Acordei bem tarde no domingo. Lawrence e eu ficamos até as três da manhã no quarto dele, conversando sobre coisas aleatórias, e quando eu durmo depois da meia-noite, não existe a menor chance de eu acordar antes das onze.

Desci as escadas ainda de pijama e dei de cara com Scott, sentado no sofá. Ele vestia uma camiseta gola v azul e jeans bem apertados e tinha o controle remoto na mão. Ele sorriu ao me ver, mas minha cabeça ainda estava desligada pra qualquer tipo de reação.

- Quando você chegou aqui?

- Faz uns minutos. Lawrence e eu vamos fazer compras.

- Fazer... Hm?

- Fazer c-o-m-p-r-a-s. Em que série você está mesmo?

- Pra quê? Temos comida em casa — Respirei fundo e me sentei com ele. Na tela, um homem tentava pular de um prédio e uma mulher chorava.

- Ele, hm, ele não te disse?

- Disse o que?

- Nós... Lawrence vai morar comigo em Chicago. Pensei que ele tinha te falado.

Meu queixo foi ao chão. Mudança?! Como assim? Nós estávamos nos dando tão bem...

- Acho que ele não falou, né?

- Q-quando vocês vão?

- Ele disse que precisa falar com o pai primeiro. Mas sei que isso não vai rolar.

Scott se levantou do sofá e subiu as escadas. Fiquei ali encarando a tv ligada, mil pensamentos passando pela minha cabeça. Depois de algum tempo, fiquei com fome e comi uma caixa de cereal inteira com coca-cola. Dane-se a dieta.

Lawrence chegou uma hora e meia depois. Ele passou por mim mais de seis vezes e não disse nada. Ele sabia que eu sabia. Os dois saíram e eu voltei para o meu quarto para trocar de roupa. Coloquei um casaco, uma camiseta antiga do Mika, um jeans e peguei meu celular.

- E ai, cara?

- Tá preso? Quer dar uma volta?

- Nhé. Aonde nós vamos?

- Sei lá. Eu só quero sair de casa um pouco.

- Então, por que não liga pro Pete?

- Porque eu quero sair com você — Na verdade, Joe era o primeiro número na minha agenda, depois do da minha mãe — Quer ou não?

- Já tô chegando ai.


Joe chegou junto com Lawrence e Scott. Passamos direto por eles e eu senti que ele ficou chateado. Azar dele.

Paramos na garagem e peguei minha bicicleta, já que Joe estava com a da irmã dele. Saímos da minha rua e rodamos o bairro algumas — Muitas — vezes. Ainda eram duas da tarde quando paramos em um parque, no centro. Quase não se via ninguém e dava para ouvir o barulho dos pássaros claramente. O sol ainda brilhava forte, o que me fez tirar o casaco. Joe usava apenas uma bermuda preta e chinelos e mesmo assim suava um pouco.

Sentamos à sombra de uma grande árvore e eu contei pra ele sobre a mudança. Como ele não conhecia Scott, tive que retroceder toda a história para que ele entendesse.

- Você devia estar feliz por ele.

- Eu... Eu tô. Só queria que ele ficasse aqui.

- Chicago não é tão longe assim.

- Não interessa.

- Au.

- Estávamos finalmente agindo como irmãos de verdade... Não é justo.

- Está sendo egoísta.

- Você podia ficar do meu lado de vez em quando, não acha?

- Eu fico do seu lado sempre. Só estou dizendo que isso não é grande coisa pra você ficar reclamando.

- Vamos mudar de assunto... Você não contou, né?

- Nem vou contar.

- E o que vai fazer a semana toda?

- Andy e eu vamos na matinê do These Words e no show do With Knives na terça e... Hm, sexta tem maratona de Star Wars na FOX. Vou assistir na casa do Josh. Hm, acho que vou ter que dar um jeito no resto.

- Você está completamente apaixonado pelo Andy, né?

- Cala a boca. O cara é legal. É meio esquisitão, com aquele papo do mundo acabando e coisa e tal, mas ele é maneiro.

- Sei.

Ficamos sentados lá por mais uma hora e eu decidi voltar pra casa. Joe disse que iria dar uma passada na locadora há três quadras dali para alugar um filme, pra mais tarde.

Cheguei em casa mais cedo do que eu imaginava. Faltavam seis minutos para as cinco e meus pais ainda não tinham voltado. Scott ainda estava lá e colocava caixas dentro do carro que parecia mais caro que a nossa casa. Lawrence estava sentado na escada.

- E ai?

- Qual é, Rick? — Scott largou a caixa e levantou a mão na minha direção. Bati por educação.

- Aonde você foi?

- No centro.

- Legal.

- Vocês são um porre — Ele voltou a carregar a caixar até o porta-malas do carro. Quando voltou, sentou-se com Lawrence. Não falamos nada por algum tempo. Lawrence nem olhava pra mim.

- Ai — Scott cortou o silêncio — você pode visitar a agente a hora que quiser.

- Valeu.

- Vou pegar as outras caixas...Scott entrou em casa e fechou a porta. Minhas pernas começaram a doer e eu me sentei no chão mesmo. Lawrence finalmente olhou pra mim, e eu vi que ele não queria realmente ir embora.

- Desculpa.

- Tudo bem.

- Não, é sério. Não queria deixar você sozinho. Não agora... Mas, eu não aguento mais ficar aqui. Não dá.

- William vai surtar.

- Por uns dias, talvez. Mas vai ficar tudo bem.

- Hm...- Eu prometo que venho te visitar... E-e... Quando é o seu show mesmo?

- Hm... Er, só no verão. No Rock It em Millwaukee.

- Estarei lá.

- Obrigado... Irmão.

- Irmão.

- Que momento lindo. Uma pena termos que ir embora, tipo, agora — Scott Pilgrim, meu inimigo número um... — Vem Lawrence.

Os dois foram embora e eu entrei em casa. Guardei o casaco e coloquei o pijama de novo. Eu não iria sair mesmo. Liguei pro Joe e desmarquei o filme; Ele ficou meio emo mas aceitou. Depois, liguei para Pete. Ficamos muito tempo conversando e isso até me fez esquecer um pouco o Lawrence. Ele me chamou pra sair e eu aceitei — Lógico.

Quando olhei para o relógio, já eram seis e meia. Desci as escadas e não vi ninguém. Abri a cortina da janela da sala e lá estava o carro do William, mal estacionado na porta de casa. Voltei para o quarto e tranquei a porta; Liguei o rádio no máximo para não ouvir o que viria por ai.