Chiquititas - Innocence
7 Luto
Eu estava oficialmente de luto, vestia meu vestido preto simples que eu não usava a muito tempo, amarrei meus cabelos com uma xuxinha num rabo de cavalo e fiquei pensando em Tia Carlota pelo resto da manhã, olhando pela janela e me sentindo presa.
Já deviam ser quase meio dia, fazia tempo que eu havia saído da salinha e havia ido ouvir Maíze tagarelar; Adriana havia chegado ao quarto e vestiu apenas sua saia preta porque ela não tinha vestido, enquanto ela rabiscava num caderno velho Rangel apareceu.
—Reunião agora na piscina. _ falou rapidamente e sumiu.
— O quê? _ perguntou Adriana numa voz aguda de doer os ouvidos.
— Reunião agora, na piscina. _ disse ele novamente.
— Pra quê? _ perguntei.
Ele revirou os olhos.
— Agora. Na piscina. Soraya está chamando.
— Vamos. _ falei para Adriana.
Ela veio atrás de mim resmungando.
— Garoto insuportável...
CH
Descemos às escadas e caminhamos até a piscina, quando cheguei lá vi as outras crianças, uma ao lado da outra formando uma fila na beira da piscina, todos olhavam temerosas para um mesmo ponto: Soraya.
Quando ela viu que estávamos ali logo exclamou:
—Ah! Olha só quem está aqui... A loirinha e sua amiga...
Soraya sorriu para nós e apontou para a fila.
—Tomem seus lugares, sempre no final.
Depois de nós duas termos trocado um breve olhar eu e Adriana ficamos ao lado das outras crianças, eu fui a última; talvez Soraya estivesse certa ao dizer que eu sempre estaria ali, no final.
Ela estava diferente, até a forma de falar era diferente, ela usava uma sombra preta acima dos olhos e um batom bem vermelho, cor de sangue. Usava um vestido justo ao corpo sem mangas e preto.
Soraya começou a dizer que os funcionários do orfanato haviam sido demitidos; por isso, pra que não vivêssemos na sujeira, nós mesmos deveríamos limpar a casa todo dia.
Ela também disse que uma conselheira tutelar estava a caminho para nos ajudar mas enfatizou novamente que era ela que estava no comando, ela era a nova diretora do orfanato.
—Por isso, quero deixar bem claro, que não vou tolerar falta de respeito com a minha pessoa, nem resposta malcriadas, nem desobediências e tudo que já é da natureza de vocês... entenderam?
—Sim. _ responderam todos.
Menos eu. Não iria obedecer aquela que era muito mais malcriada que eu.
— Entenderam?!
— Sim!
Não respondi novamente.
— Entenderam...? _ Soraya falou entredentes se posicionando à minha frente.
— Sim... _ alguns gatos pintados responderam num murmúrio.
— Loirinha.
Permaneci olhando para o chão.
— Loirinha!
—O meu nome não é Loirinha!
Soraya parou e deu um sorrisinho.
— Ora ora... ela não é muda... Agora minha querida, eu quero saber se você realmente entendeu a minha mensagem. Você me deve respeito agora, vai ter que obedecer minhas ordens e fazer tudo que eu te mandar fazer...
O silêncio triunfou. Soraya se agachou e olhou dentro dos meus olhos
— Promete pra mim? _ disse ela _ Promete que vai me honrar e obedecer? _ ela riu e imediatamente parou. _ Diz que sim Laura. Diz.
Soraya começou a acariciar as pontas dos meus cabelos e sua unha encostou em meu braço. Continuei sustentando seu olhar, imóvel. E posso dizer que ele mereceu a resposta que eu dei.
—Nunca.
E ela me empurrou na piscina.
CH
As bolhas de ar me cercaram enquanto batia os braços e as pernas para tornar à superfície, ainda bem que a piscina não era funda; Tiago pulou na água e me ajudou a sair. Renata foi buscar toalhas para nós depois que Soraya saiu rebolando triunfante pelo corredor.
Senti vontade de morrer, mas a vontade de desmascarar Soraya foi maior e eu decidi permanecer viva.
Depois que voltamos para o quarto e eu troquei de roupa Maize apareceu de repente e deixou um papelzinho na mão de Adriana.
—Aviso importante. _ disse ela e saiu.
Eu e Adriana nos olhamos assustadas e depois encaramos o papelzinho.
—O que é isso aí? _ perguntei.
—E eu sei lá. _ Adriana deu de ombros e sentou na cama de baixo, começou a sussurrar, estava lendo.
Fazia algum tempo que eu não via ou ouvia alguém ler, quem sempre lia pra mim eram Tia Rita e Tia Carlota mas elas... bem, eu gostava de ouvir alguém lendo. As únicas crianças que sabiam ler por aqui eram apenas Tiago e Adriana, e agora ela estava vendo que mensagem estavam naquele papelzinho.
—O que diz aí? _ perguntei curiosa.
—Tarefas.
— Hã?
— Soraya tirou a empregada daqui não foi?
—Humhum.
— Então... nós vamos ter que arrumar a casa...
—Arrumar a casa? Mas ela é muito grande! E nós... como nós?!
—Eu e você, ora essa...
— Mas não tem como! Vamos morrer trabalhando!
— Calma Laurinha, os outros vão ter as suas tarefas também, só que essa ficou pra nós duas...
— E quem fazer a comida?
— Hum... isso eu não sei...
—Será que é a Soraya?
—Ela sabe fazer comida? Duvido...
— Tomara que não... _ murmurei.
—Por que não Laurinha?
— Por que o quê?
— Por que você quer que não...
— Bem, é... Adriana, sei que parece loucura mas Soraya pode muito bem colocar coisas na comida pra nos sentirmos mal.
— Veneno.
—É.
— Mas será que a Soraya nos odeia tanto a ponto de...
— De fazer isso? Com certeza.
Adriana abaixou a cabeça.
— O que foi? _ sentei ao lado dela.
— Estou com medo.
— Eu também estou. Mas vai ficar tudo bem, lembra da promessa?
— Mas eu não sabia o que eu estava dizendo...
— As palavras de uma chiquitita nunca estarão erradas. _ falei como uma adulta.
Adriana sorriu.
— Confia em mim?
Ela balançou a cabeça positivamente e depois, chorou.
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