Chiaroscuro

3 Nobre Veneno


Notas iniciais
Olá cavaleiros e amazonas, estão prontos para elevar seus cosmos, incendiar suas vontades, adentrarem na batalha por Athena (ou Hades, vai saber, tem quem ame uma treva)? Sejam bem-vindos a mais um capítulo desta nostálgica e deliciosa saga, e primeiramente quero pedir desculpas pela demora em postar este terceiro capítulo, eu e a Lu estamos num corre-corre tremendo de fim de ano entre trabalho, família e claro, nossos próprios projetos literários que se estendem além de Chiaroscuro, mas não podíamos encerrar 2018 sem um capítulo para nossa menina aqui, e desde já agradeço a todos os amigos, parceiros, irmãos e queridos leitores por nos acompanharem, valeu demais ♥! Neste capítulo, já teremos momentos de pura tensão, além de um pequeno insight sobre El Cid de Capricórnio nas NFs. Então, vamos ao que interessa?

Monteriggioni, Siena

Itália

Século XVIII

Uma dura realidade podia muito bem ser esquecida quando se tem a arte como refúgio. A dor era diluída como uma aquarela de vívidas cores, tão intensas que eram capazes de hipnotizar, prender qualquer atenção por vários minutos. Adotara um novo estilo de pintura, um mais real e detalhado, retratando com uma incomum perfeição a verdadeira dimensão, o mundo dos homens. Incomum? Para qualquer garoto de sua idade até poderia ser, mas não para ele, não para seu jeito de enxergar o mundo. Assim era Alone. Sempre foi.

Se antes já demonstrava um nível de excelência em seus rabiscos, agora estava a espantar o clérigo local com sua arte realista e angelical. Quem testemunhava suas criações, cogitava que sua alma de artista estava em festa, que sua vida estava muito próspera a ponto de encontrar uma paz que o permitisse criar aquelas obras com tanto vigor e amor. Porém não desconfiavam de que Alone estava a suprir sua carência do que propriamente harmonizar com sua arte.

Desde que Sísifo partira com Sasha, o menino se refugiava em suas pinturas para evitar ter de conviver e encarar as outras crianças e até mesmo Tenma, além de ter de reconhecer de que estava diante de uma dura realidade longe dela... De sua irmã... De sua parceira... De sua amada. Sasha fazia todas as dificuldades parecerem sonhos estando ao seu lado e agora que ela não estava mais ali... Ele sentia todo o peso real da vida no Esperanza. Um enorme vazio ocupou seu peito e qualquer alegria momentânea não era capaz de preencher seu coração, que cada vez mais se afundava dentro de si próprio em uma escura profundeza onde nem mesmo a luz do sol lhe banhava.

Em seu âmago, lutava para não sentir rancor pela Madre Beatrice, pois fora ela quem permitiu que o sagitariano levasse Sasha consigo. Fora ela de fato quem os separou, quem selou-o naquela claustrofóbica solidão. Por mais que Beatrice sempre tenha sido como uma mãe para ele, a lhe amar e proteger, amparar e cuidar, muitas vezes a se sacrificar para manter os três a salvo, Alone nutria um intenso ódio pelo fato dela não ter sido categórica, relutante, irredutível a liberar que aquele cavaleiro de ouro levasse seu amor embora. Um simples "não" e ela ainda estaria ali, junto consigo, dormindo abraçada e íntima dele. A noite em que dormiu com Sasha em seus braços, após a violácea ter cortado suas longas madeixas e se arrependido do ato, ainda ecoava em sua fervorosa mente.

Era tímido demais para admitir que sua irmã lhe despertava mais do que amor, lhe desabrochava desejos. Ao lado dela, era como se já tivesse encontrado seu lugar no mundo. Sem Sasha, voltara a ser um enegrecido nômade a perambular pelo mundo de incertezas onde a única verdade era sua arte. E Alone passava seus dias trancado em seu quarto, a pintar cada vez mais telas... Cada vez mais registros de sua alma em penumbra. Em uma manhã, estava absorto em seus esboços quando fora interrompido por Tenma, que o intimou, jogando em seu colo uma pequena caixa com linhas, anzóis, iscas e os surrados caniços de pesca.

— Tenma? O-o que significa isto? — Questionou sem compreender a atitude do amigo.

— Estou cansado de te ver preso dentro deste quarto Alone... — Ralhou Tenma, indignado. — Está um dia incrível lá fora e há muitos peixes bons a subirem pela correnteza do rio, perto da cachoeira onde nós fizemos estas... — Parou subitamente. Lembrou de que toda aquela tristeza de Alone era proveniente da partida de Sasha, a responsável por aquelas pulseiras de flores. A fitar o gracioso item em seu pulso, Tenma também se mostrou nostálgico e triste, mas encarava aquilo diferente de Alone, pois ele não aceitava estagnar diante das lamentações. — Bom... Não quero saber, vamos lá pescar um dos grandes para trazer para cá e animar nossos outros irmãos. Estou louco para que a Madre prepare um ensopado especial pra gente! Está pronto?

— Vá você, Tenma... — Recusou Alone, desanimado. — Preciso terminar estas pinturas até o anoitecer…

— Não vou dizer mais uma vez Alone, se você não vier comigo agora, vou pegar suas tintas para dar aos pequenos do orfanato. Tenho certeza que farão muita bagunça com elas, verdadeiras "obras de arte!” Vamos logo, estou faminto só de imaginar o futuro ensopado que nos aguarda!

— Por favor Tenma… — Murmurou acabrunhado.

— Alone... — Surgiu Beatrice à porta, séria e direta, a observar o loiro com um atento olhar. — Vá com seu irmão, vão brincar, aproveitar o sol, não quero mais vê-lo trancafiado aqui a manhã inteira... — Se aproximou cautelosa do menino, esboçando um sorriso. Sentia que Alone estava diferente com ela, menos amoroso, mal lhe dirigia a palavra e durante as refeições, pouco comia como se evitasse sua comida. Ela desconfiava de que o garoto a culpava pela partida da irmã, embora ainda não tivesse certeza sobre isto. Acariciou a cabeça de Alone, zelosa. Notou-o a desviar o olhar mais uma vez, a torcer o semblante para o outro lado como que por instinto. — Prepararei um bolo quentinho para esperar vocês... Espero que peguem muitos peixes…

Contrariado, Alone partiu com Tenma. Fora do Esperanza, o céu azul resplandecia vívido e poderoso, a clarear toda a vila com sua radiante imensidão e um quente e luminoso sol. Fazia pouco vento e o fervo central já era intenso, com muitos transeuntes e moradores nas ruas, o grande comércio urbano, carruagens e animais livres a trotarem por entre o povo e os inúmeros aromas oriundos daquela aglomeração. Animado, Tenma corria ávido e impaciente, abrindo caminho na multidão, com um largo sorriso enquanto esbarrava acidentalmente em pessoas e barracas. Alone se esforçava para acompanhá-lo, mas não tinha o mesmo preparo físico do amigo, ofegava em segundos e cansou rápido. Era típico de Tenma não esperar, aquele garoto era peralta ao extremo. Mesmo que estivesse a carregar os caniços e o material mais pesado e deixara para Alone apenas a caixa leve com as linhas e os itens pequenos, ainda sim o loiro não dava conta de alcançá-lo.

Uma ligeira e animada melodia de flautas e tambores ressoava ao ar livre, artistas circenses a executarem suas tradicionais pantomimas, onde a canção graciosa e rápida desenrolava uma cena de ação que atraía a atenção do público e chamou Alone por um momento, atraído pelos divertidos acordes das flautas. Olhou rapidamente para o grupo a interpretar seus papéis e, em sua distração, repentinamente colidiu com alguém. Caíra sentado, a derrubar sua caixa com o material de pesca ao chão, espalhando-o. Atordoado, Alone sacudiu a cabeça, dolorido enquanto fitava a quem esbarrou.

Um homem alto, forte, de madeixas bagunçadas e arrepiadas num tom azul-cobalto e negro, com alguns fios em seus olhos, de semblante sério e pouco amistoso e um olhar atento, vestido em um traje azul-escuro e formal, o típico redingote europeu masculino, elegante e sóbrio. Notou que o homem também o observava do alto, numa expressão indecifrável. Não demorou ao estranho lhe estender a mão para ajudá-lo a se levantar. Alone, apreensivo, relutou em aceitar, até que o homem se agachou para perto de si e com a outra mão, juntou paciente as linhas e anzóis sobre o chão, a devolver para Alone. Mesmo naquele gentil ato, a expressão carrancuda e compenetrada em seu rosto não mudara, evidenciando uma personalidade difícil de lidar. Atônito, Alone se desculpou, prezando pela boa educação recebida por Madre Beatrice, mesmo que estivesse a tratar com um desconhecido, reconhecera que foi ele a colidir com o transeunte.

— M-me perdoe, senhor! Foi sem querer, acho que me distraí... Desculpe-me pelo incômodo!

— Está tudo bem... — O rapaz falou, num tom calmo, despreocupado. Esboçou um pequeno sorriso. — Nesta época do ano, temos muito movimento nas cidades, é comum estes acidentes. Me chamo Kagaho, sou de muito longe, estou aqui a negócios... Como você se chama?

— Alone... — Respondeu o menino, duvidoso. Aquele homem não era comum de maneira alguma. Algo em si exalava uma caliginosa sensação, como se a atmosfera ao redor pesasse sobre as cabeças em plena presença dele. Diferente dos demais, parecia que tal figura agia como instinto, e não disfarçava estar forçando aquele dúbio sorriso. — E-eu preciso ir, obrigado por me ajudar!

— Você é um órfão da diocese local, estou certo? — Indagou Kagaho, subitamente, antes de Alone partir, surpreendendo-o. — Observei suas pinturas nos afrescos da capela pertencente ao seu orfanato, você é um grande artista, Alone. Tem a alma de um visionário. Sinto que possui um enorme potencial guardado em seu âmago, basta apenas aceitá-lo e liberar seu verdadeiro dom…

— Desculpe, mas realmente tenho de ir, somos proibidos de conversar com estranhos e…

— Aceita um presente? — Interrompeu Kagaho, a retirar de seu bolso interior da vestimenta um item. — Não sou um estranho... Pense em mim como um amigo e aceite este presente. — Desembrulhando do pequeno pacote, revelou um pequeno pincel de cerdas negras e um cabo longo e escuro, em tons azuis e brancos nas pontas. Havia um ínfimo emblema, quase imperceptível, mostrando a figura de uma harpa em uma das extremidades. — Este é um pincel especial que só ser utilizado no momento mais triste e solitário de sua vida. Ao colorir com ele, você irá obter novas texturas jamais conhecidas... Irá conhecer a verdadeira arte que o preencherá por completo até o fim de sua vida e então nunca mais saberá o que é dor…

— E-eu não posso aceitar…

— É apenas um pincel, criança... — Insistiu Kagaho, a lhe entregar o misterioso item. — Sei que deve possuir vários, mas sem dúvida este é muito especial e quando chegar o momento de usá-lo, saberá do que estou falando... Lembre-se, use-o apenas em sua hora mais negra, em seu instante mais terrível, e um novo mundo se abrirá para você!

— Mas do que o senhor está falando? — Indagou Alone, a fitar o pincel negro entre os dedos. O objeto era de fato muito belo, diferente de todos que já usou. Era tão leve quanto uma pluma. As cerdas enegrecidas aparentavam exibir um brilho entre o núcleo de seus fios. O item enchia seu curioso e maravilhado olhar.

— Até breve, Alone... — Despediu-se Kagaho, sem estender o diálogo. Temia afastar ou assustar o garoto, e já que se incumbira para tal missão, a executaria de modo que não deixasse pormenores, satisfazendo muito mais do que a rainha Pandora... Satisfazendo a si próprio, pois não permitia erros, nem mesmo os seus. Aquele trunfo, a obscura e melhor carta no baralho negro dos espectros dependia dele também. — Cuide-se bem...

Atônito, Alone fitou o estranho homem se afastar por entre a multidão, desaparecendo em meio ao alvoroço. Voltou sua atenção ao pincel em suas mãos. Engoliu em seco. Afinal... Que enigmático objeto era aquele que o prendia tanto? Era como visualizar um encanto, observar o surreal, avistar um efêmero milagre que apesar de durar segundos, segura-o por longos minutos. As macias cerdas deslizavam suaves e gentis por sua palma, mostrando ser um material maleável. Não demorou a sua concentração ser quebrada pelo barulhento Tenma, gritando ao seu encontro.

— O que você está fazendo aí!? Por que está parado como uma estátua? Vamos logo Alone, não temos o dia todo!!!

— Er... Claro... — Balbuciou Alone, confuso. Preocupado pelo amigo possivelmente notar o presente em suas mãos, escondeu rapidamente o pincel em seu bolso. Decidiu que aquele seria seu segredo. Algo somente dele e de mais ninguém, algo que nem mesmo Deus o tiraria... Assim como fizera com Sasha.

— O que você tem aí? — Questionou Tenma, ao perceber que o loiro escondera algo em suas vestes.

— Nada! Será que agora podemos caminhar normalmente como duas pessoas comuns, seu maluco?

❀❀❀❀❀❀❀❀❀❀❀

Santuário da Grécia

Templo de Athena

Tudo era um sonho. Esta era a melhor resolução para se compreender o que sua confusa e triste mente lutava para entender. Abriu lentamente os olhos, ainda sonolenta, a bocejar de um longo descanso após aqueles terríveis dias de viagem ao lado de Sísifo, onde dormira mal em uma rústica e truculenta carruagem. Esperou que seu subconsciente lhe revelasse que toda aquela efêmera aventura fosse uma brincadeira, uma peça de um humorado Trickster, das histórias que Madre Beatrice lhe contava quando era mais nova. Mas ao se deparar com o imenso e luxuoso quarto ao seu redor, notou que finalmente estava em outra realidade.

Um grande e emoldurado espelho, adornado em detalhes dourados, refletia a intensa luz matinal sobre o cômodo, revelando belas pinturas nas paredes, uma penteadeira recheada de jóias e caixas com adornos e perfumes, um móvel em madeira clássica a exibir inúmeras peças de roupas e vários tecidos, além de uma porta mais afastada, a evidenciar um charmoso lavabo. Aquele lugar era o dobro do tamanho de seu antigo e rústico dormitório no Esperanza, onde dividia o complexo com outras cem crianças iguais a ela, pequenos seres esperançosos em um mundo desumano demais para se sonhar.

Deslumbrada, percebeu ao lado de sua cama, dormindo em uma poltrona, a bela moça que na noite anterior a fez ceder sob sua doçura e encanto, que suavizou toda a angústia e recusa em seu peito com uma delicada rosa e um gentil sorriso. Agasha repousava profunda, sossegada em seu tranquilo sono, provavelmente abatida por tê-la pajeado a noite inteira até o adormecer. Lembrou-se repentinamente da cena em que fora reverenciada com as prostrações dos servos e o emocionado mestre a lhe saudar. Apesar de assustada, teve um lampejo do sentimento de orgulho e saudade do velho Sage, como se no fundo ela compreendesse aquilo e por alguma razão misteriosa… Também o sentisse, mesmo desconhecendo tal atitude.

— Bom dia! — Reverenciou a jovem Agasha, despertando enquanto notou a curiosidade de Sasha para com o recinto. Embora a violácea não soubesse seu idioma, entendera o cumprimento e respondeu com um tímido sorriso.— Espero que tenha descansado de sua viagem. — A castanha levantou-se entre bocejos e caminhou até a menina, sentando-se ao seu lado. — Pobrezinha, tão jovem e já com o mundo sobre os ombros… — Correu a mão pelos cabelos lilases, observando a fragilidade da futura Athena.

O estômago de Sasha roncou sonoro, fazendo-a se encolher envergonhada. Mal tinha se alimentado durante a viagem, não tivera fome, somente angústia se revirava em sua barriga, dando nós. Mas agora descansada, sentia a necessidade de se alimentar, afinal nem tinha noção de quanto tempo estivera inconsciente. Agasha sorriu e correu para a porta a fim de anunciar aos servos que a menina já estava desperta e pedir que trouxessem o desjejum. Enquanto isso Sasha caminhou pelo quarto, curiosa e atenta, a examinar cada detalhe minuciosamente.

Os olhos verdes arregalaram-se quando avistaram uma pintura da antiga Athena, mesmo que fosse uma mulher de traços fortes e maduros a semelhança consigo era gigantesca. Como isso era possível? Sentiu um posar de mão em seu ombro e voltou sua atenção para a camponesa que parecia querer lhe dizer algo importante. A castanha colocou a outra mão sobre a pintura em seguida apontou para a menina, por conseguinte apontou-lhe a réplica da estátua de Athena, sobre um dos móveis. Mas a cabeça da pequena dava voltas e voltas sem aceitar. Fora escolhida por ser parecida com aquela moça que era uma espécie de princesa?

✰✰✰✰✰✰✰✰✰✰✰✰✰✰✰✰

Enquanto isso os servos do Santuário estavam alvoroçados, os responsáveis pela alimentação já haviam preparado uma farta bandeja com o café da manhã para Athena e sua companhia. Companhia aliás, que gerou muitos choros e reclamações por parte de uma das donzelas escolhidas para ser serva pessoal de Sasha.

— Não entendo porque foi pedido para aquela garota da aldeia acompanhar Athena? Não somos treinadas para isso há tanto tempo? — Labá queixou-se, sentada em uma cadeira, a degustar das uvas sobre a bancada da espaçosa cozinha. — Me senti ultrajada! Na verdade não sei porque aquela maltrapilha tem tanto prestígio com o Grande Mestre e os dourados. Nem possui tanta beleza, parece um bicho do mato!

— Pelo amor dos deuses, Labá! Para que tanto veneno? Agasha soube lidar com uma situação que o senhor Sísifo não tem muito jeito... — Ponderou a segunda garota a ser escolhida como serva pessoal da deusa; Galadriel.

— Mulheres! — Completou Labá, já começando a gargalhar e contagiando os presentes, que agitados vagavam de um lado a outro, atarefados.— Creio que Athena teve afinidades com a garota da aldeia por ser tão rústica quanto ela! — Verbalizou sem nenhum filtro e todos pararam seus afazeres, olhando incrédulos. — Por favor, não vamos negar os fatos! Todos esperavam alguém de postura altiva e que passasse poder, mas o senhor Sísifo trouxe uma coelhinha assustada. Como pensam que os aspirantes a cavaleiros irão reagir quando verem a deusa por quem devem lutar?

— Cale-se Labá. Não profane a imagem de nossa deusa dentro de seu santuário, ou eu mesma hei de reportar suas ações ao Grande Mestre.— Lissa era a terceira garota a ser escolhida para servir Athena, estava sentada absorta em seu bordado, não tinha se pronunciado até o momento e nem trocado risos entre os demais servos.

— Nossa deusa? Ainda não sabemos de fato. Por que Athena escolheria uma família miserável da Europa para dar a luz a seu receptáculo? Cosmo forte, até simples sacerdotisas de templos possuem! Esta menina parece não ter vocação alguma para liderar o santuário, é uma pobre coitada a cair aqui por acaso… Aposto um beijo do senhor Regulus que ela não durará uma semana!

A dama teve sua fala interrompida quando as uvas que tinha em mãos se tornaram tão geladas a ponto de ferir sua pele. A jovem de longos cabelos negros soltou as frutas e se levantou assustada, esfregando as mãos. Seu olhar mirou o batente da porta onde uma garotinha loira estava apoiada de braços cruzados.

— SEU DEMÔNIO DE GELO! Não sinto minhas mãos! Vamos ver o que seu mestre vai pensar sobre isso. Seu lugar é lá embaixo na casa de Aquário ou nas arenas fétidas! — Ralhou Labá, enfurecida.

— Ser pobre não significa ter menos valor! Athena deve ter escolhido alguém de coração nobre, mas você não sabe nada sobre nobreza. Da próxima vez congelo sua língua.— A pequena aspirante a amazona de Cisne foi enfática e afrontosa.

— Não vai ter próxima vez, monstro de neve! Vou reportar ao seu mestre agora mesmo! — Altiva a morena encara a menina de cabelos loiros.

— E vai dizer o que, Labá? — A imponente voz de Sísifo é ouvida no ambiente e os servos voltam ao trabalho, baixando as cabeças. — Que uma criança puniu por blasfemar contra nossa deusa?— O dourado colocou a mão sobre a cabeça da criança dando uma permissão muda para que ela saísse do local.— Creio que a virtude de Sasha supere qualquer aspecto físico ou social, ela é uma dama assim como vocês e damas são ensinadas a manter postura e discrição, Srta. Labá! Ela pode ser nossa futura salvadora, mas até lá é uma menina humilde e simples como vocês e devem tratá-la da mesma forma como gostariam de ser tratadas: Da melhor maneira possível. Onde está a Jovem Agasha?

— No quarto com a… Garota… — respondeu Labá, frustrada com o sermão do sagitariano.

Sísifo sorriu, aliviado. Se Agasha estava com Sasha, era um bom sinal. Lamentava internamente seu comportamento na noite anterior. Fora fraco e mudo diante da constrangedora situação da rebeldia de Sasha. Reflexivo, voltou para o templo, a recordar de sua viagem. A possibilidade de ter de enfrentar a birrenta menina, vencê-la e convencer a se deixar ser treinada, sem transtorná-la ainda mais, era mais assustadora do que batalhar contra espectros. Ele temia passar mais más impressões, não tinha experiência alguma com crianças e o fato de tê-la tirado de seus irmãos era o combustível para a indignação da pequena que o culpava.

Porém suas verdadeiras preocupações eram outras por hora. Sage ordenou que todos os dourados se reunissem no templo de Athena, à meia-noite, para o Anagennisi, o ritual de passagem em que todas as reencarnações da deusa devem suceder, um tradicional evento realizado desde a Guerra Santa do século 16 para reconhecer oficialmente que Athena está mais uma vez dentre seus cavaleiros. Shion, Hasgard, Aspros, Manigold, Regulus, Asmita, Dohko, Kardia, Dégel, El Cid e Albafica. Ele mesmo também a ser incumbido, o dourado cavaleiro da constelação de Sagitário. O Anagennisi era muito mais do que uma formal cerimônia… Era um recomeço para os sobreviventes guerreiros das batalhas anteriores. A nova Athena traria consigo a coragem e força, a renovadora fé de volta para seus cavaleiros, para o Grande Mestre e para o Santuário. Traria um novo espírito, uma brisa refrescante naqueles conturbados dias onde a onda negra dos espectros devastava a Europa e causava mais problemas para Sage e os dourados.

Acreditar em Athena… Fazer dela seu escudo… No momento era a maior expectativa de seus companheiros. Sísifo temia que tamanha responsabilidade cairia como uma montanha nos ombros da pequena. Se de fato a menina suportaria tal fardo, um compromisso maior do que qualquer cavaleiro sob sua proteção e serviço pode honrar. Receber Athena em seu corpo era receber o martelo dos deuses, a forma mais contundente e absoluta de justiça. O Sagitariano não queria duvidar do potencial da garota, mas no fundo a jovem Labá tinha razão, uma deusa fraca não seria capaz de inspirar seus cavaleiros e se Sasha não demonstrar estar à altura do cargo, a vulnerabilidade do Santuário estará exposta à Hades e seus espectros. O dourado engoliu em seco… Ele também era responsável por ela. Em sua aflita memória, a cena da separação de Alone e Sasha, o menino a vociferar de desespero enquanto sua irmã pranteava convulsiva, ainda lhe era uma pedra a pesar sobre sua consciência. De uma coisa ele podia certificar: As duas crianças eram novas demais para receberem Hades e Athena.

De repente, ouviu uma estridente explosão ao longe, sonora a ecoar pelo vale montanhoso. O ruído de rochas a deslizar e o leve tremor alarmou os cavaleiros de Prata responsáveis pela vigilância dos dormitórios ao norte do templo. Ligeiro, Sísifo que estava mais próximo dos prateados ordenou com um aceno de mãos para que não fossem até o local. Ele conhecia muito bem aquele som e o lugar de onde eclodiu. Uma espada solitária estava a retalhar rochas, aperfeiçoando o fio de sua lâmina. Curioso, encontrou uma brecha para escapar de seus receios, pediu para um dos servos lhe trazer Delphos e em seguida galopou em disparada para o norte do Santuário… Onde o cavaleiro de ouro da constelação de Capricórnio lecionava para seus pupilos.

♡♡♡♡♡♡♡♡♡♡♡♡♡♡

Nem mesmo o mais profundo dos desfiladeiros escapava da retalhação total da lâmina divina. Sobre ele, a enxurrada de rochedos desmoronava, abrindo uma enorme fissura no solo que ao tragar todas as pedras, aprofundava ainda mais sua obscura dimensão, a tornar num infindável buraco. Com apenas um balanço preciso e fulminante de sua Excalibur, o dourado partiu uma montanha ao meio, que consequentemente foi tragada para o abismo mais próximo e causando tremores entre a região rochosa. El Cid era assim. Direto, sem rodeios, objetivo e absoluto, frio como a sua mais especial e mortal técnica: A Espada Excalibur, capaz de cortar qualquer coisa.

O capricorniano de semblante sempre sério e muitas vezes indiferente, pouco comunicativo e em maior parte do tempo um observador, era perfeccionista ao extremo, dono de uma inabalável confiança e determinado a aperfeiçoar cada vez mais sua lâmina, obcecado e inquieto. El Cid muitas vezes afastava a seus subordinados e conhecidos pela sua teimosia excessiva em aprimorar sua técnica e seu gênio difícil e reservado, focado e desligado de outras coisas que o desviassem de sua missão como cavaleiro de ouro. Para ele, afiar seu cosmo e tornar seu braço numa das mais perfeitas armas de luta clássica era uma meta a ser batida… Nem que tivesse de morrer por isto.

Mas quem o conhecia de verdade, sabia que por debaixo de toda aquela carranca, havia um homem íntegro, zeloso, solidário e companheiro, sempre a proteger seus principais alunos Rusk, Tsubaki, Lacaille e Pakia, os quais o admiravam ardentemente e o seguiam de coração. Honravam seu mestre acima de tudo e embora El Cid visse isto como um sinal de respeito e adoração, ainda sim a maior lição que o cavaleiro de Capricórnio os ensinou foi de sempre crerem mais em si próprios e em seus respectivos potenciais. Naquela manhã estava a lecionar para os quatro aprendizes e Sísifo chegou a tempo de observar a aula de seu melhor amigo e estimado colega.

— Mestre El Cid, o senhor é demais! — Exclamou Tsubaki de Vela, boquiaberto com o tamanho poder devastador da Excalibur de seu professor. A enorme fumaça proveniente do desmoronamento se dissipou, revelando El Cid inexpressivo enquanto se dirigia aos seus alunos. Seu braço esquerdo, sua lâmina, estava embebida em seu dourado e faiscante cosmo, o qual emitia uma calorosa e propagadora energia. Os outros jovens o cercavam, fascinados, a questionar sobre a técnica de seu mestre.

— Ainda serei como o senhor, mestre! — Alarmou Rusk de Bússola, empolgado, a reverenciar El Cid respeitosamente.

— Não! — Exclamou o capricorniano, calmo e analítico, a encarar seus pupilos de frente. — Vocês serão melhores do que eu, em todos os quesitos, cada um com sua melhor qualidade e talento. Lembrem-se de que esta simples e inerte montanha não fora obstáculo algum para mim, pois ela estava estagnada e sem reação, porém ainda sim ela era um muro a dividir o real objetivo por debaixo de seu alicerce... —E ao estender sua mão, revelou diversos pedaços puros e cristalinos de diamantes brutos, alguns coloridos e raros. A revelação surpreendeu ainda mais os quatro estudantes e Sísifo que fitava tudo ao longe.— As melhores coisas só são obtidas com empenho e trabalho duro, sem esforço não há glória, não se conquista nada! Esta demonstração que fiz foi para que entendam que não se pode subestimar um oponente, não importa qual seja, jamais baixem sua guarda diante de um inimigo e estejam preparados para qualquer surpresa…— Mestre El Cid! — Chamou Pakia, disputando atenção com seus colegas, ansioso para falar.

— Temos chance de um dia nos tornarmos cavaleiros de ouro assim como o senhor e proteger Athena nas doze casas?

— Com muito esforço e dedicação garoto, poderão até superar os deuses! — Exclamou El Cid, a sentar sobre uma rocha para desmontar-se de sua armadura dourada, após cessar seu cosmo. — Mas como cavaleiros de prata, devem continuar a honrar seu serviço para com Athena... Nunca esqueçam disto! Estão dispensados! — Ao liberar os aprendizes, percebeu o amigo Sagitariano a lhe observar, encostado em uma árvore. Esboçou um imperceptível sorriso. Se El Cid sorrisse abertamente... Ou não era ele e sim uma ilusão... Ou estava pronto para cortar e dilacerar em batalha. A calma do espadachim retalhador era sempre uma incógnita até mesmo para Sísifo que o conhecia há anos. Seu companheiro de treino e cavalgadas pelas montanhas do Santuário.

— Você já sabia que debaixo desta montanha haviam estas pedras? — Questionou Sísifo, num leve tom zombeteiro para testar o humor do amigo.— Ou a destruiu apenas para uma completa exibição da sua técnica para seus fiéis alunos? Não desconfiava de que era convencido, meu amigo!

— Não fui eu a ser superado pelo próprio sobrinho, certo? — Devolveu El Cid, ríspido. Sísifo arregalou os olhos. Rindo alto, percebera que com o tempo o colega dourado estava a também refinar seu humor. — Estava nos assistindo há tempos?

— Praticamente acabei de chegar com o Delphos... — Afirmou Sísifo, a alisar a crina do belo equino. — Havia necessidade de arrasar com uma montanha? O tremor quase atingiu o dormitório dos Pratas ao norte do templo... Se o Grande Mestre souber destas suas "intensas" aulas…

— Lições que são passadas sem vigor logo são esquecidas!

— Para isto há o dom da memória... — Completou o sagitariano. — Vejo que seus alunos o veneram, correm boatos de que estão ansiosos para já investirem contra os espectros, ao nosso lado. Uma demonstração destas fará suas vontades arderem ainda mais a querer cometer tal loucura!

— São apenas garotos Sísifo... Sei que sua fé e devoção à nossa deusa o tornou descrente nos sonhos e também sei que está guardando remorso em seu peito por ter tirado aquela menina de seu lar... Mas lembre do que sentiu quando derrotou Rugonis de Peixes, lembre de Ilías e o caminho que ele deixou para você, lembre de Regulus que sempre esteve ao seu lado... Lembre do real significado de Athena ter voltado para casa… Que após esta noite, depois da cerimônia, seu coração encontre a resposta que procura! — Concluiu El Cid, a devolver sua armadura para a pesada urna dourada.

— Você… Estará conosco no Santuário… À meia-noite para receber Athena? — Indagou Sísifo, titubeante, a evitar falar sobre seus pesares. Sasha e Ilías de Leão, seu heróico e honrado irmão a quem conflitou durante muito tempo.

— Conte comigo, velho amigo! — Apoiou El Cid, a lhe estender a mão, em menção a um aperto amistoso. Sísifo apertou a mão do amigo, sorridente. O Capricorniano era bom em completar entrelinhas no mais perfeito silêncio. — Está pronto para cavalgarmos até os arredores de Star Hill?

₮₮₮₮₮₮₮₮₮

Em Algum Lugar da Áustria

Lago de Constança, Rio Reno, fronteira com Suíça.


Nem mesmo o ar frio e ininterrupto e a impiedosa neve era capaz de abafar as calorosas chamas. O cenário desolante de destruição e morte se espalhava até onde a vista podia alcançar. O mais tenro e cristalino gelo das petrificadas águas da nascente de Constança era tingido pelo esmaecido carmim do sangue que escorria para as margens. Pilhas de corpos jaziam pelo extenso vale enquanto poucos bravos resistiam ferozes, porém exaustos, determinados a deter a iminente ameaça que cairia sobre o Santuário. Elevando seus cosmos, os cavaleiros de Prata investiram pesado contra as forças negras de Hades, mas sem qualquer efeito duradouro, pois os espectros abatidos em batalha ressurgiam em outros locais da Europa ou ali mesmo, naquele exato momento em que lutavam nas geladas planícies de neve, às margens do Reno.

— HOMENS, NÃO DESISTAM! — Vociferou Vazquez de Cérbero, cavaleiro de prata a liderar seus companheiros contra o exército de Hades, numeroso e massivo. — ESTAMOS AQUI POR NOSSA DEUSA, ESTAMOS AQUI POR ATHENA!

—- Vazquez… — Balbuciou Theo de Auriga, ferido e exausto, lutando para se manter em pé diante da horda escura, a derrubar os Pratas com ferocidade e dominar as forças de Athena. — Temos de nos retirar, voltar para os navios, recuar por hora e voltar para o Santuário para reportar sobre o que está a acontecer aqui…

— Não, temos de continuar, impedir que estes malditos cheguem à Grécia, manter a resistência… Não é hora de desistir! MAÇA INFERNAL! — Vazquez lançou seu poderoso ataque contra os espectros próximos de seu alcance, com seu cosmo elevado, a disparar suas espinhentas maças de ferro que em uma espantosa velocidade, pareciam se multiplicar ao acertar vários alvos em pouco tempo. Um estrondo eclodiu e o massivo golpe do cavaleiro de Cérbero arrebatou muitos espectros em minutos, chamando a atenção de Aiacos de Garuda, um dos três juízes do inferno, que liderava seu contingente contra os pratas. O imponente guerreiro, trajado em sua reluzente e negra Sapuris, voltou-se para os últimos indômitos de Athena a resistirem aos incessantes ataques dos espectros sob seu comando.

— Vazquez! — Bradou Eusébio de Perseu, o cavaleiro de Prata detentor do temível escudo da górgona Medusa, capaz de petrificar qualquer adversário, bastando apenas o oponente avistar os olhos da face demoníaca sobre a proteção. -— Estão nos encurralando, estamos espremidos, logo serão muitos para minha górgona e meu cosmo darem conta de imobilizar! Precisamos recuar antes que mais aliados morram!

— NÃO PODEMOS RECUAR! — Gritou Vazquez, a esmagar mais espectros com seu voraz golpe. Visivelmente cansado, o cavaleiro de Cérbero olhou para Theo e Eusébio, numa furiosa expressão. — Que ao menos ganhemos algum tempo para que os Dourados cheguem até aqui, que nossa luta não seja em vão, que nosso sacrifício não seja em vão! Que nossos nomes e bravura ecoem pela eternidade, amigos! POR ATHENAAAAAAA!

A incrível motivação do líder, mesmo diante da irrefutável derrota e morte, inspirou os outros dois, que elevaram ainda mais seus cosmos, incentivados a romperem qualquer limite ou prudência e por sua deusa, levar quantos pudessem consigo, num último ato de bravura.

— POR ATHENAAAAA! — Vociferaram Theo de Auriga e Eusébio de Perseu, queimando cada traço de energia de seus explosivos cosmos. Ao lançar seus discos e petrificar ainda mais inimigos, os pratas estavam a ganhar espaço dentre a horda negra, num último esforço. Os outros cavaleiros de Prata já haviam caído... Apenas três valentes teimavam em resistir.

— Malditos tolos… — Zombou Giganto de Ciclope, espectro da estrela terrestre violenta, a gargalhar com a aflição dos últimos três a sobreviver. — É hora de saberem seus devidos lugares! Saiam da minha frente… — Afastou seus companheiros com brutalidade, a mirar os cavaleiros de Athena. — Curvem-se diante do nosso deus! PRESSÃO DO TÁRTARO!

Em um radiante cosmo enegrecido, uma descomunal ventania que deslocava tremendas cargas caliginosas de pura energia arrebatou instantaneamente os três prateados, arremessando-os com violência contra os rochedos mais altos e encerrando por vez o conflito… Com a vitória estrondosa dos Espectros. Cessando seu ataque, Giganto notou que seu senhor Aiacos se aproximava, analítico. Reverenciou o juiz, temeroso.

—Senhor Aiacos... Terminamos aqui! Esperamos por suas ordens para agirmos, estamos prontos para viajar até o Santuário!

— Ninguém irá a lugar algum... — Balbuciou Aiacos, reflexivo. Andou lentamente até os oponentes caídos, a observá-los com atenção, percebendo que um ainda restava, a sorver o ar com dificuldade e lutar para não ceder à morte que já lhe pesava o olhar. O juiz aproximou-se dele, calmo e indiferente à sua dor.

— Cavaleiro de Perseu... — Comentou o espectro, a lhe fitar nos olhos enquanto erguia-o pelo queixo. — Sua vontade de viver é mesmo enorme, certo?

— J-jamais chegarão... Ao templo de nossa deusa! — Sussurrou Eusébio, moribundo.

— Concordo com você... Nosso plano nunca foi invadir o Santuário de uma única vez... Temos nossas garantias. Creio que a pergunta que lhe fiz agora há pouco ainda esteja a ecoar em seu consciente... Vamos, diga-me!

— Por Athena, morrerei feliz! — Zombou Eusébio, a semicerrar os olhos. Sentia todos os membros de seu corpo a afrouxar e uma dormência lhe dominar.

— Antes disto... Não deseja revê-la uma última vez? — Questionou Aiacos, enigmático.

— O-o quê...?

Uma bela mulher surgira detrás do juiz. Trajada em um longo vestido negro, envolto em um corpete metálico, adornada em uma feminina e discreta armadura por debaixo de suas vestes e a ostentar um longo e escuro tridente em suas mãos, caminhou até Eusébio com um malicioso sorriso. Mesmo ao fim de sua vida, o cavaleiro percebera o volumoso cosmo que a circundava, intimidador, a lhe deixar estarrecido e aflito. Indefeso tanto a Aiacos quanto a ela, Eusébio cogitava que sofreria lentamente antes de partir para junto de Vazquez e Theo, seus companheiros de anos e que agora não passavam de corpos desfeitos entre a neve vermelha.

— Temos uma missão para você... — Anunciou Pandora, a lhe tocar com o tridente em sua cabeça, alarmando-o. — Você e seus amigos irão invadir o Anagennisi desta noite e matarão a nova Athena que será recepcionada pelo Santuário e o Grande Mestre! Faça isto pelo seu novo deus… Que a partir deste momento lhe concederá mais do que novamente a vida… Lhe concederá a imortalidade!

Um clarão em diversos tons púrpuros e negros eclodiu do tridente, irradiando uma intensa carga que emanava em ondas, banhando o corpo de Eusébio e lhe enclausurando numa espécie de círculo constituído de fogo fátuo, azul e ardente. Engolido pelas mortais chamas, o prateado agonizava durante o ritual de conversão, que aos poucos tingia sua armadura da constelação de Perseu em cores pretas e violáceas e seu tom de pele e cabelos também sofriam alterações. Aiacos e Pandora observavam silenciosos a transformação, surpreendendo os espectros que também fitavam assombrados. Lentamente, Eusébio tinha suas memórias roubadas, seu coração mudado, sua alma corrompida… Sua razão esquecida. Um pavoroso grito ecoou pelo local, estridente. Não demorou ao ciclo terminar.

As chamas se dissiparam num piscar de olhos. Um cosmo tenebroso e perturbador ergueu-se, como uma aura. Um novo cavaleiro renasceu. Um novo Eusébio. Um novo soldado. Agora a serviço de Pandora… E de Hades. Voltando para sua rainha, o espectro curvou-se, solícito e devotado.

— Sim... Minha Rainha! Traremos a cabeça da menina para a senhora!

Pandora sorriu, grata. Finalmente estava para agitar a calmaria do Santuário e enviar o primeiro sinal da iminente supremacia negra sobre seus inimigos. Novos tempos estavam prestes a estourar. A rainha logo voltaria a trazer aquele ao qual mais amava e suas serpentes esmagariam os braços e pernas daqueles que se pusessem em seu caminho. Seu nobre veneno fervia em ansiedade.

Porém, ao longe, era espionada por um cavaleiro que se mantinha oculto entre a floresta de pinheiros, a alguns metros de distância, a esconder seu cosmo e mascarar sua presença. Horrorizado com o que acabou de testemunhar, Tokusa de Hanuman partiu silencioso e preocupado.

— Mestre Hakurei precisa saber disto!

つづく

Notas finais
Pandora finalmente é revelada a exercer seu domínio negro, convertendo os aliados do Santuário e causando dissenção e futuros conflitos para nossos dourados. E logo mais haverá o Anagennisi, o ritual de passagem da reencarnação de Athena, e muitas emoções esperam por vocês, até o próximo capítulo! —-------------- Frio, reservado e sempre calado, El Cid é visto raramente a se exaltar e nada parece o incomodar, mas segundo Dohko de Libra, esta é a personalidade que uma lâmina deve possuir, "fria e afiada", e apesar de seu silêncio, é bastante querido por seus aprendizes, servos, colegas de batalha e pelo amigo Sísifo, a quem vê como um irmão. Dono de uma moral inabalável e de uma brava resistência, El Cid enfrentou sozinho aos deuses dos sonhos Icelos, Phantasos e Morpheus numa batalha para resgatar seu amigo sagitariano do Mukai, o mundo dos sonhos. Munido apenas de sua técnica mais potente, a Excalibur, mesmo após perder seu braço no combate, consegue derrotar Icelos e Phantasos e auxilia Tenma, Sasha e Sísifo a aniquilar a fusão dos três deuses, Oneiros. Em um derradeiro sacrifício, salvou Tenma de Oneiros, numa explosão para evitar a morte do cavaleiro de Pégaso. Mesmo alegando que sua Excalibur ainda estivesse incompleta, já era conhecido até pelos espectros de Hades e apesar de não possuir a total potência de sua técnica, Sísifo já o reconhecia como um dos mais poderosos cavaleiros de ouro de todos os tempos, capaz de retalhar até mesmo linhas dimensionais. Não apenas a Excalibur, mas outra técnica que também o define, a Pedra Saltitante, um poderoso chute de sua perna direita, concentrado por seu cosmo, capaz de destruir ou arremessar qualquer oponente. Seu nome é uma homenagem a um nobre Cavaleiro espanhol que viveu no século XI, Rodrigo Diaz de Bivar, que ficou conhecido como El Cid e Campeador. A tradução literal de El Cid é O Senhor. "Seu coração deve ser como uma espada, assim você não perderá. É um longo caminho, e esse caminho é construído com o valor de muitas vidas, nunca se esqueça... É assim, um caminho construído com muitas vidas" El Cid de Capricórnio ✰ Até mais, cavaleiros e amazonas! ✰