Chiaroscuro
4 Anagennisi
Notas iniciais
Santuário de Athena
Algum lugar da Grécia
Aturdida, não poderia haver palavra para melhor definir o estado em que a pequena Sasha se encontrava naquele momento. No geral, o dia tinha sido até agradável. O despertar fora intrigante, revelando um mundo novo, singular e desconhecido, lhe despertando curiosidade. O desjejum fora servido em sua alcova, onde ela ainda pôde desfrutar da adorável presença de Agasha, e mesmo que ambas não se entendessem por meio das palavras, devido a barreira do idioma, desenvolveram uma certa afinidade.
Mas as horas se passaram e logo após o almoço, Agasha precisou se despedir, ao que parece ela tinha muitos afazeres. As três moças que vieram lhe fazer companhia não eram simples como a castanha das rosas; esguias, elegantes, com penteados bem trabalhados, maquiagens acentuadas, fragrâncias sedutora aos sentidos, trajando finos tecidos. Desconfortável, Sasha se encolheu em sua cama, enquanto o trio vasculhava o closet, discutindo entre si, certamente qual daqueles trajes requintados iriam pedir que ela vestisse.
A violácea se encolheu ainda mais quando o local fora invadido por mais pessoas, que trouxeram uma quantidade exagerada de vestidos. Todos pareciam muito agitados e discordavam sobre tudo, o tempo todo. A situação ficou ainda mais incômoda quando uma das garotas a puxou pela mão, fazendo com que se levantasse, mesmo que fora gentilmente e o que se seguiu a deixou em chamas de constrangimento. Sem nenhum aviso, suas roupas simplórias foram retiradas de si, deixando-a... Nua diante de tantas desconhecidas! Fora guiada para as instalações de banho, existentes em conexão com os aposentos, depositada em uma enorme banheira, lavada, polida. Suas unhas foram cortadas, as orelhas bem esfregadas, não que ela não já o fizesse por hábitos de higiene que madre Beatrice sempre a ensinou, mas talvez estivesse mesmo um tanto desleixada devido aos duros dias de viagem.
O fato doloroso era que, ela sentiu-se violada em seu espaço pessoal, tratada como um objeto, uma boneca de pano velha precisando ser alvejada. Triste e horrorizada, notou desprezo e deboche por parte de poucas pessoas, mesmo que outras pareciam adorá-la como se cuidassem da imagem de uma santa esculpida em ouro. Contudo, ela não era uma estátua, uma santa, era apenas uma criança que não veio de uma cultura onde se despia naturalmente mesmo na frente de outras mulheres. Mesmo que lhe perfumasse a pele, lhe adornassem com jóias e a trajassem com o mais belo dos vestidos, para ela aquilo só poderia ser descrito como uma dolorosa agressão.
Quando preparada, apercebeu que a caracterizaram exatamente como a estátua daquela que ela julgava ser uma princesa. Estavam a prepará-la para algo como uma cerimônia, o que a deixou em desespero, pois sabia sobre relatos de meninas de sua idade que eram escolhidas por reis e nobres e obrigadas a se casar. Cogitar tal possibilidade a fez ser tomada de puro assombro e sua mente e coração, que já se encontravam confusos, imersos em dor e angústia explodiram de uma só vez. Enquanto as muitas servas, damas ou seja lá quem fossem, tentavam lhe explicar como se comportar, a menina cerrou os punhos e ecoou um grito agudo pelo local, empurrando mãos e braços que a cercavam, afastando, se esquivando das pessoas e disparando para fora do quarto, correndo sem rumo em meio ao ambiente desconhecido, enquanto as lágrimas banhavam-lhe a face.
Encontrava-se tão desamparada e desesperada que não percebeu sequer as expressões de choque que se desenhavam nas faces dos servos, deixados para trás. Aflitas, as mulheres responsáveis por preparar o receptáculo da deusa Athena para o Anagennisi, se bifurcaram pelos imensos corredores a fim de encontrar a pequena, exceto suas três damas pessoais que sentaram-se sobre o leito a analisar a situação.
— Se ninguém vai comentar, eu comento! — começou Labá, venenosa.
— Pelo amor dos deuses, Labá, não comece!— Galadriel repreendeu, começando a recolher os trajes sobre o leito e guardá-los.
— Mas eu avisei.— a morena não conseguiu conter o comentário, jogando as costas contra a cama, respirou fundo e iniciou uma acentuada crise de risos. — Oh pelos deuses! Vocês viram a expressão dela? Estava sendo banhada, perfumada, mas parecia que estava sendo torturada. Será que italianos não gostam de banho? — troçou, enquanto lacrimejava de tanto gargalhar.
— Limpa o canto da boca, Labá, o veneno está escorrendo... — Galadriel suspirou enquanto ajeitava seus cabelos castanhos, mirando o grande espelho da penteadeira da futura potestade.
— Bom, vou cumprir o papel para qual fomos treinadas. Procurarei a menina e tentarei acalmá-la e deixá-la o mais à vontade possível.— Lissa revirou os olhos para a cena que via no quarto, rumando para os corredores.
— Quer deixá-la à vontade? Então coloque-a no estábulo. — debochou a morena, seguida de mais uma acalorada crise de risos. Lissa ignorou a morena, enquanto Galadriel apenas balançou a cabeça negativamente estalando a língua no céu da boca, mas não gastou saliva com repreendas, não adiantaria.
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Desnorteada, Sasha perfazia corredores extensos, embrenhando-se por entre cortinas sedosas, subindo por longas escadarias, sem importar-se o quanto poderia se perder, afinal qualquer direção era melhor do que voltar para aquele antro de claustrofobia, para aqueles servos que nem sequer perguntavam por suas preferências, se estava gostando dos cuidados, se não queria escolher algo condizente à sua personalidade, enfim, se estava bem e feliz. Para Sasha, nada daquilo a satisfazia, pelo contrário, apenas aumentava o buraco em seu peito, um grande e sufocante vazio a lhe afogar, a sensação e gosto amargo de estar longe do orfanato, longe de Beatrice, Tenma, seus outros amigos e principalmente… De seu querido e frágil Alone.
Já não importava a direção para a qual fugia, tudo ali parecia um ínfimo comparado à tempestade de lembranças que a cegava, um desejo ardente de se agarrar ao passado e no subconsciente, ansiar para que tudo aquilo não passasse de um pesadelo, um longo sonho de uma noite mal dormida, para que na manhã seguinte o sol viesse a despertá-la e abrir os olhos para o quarto dividido com os outros, para o Esperanza e para seus irmãos. Preferia lutar pela sobrevivência em Monteriggioni do que ser forçada a subir em um pedestal de luxos daquela infindável prisão, onde mais parecia um brinquedo nas mãos daquelas pessoas. Subiu os degraus à sua frente e se deparou com um local completamente fora de tudo aquilo que já poderia ter passado por sua mente. A sala era escura como a noite e repleta de estrelas pelo teto, chão, paredes, era como se ela estivesse pisando no céu noturno.
Maravilhada e espantada, recuou alguns passos, não sabia dizer se aquilo era algum tipo de feitiçaria ou se sua mente estava lhe pregando alguma peça. Piscou algumas vezes e sentiu-se envolvida por uma energia acolhedora, convidativa, que parecia atraí-la para dentro. Suas pernas tomaram vida própria adentrando o local, andando sobre, sob e em meio às estrelas. Aquele local não poderia ser explicado. Despertou do que parecia ser um transe e mirou um objeto, um cajado, não um báculo? Sua mão se ergueu e as pontas dos dedos encostaram-se no objeto, uma carga forte de energia percorreu por todo seu corpo, os olhos verdes se tornaram opacos enquanto a menina sentia sua alma dividida em muitas, aquela mesma sensação de quando conheceu o Grande Mestre, uma nostalgia, angústia, culpa, dívida…
Soltando o objeto, que ecoou ao se colidir com o chão, a violácea prostrou-se de joelhos a prantear copiosamente, com as mãos na cabeça, como se de alguma forma, pudesse arrancar aquele mar de informações desconexas que recebera como um choque. Eram tantas dores, imensos dissabores que ela sentia-se fragmentada. Sua mente vagou para seu antigo lar, buscando as memórias de seus irmãos, em especial, seu doce irmão Alone.
Em meio a seu choro, sentiu-se envolvida em um terno abraço, apercebeu-se ser de alguém que aparentemente possuía a mesma idade que a dela, pela estatura, mas no momento não quis abrir os olhos, optou por chorar até sentir a calmaria tomar conta de si. Quando o coração se aquietou, os nervos abrandaram, enfim, a violácea se desvencilhou do abraço e abriu as orbes verdes, mirando a menina que se acercara de si. Soltando um instintivo gritinho ao fitar a máscara acinzentada que lhe cobria o rosto, em seguida se dando conta de sua grosseria, perante alguém que a acalentou.
— Mi dispiace, per favore! — retratou-se ruborizada.
— Ah, você é italiana? Sei falar um pouco do seu idioma. — a menina abriu as travas laterais de sua assustadora máscara, tirando-a e revelando uma graciosa face, cujos cabelos castanhos cor de mel o emoldurava, caindo-lhe ombros abaixo. — Meu nome é Sophie, aspirante a amazona de Andrômeda, não precisa se desculpar, essa máscara é mesmo assustadora quando vista à primeira vez. Estou ao seu dispor, senhorita Athena.
— Athena? Amazona de Andrômeda? Eu não entendo… Meu nome é Sasha, agradeço por ter me amparado. A verdade é que, não sei porque estou aqui, não entendo o que todos dizem e não gosto da forma como me tratam.
— Não sabe o porquê de estar aqui? O Sr. Sísifo não lhe explicou nada?
— Stronzo! — resmungou Sasha cobrindo a boca em seguida.
— Bom, isso eu não sei o significado, mas sinto que não é algo gentil. — ambas riram-se cúmplices. — O que me leva a crer que vocês estão tendo um começo difícil.
— Er… Aquele… Aquele homem me arrancou dos meus irmãos, do meu lar, contra a minha vontade. Meu pobre irmão Alone, ficou a prantear enquanto a carruagem se afastava, e ele nem se comoveu. Trouxe-me para este lugar, onde me arrancam as vestes, esfregam-me, penteiam, perfumam como se eu fosse uma boneca inanimada, e sinto como se estivessem a me analisar em tempo integral, esperando algo de mim, mas não sei o que ao certo!
— Bom… Eu sou apenas uma humilde aspirante a amazona, não cabe a mim lhe revelar seu destino aqui, mas em defesa do Sr Sísifo, ele estava apenas cumprindo sua missão, não é um homem mau. É sério, orgulhoso, introspectivo, mas é nobre e gentil. Tenho certeza que ele se sente péssimo por ter lhe arrancado de seu lar, mas as revelações que se seguirão hão de esclarecer seus motivos. — clarificou a castanha, erguendo o polegar com um sinal de positivo e piscando um olho.
— As revelações? Não aguento mais todo esse mistério. Não é justo que ninguém me conte nada.
— A ragazza tem toda razão. — Uma voz grave e anasalada foi ouvida em um rompante, as meninas direcionaram a atenção para o foco do som. — A questão, é...você agora deve esquecer o seu passado na Itália e se preparar para se tornar a nossa deusa. — o rapaz de cabelos azuis bagunçados repousava tranquilamente, esticado no chão mesmo, despreocupado e com as mãos entrelaçadas contra a nuca. — Estou feliz que a poderosa Athena seja minha conterrânea. Seja bem vinda!
— Kyahhhhhhhhhhhhhh! — a aspirante a amazona vociferou cobrindo seu rosto com a máscara. — Sr.Manigold! Não deveria ter feito isso!
— Contar a menina sobre ela ser o receptáculo para a deusa Athena ou ter visto essa gracinha de rostinho que você tem? Não se preocupe, não contarei ao Degél.— troçou em um longo bocejo.
— M-Meu mestre não é o Sr Degél e sim Asmita de Virgem!— ruborizou por baixo de sua máscara, pois sabia muito bem a que fato o cavaleiro de Câncer se referia.
Sophie, ao contrário da maioria dos cavaleiros, amazonas e aspirantes não nasceu de família pobre e não era órfã, pelo contrário, sua família era nobre e contribuinte com a recém fundada Fundação Graad, mas desde muito pequena a garota já demonstrava seu amor por tudo relacionado a deusa Athena, chegando a fugir de casa para se apresentar em recrutamento interno, conseguindo se sobressair nos treinamentos e superar seus companheiros, tornando-se aspirante direta da armadura de Andrômeda.
De aparência frágil e delicada, Sophie tem enorme propensão para desastres, muitos no Santuário acreditam que ela atrai azar para quem está próximo. No início foi subestimada e ignorada por Asmita de Virgem, mas posteriormente conseguiu provar seu valor ajudando no orfanato, cuidando das crianças mais novas, lendo livros, contando histórias, ficando conhecida por sempre inventar finais felizes para as tragédias gregas. Uma sonhadora! As grandes línguas do Santuário ainda se perguntam se Asmita realmente aceitou sua pupila ou fora vencido pelo cansaço, o fato é que depois da chegada da menina agitada, o virginiano nunca mais conseguiu buscar a plenitude.
Enquanto Sophie era envergonhada por Manigod, que insistia em salientar seu amor secreto pelo cavaleiro de Aquário e se divertia com todo incômodo da menina, Sasha estava confusa sobre a informação que seu conterrâneo acabara de lhe passar, assim tão despreocupado, ao mesmo tempo em que aquele clima descontraído, íntimo e corriqueiro, a relaxava, deixando-a à vontade. Como se estivesse entre seus colegas do Esperanza.
— Com licença... — receosa, a violácea chamou a atenção para si. — Como assim eu sou um receptáculo para uma deusa? Isso não faz sentido.
— Então, sei que você deve ter sido criada imaginando que Deus é um só, pai de Cristo e da humanidade inteira, não?
— Bom...— Sasha levou a mão sobre os lábios. — E não é assim?
— Não vou desmentir, só te apresentar outra verdade. — Ele se abaixou diante da menina, entregando-lhe seu báculo. — Aqui, você é a deusa e nós somos seus santos.
Ela hesitou, como se tivesse ouvido uma heresia.
— Isso não faz sentido. Alguém como eu… Por que a deusa escolheria uma órfã pobre?
— Ah, sei lá. Cristo também não era pobre? E ninguém fica perguntando o porquê. Só aceita, vai. — abriu um sorriso apaziguador, como se estivesse tratando de algo simples. — Você precisa se abrir e acreditar, é como no cristianismo, precisa ter fé e talvez ganhe respostas que irão fazer sentido com o tempo.
— É só que é...— a violácea sentiu seriedade extrema na fala daquele que há pouco estava tão zombeteiro, aquilo a fez lembrar-se de Tenma, a expressão era a mesma. O amigo era sempre traquina e brincalhão, mas quando falava com seriedade sempre dizia as palavras certas.
— Loucura? Acho que você sabe que não, sabe em seu âmago que estou falando a verdade, a negação é um dos passos e você está passando por ela agora, deveria ter mais tempo para isso, mas o mal se aproxima e precisamos que acredite em si mesma para acreditarmos em você.
Mesmo assim, ela hesitou em tocar naquele objeto novamente e sentir aquela carga. Era mesmo sério? Mas era tão insano ao mesmo tempo. Sophie iniciou uma crise de choro exagerada chamando a atenção dos dois.
— Aí, gatinha de Andrômeda, que foi? — perguntou o canceriano intrigado.
— Eu não sabia que alguém como o senhor podia dizer coisas tão inspiradoras. Isso me faz querer acreditar mais na humanidade. Isso é muito bonito! — aumentou o choro deixando Sasha e o cavaleiro com gotas sobre as cabeças.
— Alguém como eu? O que ela quis dizer com isso? — balbuciou mais para si e arrancou um tênue riso da violácea. — Ah sua peste, eu te pego! — ameaçou a castanha, inclinando-se em direção a ela.
— Nos vemos depois, senhorita Athena! — correu veloz, esbarrando em Sísifo que chegara de surpresa, acompanhado por Lissa.
Como não encontrava a menina em lugar algum, a serva pediu ajuda para o sagitariano, tirando-o de seus treinos com El Cid e os demais alunos. Sophie enrubesceu de imediato, tímida pela forma como o cavaleiro de ouro estava trajado em seu uniforme de combate da arena. Um peitoral encouraçado e marrom o protegia até a cintura, onde um cinturão o atava em uma calça justa e clara e era protegido por joelheiras e as respectivas botas leves para lutar. Seus punhos estavam enfaixados sob as duras luvas enquanto sustentava as curtas ombreiras a evidenciar os braços fortes, além da costumeira testeira avermelhada sob as madeixas castanhas. Transpirava, levemente ofegante.
— Sasha... — Chamou Sísifo, preocupado, percebendo a pouca animosidade da menina ao vê-lo, de fato não escondia seu desgosto ao cavaleiro. — A jovem Lissa me procurou, disse que você está com problemas para se adaptar aos preparos para a cerimônia... — Interrompeu ao perceber o canceriano adiante, a presenciar a cena. — Manigold?
— Olá Sísifo... Veio numa hora boa, eu estava a definir o conceito de fé para minha conterrânea aqui e você chegou como uma flecha, rapaz...
— Não... Falou nenhuma besteira para ela, não é? — Indagou Sísifo, duvidoso e sério.
— Claro que não! — Defendeu-se Manigold, indignado, a protestar engraçado. — Por que todos me julgam desta forma? E pode parar de me olhar assim, da última vez que me fitaram dessa maneira, as coisas acabaram ficando quentes! Ah, desculpe, você é um homem santo, agora que lembrei!
— Quer parar com essas asneiras? — Pediu o sagitariano, cauteloso, pois temia que Sasha se espantasse com os maus hábitos do italiano. Porém espantou-se ao ver a pequena rindo da palhaçada, graciosa. Engoliu em seco e voltou sua atenção à ela. — Olhe... Sei que está a sentir-se sufocada, mas hoje é um dia muito especial aqui e ele é somente seu, para você e por você. Todos aqui estão a se esforçar e trabalhar duro para garantir o seu bem-estar e acima de tudo, fazê-la feliz para que possa se sentir em casa. Não os condene, muitos a admiram sem ao menos ter lhe conhecido direito... Façamos um trato! Você decidirá o que quer vestir e usar, tudo bem?
Lissa encarou Sísifo de canto. Os servos não se agradariam com Sasha a escolher as vestes, sempre fora assim. Eram treinados para atender cegamente às reencarnações da deusa, muitas vezes omissos em se preocupar com os receptáculos e suas vontades. Era uma tradição velha e incorrigível. Mas suspirou, estendendo a mão para Sasha… Teria de intermediar o conflito com os criados para não traumatizar ainda mais a garota.
— Sasha... Podemos ir? — Convidou, amistosa e sorridente.
Temerosa, a violácea tornou seu olhar para Manigold, numa súplica silenciosa. Piscando o olho, o canceriano sorriu, motivador.
— Vá italianinha... Dê o seu melhor! Acredite!
Agarrando a mão de Lissa, partiram as duas. Sísifo acenou com a cabeça para o colega, frio e quieto, deixando-o. De repente, parou ao ouvi-lo ao fundo.
— Não a deixe ser tratada como uma marionete! Ela ainda não entende todo este circo!
— Circo? Espero que a cerimônia desta noite não seja um prato cheio para suas piadas e canalhices, sabe o quão necessitados estamos, a todos… Não desaponte a seus colegas e Mestre Sage!
— Como você, que viveu a brigar com seu honrado irmão? — Provocou Manigold, a tocar nas feridas emocionais do sagitariano.
— Não discuta sobre o que não conhece… — Devolveu Sísifo, firme e direto. — Trate de se ajeitar também… Executor barato!
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Jamiel
Cordilheira do Himalaia
Em algum lugar do Tibete
Solidão era uma bênção. Nas alturas, ela tinha ainda mais vigor e significado. O horizonte enevoado, branco sobre o topo das geladas montanhas, encoberto pelas mais tenras nuvens, era místico, digno de fascínio, pois era uma janela a isolá-lo do exterior. Apenas o vislumbre e nada mais. Era o suficiente para apaziguar seus temores e pensamentos, acalmar sua alma e mantê-lo longe de olhos críticos. Em Jamiel, entre a intrincada e inóspita cadeia de rochas frias do Himalaia, presença alguma podia lhe tocar. E ele preferia assim.
Hakurei, o lendário cavaleiro de prata da constelação de altar, sobrevivente da guerra santa de 1496 ao lado de seu irmão gêmeo Sage, antigo cavaleiro de câncer e atual Grande Mestre do Santuário, a quem enfrentaram não apenas Hades e os terríveis deuses gêmeos Thanatos e Hypnos, como também seu próprio mestre, Itia de Libra, consumido pelas fadas do submundo ao lado de seu fiel Gateguard, o predecessor de Shion à armadura dourada de Áries. Uma batalha sangrenta que por muito pouco não tirou sua vida, mesmo que em sua juventude tenha batido de frente com poderosos cavaleiros e resistido ao combate contra seu lendário e sábio professor, cujas lições e ensinamentos ecoavam até os atuais dias em sua memória. A partir daquele momento, viveria para se dedicar aos seus pupilos e os serviços espirituais de restauração em Jamiel. No fundo, o velho de 270 anos temia se desesperar como Itia… E por tal motivo achou por bem afastar-se do Santuário, deixando Sage governar fluente em seu lugar, enquanto buscava a tão merecida paz.
Mas a paz era algo difícil, um raro estado de espírito em que era necessário sacrificar algo para obtê-la… E Hakurei conhecia o que deveria largar para aquietar sua alma. Apenas não conseguia. O perdão. Libertar a si próprio das agruras passadas e perdoar-se pela excessiva culpa, pelos tristes idos que culminaram hoje numa iminente e nova guerra santa. Não previu que seu mestre estava em decadência, que seu irmão se sentia inseguro, de que Hades traria um amargo fim a tudo e corromperia seus aliados e principalmente… Por nunca ter dito que a amava profundamente, como nunca amara na vida. A deusa Athena de sua era. A forte jovem conhecida apenas por “Sendai”, nova e bela, virtuosa e inspiradora à qual teve a honra de lutar ao lado, numa época que mesmo entre dias sangrentos e de grandes perdas, teve a felicidade de conhecer grandes companheiros como Francisca de Touro, Alcon de Sagita, Krest de Aquário e o heróico Ilías de Leão. Teve suas próprias desavenças com seu irmão, e ainda sim o amava profundamente e era por ele que resolvera se isolar, para que o deixasse comandar enquanto podia amenizar todas as feridas passadas de seu coração.
Absorto em seus pensamentos, não notou a chegada de um dos servos da Torre de Jamiel, um dos habitantes da região da cordilheira e antigo muviano a serviço dos descendentes dos alquimistas. Curioso, Kliromonos aproximou-se de seu senhor, respeitoso, a desperta-lo de seus sonhos.
— Mestre Hakurei... O que faz aqui sozinho neste frio? Pensávamos que o senhor estivesse a descansar após o reparo da última armadura de ouro requerida pelo Santuário...
— E assim estou a fazê-lo... — Sorriu o ancião, a evidenciar uma expressão melancólica. — Tivemos muito trabalho nestes últimos dias, concordo que também devam tirar um descanso... Mas a todo instante, recebemos mais armaduras do contingente santo para reparar devido ao surgimento destes "espectros" e os combates que estão sendo travados na Europa. Se continuar assim… Não daremos conta de consertar todas! Quais são as novidades?
— Tokusa está de volta com o relatório do campo de batalha e está à sua espera…
Concordando, Hakurei levantou-se e junto de Kliromonos, seguiu para a grande torre, símbolo máximo da tradição muviana e erguida nos tempos mitológicos, resistindo até os tempos atuais. À beira do grande desfiladeiro, chegou ansioso ao local, adentrando o saguão ancestral. Sob a direção de Hakurei, os ferreiros engajavam-se em restaurar mais de mil armaduras enviadas da Grécia por semana, um sinal da intensa atividade passada de geração em geração e cultivada pelo idealista lemuriano. Mas outrora o que era apenas um ofício do povo de Mu, agora tornou-se uma referência aos tempos negros que se aproximavam, onde não somente armaduras eram quebradas… Como cavaleiros eram desvirtuados do caminho de Athena. Os boatos eram verdadeiros e Tokusa de Hanuman, um de seus principais discípulos, estava para confirmar seus piores temores sobre uma nova guerra santa.
— Mestre Hakurei! — Saudou o jovem, desprovido de seu elmo, em prostração. Com uma expressão nervosa, lutava para encontrar as palavras certas para descrever o que vira na Suíça e sabia da importância de seu relato para seu senhor.
— Tokusa… — Cumprimentou o velho, apoiando sua mão no ombro do jovem, em menção a fazê-lo levantar. Hakurei não gostava de formalidades, sempre tratando seus servos e alunos como uma família. — Vamos andar um pouco, está bem?
Dirigiram-se até um discreto jardim de árvores secas e um amplo lago congelado, dentro das instalações da torre e afastado dos outros servos. Sentaram em um pequeno deck enquanto o mestre pedia um chá para um dos empregados, a fim de esquentar o corpo do frio incessante.
— Pelo que vejo… Você testemunhou algo estarrecedor, certo?
— Sim senhor… — Esboçou o rapaz, aflito. — É ainda mais terrível do que pensávamos e as teorias do senhor Degél de Aquário estavam corretas… As forças de Hades estão a corromper nossos aliados, lhes dando não apenas uma nova vida… Como também alterando suas armaduras para o que conhecem por Sapuris…
— Sapuris? — Indagou Hakurei, intrigado.
— Um novo tipo enegrecido de sobrepeliz, mais forte que uma autêntica armadura de ouro, resistente e que aumenta em dobro as habilidades de combate dos espectros, sem necessitar da explosão do cosmo para beneficiar seu usuário. Consegui salvar uma Sapuris do território inimigo e logo a trarão aqui para que o senhor possa analisar!
— E de que modo os cavaleiros são corrompidos? — Questionou o sábio, envolvido na trama descoberta pelo jovem.
— Primeiramente, há uma mulher, uma líder que lidera o exército negro de Hades e em conjunto a outros três generais que são ainda mais poderosos do que os próprios espectros, consegue enviar um contingente massivo para cada país europeu com chances certas de vitória, e ao final de cada massacre…
— Espere um pouco… — Cortou Hakurei, atônito. — Massacre?
— Isto mesmo senhor! Um espectro de Hades pode igualar ou superar o poder de um cavaleiro de ouro e são divididos entre as 108 estrelas terrestres e celestes, sendo os celestiais os mais fortes. Bom, ao final de cada vitória, a líder chamada de Pandora ressuscita os falecidos do nosso lado com algum tipo de energia nefasta, relacionada ao Yomotsu e ao submundo, mais precisamente do inferno e também com chamas… Um fogo similar ao Sekishiki Meikai Ha!
— A minha técnica e a de meu irmão…
— Sim, e desta forma nossos cavaleiros de bronze e prata ressurgem dos mortos e suas armaduras recebem os níveis de uma Sapuris neste processo, automaticamente os tornando soldados de Hades e com uma força maior ainda do que a anterior. Houve uma batalha na Normandia, França, onde nossas tropas eram guiadas pelo senhor Albafica de Peixes. Eu estava lá como espião durante um mês e pude ver o susto dos nossos saints ao ter de lutar contra os próprios colegas restaurados e mais poderosos… — Interrompeu, agradecendo a xícara de chá servida pelo servo. A mistura quente e forte desceu-lhe confortável pela garganta, acalmando seu peito. Continuou. — E quanto aos sobreviventes, Pandora os fazia escolher entre a servidão à Hades ou uma terrível morte. Os que escolhiam servir ao deus, tinham de passar por uma morte física pelas chamas do Meikai e depois eram ressuscitados em suas Sapuris… Os que recusavam… Bom… Não havia piedade alguma. Pandora os ilude com falsas promessas de um deus amoroso e protetor, benevolente e justo, corrompe com ilusões sobre um Hades idealista e visionário, trazendo o fim das guerras e a paz na terra, a verdade é que muitos estão cansados de tanto lutar, percebe meu mestre?
— Sim, todos estamos… — Respondeu Hakurei, melancólico. — E quanto a estes três generais? Agem sempre juntos?
— Não senhor, sempre estão se dividindo para conquistar mais territórios… Radamanthys de Wyvern, a estrela celeste da fúria, Minos de Griffon, a estrela celeste da nobreza e Aiacos de Garuda, a estrela celeste do heroísmo, são conhecidos como os três grandes juízes do inferno. Porém sempre estão a proteger Pandora, que nunca vai à batalha sem um deles ao seu apoio e socorro.
— E quanto a Hades? — Perguntou o sábio, contundente.
— Ainda nenhum sinal de sua chegada… E muito menos dos deuses Thanatos e Hypnos… Em todo este tempo que passei a vigia-los, não houve manifestação alguma no castelo que utilizam como base.
— Parece que já há sinal de Hades vindo da Itália… — Começou a explicar Hakurei, sério enquanto degustava seu chá. — Sage enviou um dos mais renomados cavaleiros de ouro, o devoto Sísifo de Sagitário, para uma vilazinha no meio de uma região pastosa, pertencente à igreja católica. Lá haviam duas crianças detentoras de uma energia tão divina… Tão colossal e intensa, um verdadeiro cosmo dos deuses, em que poucos já tiveram o privilégio de sentir, estar perto. O garoto, de nome Alone, carrega dentro de si um cosmo esmagador e brutal, tão terrível quanto dos deuses gêmeos da morte e do sono e apesar de conter esta tremenda força, a desconhece completamente e é um menino sensível e artista. Já a menina, Sasha, porta a verdadeira essência de Athena como Sendai portou e outras antes dela… Uma cosmo energia poderosa e crescente, como um sol. Preocupado por deixá-los ali, aos olhos do mundo e respectivamente dos espectros, a intenção de Sísifo era levar as duas crianças… Porém Sage ordenou que apenas Sasha fosse levada para o Santuário, enquanto Alone serviria como um chamariz para que ele pudesse investigar quem está por trás da força negra. No tempo certo, Alone será removido para outro local sob a guarda do templo…
— Uma decisão cruel… Separar duas crianças desta maneira… — Comentou Tokusa, incomodado.
— Mas infelizmente… Necessária para evitar uma nova guerra santa… Nas cartas que Sage me envia, estou a par de tudo e posso imaginar em qual lugar esta Pandora pretende aparecer, ela está apenas sendo paciente e aumentando seu contingente como todo bom estrategista que aguarda por seu trunfo. Há relatos de que os espectros são imortais, não é?
— Eles ressurgem mesmo após serem mortos, não importando a forma como são eliminados! — Exclamou Tokusa, resoluto. — São invencíveis!
— Isto está para acabar! — Concluiu Hakurei, animado, a levantar-se. — Vou enviar estas informações a Sage… Quanto a você, vá descansar, amanhã enviarei-o junto de Yuzuriha para a Itália, numa missão muito importante.
— O senhor… Irá comparecer ao Anagennisi como pedido pelo Mestre Sage? Será esta noite… — Mas o silêncio consentido por Hakurei mais uma vez demonstrou que o muviano não iria de forma alguma à cerimônia regida por Sage e as sacerdotisas. Faziam anos que o antigo cavaleiro de altar se exilou do santuário… E nunca mais pôs seus pés lá, muito menos conversado pessoalmente com seu irmão.
Concordando, o jovem Tokusa se retirou, exausto. Mal desconfiava que o ânimo de seu senhor não era para com a guerra em si… Mas sim para com a vingança, o acerto de contas que Thanatos e Hypnos lhe deviam por terem levado sua eterna Sendai.
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Os olhos verdes se arregalaram quando, guiada por suas damas, Sasha adentrou ao pátio onde seria realizada a cerimônia. Toda sua amargura e desagrado com a atual situação pareceu se esvair ao ser surpreendida pelo que outrora era a arena de combate… Agora era um vasto palco decorado e preparado para recebê-la, cercado das mais belas e frondosas flores que já vira na vida e a magia do anoitecer, sob um céu estrelado e tão luminoso quanto as tochas acesas em pontos estratégicos do pitoresco cenário, a preencheu de um sentimento maior, algo que a remeteu à uma nostalgia extremamente profunda e inexplicável, o Déjà vu perfeito… Já estivera ali muito antes do que pudesse imaginar e sentiu seu peito arder, o coração a disparar involuntário.
Em meio ao local jazia um trono dourado de estofado púrpura. Suas damas se afastaram de si, deixando-a no topo da escadaria a ser percorrida, enquanto o Grande Mestre aproximou-se com um cajado peculiar contendo uma tocha azul em sua extremidade. Todos os olhares estavam voltados para a menina que, nervosa, encolheu-se mordendo o lábio inferior, mas manteve-se firme, era como se em seu íntimo soubesse o que deveria fazer.
Graciosa, caminhou sobre o tapete vermelho descendo cada degrau ao encontro do ancião, que estava majestosamente vestido. Parando de frente para o canceriano, trocaram um olhar confirmativo e ela estendeu a mão para receber o cajado. Sasha admirou-se com os doze imponentes cavaleiros de armaduras de ouro que faziam um círculo espaçado. Entendeu que deveria apresentar-se diante de cada um deles e acender a chama do pilar mediano que jazia ao lado de cada, entalhado com os símbolos que representavam cada constelação.
A primeira chama a ser acesa fora a da constelação de áries, o cavaleiro dourado apresentou-se como Shion, arriscando um falho italiano para gentilmente declarar sua devoção e servidão a sua jovem deusa. E assim sucessivamente, Hasgard de Touro, Aspros “Defteros” de Gêmeos, Manigold de Câncer, cujo ela se recordara de já ter conhecido informalmente naquele dia, Regulus de Leão, Asmita de Virgem, Dohko de Libra, Kardia de Escorpião, El Cid de Capricórnio, Dégel de Aquário, o já conhecido Sísifo de Sagitário, finalizando com a figura mais bela que a menina já vira em sua vida, Albafica, o cavaleiro de Peixes.
Com as doze tochas acesas com a singular chama azul, a menina dirigiu-se ao centro da arena, rumo ao trono que a aguardava, antes que se sentasse, teve o cajado trocado pelo báculo que ela tinha tocado mais cedo, involuntariamente seu olhar buscou por Manigold, mesmo imponente naquela armadura de ouro, ainda sim era o mais próximo que seu coração sentia como um elo em relação a seu lar, recebeu uma piscadela nada discreta e um sinal de positivo com o polegar, que fez com que os mais rígidos se contorcessem em desaprovação a irreverência do canceriano.
Incentivada, Sasha segurou novamente seu báculo e sentou-se ao trono, sendo ovacionada por todos os numerosos presentes. E pela primeira vez ela sentiu a energia calorosa que eclodia de seu âmago se expandir, dissipando-se pelo ambiente, envolvendo e maravilhando a todos, tão acentuada que chegava a tomar uma coloração dourada e iluminando a escuridão noturna. O mundo à sua volta pareceu girar em câmera lenta e a insanidade das palavras de Manigold já não lhe parecia tão distante da realidade. Seus olhos lacrimejaram e não, definitivamente, não era de tristeza e sim de emoção, comoção.
Antes que sua jovem mente explodisse com tantas informações, um doce cântico fora invadindo seus ouvidos, e sob a chuva de pétalas de rosas brancas, gentilmente ofertada por Albafica de Peixes, as famosas e reclusas sacerdotisas dos numerosos templos de Athena existentes, escondido em todo o mundo, se fizeram presentes, jovens, maduras, aquelas que, assim como as freiras, dedicam sua vida e amor integralmente a Athena, aprendendo orações e formas de fortalecer o exército de sua deusa em momentos de extrema urgência.
Graciosas, portadoras de uma grande cosmo energia, sagradas, puras e intocadas, embora seus trajes exibisse grande parte de seus corpos, sendo composto por um bustier e uma saia com fenda lateral acentuada, em tom branco com detalhes dourados, se valeram de uma coreografada dança para apresentarem-se a sua deidade, deixando os presentes em polvorosos, maravilhados.
A violácea não pôde deixar de se encantar com o espetáculo, tanto com a dança, os trajes, quanto com o tanger dos instrumentos, contudo, mantendo a postura reclusa, assim que findaram a apresentação, as sacerdotisas subiram as escadarias após reverenciar a nova deusa. A cerimônia teve sequência; as servas do santuário trouxeram bandejas prateadas cada uma contendo um cálice dourado.
A taça fora oferecida a Sasha, que se levantou de seu trono e segurou o objeto, mais uma vez iniciando um ritual relacionado aos cavaleiros de ouro, desta vez a começar por Albafica de Peixes. Sage foi quem proferiu as palavras sagradas, como quem selava um matrimônio, de certa forma não estava muito longe do que o ritual pretendia passar simbolicamente. Sasha bebeu da água do cálice e entregou ao cavaleiro, que repetiu o ato, bebendo todo o líquido restante, as bochechas da menina ganharam um rubor acentuado ao admirar a beleza da cena. E assim a cerimônia se seguiu, o ato fora repetido por mais onze vezes.
Ao final dessa etapa os santos dourados tomaram seus lugares novamente e foi a vez de cada cavaleiro presente prostrar-se diante de sua deusa, com uma breve reverência, apresentados por nome hierarquia e constelação. Concentrados, cada dourado bebia do cálice compartilhado por Sasha enquanto uma doce e única melodia soava serena ao fundo, executada em violino por uma das sacerdotisas. A cerimônia corria como planejado por Sage, que fitava o nervosismo da menina enquanto proferia as sagradas preces em latim, mas surpreendia-se com a sua iniciativa, como se algo a motivasse, impulsionando a seguir a tradição. Era corajosa e disso ele não tinha dúvidas. A taça, por fim, chegou a Sísifo, que receoso, a tomou delicadamente das mãos da garota e a olhou atento, a mergulhar em sua alma, enxergando dentro daquelas inocentes orbes a autêntica e poderosa energia de Athena.
Sasha cogitou em fugir do sério olhar do sagitariano… Mas algo a segurou e manteve seus olhos presos ao dele. Sentia-se acolhida, como se naquelas íris houvesse um intenso calor, uma chama violenta que se apresentava como um escudo diante de si, invencível e devotado a queimar por ela, a ponto de se extinguir para garantir a sua proteção. Um verdadeiro porto seguro, a rocha na qual poderia confiar. Uma muralha infalível de fé. Os acordes do violino combinavam-se com o suave dedilhar da harpa enquanto um canto lírico ecoava gentil, despertando-a e prosseguindo com o rito. As sacerdotisas entoavam um verso que dizia que as estrelas estavam lá fora e a magia estava ali… Naquele lugar.
Tudo estava a caminhar para o fim e logo se consagraria a nova Athena… A nova esperança dos santos.
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Durante o Anagennisi, muitos cavaleiros de prata e servos vigiavam as entradas sul e norte do Santuário. Uma tarefa nada fácil para os mais novatos, que podiam simplesmente cegar diante da escuridão noturna entre os altos rochedos. Além disto, haviam inúmeras rotas de fuga por entre as pedras, trilhas escondidas e com a ameaça dos espectros prevista por Degél, todo cuidado era pouco. Geralmente os de prata mais experientes eram os mais recrutados para a missão e Sage sempre energizava o Cuore Santo da estátua de Athena para evitar o rastreamento interno de cosmos… Porém naquela noite especial onde Sasha estava a assumir sua posição como Athena, algo terrível estava para suceder.
Furtivos e fulminantes, através do breu e privilegiados com os novos dons adquiridos com a ressurreição por Hades, Vazquez, agora um espectro com sua respectiva Sapuris de Cérbero enegrecida, Theo e seus poderosos discos embebidos em seu terrível cosmo e Eusébio, colocado como líder e detentor da Sapuris de Perseu e seu aprimorado escudo da Medusa, trespassavam a guarda prateada ao norte pelos rochedos e com uma habilidade descomunal, eliminavam cada cavaleiro como pesos de papel.
Alcançaram a entrada principal, um enorme portão entre muitas pilastras e uma torre de vigia. Antes que um dos servos os pudesse notar em meio ao escuro, Theo de Auriga os massacrou a tempo de impedir que o alarme soasse. O fator surpresa foi essencial e a discrição do Santuário em não manter as tochas do norte acesas para evitar sua localização noturna surtiu o efeito contrário, Eusébio sabia disto e usando a escuridão a seu favor, se aproximou do escudo cósmico gerado pelo Cuore Santo.
Não havia como não penetrar naquela defesa sem despertar Sage e muito menos não morrer sob o esmagador cosmo que certamente os triturariam entre o vórtice divino da barreira… Mas os três tinham a imortalidade ao seus lados e sofrer para invadir era apenas uma questão de tempo até que pudessem retornar à vida, sabiam que nada poderia matá-los. Uniformemente, os três espectros correram e lançaram-se contra o Cuore Santo, sendo despedaçados brutalmente pelo cosmo de Athena.
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A cerimônia estava chegando ao fim. Cada cavaleiro dourado estava a se apresentar individualmente à Sasha, em uma prostração enquanto beijava sua mão e declarava sua lealdade. Uma melodia calma era entoada pelas harpas dos músicos e as doces vozes das sacerdotisas. Ao passo de cada dourado, o ritmo crescia para as batidas fortes da percussão e as ressonantes flautas a exaltarem, eternizarem o momento em uma canção poderosa e ancestral conhecida como “Fogos À Meia-Noite”. O último cavaleiro, o geminiano Aspros, jurou sua lealdade à menina e assim todos os guardiões puseram-se em frente à garota, cantando em uníssono os versos que tratavam de reencarnação das eras mitológicas e a busca por sabedoria.
Sage estava emocionado… Porém triste por não ter Hakurei ao seu lado naquele momento tão glorioso e utópico. Mas não se deixara abalar e prosseguiu. De repente, sentiu algo quebrar-lhe a concentração. Levou a mão ao peito, numa assustada expressão e num rápido comando, sinalizou para os servos correrem em direção à entrada da arena. Alarmados, os dourados fitaram a pressa do Grande Mestre e Sísifo tomou a iniciativa.
— Mestre Sage! O que houve?
— Uma invasão… — Respondeu Sage, mantendo a compostura para não assustar aos demais servos e consequentemente Sasha, que percebera a movimentação. — Algo… Ou alguém adentrou o Cuore Santo!
— Não temos do que se preocupar senhor… — Comentou um dos servos, num sussurro. — Nada resiste ao poder destrutivo da barreira, é morte certa!
— Mas e os cavaleiros de prata responsáveis pela vigília dos portões? — Questionou o mestre, ressabiado. — Nada deveria alcançar ou até mesmo atravessar o Cuore Santo com eles na defesa, algo não está certo… Peça para fecharem os dormitórios e alojamentos do templo, não podemos colocar os pupilos em risco! Contate os guerreiros da minha guarda particular em Star Hill, ordene para que se desloquem para o norte, onde tive o sinal da barreira ativada. Mande os servos para um lugar seguro! Rápido!
— Irei com ele, Mestre! — Exclamou Sísifo, pronto para partir.
— Não! — Negou o sábio, a evitar a saída do sagitariano da arena. — Se estivermos sob ataque, a missão de vocês é permanecer aqui e defender Athena, apenas peça para os demais dourados ficarem a postos... Também estou aqui para os ajudar! A propósito... Fique ao lado da menina Sasha e tranquilize-a, não queremos que ela já perceba o terror deste mundo, pelo menos não por momento, certo?
— Mestre Sage... — Balbuciou Sísifo, confuso. — Uma hora ela acabará descobrindo!
— E é importante que você saiba disto, Sísifo... — Aconselhou o ancião, sorrindo. — Você é o principal guardião desta criança!
Não demorou aos três espectros adentrar os portões da arena, calmos e completamente banhados em sangue, surpreendendo Sage. Estavam se regenerando acelerado enquanto suas Sapuris pareciam intocadas. A visão mórbida de seus braços, mãos, pescoços, troncos e cabeças sendo devolvidos a seus respectivos lugares e atados pelas chamas de uma coloração cobalto espantaram a todos os presentes… Incluindo Sasha. A violácea testemunhava horrorizada os monstros, de olhos arregalados. Vazquez, Theo e o líder Eusébio carregavam consigo um trunfo que, após a completa regeneração de seus membros, lançaram ao piso da Arena. A cabeça do chefe da guarda prateada do norte, um dos melhores guerreiros do Santuário. Jaga de Órion, o poderoso líder do esquadrão de alunos pertencente a El Cid de Capricórnio. O detentor da Excalibur não acreditou ao ver a cabeça de seu subordinado rolar até os pés de Sage, igualmente atônito.
— J-Jaga? — Esboçou o mestre, perplexo. Voltando sua atenção para os três renegados, reconheceu-os imediatamente. — Vocês são Vazquez de Cérbero, Theo de Auriga e Eusébio de Perseu, nossos guerreiros enviados à Suíça para deter as tropas de Hades… Mas o que estão a fazer? E o que houve com suas armaduras de prata?
— Elas não nos pertencem mais… — Afirmou Eusébio, convicto e ameaçador. — Agora servimos ao Grande Imperador das Trevas, o deus do submundo e senhor soberano das chamas do Meikai, governante do inferno… Mestre Hades! Estas novas armaduras são um presente de fé na palavra dele e do caminho virtuoso que nos espera ao servirmos!
— Hades? — Indignou-se Sage, impetuoso. — Como podem estar a servir Hades… Sendo que ainda estão sob juramento de fidelidade à Athena? Explique-se soldado!
— Não temos nada para falar… — O espectro de Perseu era intimidador, caminhando lentamente até o velho com uma expressão sarcástica e ácida e empunhando seu mítico escudo da Medusa, uma letal armadilha para os dourados e seu senhor. — Temos uma missão e não sairemos daqui sem cumprí-la…
— E que raios de missão é esta? — Provocou Kardia de Escorpião, zombeteiro. — Vocês são suicidas? Percebe que todos os principais guerreiros de Athena estão aqui e ainda sim você carrega esta soberba toda como se pudesse aguentar nosso poder massivo?
— Acho melhor não os subestimar... — Advertiu o aquariano Degél. — Sage, nossas teorias estão se confirmando... Estes demônios sobreviveram à barreira do Cuore Santo, onde nem mesmo nós escaparíamos... O que vocês vieram fazer aqui, renegados?
— Cumprir nossa missão para com Hades... — Prontificou Eusébio, tomando uma postura de ataque. — LEVAR O CORAÇÃO DESTA MENINA PARA AS MÃOS DE NOSSA RAINHA PANDORA!
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