Choices
2 Capítulo 2 - Dia de tristeza
Notas iniciais
POV Helena
Flora acordou-me mais cedo que o costume, já que hoje eu teria muitos afazeres. Não sei se consegui disfarçar minha expressão angustiada; infelizmente acredito que não, pois a dama não parava de me lançar olhares questionadores.
Se fosse qualquer outra criada eu teria ficado irritada com sua atitude, mas não com Flora. Ela era a minha dama mais antiga, e acabei me apegando a ela de uma forma mais forte do que deveria.
Percebi que eu estava tremendo quando fui entrar na banheira. Abracei meu corpo para tentar fazer a tremedeira parar. Não funcionou.
As imagens daquele pesadelo invadiam minha mente a cada mísero segundo. Não tinha compreendido nada do que aquela voz tinha dito no sonho, mas parecia importante. Balancei a cabeça em frustração enquanto ensaboava meus cabelos; não tinha tempo para pensar em sonhos, pelo menos não hoje.
Assim que terminei o banho, Flora ajudou-me a colocar um vestido simples e preto. Lila e Joana arrumaram meu cabelo e Cléo vestiu meus sapatos e colocou meus brincos. Assim que terminaram o cabelo, a dama adicionou também minha coroa.
Encarei-me um bom tempo no espelho quando as quatro saíram do quarto, deixando-me sozinha com Wolly. Quando que minha vida tinha mudado tanto? Ouvi uma batida na porta, gritei para que a pessoa entrasse e logo meu irmão estava prostrado atrás de mim.
— Precisamos conversar. – ele disse antes de puxar um banquinho e se sentar ao meu lado – Agora nossa família vai se reunir no cemitério real, mas alguns nobres e governantes vizinhos virão. A família real de Foxy estará lá.
— Achei que não fossemos mais aliados.
— E não somos. – Arthur tossiu um pouco, como se estivesse incomodado – É... Bem... Você deve ficar longe deles.
Ergui uma sobrancelha.
— Não sou eu que tive um caso com a princesa, não é?
— Podemos esquecer esse meu assunto com Alice?
— Não me responde com outra pergunta, sabe que isso não é elegante. Não sou muito fã dessa família, mas por que devo ficar longe?
— Por que eles não são mais nossos aliados.
— Então presumo que também ficará longe.
— É claro.
Ele estava me escondendo alguma coisa, era óbvio. Porém, hoje é aniversário de morte de mamãe, e ela não gostaria de nos ver brigando. Olhei para o rosto de Arthur por alguns segundos, observando seus traços. Ele era bem parecido com minha mãe, mais do que eu.
— Posso te dar um abraço? – pergunto com a voz embargada.
Ele assente e abre os braços. Acomodo meu rosto na curva de seu pescoço, apertando meu corpo contra o dele. Mesmo sendo quase um ano mais novo que eu, ele sempre tinha me protegido. Era péssimo que ele não confiasse em mim o suficiente.
— Vamos Lena, temos um longo dia pela frente.
~~~~~~
Realmente, o dia foi bem longo. Quando todos já estavam no cemitério, papai fez um lindo discurso em homenagem à mamãe, que durou uns 20 minutos. Assim que terminou e se retirou do microfone para dar espaço a Melody, percebi que ele tinha os olhos marejados. Aparentemente não fui a única a perceber, pois Flora se aproximou dele e disse algo ao pé de seu ouvido, fazendo-o sorrir tristemente.
O que diabos tinha sido aquilo?
Apenas balancei a cabeça para clarear a mente e voltei minhas atenções para o discurso de Melody. Eu e Arthur preferimos não nos pronunciar. Após acabados os discursos fogos foram soltos, fazendo um belo espetáculo no ar, mas que não aqueceu em nada meu coração.
Meu pai promoveu um jantar em casa, e tivemos a companhia nos soberanos que vieram nos visitar. Percebi que Cameron não tirava os olhos de mim, mas em nenhum momento veio falar comigo.
Em certo momento na noite tive que dar uma passada rápida em um dos banheiros para pingar meu colírio (o qual eu achava não fazer efeito algum) e quando estava voltando para a sala onde as pessoas tinham ido após o jantar, acabei esbarrando em Christopher Cooper, o Príncipe Herdeiro de Foxy.
Ele devia ser um ano mais velho que Cameron, tinha os olhos e cabelos castanhos. Era uns bons 30 centímetros mais alto que eu, e olhava-me de maneira estranha.
— Perdão Alteza, não quis esbarrar no senhor. – me desculpei querendo chegar à sala rapidamente, porém ele segurou-me pelo braço.
— Acalme-se senhorita Helena, não faz mal. Será que poderíamos conversar um instante.
— Não sei se seria apropriado. – digo um pouco mais fria, olhando para sua mão em meu cotovelo. Ele deve ter pensado que minha fala se dirigia a Cameron, pois sorriu e me puxou um pouco mais para si.
— Senhorita, eu tenho certeza que seu noivo não se importará.
— Creio que sim, ele se importará. – disse uma voz atrás de nós.
Cameron nos encarava com uma expressão irritada, e quando viu que Christopher me segurava franziu ainda mais as sobrancelhas. O príncipe deve ter percebido o olhar assassino de meu noivo, pois me soltou e se retirou, murmurando um “sinto muito”.
O rei de Tíron então voltou suas atenções para mim, e ele ainda tinha um olhar duro.
— Não fique bravo comigo, foi ele que segurou meu braço. – defendi-me e ele suavizou a expressão.
— Não estou bravo, só não te quero perto desse principezinho especificamente. Venha, vou acompanha-la.
Entrelaçamos nossos braços e voltamos para a sala onde todos estavam reunidos como se nada tivesse acontecido, mas pude perceber que ele mandou um olhar estranho a meu pai e Arthur, apontando os Cooper com a cabeça discretamente.
POV Narrador
Após todos os que não eram da família irem embora, Helena foi dormir. Entretanto, acabou tendo aquele pesadelo que atormentava seus pensamentos há muito tempo.
Ela não conseguia entender o que uma luta entre dois lobos significava, muito menos aquelas frases que a voz dizia. Percebendo que não ia conseguir pegar no sono sozinha, foi até o quarto de seu irmão.
Lá encontrou não somente ele, mas Melody. Sentiu-se mais calma com os três dormindo juntos, como faziam antes de todos os problemas terem começado.
Porém ela sentia falta do quarto corpo que deva estar com eles, debaixo dos cobertores. Esse corpo agora estava no cemitério, colocando flores para a mãe, o único túmulo que não as tinha recebido.
Ágata engoliu o choro e ergueu os olhos para o palácio, uma pequena construção a distancia. Seus olhos agora estavam tomados pela dor e sede de vingança, fato que não passou despercebido por Ryan, que sorriu friamente.
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