Child of Nature

4 Captura à Bandeira



– Uma náiade? – diz Maslow, engolindo em seco. Ouvira as histórias que seu professor estranho de história contava. Dizia que as náiades eram mulheres que residiam qualquer tipo de água doce. Aquela era, talvez, uma... Limneida; náiade que habita lagos. Elas permitiam que as pessoas tomassem de suas águas, mas que jamais se banhassem nelas. Se essa regra fosse rompida, hum, elas os atacavam.

– Exatamente – respondeu Nyalia, séria.

O garoto concordou com a cabeça e deu um sorriso bobo. Do nada, percebeu que um monte de gente começou a correr na direção da floresta de pinheiros. Dois grupos agarravam nas mãos estandartes enquanto driblavam os campistas para se colocarem na frente. Um grupo carregava um estandarte vermelho-berrante com a pintura de uma cabeça de javali e uma lança afundada em sua cabeça, sangrando. O outro grupo carregava um estandarte de tamanho idêntico, mas tinha uma cor amendoada e uma ampulheta dourada no meio, rodeado por círculos e uma cruz. Angélica estava no segundo grupo, em seu clássico sorriso de empáfia.

– Acho que tenho que ir, Nyalia – disse Maslow, e ela assentiu com a cabeça. Seu rosto mais uma vez desceu pela água do lago, e era possível ver seus olhos verdes observando o rosto do garoto antes de desaparecer.

Maslow se levantou do trapiche e foi caminhando lentamente até o gramado. Seus olhos acompanhavam os campistas, não sabendo ao certo o que fazer. Quando avistou Quíron, se aproximou o mais rápido que podia para não perdê-lo de vista.

– Sr. Quíron, oi! – Maslow acenou para o centauro, que retribuiu o gesto em uma expressão séria e cansada. Seus olhos se estreitaram na direção dA Casa Grande umas três vezes antes de encarar Maslow novamente. – O que devo fazer?

– Vá até a floresta – respondeu. Maslow obedeceu, e o seguiu até a floresta. Quando chegaram, Quíron se afastou de todos e se colocou na frente, continuou: – Tudo bem, tudo bem, silêncio, heróis!

Sua barba desalinhada flutuava pelo ar quando uma brisa de meio-dia batia contra ela. Todo o perímetro do céu estava conturbado por nuvens cinzentas, embora, quase em um círculo perfeito em volta do acampamento, o céu estava límpido.

– Os líderes da captura hoje são Ares contra Nêmesis, porque seus descendentes venceram as duas últimas – continuou o centauro em pausas. – Por isso, tragam seus estandartes para ligar aos hastes da bandeira.

Angélica e seu grupo andaram lentamente até Quíron, como se estivessem esperando por isto. A garota ajeitou o cordão no pescoço e deu um bocejo preguiçoso. Seus olhos azuis se agitavam por todos os campistas quando se pôs na frente deles. Seu cérebro estava trabalhando em uma estratégia; era nítido. Ajudou a ligar seu estandarte com dois garotos, provavelmente seus meio-irmãos, eram meio parecidos com ela e tinham a mesma expressão impassível.

Mas o outro grupo não havia poucas pessoas. Eram mais ou menos uma dúzia dos garotos e garotas mais feios que Maslow já vira, e um deles era o garoto alto que apontara sua lança para ele. Ele encarou Maslow por alguns segundos em um semblante vingativo.

– Aí, pessoal – Rupert chamou a atenção de Maslow e se aproximou de um grupo de garotos e uma única garota. Ela era magra e tinha a altura de uma ginasta olímpica. Seus olhos eram castanhos e seus cabelos eram loiro-avermelhados; ela tinha um nariz fino e pontudo. Era bonita, embora se parecesse com uma elfa. Nos seus pés, tinha um par de botas com algumas penugens nos cantos que Maslow não identificou o que eram. – Consegui aliança temporária com o chalé de Nêmesis, faremos parte da equipe dela, portanto, tentaremos capturar a bandeira de Ares.

Então as equipes foram anunciadas. Nêmesis se aliou com o chalé de Apolo, Atena e Hermes, os maiores chalés. Maslow logo deduziu que as alianças eram trocas de privilégios, como escalas de deveres e até mesmo melhores posições em atividades.

A equipe de Ares se aliou com todo o resto: Dionísio, uma dupla de garotos baixos que pareciam na verdade atletas, com bochechas rechonchudas e rosadas como as do Sr. D.; Deméter, três garotos bronzeados de cabelos castanhos e uma garota esguia parecida com eles; Hefesto, um pequeno grupo de garotos altos e corpulentos com a pele escura, que poderiam se tornar ameaças; e Afrodite, meninos e meninas aparentemente inofensivos, que fariam de tudo para na verdade estarem se admirando no espelho de seus chalés.

– Silêncio – Quíron berrou, batendo o casco no mármore. – Conhecem as regras. A floresta inteira é válida; o riacho é o limite. As bandeiras devem estar visíveis de modo destacado e só serão permitidos dois guardas. Os prisioneiros não podem ser amarrados e mortos, apenas desarmados. Itens mágicos são permitidos, armem-se!

O centauro levantou o braço e subitamente mesas de madeira foram cobertas por incontáveis tipos de equipamentos: armaduras, escudos cobertos de couro recobertos por metal, espadas de bronze, capacetes, lanças, foices, e tudo mais.

Maslow se apressou para pegar uma espada e um escudo. A espada não era nem leve nem pesada, mas o escudo parecia uma prancha de snowboard e pesava para ele cerca de um bilhão de quilos. O garoto até imaginou que poderia sair deslizando com ele por aí, mas sabia que não era capaz disso. Tinha certeza de que tropeçaria no próprio equipamento.

Ele percebeu que seu capacete tinha um penacho de crina azul na superfície superior, assim como todos os seus aliados. O time inimigo tinha plumas de crina vermelha, e os observavam com desdém. Angélica se colocou na frente de todos e gritou:

– Equipe azul, avante!

Todos começaram a correr para o lado sul, e Maslow demorou uns dois segundos para perceber que tinha que segui-los. Quase tropeçou pelo peso do escudo e tentou levantá-lo na altura do tórax, o que o fez com muito esforço.

– Aí! – gritou ele para Angélica.

Ela ignorou.

– Qual é o plano? – Ele gritou mais alto.

– Só te digo uma coisa – Angélica respondeu em um tom suficientemente alto para se tornar ameaçador – Cuidado com o Aaron e aquela lança dele. É um item mágico, não apenas uma arma. Não é porque você deu aquele chute mal executado nas costas dele que ele não é perigoso. Não há com o que se preocupar, garoto, vamos recuperar a bandeira deles. Rupert, já sabe o que deve fazer?

– Sei lá, é patrulha de alguma coisa, não?! – respondeu Rupert.

– Patrulha de fronteira! – bradou Angélica, revirando seus olhos azuis. – Você tem que ficar próximo do riacho e manter os vermelhos longe, Rupert. Agora, deixa comigo. Vou deixar a bandeira em um lugar decente. – Angélica arrancou a bandeira das mãos dos irmãos e desapareceu pelas árvores, deixando Maslow e Rupert na poeira.

– Então tá – murmurou Rupert, dando de ombros.

A tarde estava quente. A floresta estava um pouco escurecida pela proximidade dos pinheiros. Maslow havia sido designado por uma filha de Atena a ficar próximo de um monte da fronteira da base azul, e não podia estar se sentindo mais idiota com aquele capacete maior que sua cabeça. A espada de bronze começara a pesar mais que uma bola de boliche, e seu escudo nem se falava.

Mas ali era um bom lugar. Seria quase impossível alguém atacá-lo.

Porém, Aaron poderia focá-lo; isso começou apenas pelo fato de morar no chalé de Rupert. Por que será que existia tanto ódio entre eles? Mas isso não importava. Ele estava praticamente escondido, e sua única tarefa seria manter o time vermelho longe dali. Sabia que Rupert se viraria sozinho. Ele era ágil e forte, portanto ajudaria apenas se pedissem.

Em um som distante, uma trombeta de caramujo soou pelas árvores. Dava para ouvir no mesmo segundo berros e espadas se brandindo, pessoas lutando, passos de corridas. Conseguiu ver um brilho fluorescente um pouco distante iluminando o rosto de Angélica. Ela estava lutando com um dos filhos de Hefesto. O brilho vinha de sua faca. Seu item mágico. Ela apenas deslizou por baixo das pernas do garoto e deu uma facada na sua panturrilha, arrancando uma maça-estrela da mão dele como se fizesse isso o tempo todo. Jogou a maça longe e desapareceu pela mata outra vez.

Um pouco depois, Maslow ouviu um som que fez os cabelos de sua nuca se arrepiarem. Era o som de folhas se mexendo. Um grupo de cinco garotos corpulentos se apressou da vegetação próxima a Maslow e um deles era Aaron, segurando sua lança comprida. Percebeu que a ponta de bronze estava vermelho-alaranjada como carvão em brasa. Estava em chamas. Em chamas como seus olhos.

– Acabem com esse garoto! – comandou Aaron. Dois deles se aproximaram dele com suas espadas, mas quando Maslow aspirou o ar da floresta e sentiu o cheiro da terra em baixo deles, começou a se sentir capaz de derrotá-los. Os seus equipamentos se tornaram bem mais leves. Um deles tentou golpear seu peito, mas desviou como se tivesse visto a cena em câmera lenta. O outro golpeou perto do seu rosto quase no mesmo momento, e Maslow bloqueou o ataque com o escudo. Como se não fosse ele ali, fincou a espada na coxa do mais próximo e saiu correndo, desarmado. Apenas com o escudo. Seus pés pareciam flashes enquanto tocavam a terra.

Mas foi atingido na panturrilha.

A dor era tão imensa que sua carne queimava. A lança de Aaron estava cravada na sua panturrilha, e a dor não poderia ser maior. O garoto se aproximou e estalou seus dedos, se ajoelhando perto do rosto de Maslow em um sorriso sarcástico.

– Parece que os papéis se inverteram, não é? – murmurou Aaron. Maslow gemia e gritava, sentindo o sangue morno escorrer da fenda na perna. De seus olhos, por mais que segurasse, saíam lágrimas sem parar. – Sim, perder a dignidade dói. Mas agora verão que eu me vingo de verdade. Não costumo apanhar e levar isso em vão. Principalmente quando os alvos da minha vingança são aqueles amigos de Rupert.

– Pra que... – dizia Maslow, ofegante. Não conseguia respirar direito, a dor era insuportável. Estava perdendo muito sangue, e agora perdera também seu escudo. – Pra que você pune os amigos de Rupert e não resolve... não resolve tudo diretamente com ele? Isso é... isso é medo?

Aaron não teve tempo de responder. Rupert, a garota da bota de plumas e um garoto que Maslow não conhecia surgiram da mata. Aaron foi atingido pela adaga veloz de Rupert bem no ombro, e a garota já se apressou em dar um chute na coxa sangrando do garoto que Maslow feriu com a espada. Aaron deitou no chão e agonizou um pouco antes de arrancar a adaga do ombro.

– Isso mesmo, Aaron – disse Rupert. – Resolva comigo.