Bella estava exausta. Não conseguia dormir, não conseguia se alimentar, não conseguia parar de pensar em tudo que estava fazendo.

Tinha que manter Royce entretido e longe de Rosalie; tinha que cuidar pra que ela ficasse bem, assim como seu bebê; tinha que lidar com os olhares de nojo e acusação dos que considerava sua família, pois achavam que estava ao lado de Royce, deitando-se com ele em troca de confortos e uma posição no Clã; tinha que lidar com a angústia e medo de pensar em Seth, a incerteza de se tinha conseguido chegar ao seu destino e fazer o que tinha lhe pedido, todo seu plano dependia disso. Estava no limite.

Tinha que ser forte. Tinha que se manter firme. Sabia disso, repetia isso a si mesma cada vez que sentia vontade de cair no chão e chorar como uma criança, então respirava fundo, levantava a cabeça e continuava. Estava exausta física e mentalmente, mas não tinha escolha, tinha que ser forte.

Mas era boa em manter as aparências, principalmente se não estivesse sozinha.

Observava Rosalie comer o pedaço de pão que tinha lhe trazido como se fosse a melhor refeição da vida, o que não era de admirar, já que a única comida que Royce permitia que lhe servisse eram restos. E cruéis como eram, as mulheres da cozinha sempre escolhiam as piores partes dos restos, colocavam em uma cumbuca de barro e davam ao guarda responsável por Rosalie lhe entregar, a aparência era sempre repugnante e semelhante à lavagem que davam aos porcos, Rosalie sempre dispensava enquanto lutava contra as náuseas. Tinha dito a ela que precisava fingir comer, assim não iriam desconfiar por permanecer saudável mesmo sem se alimentar, então sempre deixava um lenço com ela e ali ela colocava apenas os pedaços – que sempre tinha mais ossos ou gordura do que carne – que lhe serviam ou pedaços grandes de legumes ou verduras, então ao visitá-la, Isabella pegava o lenço e levava embora para jogar ao lixo, assim como lhe dava algo melhor, ou ao menos mais digno e limpo, para que comesse junto com as ervas que Sue tinha separado pra que mastigasse e evitasse os enjoos e vômitos de sua gravidez; ao menos Royce deixava que lhe servissem água, o que também a ajudava.

Bella só esperava que Seth conseguisse fazer tudo exatamente como tinha lhe pedido ou Rosalie não duraria muito tempo, logo sua barriga começaria a crescer e não teriam como esconder mais que Royce não tinha apenas um, mas sim dois cativos. E Bella sabia que seria a culpada disso.

— Por que você está fazendo isso?

Bella piscou e saiu de seus devaneios ao escutar a voz de Rosalie.

— O que? Ajudar-te? Preferia que eu não o fizesse?

Lentamente, Rosalie se levantou e se aproximou das grades, segurando-as.

— Você é amante de Royce, trata-me como lixo quando ele está por perto e ainda assim, me ajudas quando ele dá as costas. Eu passo os dias me perguntando quais sãos suas motivações e passo as noites tentando entender quem é você, mas você é muito difícil de entender, Isabella.

— Sugiro que pare de tentar então, seria mais fácil para nós duas.

— Suponho que Royce não sabe do seu jogo duplo, certo? Pergunto-me como ele reagiria quando soubesse.

Bella ergueu a sobrancelha.

— Em quem você acha que ele vai acreditar? Em mim, a mulher que está com ele agora, ou em você, a mulher que o abandonou e fugiu com outro?

— Ele pode não acreditar em mim, mas eu conheço o Royce, ele é cruel, essa duvida vai atormentá-lo e com isso ele vai te atormentar, disso eu tenho certeza.

— Eu lhe daria pontos pela sua coragem e petulância, mas eu não estou gostando muito do seu tom, você está realmente me ameaçando? O que você pensa em fazer? Trocar sua liberdade por essa informação? — perguntou com escárnio.

Rosalie encolheu os ombros.

— Não estou te ameaçando, eu só queria... Entender.

— Entenda uma coisa, querida — Bella se aproximou das grades. — Eu sou a sua única chance de sobrevivência nesse inferno. Ninguém nesse maldito Clã se importa com você. Se você morre ou se você vive, ninguém se importa. Na verdade, nem eu me importo, se não fosse pelo seu bebê, eu te deixaria apodrecer nessa cela até que viessem lhe resgatar, mas ele é o único inocente nessa história toda e não merece morrer pelos pecados da mãe ou de qualquer outra pessoa. Então, lembre-se disso antes de falar qualquer coisa a Royce ou a qualquer outro; se eu cair, você cai junto. É a sua escolha.

Rosalie engoliu seco pelas palavras duras dela e lágrimas brilharam em seus olhos, logo descendo pelas altas maçãs de seu rosto.

— Meus pecados? — repetiu incrédula. — Eu sou inocente nisso também, eu estou aqui contra a minha vontade!

— É tudo sua culpa. — Bella acusou entredentes. — Você devia ter se casado com Royce, tudo isso poderia ter sido evitado se você tivesse se casado com Royce.

— Eu não podia me casar com o Royce, ele é um monstro! Um demônio!

— Eu sei. — Bella sorriu amargamente. — Sua covardia me colocou no inferno e eu sei perfeitamente o demônio que ele é.

— Eu... Eu não sei do que você está falando, eu só... Eu só queria me livrar dele, eu só... Precisava fugir dele, eu tinha tanto medo. — Rosalie chorou e encostou a testa nas grades com os olhos fechados. — Eu só precisava fugir antes que ele... Eu estava em pânico, eu não sabia o que fazer, eu... Eu sinto muito, Deus, eu sinto muito...

Rosalie chorava agarrada nas barras da grade de sua cela, ela se abaixou lentamente até que estava ajoelhada no chão com a cabeça apoiada no ferro.

Bella sentiu as lágrimas arder em seus olhos e os fechou, sentindo-as descer por suas bochechas. Sabia exatamente o que Rosalie tinha sentido. O pânico e a vontade de fugir, mas ao contrário dela, Bella não tivera oportunidade, todas suas escolhas lhe foram arrancadas antes que pudesse agir.

— Eu nunca quis aquele casamento — Rosalie choramingou. — No começo, quando Royce veio me cortejar, pensei que talvez ele fosse bom, mas logo entendi que era tudo sobre o meu pai, união dos Clãs, poder, influência com o rei, terras, eu... Eu só queria me casar com um homem que me amasse, filhos, uma família feliz.

— E você conseguiu isso. — Bella disse amargurada.

Rosalie respirou fundo e abriu os olhos.

— Eu só queria morrer, mas eu tive sorte. Mais sorte do que merecia. Quase morri no acidente enquanto fugia, mas quando eu acordei, um anjo tinha me encontrado e salvado minha vida. Emmett... — com um suspiro, ela sorriu. — Ele é tudo que eu sempre me pedi e sonhei. Ele não achava meus sonhos bobos e ingênuos, na verdade, ele queira aquilo tanto quanto eu. Um casamento feito de amor e não conveniência, filhos, muito filhos — ela riu suavemente. — e uma família feliz. Parece que passei uma vida com ele, mas foi tão pouco...

— É mais do que a maioria das pessoas consegue, você devia ser grata por isso.

Respirando fundo novamente, Rosalie se levantou e seus olhos se encontraram.

— Eu posso ver nos seus olhos que você me despreza e me odeia, mas eu não sei por que, porque fora fugir pra salvar a minha própria vida, eu sou tão inocente nessa história quanto o meu bebê. Eu não sei o que você pensa que eu fiz, mas nada pode justificar isso, eu não mereço morrer. Eu não mereço isso e não quero morrer. — chorou. — Não assim, não aqui, não longe do meu marido e da minha família.

Eu também não merecia, Bella pensou, mas manteve o pensamento para si.

— Então tudo que você tem que fazer é colaborar, fique calada e logo você estará livre.

— Você disse antes algo sobre alguém vir me resgatar, — Rosalie fungou, limpando as lágrimas do rosto — o que isso significa?

Bella lhe deu as costas e subiu as escadas secando o rosto. Ouviu-a chamar seu nome, mas não se preocupou, sabia que ela não ficaria gritando e mesmo que ficasse as paredes eram reforçadas e aquele lado do castelo era vazio, ninguém iria escutá-la.

Não tinha ninguém guardando a porta, pois era hora do almoço e os guardas eram preguiçosos e incompetentes demais para fazer uma troca de turno organizada onde o guarda ficava até que o outro chegasse, não, eles saíam assim que desse a hora, estando um guarda para cobri-lo enquanto estivesse fora ali ou não. Trancou a porta novamente e escondeu a chave que tinha roubado de um dos guardas em seu seio sob o vestido.

Caminhou rapidamente pelo longo corredor escuro e frio, pronta pra virar onde lhe daria a um lado mais iluminado por ter janelas, mas no mesmo instante, Leah estava virando no corredor e as duas se trombaram.

Clearwater era mais alta e forte fisicamente, quando as duas trombaram, Bella foi a única a sentir o impacto e tropeçou para trás.

Estava prestes a pedir desculpas, quando Leah disse rispidamente:

— Era exatamente você que eu estava procurando.

Bella arregalou os olhos, aquela era uma surpresa, já que não tinham se falado desde Leah a mandou ir para o inferno em seu quarto.

— Cadê o meu irmão? — quando Bella ia abrir a boca, Leah continuou: — Não me venha com desculpas. Se algum King o tivesse matado, teriam jogado o corpo a nossa porta por pura maldade, todos acham que o Seth fugiu, minha mãe quer acreditar que ele está bem e a salvo longe daqui, mas eu conheço o meu irmão, ele não é um covarde, então, onde está o meu irmão?

Bella ergueu o queixo, tentando permanecer séria e firme.

— E como eu deveria saber disso?

— Você é a única que agora vive perto do Royce, não é a Senhora do Clã? Então sabes de tudo que acontece aqui, inclusive o que fizeram com o meu irmão.

— Eu não sou senhora de nada. — disse ríspida, mas então suavizou a voz: — Talvez ele apenas teve mais sorte que o resto nós.

— O resto de nós — Leah riu com deboche. — Na verdade, você me parece com muita sorte no momento.

O desgosto e nojo estavam em sua voz, no rosto franzido e no olhar que percorreu da sua cabeça até seus pés.

Enquanto Leah usava uma longa saia e uma túnica masculina, tudo puído e propositalmente largo para que não mostrasse ou marcasse nenhuma parte de seu corpo, evitando assim qualquer olhar indecente ou avanço de algum soldado de Royce, Bella estava usando um longo vestido de tecidos nobres e pedras brilhantes bordadas a ele, que antes tinha sido da mãe de Royce.

Todo o guarda-roupa dela tinha sido ajustado por Sue ao seu tamanho, assim como vários outros tinham sido trazidos das planícies a mando de Royce. Todo o dia desfilava pelo castelo com um vestido diferente, todos elegantes, com cores vibrantes e tecidos nobres, com detalhes ou brilhantes bordados a ele, marcando sua cintura e mostrando se colo nos decotes, tudo da maneira que Royce mandava e gostava.

Isso não era sorte, era conveniência. Mas novamente, Bella manteve o pensamento para si.

— Eu não sei quem você se tornou, mas você não pode ter esquecido quem éramos assim não tão fácil, Bella. Po- — Leah parou como se engasgasse com aquelas palavras, então engoliu seco. — Por favor. Eu estou te implorando, ele é meu irmão, por favor.

Bella podia imaginar como estava sendo difícil para Leah engolir seu orgulho e dizer aquelas palavras. Tudo que Leah fazia, tudo que aguentava, era pra proteger sua família, inclusive os que não tinham seu sangue, mas principalmente sua mãe e irmão – e Seth já estava fora há seis dias.

— Ele está bem, Leah. Nada foi feito a Seth, por nenhum dos King, eu te prometo.

Leah arregalou os olhos.

— Você sabe onde ele está. — foi uma pergunta, então Bella ficou calada. — Onde está meu irmão, Isabella?!

— Eu não posso te dizer ainda. — disse suavemente.

— Você perdeu sua mente? Você vai me dizer agora onde o Seth está e o que você fez com ele!

— Fala baixo, Leah, alguém pode nos escutar.

— Que escutem! Eu não ligo! Que vão todos pro inferno! Royce sabe que você fez alguma coisa com o meu irmão?! — sua voz alta ecoava pelo corredor vazio.

— Leah, por favor. — Bella sussurrou.

— Ele não sabe né? — riu sem humor. — Me diz agora onde o meu irmão está ou eu vou atrás do Royce e digo tudo a ele.

Bella ofegou. Seu cérebro dizia “ameace-a, afaste-a”, mas seu coração dizia que podia confiar em Leah. Na verdade, sempre soube que podia confiar nela, só não queria envolve-la e arriscar sua vida ainda mais.

— Você precisa confiar em mim, Leah.

— Confiar em você? Eu nem sei mais quem é você, como me pede que confies em você?

— Sou eu, aquela que corria e montava com você, que treinava com o arco e nossas espadas de madeira, que fugia dos banhos se escondendo nos estábulos. Eu sou a mesma Isabella Swan de sempre, por favor, não me faça perguntas, apenas... Confia em mim.

— Eu vejo nos seus olhos essa mesma Bella, mas suas atitudes, a Isabella Swan que eu conhecia nunca agiria dessa maneira.

— Eu... — hesitou com os olhos marejados. — Precisava fazer alguma coisa.

— O que? Me diz! Confia em mim, Bella, eu te juro que não contarei a ninguém, nem a minha mãe, por favor! Confia em mim.

— Eu juro que queria. — as lagrimas desceram por seu rosto. — Eu só não quero arriscar sua vida, Leah. Se algo não der certo...

— Deixe que eu me preocupe com a minha vida. — a interrompeu. — Eu sei os riscos que posso e quero tomar. Se você envolveu o meu irmão, então pode me envolver também. Você está fazendo algo contra o Royce? É isso?

— Eu sabia.

Bella arregalou os olhos e Leah se virou abruptamente ao som da voz masculina.

Por um segundo, pensaram ser Royce, mas então viram ser apenas um dos soldados do Clã, James. Mas elas sabiam que isso não era muito melhor, ele era fruto da mesma semente do mal de Royce. Tão cruel e perverso, tirava o prazer da dor e sofrimento alheio. Gostava de humilhar qualquer um em posição menor que ele e ainda mais os cativos do Clã Swan.

A única diferença entre Royce e James era o poder, um era Senhor do Clã e o outro era apenas um soldado que tentava impressionar ao chefe para conseguir uma posição melhor.

E isso tornava James ainda mais perigoso, ele não media esforços para conseguir impressionar e agradar Royce. Se tivesse que levar a ele a simples sugestão de que Bella estava tramando ou fazendo algo contra ele, faria sem hesitar.

— Eu sempre achei estranho o quanto você mudou, mas devo confessar que descobrir que sob sua aparência de frágil e doce mulher está escondida uma víbora pronta para dar o bote me surpreendeu. — James disse com um sorriso debochado.

— Escuta aqui...

— Leah. — Bella a interrompeu firmemente. Quando Leah lhe olhou, Bella se aproximou e a abraçou sem lhe dar chance de discutir ou se afastar, manteve o braço firme ao redor de seu pescoço e a boca próxima a sua orelha.

James encarou as duas em silencio. Após segundos abraçadas, Leah se afastou encarando Bella e então foi embora sem dizer mais nada.

— Onde ela pensa que vai? — ele acompanhou Leah com o olhar.

— Isso é entre nós dois, James.

Ele voltou a encará-la e ergueu uma sobrancelha.

— Nós dois? Acho que na verdade isso inclui uma terceira pessoa. — abriu um sorriso perverso. — Royce.

. . .

— Senhor Cullen, o Senhor Hale e seus soldados estão se aproximando do castelo. — Garrett anunciou a Carlisle, mas o recado também era sua senhora e filhos, que estavam ao seu lado.

— Certo. Abra os portões. Ajude os homens com os cavalos, que devem estar exaustos e famintos após essa viagem. — Carlisle ordenou. — Esme, querida, tem tudo pronto?

— Claro, querido. — Esme sorriu e olhou para a mulher ao seu lado. — Kate, peça que Siobhan esquente a carne, corte o pão e tenha cerveja fresca para os homens, assim como sidra para a senhora. Peça a Maggie que prepare um banho para a senhora Hale no quarto que vão ficar, eu tenho certeza que ela apreciará isso após essa viagem.

— Sim, senhora. — Kate assentiu sorriu e se virou para ir obedecê-la.

— Kate? — Edward a chamou.

— Sim, senhor? — ela se virou.

— Peça que Seth também fique pronto, ele participará da nossa reunião com o Jasper.

— Sim, senhor. Com licença. — com uma pequena reverência, a graciosa mulher de longos cabelos loiros se afastou.

Notas finais
Rosalie e Bella, meus amores (nao sou imparcial, desculpa; eu gosto de drama, obviamente, mas me sinto culpada por fazer meus personagens favoritos sofrer, vocês conseguem entender meu dilema? lol). Espero que vcs consigam ver como a Bella apesar de tão decidida ainda está confusa. E então James e Bella, o que esperar do próximo capítulo? Ah, o proximo capítulo... (um pequeno suspiro e sorriso maquiavélico) eu realmente gosto do próximo capítulo... E agora que Jasper se uniu aos irmãos Cullen já devem imaginar que falta pouco para partirem em busca da irmã. E, consequentemente, certo encontro irá acontecer... Apreciaria se comentassem. E nos vemos no próximo. bjsbjs s2