Child of Nature
14 Angélica e o herói
Notas iniciais

A floresta se escureceu lentamente, o que atenuou bastante a visão de Maslow do perímetro. Era como se toda a luz do sol que caía por aquele local tivesse sido sugada, e não demorou para que gritos de guerra fossem escutados por perto o suficiente para que fosse sentido o calor da batalha. Angélica gritou no momento em que o som de aço brandindo foi emitido em eco pelas árvores. Sua faca se acendeu no ombro da falsa-Melissa e foi voando para a mão destra da garota. Foi possível ver, no seu tornozelo, uma flecha dourada e faiscante. Jessica.
Maslow tentou ver alguma coisa e, com muita dificuldade, pôde enxergar a falsa-Melissa desaparecer pelos arbustos e um grande mutirão dos chalés de Ares, Apolo e... eram tantos que Maslow nem sabia. Eles se aproximavam com rapidez, gritando, os olhos cerrados em ameaça.
Angélica gemia enquanto o sangue escorria em ondas pelo seu tornozelo. Maslow, com seu altruísmo exagerado, já se aproximou da garota para auxiliá-la enquanto ela desmoronava no gramado descuidado da floresta. Ele nem estava ligando para os inimigos correndo em sua direção.
– Vamos, Angélica, vou te levar até Quíron, ele vai dar um jeito no seu tornozelo – berrou ele em meio do extremo pandemônio que os contornava. Angélica o lançou um olhar de preocupação, parecia achar que o garoto estava louco. A adrenalina não o percorria mais, a tentativa de transmitir conforto às pessoas ao seu redor o dominou de um modo que ele poderia atravessar toda aquela multidão sem que o tocassem.
– Que é? Vai me carregar no meio dessa loucura? – gritou ela, sarcasticamente.
– É exatamente o que eu vou fazer, Angélica – gritou Maslow de volta. Ele a carregou com os dois braços. Ela era mais leve do que ele pensava. Por isso ela vivia indo à atividade como infiltradora. Os passos de Maslow pelo gramado eram rápidos e ele praticamente se ofuscou entre os arbustos. Não se importou com Tess. Não se importou com Celine. Apenas com o fato altruísta de fazer com que Angélica fosse, de alguma forma, confortada. Tudo começou naquele dia em que ganhou um inimigo... e uma garota a quem gostar.
– Maslow! – gritou Angélica. Ele a ignorou. – Não precisa disso, sério! Te agradeço mesmo, mas a gente precisa proteger a Tess e a Celine e a nossa fronteira... ai! Que merda, Maslow, dá pra falar alguma coisa?
– Angélica, eu não quero te ver bancando a durona agora, está bem? – disse Maslow, irritado. Ela arregalou os olhos, brilhantes entre todo aquele breu da floresta. Ele fez uma longa pausa para que a admirasse, mas tentou disfarçá-la com uma bronca. – Você não ia conseguir proteger Tess e nem Celine sem que se machucasse mais. Você não é uma deusa. Talvez quase, mas não é...!
– Maslow... – disse Angélica. O timbre de sua voz não era mais cuidadosamente irritado. Era doce, calmo, muito diferente daquele tom impassível que costumava emitir. Maslow não parou nem um segundo de correr até Quíron. Já era possível ver a bunda de cavalo do centauro lá longe. – Obri... obrigada – murmurou, a palavra saiu com dificuldade.
– Como? – perguntou Maslow, com um sorriso de malícia no lábio.
– Você ouviu, seu idiota! – riu Angélica, com os olhos se enchendo de lágrimas afetuosas. O garoto abriu um sorriso mais uma vez. – Eu disse obrigada, está bem? Eu disse obrigada... por tudo isso.
– Não por isso, Srta. Mussain – falou Maslow, debochado.
– Você para, garoto!
Quando chegaram à pequena ala hospitalar improvisada de Quíron, Maslow colocou Angélica em uma das macas. Seus braços formigaram um pouco pelo tempo que a carregou, mas não se arrependeu do feito.
– Agora, eu vou voltar para ajudar Tess e Celine – disse ele.
– Adeus, ó herói – gritou Angélica, rindo, enquanto Maslow se distanciava dela. Não foi difícil de ouvir os gritos de guerra lá de longe. A verdadeira Melissa se aproximou de Maslow, correndo, e fizeram o trajeto juntos.
– O que está acontecendo? – perguntou ela. Seu tom soava como o de uma líder.
– Caímos em uma armadilha dos filhos de Afrodite – respondeu o garoto, sem retomar o fôlego entre as palavras. Não demorou a perceber que estava desesperado. – Uma delas se transformou em você e nos enganou. Angélica pôde descobrir o truque, mas depois disso apareceu um exército contra nós. Tive que levar Angélica até Quíron, porque foi atingida por uma flecha de Jessica bem no tornozelo, coitada...
– Meus deuses... – gritou a garota. – Tudo bem, precisamos manter a calma e ajudar as outras garotas. Tenho um jeito de emboscá-los assim como fizeram com vocês, até já enviei mais infiltradores para buscar a bandeira enquanto aqueles babacas sem criatividade lutam conosco.
Melissa arrancou uma longa espada de bronze da bainha castanha e a dupla foi correndo até a fronteira que estava sendo atacada. Ela gritava para todo o time azul para que a seguissem, exceto uma parte da patrulha da fronteira, para evitar mais emboscadas.
– Por aqui – disse ela, em um tom próximo a deu um grito. Eles contornaram as clareiras e puderam ver os vultos dos campistas vermelhos passando por eles. – Vamos nos separar em dois grupos. Quinze para a linha da batalha, cinco para tirarem Celine e Tess daquela loucura.
Ela dividiu os grupos tão rapidamente que parecia fazer isso todos os dias do ano. Ela era uma líder e tanto, mas, para Maslow, não era nada além de uma pessoa a admirar, como era acostumado a ficar admirado por suas professoras mais inteligentes. Era bem diferente do que sentia por Angélica. Contudo, não era hora de pensar nisso.
Maslow e Melissa estavam na linha da batalha. Ele não conseguiu prestar muita atenção em quem salvaria Celine e sua irmã, Tess, daquele tumulto, portanto apenas seguiu Melissa e ativou o seu cordão-foice.
Um filho de Atena que foi escolhido para salvar Tess e Celine teve a ordem de emprestar seu escudo para Maslow. Maslow entendeu que isso seria necessário e não contestou a escolha de Melissa, porque pôde enxergar muitas armas afiadas e longas o suficiente para que fosse necessária uma proteção reforçada.
– Atacar! – gritou Melissa, tão alto que o som doce de sua voz, agora mortífera como a de uma sereia, ecoasse por toda a floresta. Foram gritos e passos, muitos campistas azuis sendo desarmados e feridos, assim como os vermelhos. Porém, o time vermelho era muito mais forte que o azul. Ares, Hefesto, os ataques a distância de Apolo... Maslow estava tonto, confuso, sem reação.
Uma espada em chamas passou logo ao lado do seu tórax, e teve um tempo mínimo de conseguir desviar para a direita. A pele escura do filho de Hefesto que tentara atacá-lo apenas reforçava o pavor que transmitiam seus olhos negros como besouros.
Assobie, disse uma voz sussurrante na cabeça de Maslow. Como se cantasse por ajuda.
Não negou a ajuda da voz. Ele assobiou uma canção tranquila que costumava ouvir no lago de família de seu pai. Os pássaros costumavam cantá-la quando ele a assobiava, mas o garoto não se intrigava. A ingenuidade o fazia esquecer que os pássaros eram... irracionais. O som agudo de seu assobio ecoou pela floresta de modo que todos os campistas fossem obrigados a largar suas armas e fechar os ouvidos. O garoto arregalou os olhos. Aquilo fora ele?
Porém, não era só isso. Rosephyll, a dríade da roseira, e um batalhão de outras dríades invadiram o campo de batalha e arranharam o time vermelho com suas enormes unhas amadeiradas. Se aquilo estava nas regras ele não sabia, mas não estava nem se importando. Ele tinha poder. Tinha a bênção de sua própria mãe.
Ele acabou de mobilizar um exército inteiro com um assobio.
Mais tarde, Maslow estava rodeado por grande parte do time azul. Iniciaram-se rumores de que o time azul havia roubado porque tiveram a ajuda de dríades, mas Quíron, que sempre é justo, não demorou a anunciar o time azul como vitorioso. Ainda por cima, os infiltradores que Melissa enviou de última hora conseguiram capturar a bandeira sem dificuldades.
Angélica se aproximou do grupo apenas para falar com Maslow. Ela mancava muito pouco. O seu tornozelo estava enfaixado e ela disse que estava bem melhor depois de tomar uma ambrosia feita por Quíron.
Os campistas não demoraram a perceber que estavam sendo inconvenientes. Eles deixaram Angélica e Maslow a sós e os dois conversaram durante todo o resto da noite, até serem chamados para a cantoria na fogueira.
– Já souberam da última? – Aaron exclamou durante a cantoria na fogueira. Ele estava quase mumificado por faixas sangrentas. Parecia que tinha um vício em se meter em encrencas. Seus olhos se estreitaram depois de ninguém responder, mesmo que o encarassem em silêncio. – Pelo visto, não sabem nem da penúltima... bem. O garoto-planta e Angélica estão tendo um caso! Que bonito, não é? – Ele encarou Maslow com ódio e deu um sorriso sarcástico para Angélica, que ficou tão vermelha que não podia falar. Foi rápido para se iniciar um burburinho.
– Qual é o teu problema, Aaron? – perguntou Maslow, se levantando do lado de Angélica. Ela mantinha a cabeça baixa e o garoto se aproximava de Aaron. Passos pesados, lentos, o ódio espumava por sua saliva. Entretanto, algo aconteceu: Angélica segurou o punho de Maslow com força para que ele não se desvencilhasse. Ele virou seu rosto para ela, a qual sussurrou:
– Não vale o seu tempo.
– Olhem só para ele! – disse Aaron, rindo. – Tem uma garota para protegê-lo.
Angélica revirou os olhos e arrancou sua faca do apoio na coxa. Seus olhos azuis se enfureceram e suas sobrancelhas negras quase se grudaram aos cílios, o seu olhar parecia idêntico ao de uma juíza prestes a dar sua sentença.
– Está confirmado – ela sussurrou. Porém, seu sussurro era muito mais alto do que sussurros comuns. Era como se cinco vozes sussurrassem. – Aaron tem problema. E esse vício em brigar tem que ser sentenciado de alguma forma – Ela finalizou com uma risada congelante. Sua voz ficava mais baixa a cada palavra. Os seus olhos eram vingativos.
Aaron parecia assustado.
– Cessem, heróis – Quíron apareceu entre os arbustos, carregando um instrumento esquisito. Sua expressão impassível, bem diferente da de Angélica, analisava o trio. – Vocês não conseguem ficar um segundo sem brigar?
– Foi esse... acéfalo desse Aaron que começou – resmungou Angélica.
– Foram eles! – gritou Aaron.
– Foi Aaron, senhor – disse Maslow.
Quíron bateu o casco no chão. Todos se calaram, desde o trio até o burburinho insistente. O centauro não precisou de palavras para expressar o que estava pensando, bastava observar os seus olhos cansados.
Maslow queria muito que esse novo boato de Aaron fosse real.
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