Choque Temporal
5 A Rotina do Absurdo e o Silêncio do Lago
Duas semanas se passaram. Contra todas as expectativas de Jin Woo e Melissa, o vilarejo de Shanxi permaneceu em uma calmaria quase irritante. O pai de Jin Woo, Zhou, havia feito um trabalho cirúrgico ao apagar as marcas do confronto na margem do lago e despachar os cavalos dos guardas imperiais para uma rota de mercadores bem longe dali. A burocracia militar da Dinastia Ming era lenta e corrupta; o sumiço de dois guardas de baixo escalão fora tratado pelas autoridades locais apenas como uma provável deserção. Eles estavam seguros. Por enquanto.
Melissa passou os primeiros dez dias voltando obsessivamente ao lago. Ela pulou na água de madrugada, de dia, sob chuva, vestindo suas roupas modernas e depois vestindo as túnicas chinesas. Nadou até o fundo, tateou a lama congelante do leito e procurou por qualquer fenda, brilho azul ou distorção temporal.
Nada. O lago era apenas um lago. Água turva, peixes pequenos e lodo.
"Que Merda!", ela esbravejou em uma tarde, sentada na margem, batendo as botas táticas (que ela se recusava a abandonar) contra uma pedra. O sol do século XV batia em seu rosto "preservado no formol". "Sem Wi-Fi, sem sinal, sem eletricidade. Eu sou uma designer de redes sociais presunçosa presa na porra de um período feudal onde as pessoas limpam o banheiro com folhas de bananeira. Isso é uma piada de muito mau gosto."
"A água está fria hoje. Você vai acabar pegando um resfriado," uma voz gentil ecoou atrás dela.
Era Jin Woo. Ele trazia uma caneca de barro com chá de jasmim quente. Ele se sentou a uma distância respeitosa — ele havia aprendido a respeitar os limites rígidos que Melissa impunha —, deixando que seus 1,85 m de altura fizessem sombra para protegê-la do sol forte. Seus cabelos pretos estavam presos no coque prático de sempre, e ele usava sua túnica de trabalho azul-escura com as mangas amarradas por tiras de couro, revelando os antebraços definidos pelo esforço diário.
Melissa olhou de soslaio para a caneca e a aceitou com um aceno curto de cabeça, mantendo sua política de nunca desrespeitar as gentilezas de quem lhe dava teto.
"Eu não fico doente, grandão. Meu sistema imunológico foi forjado tomando água de coco de procedência duvidosa nas praias do Brasil e respirando a poluição de Boston. Esse ar puro de vocês é que está me estranhando."
Jin Woo deu um daqueles sorrisos fofos que faziam seus olhos amendoados quase se fecharem. Ele não entendia o que era "Boston" ou "poluição", mas adorava quando ela falava sobre sua terra natal. O sotaque latino dela, aquela mistura de sensualidade rítmica com a agressividade de suas palavras, era o ponto alto do dia dele.
"Você sente muita falta de lá? Do seu... 'presente'?" Jin Woo perguntou, olhando para o horizonte.
Melissa tomou um gole do chá, sentindo o calor descer pelo peito. O humor ácido deu uma leve trégua, substituído por um pragmatismo melancólico.
"Sinto falta da previsibilidade. Lá eu sei exatamente quem quer me ferrar, quem quer me roubar e quanto custa o meu aluguel. Aqui... eu não sirvo para nada. Minha profissão exige telas, luzes, computadores. Eu crio imagens digitais para as pessoas venderem coisas. Sabe o que eu sou aqui na Dinastia Ming? Um peso morto que come o arroz do seu pai."
Jin Woo virou o rosto para ela, a expressão subitamente séria, carregada de uma lealdade profunda.
"Você nunca será um peso morto aqui, Melissa. Meu pai reclama das suas calças, mas ontem ele admitiu que você limpa o estábulo dos porcos mais rápido do que qualquer homem do vilarejo. E as suas técnicas... você me mostrou como chuta usando o peso do quadril. Aquilo mudou completamente a forma como eu treino o Estilo Dragão."
Melissa soltou um sopro de risada, o primeiro vislumbre de um sorriso irônico em dias.
"Aquilo é Muay Thai básico, modelo. Se você não usar o quadril, seu chute tem o impacto de uma borboleta morta. Você tem força, mas é muito... romântico lutando. Fica fazendo poses bonitas. Na rua, se você fizer pose, você toma uma facada no rim antes de terminar o movimento."
A Convivência Forçada e o Treino Secreto
Com o passar dos dias, a rotina deles encontrou um ritmo bizarro, mas funcional. Melissa se recusava a ser sustentada de graça. Ela acordava antes do amanhecer e assumia os trabalhos mais pesados da fazenda. Descarregava fardos de feno, alimentava as vacas e os cavalos, e usava sua agilidade de parkour para subir nos telhados do celeiro e consertar as telhas de palha com uma facilidade que deixava o velho Zhou boquiaberto.
Mas o verdadeiro choque — e conexão — acontecia no fim da tarde, nos fundos do celeiro, longe dos olhos das fofoqueiras do vilarejo.
Eles começaram a treinar juntos. Era uma troca cultural de pura violência e técnica.
Jin Woo tentava ensinar a ela a fluidez do Kung Fu Estilo Dragão e o uso da espada Jian. Melissa, por sua vez, exibia a agressividade brutal do Muay Thai (estilo Tony Jaa) e a precisão cortante do Kung Fu Estilo Tigre (estilo Jet Li).
Em um desses treinos, a tensão entre os dois quase quebrou as barreiras de gelo de Melissa.
Jin Woo avançou com um bastão longo de madeira, desferindo um golpe descendente. Melissa esquivou para o lado com a velocidade de um raio, deslizou por baixo do braço dele e, usando sua menor estatura (1,55 m), aplicou um clinch perfeito no pescoço de Jin Woo, puxando-o para baixo enquanto simulava uma joelhada brutal no plexo dele.
Mas Jin Woo era um lutador formidável. Ele antecipou o movimento, girou o corpo e usou sua força muscular para reverter a posição, prendendo Melissa contra a parede de madeira do celeiro. Seus corpos colaram-se instantaneamente.
O peito largo e definido de Jin Woo subia e descia, colado ao dela. Ele a segurava pelos pulsos, com firmeza, mas sem machucar. A túnica dela havia escorregado levemente pelo ombro, revelando a alça da regata preta moderna por baixo. O rosto de Jin Woo estava a centímetros do dela. Ele podia cheirar o aroma de jasmim do chá e o suor da pele levemente bronzeada dela.
"Te peguei," Jin Woo sussurrou, os olhos castanhos fixos nos lábios dela, transbordando aquele romantismo incorrigível e genuíno. Ele não conseguia evitar; estar perto dela era como orbitar um sol perigoso.
Melissa congelou. Seus olhos castanhos tornaram-se duas fendas escuras. O contato físico tão próximo com um homem ativou imediatamente os alarmes de seu passado traumático (+18). Sua mente disparou para as memórias que ela tentava enterrar, o motivo de ela abominar a proximidade masculina.
Ela não demonstrou medo. Demonstrou fúria.
Com um movimento de cabeça, ela desferiu uma cabeçada leve — mas dolorosa — no nariz de Jin Woo, fazendo-o soltá-la por puro reflexo. Antes que ele se recuperasse, ela aplicou uma rasteira cirúrgica, jogando o gigante de 1,85 m de costas no chão de palha.
Ela se colocou por cima dele, ajoelhada sobre o peito dele, sacando a Karambit da bota e posicionando a lâmina curva exatamente contra a jugular de Jin Woo. O abdômen de 6 gomos dela estava rígido como aço sob o tecido da túnica.
"Nunca. Mais. Me. Prenda," Melissa sibilou, a voz saindo em um sussurro cortante, os olhos brilhando com um ódio frio e defensivo. "Eu não sou uma das suas pretendentes tontas do vilarejo, Jin Woo. Não confunda a minha estadia com intimidade. Eu posso não conseguir voltar para o meu tempo, mas eu ainda sei como encurtar o seu."
Jin Woo, mesmo com a lâmina fria tocando sua pele e o nariz ardendo, não desviou o olhar. Ele olhou no fundo dos olhos dela e viu, além da fúria, uma dor antiga e profunda que ela tentava esconder com agressividade. O coração dele doeu por ela, não por si mesmo.
"Eu sinto muito," Jin Woo disse honestamente, a voz mansa, deixando os braços abertos no chão em sinal de rendição total. "Eu quebrei sua confiança. Não vai acontecer de novo. Eu prometo."
Melissa sustentou o olhar por mais alguns segundos, procurando por qualquer traço de deboche ou malícia na expressão dele. Só encontrou sinceridade e uma preocupação fofa que a irritava profundamente — porque estava começando a rachar sua muralha.
Ela recolheu a faca com um giro rápido dos dedos e levantou-se, limpando a túnica com violência.
"O treino acabou por hoje, modelo. Vá limpar o nariz. Amanhã nós colhemos o feijão," ela disse de costas, caminhando em direção ao seu canto escura do celeiro.
Jin Woo continuou deitado na palha por um tempo, olhando para o teto rústico. Ele limpou o filete de sangue que escorria de seu nariz e sorriu levemente, um sorriso bobo e apaixonado. Ela era difícil, fria e armada até os dentes. Mas ele sabia, com toda a certeza de sua alma de época, que não queria nenhuma outra mulher no mundo.
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