Child of Nature
15 Noticiado

Maslow derrubou vários pratos da cozinha no chão. Alguns racharam, outros quebraram. O som cortante da porcelana sendo partida ecoou por todo o lado. O rosto pálido do garoto se avermelhou muito quando seus meio-irmãos e os filhos de Hermes o aplaudiram em ironia. Ele se agachou para catar os cacos em um bocejo. Não demorou para que Rupert e Tess se mobilizassem de seus afazeres para auxiliá-lo. O garoto agradeceu os dois com um sorriso.
Estava perecendo de sono. Passara grande parte da noite na praia — a qual gostou muito. Nunca tinha estado em uma praia antes — conversando com Angélica. Por sorte, as harpias do toque de recolher estavam no cativeiro. Parecia uma ajudinha de Quíron para que passasse um tempo a sós com Angélica. Se fosse, não podia estar mais agradecido ao centauro.
– Você e a Angélica estão mesmo namorando? – perguntou Tess de repente. Ela deu um sorriso tão largo que os brincos nas suas orelhas balançaram. Maslow ficou mais vermelho ainda. Catou os cacos em silêncio e quando reparou que a pausa seria exageradamente longa, disse:
– Não, não. Não estamos namorando! – respondeu Maslow, desesperado. Sua voz não soou nada firme. Apenas... estridente. – Foi tudo... foi tudo, infelizmente, uma historinha chula do Aaron. Quer dizer, chula não, eu queria que fosse real.
Rupert e Tess se entreolharam.
– Será que podemos contar? – Rupert sussurrou.
– Não sei, acho que não – disse Tess, esboçando outro sorriso largo e duradouro depois da frase. Seus olhos castanhos brilharam de modo simultâneo a voltar a falar. – Angélica disse que é segredo... mas quem liga para regras?
Maslow não fazia ideia se eles tinham alguma noção de que ele estava os ouvindo perfeitamente. Finalmente, Rupert concordou com a cabeça em um dos seus sorrisos preguiçosos de atrevimento e Tess olhou para Maslow com sua expressão clássica de irmã mais velha.
– Bem, eu sou uma das confidentes da Angélica já faz um bom tempo – começou Tess, soberbamente. Isso lhe parecia familiar. – Rupert é um dos melhores amigos desde o princípio. Isso deixa... é... óbvio que ela confia tudo a nós. Acho que irei direto ao ponto. A Angélica, bem... ela... ela me contou que está... bem, como posso dizer isso?
– Aonde você quer chegar? – Maslow sorriu, sem graça, estreitando os olhos para a irmã.
– Ela tá afim de você, cara! – disse Rupert, impaciente. Tess o empurrou com o ombro, catando, com a ponta dos dedos, o último caco de porcelana. Maslow endireitou a postura e entrou em um profundo estado de choque. Angélica estava afim dele. Angélica estava afim dele. Esse fato martelava na sua cabeça de um jeito tão agradável que queria permanecer nesse limbo quase infinito de pensamentos por toda a eternidade.
– Você tá bem? – perguntou Tess, levantando do chão. Maslow caiu na real e concordou com a cabeça em um movimento microscópico mais do que rapidamente. Ela franziu a testa e arrumou o cabelo. – Bem, agora que você sabe que ela tá afim de você, não ache que você pode agir como um babaca. Isso o tornará parecido com o Aaron e você sabe que a última coisa que ela quer é um cara como ele.
– Tá bom, tá bom. Vamos parar com o "assunto-Crepúsculo" e vá secar os pratos, Aharkov – disse Rupert, bagunçando os cabelos loiros do garoto. – Agora vê se toma cuidado para não quebrá-los novamente.
Demorou algumas horas para Maslow descobrir que Rupert havia o saqueado dois dracmas de ouro.
Mais tarde, no horário do almoço, Angélica veio se sentar com Maslow na mesa de Deméter, falando sobre como estava ansiosa para o luau que iria acontecer naquela noite. Tess os analisava de longe, fazendo gestos que ele identificava como "Siga em frente" e "Vai que você consegue, irmãozinho!". Isso tornou a conversa bem desconfortável.
– Angélica Mussain dizendo que se sente animada com alguma coisa? – Maslow arregalou os olhos ironicamente e não segurou uma gargalhada. – Meus deuses... vai chover. E olha que nem chove no Acampamento Meio-Sangue.
– Que engraçado! – Angélica deu um tapinha de leve na nuca de Maslow.
– Ei, isso é uma evolução! – alarmou-se Maslow, como se tivesse descoberto um novo continente ou algo parecido. Angélica o encarou por alguns segundos e olhou em volta, procurando algo supostamente interessante.
– O quê? – disse Angélica, confusa.
– Você, Mussain... você me estapeava com mais força – respondeu Maslow, sorrindo. Angélica não respondeu nada, apenas abriu um sorriso sarcástico e, segundos mais tarde, afundou um tapa no rosto do garoto — dessa vez bem mais robusto e dolente que o anterior.
– Prontinho! – exclamou Angélica. Maslow passou os dedos de leve pela bochecha quase em carne viva, não contendo um sorriso de admiração. – Não subestime a minha força e a minha falta de delicadeza, Aharkov. Sou mais mortífera do que pareço! – E finalizou com uma risada maligna forçada.
A instrução de esgrima foi, basicamente, a melhor que Maslow já chegara a participar. Primeiro porque a panelinha de Aaron não estava presente, segundo porque Maslow e Angélica duelaram e ela ganhou dele de lavada, mas foi bom passar mais tempo com ela. Terceiro porque Tess não ficou os analisando de longe. Muito pelo contrário, foi Maslow que a analisou de longe. Ela falou com um filho de Apolo durante a aula inteira, e ele não podia ter outra reação além de ficar morrendo de ciúme da irmã. Talvez, para ele, a terceira opção tenha sido tão boa quanto ruim.
Por isso, depois de serem liberados para sair da arena, Maslow foi abordar a irmã com uma bronca.
– Quem é aquele cara? – perguntou ele, furioso. Ela suspirou em paixão e rodopiou pelo campo com os braços abertos. Aquilo lembrava muito um pião... ou simplesmente uma idiota. O garoto não conseguiu conter uma risada, mas abafou com uma cara séria tão forçada quanto a risada maligna de Angélica.
– Paul – respondeu Tess, admirada. – Você acredita que ele é francês? O sotaque dele é tipo, tudo! Ele toca violão, flauta, harpa, lira e mais um monte de instrumentos dos quais nunca ouvi falar. Estou a-p-a-i-x-o-n-a-d-a! A propósito, irmãozinho, como tá com a Angélica?
Maslow sorriu de repente.
– Nem precisa responder – disse ela. – Ih, o assunto tá chegando, aja naturalmente.
O coração de Maslow deu um salto quando viu Angélica se aproximando. Ele realmente não sabia o que fazer e, por isso, fingiu amarrar os cadarços. Tess e Angélica conversaram durante trinta segundos sobre coisas das quais Maslow não conhecia nada e, por isso, tentou se afastar.
– Parado aí! – Angélica colocou o braço na frente do peito de Maslow, estreitando os olhos para ele como uma policial maligna. Maslow deu um sorriso torto. Depois de uns segundos, o sorriso no rosto de Angélica se desfez. – Preciso falar com você.
Tess e Maslow se entreolharam e ele não sabia bem o que responder. Somente assentiu com o rosto e seguiu Angélica até a cautelosa sombra de uma árvore. Ela suspirou uma vez. Suspirou duas vezes. Ameaçou falar. Ameaçou falar de novo. E mais uma vez. Isso se repetiu até Maslow perder sua paciência — que de longe era curta.
– Quando quiser, Angélica...
– Tá, tá! – disse ela. – A questão é que Quíron me contou que a filha de Despina que anda vivendo na vilania, Monisi, foi avistada pelos patrulheiros do acampamento na noite anterior. Não pude fazer nada além de expor a você. Eu estou um pouco assustada... Monisi era minha amiga... mas, sabe, o jeito que a descreveram... os boatos que correm... – Algumas lágrimas brotaram na parte de baixo dos olhos de Angélica, mas não chegaram a cair.
Maslow não teve outra reação além de envolver seus braços em torno de Angélica para transmitir sua habitual abnegação. O calor de seus corpos — mesmo que as peles separadas por algumas camadas de roupas — era para ambos mais que renovador.
– Eu não sei o que irá acontecer, Maslow – disse a garota. Seus olhos azuis como cristal, de aparência intangível e misteriosa, encararam os dele como se soubesse de todos os seus segredos mais íntimos, o que foi muito, muito assustador. – Pela primeira vez... pela primeira vez uma maldita pessoa passou pelo meu detector de mentiras sem que eu previsse seus movimentos. Monisi é imprevisível. É imprevisível como um felino.
– Ela precisa de um abraço, isso sim – disse Maslow, franzindo a testa.
– Nem tudo se resolve com carinho, Maslow – retrucou Angélica, tênue como um elefante. – Não vivemos no mundo dos pôneis e dos unicórnios. – Ela não estava brincando. De longe estava. Apesar disso, Maslow não conseguiu segurar uma gargalhada. Angélica quase conteve um sorrisinho, mas não foi párea à aparência burlesca de sua frase.
"De qualquer jeito... temos que tomar cuidado", finalizou.
Mais tarde, quando o sol começou a se pôr e a lua estava a tomar seu lugar nos céus, Maslow e seus irmãos estavam se preparando para o luau que o chalé de Afrodite estava a organizar. Para a festa, ouviu Maslow, seriam convidadas as caçadoras de Ártemis. Se ele sabia quem elas eram? Não mesmo.
– E aí, Maslow, está animado para arrancar umas beijocas da Angélica? – perguntou Tess, imitando beijinhos em um amigo imaginário enquanto se maquiava na frente do espelho. Maslow revirou os olhos e se virou para abrir o sorriso que não pôde conter. – Sabe o que o Paul me disse? Todo o chalé de Apolo vai fazer um showzinho com direito a palco e tudo. E o mais estranho: não vão precisar de caixa de som! O que será que vão fazer?
– Acho que instrumentos nas mãos dos filhos de Apolo são bem diferentes às mãos alheias – disse Jena, uma das meio-irmãs de Maslow. Tess concordou com a cabeça e se calou, passando o colar de flores que fora distribuído para todos do acampamento em volta do próprio pescoço.
Maslow colocou o colar de flores no pescoço e esperou que os meio-irmãos terminassem a arrumação para que os acompanhasse até a praia. Tinha grandes expectativas pela festa. Talvez porque, vasculhando lá no fundo da sua mente, aquela era a primeira festa de verdade que ele já chegara a ir — com pessoas de sua idade, bebidas e música —, tirando as festas de aniversário, na infância, que alguns colegas realizavam.
– Então, vamos? – disse Tess para um Maslow distraído na confortável poltrona xadrez. Ele chegou a levar um pequeno (ou grande) susto com a irmã Jena, que estava com uma maquiagem púrpura muito forte. A qual com toda a certeza escondia qualquer sinal de acne que resolvesse aparecer. Ele concordou com a cabeça e foram caminhando até a praia. Era visível uma iluminação diferente vinda de lá longe.
– Isso vai ser demais! – exclamou Jena, encarando as luzes dançantes.
Quando chegaram, Maslow viu um cenário incrível e inusitado — pelo menos para ele.
Tinham três grandes quiosques. Dois distribuíam comidas, o outro distribuía bebidas. O palco era enfeitado por várias luzinhas de festa e uma mesa estava recheada por óculos de festa, gravatas e mais um milhão de coisas divertidas e bizarras. A areia estava infestada de confetes, próximo do mar tinham pranchas e jet-skis. Nos dois cantos da festa, tinham milhares de lanternas flutuantes apagadas e, bem no centro, as chamas vastas de uma fogueira dançavam incessantemente.
Contudo, só uma coisa chamou a atenção de Maslow de verdade.
Angélica.
Como ela estava linda.
Aqueles cabelos negros ondulados que caíam tão graciosamente pelo seu rosto davam um contraste arrebatador aos seus olhos. Aos seus incríveis olhos. Tão azuis naquela noite de lua cheia. Mais azuis que o mar. Mais belos que o mar. Mais intensos que a lua. Mais intensos que a lua em contraste ao mar. Aquilo era possível?
Ah, para Angélica era...
Fale com o autor