Choque Temporal

9 Retorno do Patriarca e o Gosto do Alho


O eco da marcha enfurecida das fofoqueiras ainda parecia vibrar no ar do pátio quando o portão principal da fazenda se abriu novamente. Mas dessa vez, não eram leques de bambu ou túnicas de seda rosa que cruzavam a entrada. Era o velho Zhou.

Ele trazia nos ombros um pesado feixe de lenha amarrado com cordas de sisal e uma sacola de lona rústica. Seus olhos cansados e severos correram pelo pátio, notando o chão pisoteado e a pereira com os galhos baixos, fruto da colheita apressada. Ele parou diante de Jin Woo, descarregando a lenha com um baque seco que levantou poeira.

"O que aconteceu aqui?", Zhou perguntou em mandarim, a voz ríspida de quem passou o dia inteiro sob o sol consertando cercas. "Cruzei com a Senhora Chang e a comitiva dela na trilha do mercado. Elas pareciam ter visto um fantasma de fome. A senhora Liu estava cuspindo no chão e rezando para os ancestrais limparem a macula deste solo."

Jin Woo coçou a nuca, exibindo aquele sorriso amarelo e fofo de quem sabe que está encrencado, mas mantém o carisma intacto.

"Bem, pai... digamos que a Melissa decidiu fazer uma aparição pública. E ela não achou que as propostas de casamento da Senhora Liu combinavam com o nosso... mapa astral."

Zhou soltou um resmungo profundo, limpando o suor da testa com as costas da mão calejada. Ele olhou em direção à porta do celeiro, onde Melissa acabara de reaparecer, carregando uma enxada nos ombros com a mesma naturalidade de quem segura um acessório de grife.

"Aquela garota é um ímã de tempestades," o velho resmungou, mas não havia raiva real em sua voz, apenas o cansaço pragmático de um homem da Dinastia Ming. Ele enfiou a mão na sacola de lona e puxou um pequeno embrulho de papel pardo, amarrado com um barbante fino. "Pegue isto. Consegui trocar três peles de lebre por um punhado de sal grosso legítimo e algumas cabeças de alho fresco com um mercador da província vizinha. Vá ajudar a bárbara a preparar o jantar antes que ela quebre alguma ferramenta."

A Cozinha do Absurdo

A cozinha da fazenda era um cômodo de paredes de barro batido, com um fogão a lenha rudimentar feito de tijolos de adobe e um caldeirão de ferro fundido enegrecido pelo carvão. Para Melissa, aquilo parecia o cenário de um filme de terror medieval sobre bruxas, mas a presença do alho fresco e do sal legítimo acendeu uma faísca de dignidade em seu estômago de designer do século 21.

"Finalmente algo que não veio direto do pântano", ela comentou em inglês, pegando uma das cabeças de alho com seus dedos ágeis. Ela puxou a faca Karambit da bota tática com um movimento fluido e começou a descascar os dentes de alho com uma precisão milimétrica, batendo a lâmina curva contra a tábua de madeira rústica.

Jin Woo estava sentado em um banco baixo, alimentando o fogo com gravetos. Ele observava o abdômen trincado dela se mover sob a túnica cinza aberta enquanto ela trabalhava. A luz das chamas dançava em sua pele alva levemente bronzeada, destacando os traços fortes de seu rosto "preservado no formol".

"Você tem muita habilidade com essa faca curva, Melissa," Jin Woo elogiou, a voz mansa, os olhos castanhos amendoados cheios daquela admiração romântica que ela fingia odiar. "Na minha terra, apenas os assassinos das sombras usam lâminas que se escondem nas botas."

"De onde eu venho, isso aqui se chama sobrevivência urbana, modelo," Melissa rebateu, jogando o alho esmagado no caldeirão onde o arroz integral já borbulhava. O aroma forte e característico do alho frito subiu instantaneamente, preenchendo o cômodo e fazendo a boca de ambos salivar. "Se você andar em Boston à noite sem nada para se defender, você não vira história de época. Você vira estatística policial. Mas admito... esse cheiro está quase decente. Sobe para um sete de dez."

Jin Woo riu, levantando-se e aproximando-se dela. Ele era trinta centímetros mais alto, e sua presença física atlética e imponente preenchia o espaço ao redor dela, mas ele sempre mantinha aquele respeito místico que impedia que ela se sentisse encurralada.

"Sabe... meu pai não disse em voz alta, mas ele comprou esse alho porque ouviu você reclamar ontem que a comida daqui parecia poeira," Jin Woo confidenciou, inclinando a cabeça com um sorriso doce. "Ele finge ser duro, mas ele respeita o fato de você trabalhar mais que os homens do vilarejo sem soltar uma única palavra de lamentação."

Melissa parou a colher de madeira de onça-pintada no ar. Ela olhou para o caldeirão e depois para Jin Woo. O pragmatismo de sua mente latina bateu de frente com a pura nobreza daquela família herética do século XV.

"O seu pai é um cara direito, Jin Woo," ela disse, a voz linear e desprovida de sarcasmo pela primeira vez no dia. "Ele me lembra o meu avô no Brasil. Pouca conversa, muito trabalho e nenhum espaço para drama. Diz para ele que... obrigada pelo alho."

Conexões Saborosas e Olhares de Gelo

O jantar foi servido em três tigelas na mesa de madeira do pátio, sob o céu que começava a pintar-se de roxo e laranja. Zhou comeu em silêncio, mas Melissa notou que ele deu duas colheradas extras no arroz temperado com alho, soltando um grunhido que parecia ser a versão dele de um elogio gastronômico.

Quando o velho se retirou para os seus aposentos, deixando os dois jovens sozinhos sob a luz remanescente do crepúsculo, Jin Woo estendeu as pernas longas, apoiando os cotovelos na mesa.

"Então... sobre o que você disse para as senhoras hoje," ele começou, o carisma fofo e provocativo brilhando em seus olhos. "Que eu já tinha uma dona... temporária. Isso significa que estou oficialmente fora do mercado de casamentos de Anhui?"

Melissa tomou o último gole de sua água do poço, limpando a boca com as costas da mão com uma crueza quase masculina. Ela fixou seus olhos castanhos e frios nos dele, mas havia uma faísca de ironia divertida ali.

"Significa que eu fiz um gerenciamento de crise de rede social, grandão. Se aquelas mulheres continuassem te empurrando aquela menina de rosa, você ia acabar casando por cansaço, e a fazenda ia virar uma cooperativa de geleia de lótus. Eu só criei um 'factóide' para afastar a concorrência. Não sobe o sangue para a cabeça, modelo. Você ainda é o camponês, e eu ainda sou a náufraga temporal."

Jin Woo inclinou-se para a frente, apoiando o queixo na mão, o rosto esculpido com traços coreanos e chineses a poucos centímetros do dela.

"Eu posso esperar, Melissa. O tempo nos trouxe até aqui por um motivo. Se eu tiver que ser o seu camponês temporário enquanto você descobre como voltar para o seu século... que seja. Mas não pense que eu vou parar de esculpir você na minha madeira."

Melissa sustentou o olhar dele por longos segundos. A proximidade ativava seus alarmes, mas a presença calorosa, leal e romântica de Jin Woo estava, milímetro por milímetro, derretendo o gelo que ela jurara manter eterno.

"Vá lavar os pratos, Jin Woo," ela resmungou, levantando-se e caminhando em direção ao celeiro, com as tiras de pano de seu Hanfu balançando ao vento. "E se amanhã o alho acabar, eu volto a te chamar de modelo de baixa qualidade."

Jin Woo sorriu para as estrelas que começavam a surgir, pegando as tigelas vazias. A Dinastia Ming nunca esteve tão barulhenta, tão violenta e tão absurdamente perfeita.