Child of Nature

5 Aaron apanha – de novo


A cena era teatral.

Aaron e Rupert estavam parados um na frente do outro, com os punhos cerrados e sem parar de se encararem. O clima de ódio podia ser sentido no ar, como se fosse um aroma que Maslow não conhecia. Os olhos de Aaron agora pareciam, como nunca, estar em chamas. Arrancou sua lança da panturrilha de Maslow com tanta rapidez que a dor não foi tão intensa; foi na verdade um alívio para o garoto.

Mas aquela lança flamejante não era páreo para seus olhos. Contudo não eram tão ameaçadores quando se olhasse para suas mãos, trêmulas.

Era medo.

Mesmo com medo, o alto e esguio Aaron avançou contra Rupert. Sua lança coberta de sangue pegou ainda mais fogo quando suas sobrancelhas se arquearam em ira, quase se encostando aos seus cílios curtos. Rupert deu um giro e desviou com facilidade, pegando sua adaga acessória da bainha e arranhando um corte nas costas desprotegidas de Aaron.

– Argh! – bradou Aaron, enquanto Maslow tentava se arrastar até o riacho; os limites da captura à bandeira.

A garota da bota de plumas finalmente mostrou para o que aqueles penachos serviam; eles se agitaram com agilidade, o que lembrava bem um par de asas de beija-flor. Foi aí que ela começou a planar no ar, segurando na mão direita uma faca comprida de ferro. Ela segurou um dos irmãos de Aaron pelo colarinho e foi subindo pelas árvores. O garoto se agitava nos seus braços, mas ela era forte e rápida o suficiente para contê-lo. Quando o soltou, não houve tempo de ele gritar. Seu corpo foi caindo até o riacho, onde sua espada de bronze se perdeu pelas águas.

– Jonah! – gritou ela para o garoto que Maslow não conhecia. Jonah percebeu por que ela gritara; o irmão de Aaron com uma fenda na coxa estava avançando com a espada na sua direção, mas não foi rápido o suficiente. Foi necessário um soco-gancho na coxa para derrubá-lo. Só restava Aaron e mais um dos seus irmãos. Foi aí que a garota da bota mágica foi ajudar Maslow. Ela o segurou pelas mãos e foi planando até Quíron; era possível ver muitos campistas lutando entre as árvores e, lá longe, o centauro tratando de alguns pequenos cortes e dores musculares.

Maslow e a garota pousaram na cabine médica de Quíron; a dor na panturrilha do garoto se tornara duplamente maior, como se sua carne estivesse mesmo pegando fogo – devia ser esse o efeito do item mágico de Aaron.

Mas Maslow não teve tempo de ver o que iria acontecer. Seus olhos se fecharam com peso e tudo pareceu girar, como se um tornado tivesse o pego e o feito se revirar pelos pinheiros. Sua panturrilha parou de doer, porque ele estava desacordado, tudo se tornou escuro.

Quando acordou, estava deitado na ala hospitalar, provavelmente na Casa Grande. A garota da bota voadora estava escorada na parede, e Maslow conseguiu perceber que estava ao lado de Jonah, deitado, com vários cortes profundos nos braços e nas pernas. Estava com esparadrapos amarrados cuidadosamente nos seus ferimentos. Jonah gemia de dor como um porco ao abate. Era nítido o exagero no seu tom de voz.

– Vai ficar tudo bem, Jonah – disse a garota, revirando os olhos amendoados. Da bancada do garoto deitado, apanhou algumas moedinhas e guardou no próprio bolso, mas Maslow nem ligou, apenas queria saber qual era a deles. – Deixa de frescura, logo você estará bem.

– Não vai estar nada bem, Celine! – exclamou Jonah, aos berros. Suas pernas se remexiam por baixo dos lençóis. – Eles vão ter que amputar os meus braços e as minhas pernas, eu tenho certeza! Nunca mais vou poder andar e nem bater carteiras...!

– Cala a boca, idiota – Celine deu um tabefe barulhento no rosto de Jonah, e Maslow não conseguiu conter uma risada. Os dois olharam para o garoto, sérios, como se tivessem dito algo que não pretendiam. Celine retrocedeu alguns passos, colidindo com uma estante de ervas medicinais. Uma delas se desprendeu do suporte e foi caindo até o chão, mas Celine conseguiu pegá-la a tempo.

– Nós... nós não batemos carteira não! – disse Jonah, engolindo em seco. Celine encarou Maslow nos olhos e estava límpido o seu nervosismo. Umas gotículas quase invisíveis de suor escapavam das dobras de suas cabeleiras castanho-claro.

– Relaxa, eu não ligo pra esse tipo de coisa – respondeu Maslow em pausas. –, a não ser que seja a minha – e finalizou com outra risada. Celine e Jonah devolveram risadas sem-graça. Maslow sabia que eles eram filhos de Hermes, e como o centauro Quíron dissera, era o deus dos ladrões.

– A propósito, obrigado – disse Maslow –, por me levar até Quíron quando eu estava... machucado. E por terem ido me salvar o babaca do Aaron junto com Rupert.

– Não... não por isso – rebateu Celine, com a voz trêmula. – E a sua panturrilha, já está melhor?

Maslow tocou na panturrilha lentamente, estava um pouco dolorosa, mas sem dúvida bem melhor. Não havia mais uma fenda, não sangrava mais. Era apenas uma cicatriz grande e branca, contornada por tons de vermelho-claro.

– Sim – disse. – Bem melhor. Como ela cicatrizou tão rápido?

– Fácil – ela continuou, olhando para Jonah ligeiramente. – Quíron e suas ervas. Ele é um médico e tanto. Qualquer herói é facilmente curado por ele, já vim aqui várias vezes quando ainda não fora reclamada, como você. Hoje em dia, como filha de Hermes, percebi que sou rápida e ágil o bastante para não me machucar, ainda mais com essas belezinhas – concluiu ela, apontando para suas botas.

Maslow apenas sorriu em silêncio, um pouco entristecido por ainda não ter sido reclamado.

– Será que eu já posso andar? – perguntou o garoto, mais para si mesmo do que para Celine e Jonah. Maslow se sentou na borda da cama e pousou seus pés descalços no chão o mais lento que podia, para não dar-lhe um choque de dor instantâneo. Quando se colocou em pé, sentiu algumas leves, mas dolorosas, pontadas de dor nas costas do seu joelho, que logo se esvaiu quando começou a andar.


Mais tarde, Maslow foi caminhar pelo campo, como se acostumou a fazer todas as tardes. O dia, como sempre, estava perfeito. A luz do sol quente batia sobre o rosto bronzeado de Maslow, que o fazia se sentir muito melhor. O sol já estava se pondo, e por isso alguns campistas já começaram a entrar nos seus chalés, mas o garoto preferiu ficar lá fora, observando a paisagem reconfortante do acampamento. No lago, Maslow pôde ver um grupo de náiades conversando, e uma delas era Nyalia, com seus cabelos loiros ondulados. Ela virou o rosto lentamente para Maslow e sorriu, mas não saiu de onde estava.

O campo de morangos apareceu no seu campo de visão, e a curiosidade do garoto apitou.

Preciso explorar este lugar, pensou ele, e logo resolveu que iria até lá pela trilha da floresta de pinheiros, para, além de conhecer a plantação de morangos, observar melhor o acampamento. Pela trilha, tinham várias clareiras, já escurecidas pelo pôr do sol; na maior parte das clareiras, tinham várias estruturas e equipamentos, como bonecos, alvos para arco-e-flecha e até mesmo uma casa que era, na verdade, o Arsenal, mas o garoto não quis entrar ali.

Que engraçado – Maslow ouviu uma foz feminina, um pouco irritada, por trás de todas aquelas árvores. Uma trilha secundária se alargava até lá, era uma clareira um pouco escondida, um lugar perfeito para um esconderijo. O garoto foi se aproximando da entrada e, quando viu de quem era aquela voz feminina, seu coração pulou ao peito.

Era Angélica.

Presa pelos braços do inconfundível Aaron, com um dos olhos roxos – provavelmente levara um soco bem dado de Rupert –, Angélica se debatia para escapar. Ele aproximou seu rosto do dela para beijá-la, mas a garota desviou, comprimindo seus lábios com tanta força que ficaram brancos.

Me solta, seu babaca – bradou ela, tentando se desvencilhar.

Tenho que fazer alguma coisa, pensou Maslow, com as mãos trêmulas. Mas ele não podia fazer nada, não agora; não depois de Aaron ter feito aquilo com ele. Estava desesperado, não sabia ao certo o que fazer. Depois de alguns agonizantes segundos, conseguiu pensar em algo.

Iria pedir ajuda para sua mãe! – isso parecia mais heroico na sua cabeça.

– Mãe, me ajude – sussurrou ele, pousando os dedos com força sobre sua testa. – Me ajude a acabar com ele, me reclame como seu filho. Deixe-me saber qual é a minha descendência. Eu... eu preciso. Preciso que você me ajude nisso... eu gosto dessa garota. Não posso deixá-la qu...

Um trovão ensurdecedor foi ouvido segundos depois de um raio se materializar no céu sem nuvens e, no exato meio da clareira, sua linha de luz não era branca; era um verde cegante, que bateu contra a grama e produziu uma enorme cratera que, ao invés de pegar fogo, estava infestada de raízes.

Depois do trovão e do relâmpago, Aaron e Angélica olharam diretamente para a cratera, desesperados. Com a deixa, Angélica deu um chute na barriga de Aaron para jogá-lo na cratera, mas falhou. E, antes de ela dar um segundo chute, Maslow se agilizou até o meio da clareira.

Todos os três foram arremessados para longe por uma força invisível. Entretanto, Aaron foi agarrado pelo aglomerado de raízes de pinheiro e, no topo da cabeça de Maslow, um tipo de holograma verde-esmeralda brilhante apareceu, girando lentamente. Era uma foice e uma cornucópia.

Ele foi reclamado.