Choque Temporal
8 O Segredo Revelado e o Tribunal das Matriarcas
A manhã seguinte ao momento no banco de pedra nasceu com uma luz dourada e suave, bem diferente da névoa fantasmagórica da noite anterior. No celeiro, a atmosfera entre Jin Woo e Melissa havia mudado sutilmente. O gelo ainda estava lá, mas não era mais uma barreira agressiva; era uma trégua silenciosa. Durante o café da manhã, Melissa usou a colher de onça-pintada sem proferir uma única reclamação sobre o gosto do arroz, e Jin Woo guardava um sorriso discreto no canto dos lábios, o coração batendo com a certeza de quem finalmente encontrou a conexão que tanto buscava.
"Hoje nós vamos consertar os arreios dos cavalos e colher as frutas da pereira", Jin Woo anunciou em inglês, limpando as mãos na túnica azul de trabalho. "Meu pai foi consertar uma cerca no limite norte, então temos a fazenda por nossa conta."
"Ótimo. Menos conversa, mais ação", Melissa respondeu, recuperando seu tom linear e direto. Ela usava o Hanfu cinza modificado, as barras amarradas com tiras de pano, mas havia deixado a jaqueta de couro preta aberta, revelando a regata escura por baixo. "E não fique sorrindo para o vento, grandão. Parece que você engoliu um passarinho."
Jin Woo soltou uma risada fofa. "É apenas o efeito do sol do século quinze, Melissa."
A rotina seguiu pacífica durante as primeiras horas. Melissa exibia sua agilidade escalando os galhos mais altos da pereira com a facilidade de quem pratica parkour em Boston, jogando as frutas para Jin Woo, que as pegava no ar com a precisão de seus reflexos de Taekwondo. O clima era leve, quase doméstico, uma bolha de tempo protegida do resto do mundo.
Mas bolhas têm a tendência irritante de estourar.
O Ataque das Matriarcas
O som de passos arrastados e o bater de leques de bambu anunciaram o desastre antes mesmo que eles pudessem reagir. O portão lateral da fazenda, que Zhou esquecera de trancar ao sair, foi empurrado com força.
"Jin Woo! Oh, Jin Woo! Trago notícias do céu para o seu mapa astral!", a voz estridente da Senhora Chang ecoou pelo pátio.
Dessa vez, a Senhora Chang e a Senhora Liu não vieram sozinhas. Elas traziam consigo uma comitiva de mais duas idosas e uma jovem de cabeça baixa, vestida com camadas excessivas de seda rosa — a famosa sobrinha que fazia a geleia de lótus. Elas avançaram como um exército de ocupação, determinadas a encurralar o solteirão de ouro do vilarejo.
"Droga. Esconda-se!", Jin Woo sussurrou em pânico, olhando para Melissa, que ainda estava empoleirada em um galho alto da árvore.
Melissa se preparou para saltar e se ocultar no teto do celeiro, mas o movimento das folhas chamou a atenção da Senhora Liu, cujo instinto de fofoca era mais aguçado que o de um cão de caça.
"Quem está aí em cima?", a Senhora Liu guinchou, apontando o leque para o alto. "Jin Woo, você contratou um garoto para colher as peras? Espere... que roupas são essas?"
Sem opções e cansada de se esconder, Melissa soltou um suspiro entediado. Seu humor ácido assumiu o controle. Em vez de fugir, ela se soltou do galho a três metros de altura, executando uma queda limpa, amortecendo o impacto com os joelhos e se colocando de pé exatamente na frente do grupo de idosas.
As quatro velhas e a pretendente de seda rosa deram três passos para trás em uníssono, soltando exclamações de horror.
A Primeira Interação com a Estrangeira
O choque cultural e temporal congelou o pátio. As idosas piscaram repetidamente, avaliando a criatura de 1,55 m diante delas. Melissa tinha o rosto preservado no formol — parecia uma adolescente de 17 anos —, mas a postura ereta, os olhos castanhos expressivos e frios, e o cabelo castanho liso com mechas loiras repicadas preso no rabo de cavalo baixo destruíam qualquer ilusão de normalidade. E o pior para as mentes do século XV: as tiras de pano amarradas nas pernas desenhavam a forma de suas botas táticas e o contorno de seu corpo atlético.
"O que... o que é isso?!", a Senhora Chang gaguejou, levando a mão ao peito. "Jin Woo! Você trouxe uma concubina herética para a casa de seu pai? Olhe para os cabelos dela! Têm a cor do ouro podre! E essas calças? É um demônio fêmea!"
A pretendente de rosa soltou um ganido e escondeu o rosto atrás das mangas largas.
Jin Woo deu um passo à frente, os músculos do peito rígidos, tentando se colocar entre elas e Melissa. "Senhoras, por favor! Esta é... Melissa. Ela é uma viajante de terras distantes, muito além da Rota da Seda. Ela perdeu sua comitiva e meu pai e eu lhe demos abrigo. Ela respeita muito as tradições!"
A Senhora Liu deu um passo à frente, os olhos semicerrados de puro veneno, ignorando os apelos de Jin Woo. Ela estendeu o leque de bambu, cutucando o ombro de Melissa de forma extremamente desrespeitosa.
"Uma estrangeira? Uma bárbara sem modos! Olhe para ela, não tem maquiagem, não tem postura, tem cara de menina e roupas de salteador de estradas! Ela não serve nem para limpar o chiqueiro!"
Melissa continuou parada. Suas mãos estavam nos bolsos da jaqueta. Qualquer um no século 21 saberia que o silêncio dela era o aviso que antecede o nocaute. Mas a regra inabalável de Melissa funcionou como uma trava de segurança: ela nunca desrespeitava os mais velhos. Aquela velha podia ser a criatura mais irritante da Dinastia Ming, mas ainda era uma idosa.
No entanto, Melissa não pretendia apanhar de graça — intelectualmente falando. Ela olhou diretamente para a Senhora Liu, sustentando o olhar com uma frieza que fez o leque da velha tremer.
"Ei, vovó", Melissa disse em inglês, a voz linear, calma e carregada daquele sotaque brasileiro cortante. "Eu não sei o que você está resmungando com esses dentes que parecem milho queimado, mas abaixa esse leque antes que eu use ele para limpar a poeira do seu cérebro."
As velhas se entreolharam, assustadas com o som daquela língua incompreensível que parecia um feitiço cuspido.
"O que ela disse?", a Senhora Chang perguntou, horrorizada. "Ela está nos amaldiçoando?"
Jin Woo, percebendo a oportunidade e usando seu carisma extrovertido para salvar a situação, interveio rapidamente, traduzindo o que Melissa dissera da forma mais absurdamente fofa e distorcida possível.
"Não, Senhora Chang! Ela disse... ela disse em seu dialeto nativo que está profundamente honrada com a sabedoria das anciãs do vilarejo!", Jin Woo mentiu descaradamente, abrindo aquele sorriso carismático de derreter corações. "Ela disse que o leque da Senhora Liu é tão bonito que ela se sentiu indigna de estar na presença de mulheres tão elegantes. Ela pediu desculpas por suas roupas humildes, pois em sua terra, todos os guerreiros se vestem assim para não ofender os ancestrais com vaidade."
Melissa olhou para Jin Woo de canto de olho, uma sobrancelha arqueada. "Nota dois de dez pela tradução, grandão", ela pensou, segurando a ironia.
A Senhora Liu recolheu o leque, o ego inflado pela mentira de Jin Woo, embora ainda desconfiada. Ela olhou para Melissa e depois para a sobrinha de rosa.
"Pois bem. Sendo amaldiçoada ou não, essa criatura não tem dote e não sabe o seu lugar", a Senhora Liu sentenciou, empurrando a sobrinha de rosa para a frente de Jin Woo. "Aqui está uma mulher de verdade, Jin Woo. Esqueça essa... essa órfã de cabelos pintados. Minha sobrinha sabe fazer geleia e sabe silenciar diante de um homem. Escolha agora!"
Melissa deu um passo à frente, saindo de trás de Jin Woo. Ela olhou para a jovem de rosa, que tremia de vergonha, e depois para as quatro idosas. O humor ácido de Melissa encontrou a brecha perfeita de respeito e sarcasmo.
Ela colocou as mãos atrás das costas, abaixou a cabeça em uma reverência formal perfeita, imitando os gestos que vira o pai de Jin Woo fazer, demonstrando respeito à idade delas. Mas quando ergueu o rosto, seus olhos castanhos cravaram-se nos da Senhora Chang.
"Jin Woo", Melissa chamou em inglês, sem desviar o olhar das velhas. "Diz para essas encarnações do Antigo Testamento que você não vai casar com a fábrica de geleia. Diz para elas que o seu mapa astral diz que a sua futura esposa precisa, no mínimo, ter um abdômen mais forte do que o cabo dessa enxada e saber falar três línguas. E avisa para a mocinha ali de rosa..." Melissa olhou para a jovem com uma pitada de compaixão irônica, "... para ela arrumar um homem que coma a geleia dela, mas que também saiba ler um mapa, porque o modelo aqui já tem dona temporária. Agora, sumam da fazenda antes que eu esqueça a minha educação brasileira."
Jin Woo engoliu em seco, o coração disparando de uma alegria avassaladora ao ouvir a frase "já tem dona". Ele se virou para as idosas, o sorriso brilhando mais do que nunca.
"Senhoras... acho melhor vocês irem. O espírito do meu tio está começando a ficar agitado com a presença de tantas pessoas."
As idosas, ofendidas pela óbvia recusa de Jin Woo e aterrorizadas pela presença enigmática e fria de Melissa, agarraram a jovem de rosa e saíram marchando pelo portão, praguejando contra a Coreia, contra o Brasil (que elas achavam ser o nome de uma doença da floresta) e contra a teimosia de Jin Woo.
Quando o portão finalmente se fechou, Jin Woo se virou para Melissa, os olhos amendoados brilhando com um divertimento fofo.
"Então... eu já tenho dona, tigresa?"
Melissa pegou uma pera da cesta, mordeu com força e caminhou em direção ao celeiro, soltando sua última dose de veneno antes de sumir nas sombras.
"Foi recurso tático, grandão. Não se empolga. Vá lavar os baldes."
Jin Woo ficou parado rindo,e com o coração batendo mais rápido.
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