Choque Temporal
6 O Despertar da Enxada e o Charme de Época
O galo do velho Zhou não cantava; ele dava um grito de guerra estridente às quatro e meia da manhã. Melissa já estava de pé, de braços cruzados na entrada do celeiro, observando a névoa espessa cobrir os arrozais. Ela usava a túnica cinza da mãe de Jin Woo, mas havia feito algumas modificações práticas de "designer de sobrevivência": rasgara duas tiras de pano para amarrar as barras soltas do Hanfu em torno de suas canelas, permitindo que suas botas táticas ficassem totalmente livres para a ação.
"Bom dia, raio de sol do século vinte e um!", uma voz melodiosa e irritantemente animada ecoou.
Jin Woo vinha caminhando do poço, carregando dois baldes pesados de madeira cheios de água. Seus cabelos pretos estavam molhados, jogados para trás, e ele vestia uma túnica azul-clara sem mangas que deixava seus ombros largos e os músculos das costas totalmente expostos. Ele não parecia um camponês que ia limpar estrume; parecia que estava posando para a capa de uma revista de época que Melissa nunca veria.
Melissa o avaliou de cima a baixo com seu olhar gélido de sempre.
"Seu nariz ainda está no lugar, modelo?", ela perguntou, a voz seca, embora seus olhos tenham demorado um milésimo de segundo a mais nos braços definidos dele.
"Graças aos céus e ao meu bom esqueleto, sim," Jin Woo riu, parando perto dela e exibindo aquele sorriso fofo e carismático que parecia iluminar o celeiro escuro. "E para provar que não guardo rancor por quase ter sido degolado, eu preparei algo para você."
Ele enfiou a mão no bolso da túnica e puxou um pequeno objeto de madeira perfeitamente polido. Era uma colher. Mas não uma colher qualquer; o cabo tinha o formato esculpido de uma pequena onça-pintada — o animal que ele descobrira existir no Brasil após arrancar algumas informações geográficas de Melissa nos dias anteriores.
"Para o seu 'arroz de depressão clínica'," Jin Woo disse, os olhos castanhos amendoados brilhando com um romantismo puro e genuíno, inclinando a cabeça levemente. "Esquadrinhei a madeira ontem à noite sob as estrelas. Sei que você odeia o minimalismo do nosso século, então pensei em trazer um pouco da sua floresta tropical para o café da manhã."
Melissa olhou para a colher de madeira. O trabalho era impecável, os detalhes das manchas do animal eram minuciosos. Sua primeira reação defensiva foi querer rejeitar, mas o respeito pela dedicação e pelo trabalho manual do rapaz falou mais alto. Ela pegou a colher, sentindo o calor da madeira que ele havia manuseado.
"Você é um bobo romântico, Jin Woo," ela resmungou, virando as costas para esconder um quase imperceptível repuxar de lábios que, em qualquer outra pessoa, seria um sorriso. "A onça ficou parecendo um gato gordo com catapora. Nota cinco de dez. Vamos trabalhar."
Jin Woo deu um soco leve no ar, comemorando a vitória silenciosa. Ele sabia que o "cinco de dez" dela equivalia a um elogio supremo.
O Confronto com as Galinhas e o Balé do Feijão
A manhã seguiu com o trabalho pesado na lavoura de feijão. O velho Zhou havia ido ao mercado do vilarejo vizinho, deixando os dois sozinhos na propriedade. E foi aí que a comédia do anacronismo atingiu seu ápice.
Melissa, com toda a sua habilidade de combate baseada em Tony Jaa e Jet Li, descobriu seu pior inimigo na Dinastia Ming: o galinheiro.
Ela entrou no cercado para recolher os ovos, com a tigela de cerâmica na mão. Um galo Garnizé preto e vermelho, com o temperamento tão ácido quanto o de Melissa, cravou os olhos nela.
"Não olha assim para mim, frango de padaria. Eu como os seus filhos no café da manhã," Melissa avisou, dando um passo à frente.
O galo bateu as asas e voou diretamente na direção do rosto dela, soltando um cacarejo ensurdecedor. Melissa, por puro instinto de sobrevivência urbana, largou a tigela, executou um salto mortal para trás (um parkour perfeito de Jackie Chan), apoiou-se no topo da cerca de bambu e ficou agachada ali, em guarda alta, com os olhos arregalados.
"Jin Woo! Pega a balestra! Essa porra desse dinossauro está possuído!", ela gritou em inglês, perdendo a compostura fria pela primeira vez em semanas.
Jin Woo, que estava capinando a fileira de feijão logo ao lado, largou a enxada e começou a rir tão alto que precisou segurar a barriga. Ele caminhou até o galinheiro, entrou com total tranquilidade, pegou o galo raivoso por baixo das asas como se fosse um bebê e começou a acariciar as penas da ave.
"Ele só está defendendo o território dele, Melissa. Acho que vocês dois têm muito em comum," Jin Woo brincou, olhando para ela lá no alto da cerca, com as mechas loiras bagunçadas e o rosto levemente corado de indignação. "Quer que eu te ajude a descer, minha tigresa assustada?"
"Eu não estou assustada," ela sibilou, descendo da cerca com um salto limpo e ajeitando a túnica com violência. "Eu só... estava avaliando o ângulo de ataque do oponente. E não me chama de tigresa."
"Como quiser, Melissa," Jin Woo sorriu, soltando o galo e aproximando-se dela com passos lentos. Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza extrema, removeu uma pequena pena branca que havia ficado presa na franja lateral dela. Suas pontas dos dedos roçaram a testa de Melissa por um segundo. "Mas você fica muito fofa quando está tentando não parecer humana."
Melissa sustentou o olhar dele. A proximidade física a fez enrijecer o abdômen por reflexo, mas dessa vez, ela não sacou a Karambit. Apenas recuou um passo, mantendo a distância de segurança, embora o sarcasmo em sua voz tenha saído um pouco menos cortante que o habitual.
"Cuidado, modelo. O romantismo mata. Na minha época, caras que falam mole assim ou estão tentando te vender um curso de criptomoeda ou são machistas de aplicativo de namoro. Nenhum dos dois presta."
Jin Woo piscou, completamente perdido nos termos técnicos do século XXI. "Cripto... o quê? Machi... o quê? Você fala palavras que parecem feitiços, Melissa."
"Esquece. Vamos voltar pro feijão."
Momentos de Trégua
Ao meio-dia, eles se sentaram sob a sombra de uma grande pereira silvestre na borda da propriedade. Melissa usava sua nova colher de onça-pintada para comer o arroz integral — que, surpreendentemente, Jin Woo havia conseguido temperar com um pouco de alho silvestre esmagado para tentar agradar ao paladar brasileiro dela.
"Melhorou?", ele perguntou, observando-a mastigar.
"Subiu para um seis e meio," ela respondeu, sem olhar para ele. "Pelo menos agora tem gosto de comida de hospital, e não de poeira."
Jin Woo sorriu, satisfeito. Ele encostou as costas largas no tronco da árvore, olhando para o céu limpo. O vento suave balançava as mechas pretas de seus cabelos longos. Ele puxou um pedaço de madeira inacabado do bolso e uma pequena faca de entalho, começando a esculpir distraidamente.
Melissa observou as mãos dele. Eram grandes, calejadas pelo trabalho na terra, mas moviam a lâmina com uma precisão artística invejável. Ela olhou mais de perto para o pedaço de madeira e percebeu que a figura que estava ganhando forma tinha cabelos presos em um rabo de cavalo baixo e uma postura visivelmente invocada.
Era ela. Ele estava esculpindo ela.
"Você não tem vergonha na cara, né?", Melissa comentou, o tom irônico e ácido mascarando o pequeno sobressalto que seu coração deu. "Fica aí esculpindo bonecas minhas. Isso é comportamento de stalker de internet, sabia?"
Jin Woo parou as mãos, olhando para a escultura e depois para ela. Ele não escondeu o objeto; pelo contrário, segurou-o com orgulho, mostrando o início das linhas que moldavam a jaqueta de couro que ela usava no primeiro dia.
"Eu esculpo o que vejo e o que sinto, Melissa," ele disse, a voz mansa, o carisma fofo dando lugar a uma intensidade romântica profunda que vinha direto do coração. "Eu passei anos ouvindo as idosas do vilarejo me dizerem com quem eu deveria me casar. Todas as garotas pareciam iguais... superficiais, preocupadas com o dote, com a seda, com as aparências. Aí, o céu se abre e me joga uma mulher de outro tempo. Uma mulher que não precisa de maquiagem para ser bonita, que respeita meu pai sem que ninguém peça, que sabe cortar a garganta de um soldado e que tem uma alma que se recusa a se curvar. Eu não estou stalkeando... eu estou agradecendo aos céus por terem me mostrado que eu estava certo em esperar."
Melissa ficou em silêncio. As palavras dele penetraram nas rachaduras de sua muralha de gelo com uma força violenta. Não havia segundas intenções ali; Jin Woo era transparente como a água do poço. Seu passado traumático (+18) gritava para ela fugir, para rebater com um insulto pesado, mas o respeito pela verdade daquele rapaz do século XV a fez travar.
Ela desviou o olhar para o arrozal, engolindo em seco.
"Você é muito mole para o seu próprio bem, Jin Woo," ela disse, a voz quase um sussurro, despida do sarcasmo habitual. "Apenas... não crie expectativas. O tempo é uma corda esticada. Uma hora ele vai estalar, e eu vou ser puxada de volta. E você vai ficar aqui com um pedaço de madeira na mão."
Jin Woo guardou a escultura e a faca, olhando para o mesmo horizonte que ela. Ele deu aquele sorriso leve e leal.
"Se o tempo me deixar apenas com o pedaço de madeira, Melissa... ainda terá sido a madeira mais bonita que eu já esculpi na vida."
O silêncio voltou a reinar entre os dois sob a pereira, mas pela primeira vez, não era um silêncio de desconfiança. Era o início de uma conexão que nenhuma barreira de séculos parecia ser capaz de parar.
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