A semana finalmente passou e o sábado chegou. O ensaio seria só às quatro, então fiquei jogando Need For Speed a manhã inteira, almoçei e fui para a casa do Joe. A mãe dele me recebeu, eu contei sobre o "trabalho" e ela o despensou na hora, sem nem perguntar. E ainda me ofereceu biscoitos. Às duas e meia, mais ou menos, começamos a andar até a casa do Pete.


– Você disse pra sua mãe que tava suspenso, né?


– Bem...


– Joseph Mark Trohman, que coisa feia.


– Blé.


– Ai, você acha que eles vão gostar da minha música?


– Claro. E mesmo se não, duvido que vão nos tirar agora que você está com o Wentz.


– Isso... Isso não tem nada a ver — Corei e puxei a aba do boné pra baixo — E, porque você nunca chama ele pelo nome?


– Sei lá... Ai, sabe o Andy?


– Sei, cara, sei.


– Ele tocou no show do Burning Empires mês passado. E do Misery Signals — Os olhos dele brilharam e ele começou a fazer esse negócio de ficar balançando os braços sem parar — Ele conhece os caras! Ele é tipo o Josh Freese!


– Faz um favor: Fica quieto, Joe...


– Mas cara!


– Sério, cala a boca.


Joe finalmente ficou quieto e continuamos a andar até a casa do Pete. Não era tão longe, mas ficava no sul de Glenview, em um dos bairros mais barra-pesada. A cada vez que virámos uma esquina, Joe começava a rezar baixinho. Uma vez, um cara que mais parecia a versão black do Arnold Schwarzenegger no auge começou a andar na mesma direção que a gente e nós começamos a correr como se alguém quisesse nos matar. Acho que deixei meu fígado em algum lugar daquela rua.

Chegamos no endereço por volta de umas três horas. A casa era branca, dois andares, e tinha um pequeno jardim cheio de rosas. Toquei a campanhia e Pete nos atendeu. Ele vestia uma camisa preta sem estampa, bermuda e chinelos.


– E ai?


– O-oi — Joe estava com o rosto todo vermelho e suava. Eu não deveria estar diferente — Estamos atrasados?


– Não. Na verdade, faltam dez minutos pras quatro... Entrem.


– Valeu.


Pete nos levou direto para o porão, onde Andy já estava sentado na frente da sua bateria, tocando. O queixo do Joe foi ao chão. Ele parou de tocar e cumprimentou a gente com um aceno. Pete saiu da sala para pegar os instrumentos e nós começamos a conversar. Mais ou menos...


– Então... Você e o Pete, hein?


– É...


– Ai — Joe cutucou Andy, mas ele não parou de olhar pra mim — Você tocou pro Burning Empires no mês passado, né?


– É, os caras são amigos meus...


– Legal. Tipo, eu comprei o ep novo deles. É você tocando?


– Nas duas primeiras sim.


– Ai gente, me ajuda aqui! — Pete gritou logo acima de nós e Joe abriu a porta. Andy e eu levamos todas as caixas para dentro, ligamos tudo e Pete entregou uma guitarra para mim e uma pro Joe.


– Patrick, Andy disse que você tinha uma música...


– Ah! — É, eu tinha uma música. Metade dela... Tá, uns dois quartos dela. Mas ainda era alguma coisa. Tirei o pequeno pedaço de papel do bolso e entreguei para ele. Ele leu tudo e sorriu.


– Que é?


– Nada. É boa.


– Sério? E-eu fiz um riff pra ela e eu acho que ia ficar legal... Sabe?


– Sei, pode me mostrar?


Sentei no chão e peguei a guitarra. Não era um riff muito longo, então o repeti algumas vezes. Quando comecei a pegar o ritmo, Joe se sentou do meu lado e começou a tocar, um tom acima do meu. No final, Pete nos aplaudiu e Andy sorriu.


– Bravo!


– Eu tenho uma ideia pra bateria — Andy voltou a sentar-se na frente da bateria — Me passa ai a letra.


– Acho que podemos começar direto com a letra — Pete entregou o pedaço de papel para Andy e voltou a nos encarar, os braços cruzados — O que acham?


– Legal.


– Pode cantar o primeiro verso pra gente, Patrick? Pra ver como vai ficar.


– Tá... — Pete se sentou na chão com a gente e eu comecei a cantar. Eu tinha começado a escrever essa música e eu nunca tinha pensado muito no vocal. Não que eu cantasse mal, era só que eu não sabia direito encaixar essa parte com o resto da música. Terminei o primeiro verso e puxei a aba do boné mais pra cima. Pete sorria.


– Uau — Andy disse, e eu não posso afirmar em quantos tons de vermelho meu rosto deve ter ficado — Ah, e eu achei a batida perfeita. Olhem só.


Ficamos mais umas boas duas horas trabalhando naquela música. Andy e eu terminamos a batida e Pete ainda estava meio travado na parte do baixo. Desistimos disso e decidimos deixá-lo meio cru, por enquanto. Andy disse que tinha que ir na casa de alguém e foi embora. Meia hora depois, a mãe do Joe ligou.


– Então, vamos Rick?


– Bom...


– Fica mais um pouco — Pete foi até a porta conosco e segurou a minha mão. Joe ficou meio boquiaberto, mais por ter que andar sozinho, à noite, no bairro mais perigoso da cidade, do que pela nossa cena. Ele acabou concordando e foi embora.


Assim que Joe virou a esquina, Pete me puxou para dentro e fechou a porta. Ele me colocou contra a parede e me beijou. O gosto da língua dele na minha era delicioso.


– Meus pais não estão em casa — Ele sussurou no meu ouvido e todo o meu tremeu — Vamos subir?


– T-tudo bem...


Ele pegou a minha mão e começamos a subir as escadas. Chegamos no segundo andar e entramos no quarto dele, a última porta do corredor do lado esquerdo. O quarto não era muito grande: Tinha uma cama de solteiro, um armário de madeira e uma pilha de CD's no canto; Todas as paredes eram cobertas por posteres e mais posteres. Sentei na cama e ele se juntou a mim. Ficamos nos encarando por alguns segundos, até que ele quebrou o silêncio.


– Hm, quer jogar alguma coisa?


– O que você tem?


– GTA, Need For Speed, Fifa Soccer... Essas coisas.


– Nhé, tô legal...


– A gente podia dar uns amassos então... — Ele se aproximou de mim e me beijou outra vez. Tentei dizer alguma coisa, mas ele já estava em cima de mim, as mãos apertando os meus braços. A pressão era forte, mas não desconfortável.


O beijo terminou, mas não saímos da posição. Ficamos um tempo olhando um para o outro sem dizer nada. As mãos dele continuavam nos meus braços e eu já pensava nas marcas que aquilo iria deixar. Meu coração estava mais acelerado do que quando eu e Joe corremos até a casa dele e eu sentia o suor escorrendo do topo da minha cabeça.


– Tá tarde — Ele quebrou o silêncio mais uma vez.


– É...


– Quer que eu te leve pra casa?


– T-tudo bem — Um sorriso se formou no rosto dele e ele me beijou mais uma vez. Ele saiu de cima de mim e foi em direção ao armário no lado oposto do quarto, abrindo-o e pegando uma camiseta do The Clash roxa e trocando pela que estava usando. Eu já o tinha visto sem camisa várias vezes, mas até agora não tinha percebido o círculo desenhado na parte de baixo de suas costas. Ele percebeu que eu olhava e pigarreou. Corei e virei o rosto.


– Eu fiz há algumas semanas. Gostou?


– O que é?


– Sei lá — Ele voltou a se sentar comigo na cama e roubou meu boné, colocando-o na própria cabeça — O cara estava meio bêbado, eu estava meio bêbado... Nem lembro do que eu queria realmente fazer. Vamos?


– Claro.
Saímos da casa dele e pegamos um ônibus até o centro. Pete e eu ficamos conversando sobre coisas da banda e assuntos aleatórios até chegarmos a minha rua. A luz da cozinha estava acessa, então pressumi que meus pais tinham chegado. O que eu estranhei foi o carro de William, que não estava em lugar algum.

Me despedi de Pete e entrei. Assim que fechei a porta novamente, ouvi risos vindos da cozinha. Larguei minha coisas no sofá da sala e voltei ao corredor, os risos aumentando. Bati na porta algumas — Muitas — vezes e Lawrence abriu, a camisa azul suja de molho, criando um tom meio roxo.


– Oi — Ele abriu a porta apenas o necessário para colocar a cabeça para fora, me impossibilitando de ver dentro da cozinha.


– Quem está ai?


– Ninguém. Onde você estava mesmo?


– Casa do Pete, ensaio da banda. O que fez com a sua camisa?


– Ah, eu estou fazendo o jantar. Meu pai e a sua mãe foram a um restaurante — Ele grifou bem as palavras meu e sua, o que me irritou um pouco.


– Saco. Posso entrar?


– Não! Espera na sala!


– Lawrence, quem está ai e o que você está fazendo?!


– Aff, calem a boca. Estou tentando cozinhar aqui — Alguém disse de dentro da cozinha e Lawrence fechou a porta. Ele voltou alguns minutos com uma toalha e me arrastou até a sala.


– Você trouxe o seu namorado... Eu quero conhecê-lo.


– Você vai, tá? Ele vai jantar aqui. Só não entra na cozinha não... Por favor.


– Ele vai... Hm, dormir aqui?


- Não. Vamos mudar de assunto: Como foi o ensaio?


– Ah, nós concluímos, mais ou menos, uma das músicas que eu tinha escrito. E nós vamos a um festival no início do verão.


– Já? Você não começaram, tipo, hoje?


– É, mas... Olha, temos tempo — Meu estômago fez um barulho estranho e nós dois rimos — Vamos mudar de assunto: Quando vai sair esse rango?