelos negros descendo até o seu ombro, como se nunca os tivesse cortado. Vestia um grande casaco negro e um cachecol esverdeado, uma bermuda acinzentada e sapatos azuis.

– Yi, o que vai fazer pra gente? — perguntou o apresentador.

– Hm — murmurou o garoto. — Que tal uma demonstração de Wuju?

– É sério? — perguntou o apresentador, surpreso. — Essa habilidade requer uma quantia considerável de mana, e é raro que jovens ninjas como você tenham perícia com mana. Não quer tentar alguma coisa mais fácil, de energia?

Rayato só pôde rir. O Estilo Wuju não era usado no Placídio. Talvez em Navori, onde os ninjas eram mais adeptos à mana do que à energia, mas um ninja daquela idade aperfeiçoando um estilo já era demais. Mesmo Rayato, que era em sua própria concepção o melhor ninja do país não conseguia administrar o Estilo Hiten. Como aquele garoto conseguiria...

Quando Rayato voltou à si, haviam chamas ondulatórias flamejando na pequena katana do garoto. Aquele era o lendário Estilo Wuju, e quando ele atravessou a madeira com ela, era como se fosse uma faca cortando manteiga. Enquanto recebera diversas notas sete dos jurados, o garoto estava recebendo uma coletividade imensa de números dez.

– Que triste, Rayato — ouviu Akira lamentar enquanto o garoto de cabelos pretos abandonava a competição com a katana brilhante amarrada nas costas.

– Yi — murmurou o nome pela primeira vez, com os olhinhos semicerrados e os dentes rangendo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.