Chiaroscuro

5 Fiore Tragico


Notas iniciais
Olá cavaleiros e amazonas, tudo bem? Prontos para mais uma viagem rumo à uma nova e arrebatadora guerra santa? Meus amigos, aqui quem fala é o Mukuro e sejam muito bem-vindos a mais um capítulo de Chiaroscuro! Eu e a LuInoue estamos realmente muito contentes com toda a receptividade e o carinho de vocês e desde já, muito obrigado ♥ Bom, antes de iniciarmos, gostaria de me desculpar com vocês por todo este tempo sem uma atualização decente da trama, desde fevereiro que não temos novidades e tanto eu quanto a Lu pedimos que ainda continuem conosco nesta obra, pois ela não está abandonada, somente seus autores é que estão a suar as camisas para trazer o melhor para vocês, para continuar com esse mágico legado deixado por Lost Canvas e para contribuir cada vez mais com a fandom de CDZ na plataforma. Chiaroscuro é mais do que uma fic de Saint Seiya, ela exige muita pesquisa, dedicação, cuidado e planejamento prévio para ser produzida e fazemos tudo isso no máximo de nossos tempos, mas nem sempre os planos saem rápidos. Peço a paciência de vocês, pois estamos a trazer muitas inovações para o enredo de Shiori Teshirogi e nunca explorados na franquia. Isto é algo que querendo ou não leva tempo para ser inserido de forma a que estamos a tapar muitos furos deixados na trama original. Fora isso, temos também nossos outros projetos de longa data que nos tomam, e lutamos para encaixar todos num período bom de publicação. Galera, para finalizar, Chiaroscuro está recém em seu começo e ainda vai surpreender muito, então não nos abandonem, beleza? Nas Notas Finais haverá o Gold em destaque deste capítulo, Dohkão das Libras, poderoso ancião de Rozan e amado por muitos, realmente um dos mais carismáticos! E também alguns insights que gostaríamos de comentar com vocês em relação à trama. Santos de Athena, queimem seus cosmos contra Hades neste exato instante!!!

Santuário da Grécia

Ritual Anagennisi



“LEVAR O CORAÇÃO DESTA MENINA PARA AS MÃOS DE NOSSA RAINHA PANDORA”!

O grito enfurecido do espectro Eusébio ecoou sinistro, retumbante por entre as altas rochas que circundavam a sagrada arena da cerimônia. Muito mais do que isto, era um rompante carregado de convicção e fé, certeza e foco em sua missão. Já não era mais o leal guerreiro de Athena… Agora era um espectro fiel ao seu novo senhor, e sua ferocidade lhe recompensaria a vida eterna, o presente de seu novo deus. Uma determinação sanguinária ardia viva em seu olhar. Atrás de si, os enegrecidos Theo e Vazquez espreitavam aos presentes na cerimônia, ameaçadores, como feras prestes a saborear as futuras presas. Seus caóticos e perturbadores cosmos mantinham os servos afastados e os dourados em alerta para o primeiro ataque.

— E como pretendem realizar essa façanha? — Devolveu Kardia de Escorpião, a concentrar seu cosmo rubro na ponta de seu indicador, alongando sua unha para o tradicional ferrão vermelho e mortal, apontando-o para o espectro. — Estão diante da guarda pessoal de Athena, os inigualáveis santos de ouro das doze casas, a força suprema à serviço de nossa deusa… Não sei se perceberam, mas estão em uma descomunal desvantagem!

— Abaixe esse dedo, Kardia! — Bradou Degél, analítico e cauteloso. — Ele não é mais o Eusébio de Perseu que um dia serviu o Santuário e muito menos um cavaleiro de prata! Não se engane pelas armaduras, podem parecer as mesmas das respectivas constelações, mas não são e possuem mais cosmo e resistência do que antes.

— DIGA-ME! — Protestou Sage, se dirigindo à frente de seus dourados, cercado por outros cavaleiros de prata. — O que está a acontecer com sua moral, Eusébio? É um cavaleiro de Athena, tornou-se num autêntico combatente pela sua dádiva, cresceu conosco e comeu à nossa mesa, ao lado de seus companheiros! O que Hades lhe prometeu para voltar seu coração à nossa deusa, que lhe acolheu em seus braços justos?

— Hades é a vida… — Balbuciou Eusébio, emocionado. — É aquele que trará o fim das guerras, a restauração da vida, a chegada de novos e duradouros tempos de paz, a felicidade genuína, a eterna bondade dele… Meu senhor me concedeu algo que esta sua divindade pútrida… — Apontou para Sasha, escondida atrás de Sísifo, agarrada em sua alva capa, quase imperceptível e amedrontada. — Jamais quis conceber. A vida eterna, a imortalidade! Nossa rainha Pandora nos conecta à ele e nos traz a verdade, e esta falsa promessa de paz que está entre vocês deve ser aniquilada para que nosso imperador renasça próspero! CHEGA DE MENTIRAS E AMENIDADES! — Vociferou Eusébio, extasiado. Numa rápida explosão de seu cosmo, o espectro disparou veloz contra Sage e os pratas, esticando seu punho e lançando inúmeros feixes negros de pura energia corrompida, assumindo a forma de milhares de serpentes prontas para fulminar. — GÓRGONA DEMONÍACA!

Antes que pudessem ser alcançados, Sage liberou ligeiramente seu cosmo e numa fração de segundos, o mestre descarregou diante das serpentes e de Eusébio a sua principal técnica, colocando-se à frente dos servos e de seus dourados para os proteger, disparando intensas ondas de fogo-fátuo. A famosa técnica dos cavaleiros de câncer, Sekishiki Meikai Ha, as Ondas do Inferno. Um súbito clarão eclodiu diante de todos e Eusébio fora engolido por completo pelas furiosas chamas azuis que o arremessaram para longe. Theo de Auriga e Vazquez de Cérbero desviaram ágeis do vasto poder e prepararam suas ofensivas, separando-se e correndo para cada lado oposto da arena.

— Eles pretendem nos apertar! — Afirmou Shion de Áries, a observar atento aos dois espectros enquanto se dirigia para Sage, apressado. — Precisamos nos antecipar ou ficaremos entre o fogo cruzado dos dois! Theo de Auriga foi discípulo de Jaga de Órion, há muito tempo eu o vi em ação e sei o quanto aqueles discos podem ser irritantes!

— Sugiro mantê-los afastados! — Aconselhou Sage, a compreender a intenção dos oponentes. — Lembrem-se, temos de defender a menina Sasha à todo custo! Se a alcançarem, será o fim! Um já foi para o Yomotsu, faltam apenas estes dois… SÍSIFO! — Clamou pelo sagitariano, alertando-o. — Continue a proteger Athena!

— COM A MINHA VIDA! — Bradou Sísifo, instintivo. Neste instante, Sasha olhou para cima, para o semblante de seu defensor, ainda agarrada fortemente no tecido de sua capa. Um olhar feroz, carregado de pura e irredutível determinação. A mesma devoção que presenciou naquele olhar quando trocou sua taça com ele, sólido e firme como rocha. Estaria disposta a começar a confiar naquele homem? Seria Sísifo tão devoto a ponto de se sacrificar por uma criança que o desprezava? Sasha não conseguia compreender se o seu guardião estava a proteger ela mesma ou a deusa cuja qual seria treinada para receber…

Vazquez de Cérbero iniciou sua investida, mirando os mais fracos, os servos e as sacerdotisas. Com uma impressionante agilidade, explodiu seu cosmo ao máximo e liberou sua mortal técnica, a Maça Infernal. Num poderoso vórtice liláceo, gigantescas bolas espinhosas constituídas do maligno cosmo se projetavam velozes para acertar os inocentes. Frenético, Shion chegara à tempo de deter o massivo ataque diante das sacerdotisas, extasiado.

— MURALHA DE CRISTAL! — Pronunciou, rompante. Uma cintilante e cósmica barreira cristalina ergueu-se depressa e conteve as esferas, que na colisão eram destruídas. Enquanto isso, Dohko de Libra avançava contra Vazquez, com ambos os escudos de sua equipada armadura em mãos. Num impulso, saltou para lançar os pesados discos dourados. Assim que o fez, adicionou seu próprio cosmo aos escudos, tornando-os mais rápidos e rotativos.

— CORRENTE FANTASMA! — Devolveu Vazquez, a disparar longos elos negros de suas correntes para derrubar os escudos em pleno ar. Porém a ininterrupta rotação teve sucesso ao quebrar as correntes e atingir brutalmente o espectro, dilacerando-o e o lançando para fora da arena.

Theo de Auriga já estava a preparar sua estratégia no outro lado, arremessando seus discos embebidos no cosmo negro contra as pilastras que sustentavam parte da área coberta para a cerimônia. Uma a uma, eram demolidas pelo corte voraz dos discos e despencavam de suas fundações, trazendo consigo o pesado teto para soterrar os dourados e Sasha. Regulus de Leão não perdeu tempo e disparou sua mais veloz e imparável técnica: O Relâmpago de Plasma. Acertando os destroços antes de chegarem até eles com uma surpreendente velocidade, despedaçando cada escombro em inúmeros cacos, uma névoa de mármore inundou a arena e uma tenra fumaça se formou, cegando a todos. O caos se instalou em instantes.

Em meio a nuvem de poeira, gritos desesperados eram ouvidos enquanto um clarão verde surgia por todos os lados da arena, alarmando ainda mais os dourados. Conseguiam compreender o que estava a se desenrolar graças ao sétimo sentido que possuíam, permitindo-os ver através da densa fumaça. Porém, a rapidez com que as luzes eclodiam não seguia um padrão e cada vez piscavam aceleradas, aumentando a sequência e silenciando os apelos, cercando-os pela morte. Asmita de Virgem tomou a iniciativa e ergueu seu punho, a queimar seu cosmo em um poderoso e dourado brilho que dissipou a vigorosa névoa e limpou suas visões. O horror lhes apanhou por completo ao perceberem o mórbido cenário ao redor.

Servos, sacerdotisas, cavaleiros de prata e alguns guardas estavam petrificados… estáticos e cobertos dos pés às cabeças por camadas sólidas de pedra, inertes em suas últimas expressões de pavor. Tudo acontecera tão rápido que os dourados não conseguiam conceber. O que poderia ter ultrapassado suas velocidades, a mais principal de suas características?

Para completar o assombro, Eusébio os fitava a metros adiante, sorridente, a abaixar seu escudo da Medusa. Impossível! Como o espectro retornou do Yomotsu, a entrada para o mundo dos mortos? Não havia nem ao menos cinco minutos que Sage o enviara para o submundo com seu fogo-fátuo e agora o inimigo os encarava à frente, intacto e ainda mais ameaçador. Os cavaleiros fitavam-no atônitos e Sage não conseguia esboçar uma única palavra, estupefato. Mas não havia tempo para explicações, pois um baque metálico ecoou e atraiu suas atenções. Theo estava a enfrentar incessante Sísifo, disparando seus discos contra o sagitariano que ricocheteava cada impacto com apenas um dos braços, enquanto o outro defendia Sasha que permanecia atrás de si. Com seu cosmo a revestir o braço ativo, Sísifo podia apenas se defender, impossibilitado de atacar entre as brechas do ataque inimigo, cada vez mais pesado e ininterrupto. Se arriscasse, deixaria Sasha desprotegida para o espectro. Percebendo o sufoco do melhor amigo, El Cid se apressou em agir.

— EXCALIBUR! — Gritou o capricorniano, disparando seu luminoso corte contra Theo.

Não demorou ao espectro ser fulminado pela faixa afiada, sendo despedaçado em cima de Sísifo e Sasha. O sangue enegrecido jorrou sobre os dois, banhando-os. Aterrorizada, a menina permanecia imóvel, assustada… Abismada. Estava coberta daquele sangue corrompido, daquela sujeira mórbida, da mancha que agora coloria de escuro o branco de seu honrado vestido e impregnava sua pele e cabelo. Uma tensão absurda crescia em seu peito, tomando-a em desespero e aflição enquanto Sísifo a notava perplexo, sem saber como lidar com aquela terrível situação. Num rompante, a garota gritou, liberando todo o horror, morte, violência, agonia e espanto acumulados por testemunhar toda aquela brutalidade gratuita.

O berro súbito da criança chocou aos seus guardiões. Somente deram-se conta de que tinham uma inocente menina a presenciar todo aquele massacre que resultaria em traumas para si. Compreendendo o que devia ser feito, Sísifo sinalizou firme para Sage, que retribuiu o olhar confiante. Abraçando a garota fortemente, Sísifo a levantou e apertou em seus braços, fugindo com ela por entre os cadáveres de pedra.

— Protejam Sísifo! — Ordenou Sage, autoritário. — Dêem-lhe cobertura e segurança para escapar, o restante ficará comigo para terminarmos logo esta contenda!

Entendendo a atitude do cavaleiro de Sagitário, Eusébio disparou para alcançá-lo, veloz. Regulus correra para auxiliar seu tio juntamente com El Cid e Dohko. Neste meio tempo, os outros dourados sentiram um repentino e explosivo cosmo arder, acima de suas cabeças. Destrutivas, as maças infernais de Vazquez despencavam do alto e prontas para esmagar, porém agora ainda mais numerosas e maiores.

— Esse desgraçado ainda está vivo mesmo depois de ser fatiado por Dohko? — Ressaltou Kardia, indignado.

— Afastem-se... — Pediu Asmita, a erguer suas mãos, projetando uma intensa e divina luz sobre suas cabeças, como um magnífico manto dourado e cintilante. Iluminado, pronunciou. — KAHN!

A poderosa barreira, uma defesa digna de um deus, os salvavam da brutal colisão das maças do espectro, estridentes a ponto de abalar as estruturas da arena e causar intensos tremores. Ao notar que Vazquez chegou ao solo, Albafica de Peixes liberou seu cosmo carmesim e direcionou sua principal técnica ao espectro.

— Rosas Diabólicas Reais!

Seu cosmo foi disparado contra Vazquez, assumindo a forma de milhares de rosas vermelhas velozes, a percorrer seu alvo enquanto liberavam ao ar seu pólens letais. Ligeiro, o espectro protegeu-se com suas correntes em defesa circular, sem parar de correr e a preparar o próximo ataque. Reflexivo, Degél dirigiu-se a Sage, intrigado.

— Mestre Sage... Parece que não estamos a enxergar o padrão que está sendo usado aqui!

— Sim, eles estão revivendo mesmo depois dos duros ataques que recebem... — Afirmou o ancião, atento.

— Muito mais do que isto… — Balbuciou o aquariano, próximo ao mestre. — Estão a cobrir as falhas um do outro para continuarem a nos oprimir nesse espaço.

— Explique melhor!

— Estes espectros têm um determinado tempo para voltar à vida durante este combate e estando em três, conseguem ter um timing para cobrir a falta que cada um faz até o retorno daquele que fora morto, para então um outro morrer e voltar depois. É uma estratégia! Assim conseguem manter ou aumentar o ritmo dos ataques e nos deixar cansados e restritos, gastando cosmo desnecessário. Isso não vai parar até que matem Sasha! Não importam quais técnicas sejam usadas… e parece-me que retornam renovados a cada nova investida, ainda mais velozes.

— O que sugere então? — Questionou Sage, firme.

— Eu calculei o tempo que levam para ressurgir... É aproximadamente de três a cinco minutos. No caso de Eusébio, este demorou mais pois fora enviado para o submundo, tendo de superar a barreira da morte duas vezes, dentre cinco a dez minutos. Precisamos atacar os três ao mesmo tempo e com técnicas dimensionais de espaço-tempo por, no mínimo, meia hora de vantagem. É a chance que temos para revidar por completo, eles demoram para voltar de outras realidades!

—Ao retornarem... — Completou Shion, ajudando no raciocínio dedutivo de Degél. — O senhor pode os deter com a Gaiola Talismã neste lugar, já que não conseguem reaparecer fora desta arena, como num ciclo.

— Faremos isto! — Exclamou Sage, animado. — Peçam para Aspros e Manigold atacarem ao mesmo tempo, enquanto Asmita derruba Eusébio para ajudar Sísifo! VAMOS!

Não demorou a Theo retornar, lançando seus discos negros, completamente recuperado. Enquanto isso, Eusébio alcançou Sísifo, já a utilizar seu escudo para petrificar o dourado. A luz esmeralda dos olhos da face em relevo no escudo demoníaco voltou a surgir. Bem diante do inimigo, o sagitariano não conseguiu recuar e num instinto protetor, virou-se com Sasha em seus braços para evitar o contato visual da menina com o escudo. Porém sentiu uma profunda dor acometer um de seus braços, soltando-a repentinamente. Ajoelhou-se, flagelado. Seu braço direito foi petrificado! Apenas o rápido olhar de segundos já o afetara.

Não demorou a Dohko revidar, partindo massivo para cima de Eusébio com golpes pesados. Concentrando seu cosmo esverdeado nos punhos, liberou sua suprema técnica.

— CÓLERA DOS CEM DRAGÕES!!!

Um poderoso vórtice explodiu em frente ao espectro, numa intensa rajada esmeralda de inúmeros dragões cósmicos a serpear ligeiros sobre Eusébio, lançando-o dentro de seu interior. El Cid aproveitou sua chance para quebrar aquele maldito escudo de uma vez por todas. Saltando sobre a voraz energia de Dohko, desceu furioso a almejar a defesa do espectro em apuros.

— PEDRA SALTITANTE!

O violento impacto de seu chute estraçalhou o escudo da Medusa e feriu ainda mais o oponente dentre o vórtice dracônico. Já estavam a obter uma iminente vitória… Quando Eusébio arriscou seu último trunfo. Do único braço que sobrou, lançou suas velozes serpentes ao chão, cravando-as ao solo e impulsionando-o para fora do turbilhão antes que sua Sapuris não aguentasse. Ferido, não perdeu tempo e disparou contra a indefesa Sasha, congelada de pavor ao perceber a súbita investida do inimigo contra si.

— ATHENA!!! — Chamou Dohko, desesperado.

— Desgraçado... — Rosnou Sísifo, raivoso. — NÃO VOU PERMITIR QUE TOQUE NELA!!! — Numa fúria repentina, o cavaleiro gritou extasiado, a acumular seu brilhante cosmo no braço inerte que aos poucos desfragmentava a dura camada sólida. Seu impetuoso rompante foi notado por seus companheiros, surpresos. Uma clara aura o envolvia entre a resplandecente luz que engolia seu braço, a despedaçar sua invalidez. Não deixaria que mal algum chegasse àquela criança, não aceitaria que qualquer mão corrupta a ferisse... Ele jurou sua vida à ela e não optaria por nada menos que sua segurança. Sentiu seu cosmo arder como nunca... Desde que vencera Rugonis de Peixes e deixara Ilias orgulhoso. Desde que se tornou um guardião de ouro. Sua fé era inabalável e nada... Nada podia pará-lo!

Arrebentando a camada de pedra que cobria seu braço, vociferou alucinado, a lançar seu estrondoso cosmo acumulado em direção à Eusébio, antes que este pudesse alcançar Sasha.

— IMPULSO LUMINOSO DE QUÍRON!!!

Furiosas correntes de vento dourado atingiram o espectro, afastando-o da menina. Arremessando-o para o alto, dividiu-se em turbilhões rotativos, raivosos tornados do puro cosmo luminoso de Sísifo a ascender ao céu noturno, disseminando sua claridade sobre o breu. Um intenso espectáculo. A divina e majestosa, incontestável força da natureza. A noite, por alguns instantes… Transformou-se no dia. Os outros dourados encaravam o fenômeno estarrecidos. Eusébio era reduzido a pó, indistinguível dentro da turbulência. Aos poucos, os ventos cediam, acalmando o clima e deixando Asmita agir.

— Ciclo das Seis Existências!

Em conjunto com o virginiano, Aspros e Manigold lançaram sincronizados suas técnicas dimensionais sobre Vazquez e Theo.

— ONDAS DO INFERNO!

— OUTRA DIMENSÃO!

E assim, finalmente o exaustivo embate terminou. Enquanto os restos de Eusébio eram enviados ao Samsara por Asmita, Vazquez fora tragado para o Yomotsu por Manigold e Theo era jogado na infinita fenda atemporal de dimensões por Aspros. Os guerreiros deixaram-se abater pelo cansaço, sendo socorridos por servos e guardas. Ofegante, Sísifo foi de joelhos ao chão, fatigado, numa repentina tontura. Encarou o braço outrora imobilizado, agora apenas ferido e voltou sua atenção para Sasha… Que o fitava espantada. Sorriu, generoso. A menina fora retirada pelos servos a mando de Sage, que caminhou até o sagitariano, complacente.

— Parece que sua fé o recompensou mais uma vez... — Afirmou o ancião, discreto. — Vamos garoto, você precisa de cuidados, levante-se! Athena está segura graças à você…

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Castelo de Heinstein

Alemanha, Baviera

Próximo à fronteira da Áustria


Sem dúvida, era muito boa em esconder sua frustração. Mas para ele, era sempre uma árdua e dolorosa missão descobrir as intenções ocultas sobre aquele belo véu negro, mortal e traiçoeiro como a mais hipnótica das serpentes. No fundo, já não importava mais, ele sempre estaria ali, independente de qual fosse a posição ou o que viria a sofrer, era um dos três juízes do inferno, subalterno direto do deus Hades, abaixo apenas de Thanatos e Hypnos… Mas também abaixo dela. A dominadora. Aquela que está em posse do crescente exército negro de espectros, as 108 estrelas malignas à serviço do novo imperador, prestes a chegar. Era a general, a líder, a mente por trás da estratégia de guerra contra o Santuário e contra Athena. Muito mais que isto… Pandora era o laço direto com Hades!

Não era aconselhável lhe irritar ou desobedecer. Por mais bela e tentadora que fosse, aquela mulher carregava o mal original dos tempos mitológicos consigo, oriundo da primeira investida de Hades contra sua própria irmã e que originou todas as guerras santas que se desenrolaram até ali. Isto fazia de Pandora uma fonte da mais pura e caótica maldade, das mais profundas trevas já conhecidas. Com um dedo, qualquer um se dobrava à sua vontade, não importando o alvo. Nem mesmo Radamanthys de Wyvern era capaz de lidar com os ímpetos de sua rainha sombria.

Com um leve gesto, Pandora desfez o espelho cósmico em milhares de fragmentos que se dispersaram pelo salão, brilhantes ao desaparecem. Voltou sua atenção para o gigantesco vitral que refletia um irônico caleidoscópio esmaecido sobre o piso escuro, a contrastar com o breu em um humorado jogo de cores sob o luar. Porém não era aquele efeito que chamava sua atenção, mas outra coisa presente naquele antiquado vitral, algo que apenas ela guardava para si e ninguém mais. O espelho que conjurou era na verdade a visão do próprio Eusébio em batalha, em ângulos privilegiados, permitindo-a praticamente estar em batalha também, a examinar e notar cada detalhe possível em primeira pessoa. Porém, com a última morte do espectro, a conexão foi perdida e somente voltaria quando Eusébio retornasse à vida. O que já não lhe adiantava mais. A utilidade do espectro recém surgido terminou.

Incomodado, Radamanthys se pronunciou, estarrecido. Também estava a assistir à tudo junto dela.

— Senhora Pandora… O que houve? Eles precisam voltar à batalha! A missão de matar Athena ainda não terminou, vamos restabelecer a ligação e continuar antes que se recuperem…

— A batalha já acabou, Radamanthys… — Interrompeu Pandora, secamente. — A missão destes três era apenas invadir o Santuário, infiltrar-se em solo inimigo para que pudéssemos avaliar contra quem estamos lutando. Pelos olhos de Eusébio tivemos uma boa análise destes cavaleiros que defendem Athena, bem como do Grande Mestre e das instalações que protegem o templo, todo o esquema de segurança ao redor dele e a localização exata entre as montanhas. Não somente descobrimos seu intocado esconderijo, como também soubemos que a barreira cósmica da deusa não é capaz de deter nosso contingente. Fizemos um grande avanço com essa invasão.

— Mas algo me diz que você ainda não está satisfeita… — Comentou o juiz, servindo-se do melhor vinho sobre a vasta mesa de jantar, reflexivo. — Você não apenas converteu aqueles três pobres coitados do Santuário para integrar às 108 estrelas ou para, enfim, matar aquela menina, o que já era impossível e se já não bastasse, você ainda alertou nossos inimigos da nossa existência. Foi mesmo a melhor das decisões?

— Eles já sabem de nossa existência há tempos… — Afirmou a rainha, sentando em seu trono. — Não somente de agora, desses ataques recentes e a descoberta dos receptáculos de Athena e Hades na Itália, como também da guerra santa anterior, onde nosso imperador foi derrotado e os deuses gêmeos deram um fim à Athena. Aquele mestre foi o cavaleiro de câncer daquela geração, ele e seu irmão estiveram na linha de frente. Aquele ancião é uma grande ameaça! Mas respondendo à sua questão, decidi enviar estes espectros principalmente para causar temor, insegurança, medo e apreensão no Santuário. Para que possam testemunhar que as forças de Hades são capazes de lutar de igual para igual contra os cavaleiros de ouro.

— Uma declaração aberta de guerra!

— Exatamente! Com esta invasão, temos a primeira e verdadeira liderança depois das batalhas que travamos na Europa… — Explicou Pandora, ambiciosa. — Não há mais tempo para amenidades, Radamanthys, logo nosso imperador renascerá e preciso que tudo esteja sob controle para que ele não encontre as dificuldades iniciais em seu novo reinado.

— E a senhora acredita mesmo que toda essa escancarada iniciativa o agradará? — Questionou Radamanthys, em tom sarcástico. — E principalmente a Thanatos e Hypnos, que em breve estarão aqui?

Pandora podia ser poderosa, mas ainda sim não em nível divino como os deuses gêmeos ou seu senhor, portanto também tinha de obedecer às regras vindas de cima e seu propósito de abrir caminho para Hades seria analisado pelas duas deidades. No fundo, isso a incomodava, pois era dona de si e uma competente general que estava a fazer uma revolução, mesmo com os poucos recursos que dispunha. Era fácil ser julgada por Thanatos e Hypnos, seres imortais e gloriosos que não precisavam lutar ou sacrificar algo para obter a vitória e desconheciam suas dificuldades.

— O que faço no campo de batalha importa somente a mim… — Devolveu friamente. — Eles terão o respaldo positivo quando vierem até mim!

— Você sabe muito bem o que lhe pode acontecer caso os preparativos não satisfaçam aqueles dois! — Advertiu o juiz, zombeteiro.

— CHEGA, RADAMANTHYS! — Exclamou Pandora, irritada. O rompante da rainha fora tamanho que arrebentou a taça de vidro nas mãos de Radamanthys, estourando em inúmeros cacos junto da bebida. Surpreso, o espectro fitou a tensa expressão em seu olhar. Era óbvio que ela desejava ter o total controle de tudo… Assim como era óbvio que deveria parar de afrontá-la. Instintiva, a sombria levantou. — Tudo está correndo muito bem para a chegada de nosso querido imperador e nada, nada ficará entre ele e o sucesso de sua dominação. Temos muitos trunfos guardados, inclusive um deles acabamos de descobrir… E creio que será um dos melhores desta guerra. — Sorriu, discreta. Não pôde deixar de notar a fúria descomunal com que aquele cavaleiro de Sagitário defendeu Athena, indômito e raivoso, utilizando sua mais poderosa técnica contra um inimigo relativamente derrotado apenas para que ele não a tocasse. Seu nome era Sísifo. Ela trataria de guardar muito bem esse nome.

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Itália século XVIII
Monteriggioni- Siena


A vida é bela e deve ser celebrada e agradecida com toda intensidade, somos privilegiados por estarmos vivos e termos a oportunidade de passar por este mundo criado por Deus. A cada vez que ouvia palavras como essas ditas por seus mentores e por madre Beatrice, um buraco negro aumentava no peito de Alone, a vontade de gritar sua ira, revolta e frustração cresciam a cada segundo. Que incrível privilégio é ser um humano fraco? Um débil homem, marginalizado, tratado como lixo por aqueles que sentiam-se superiores, incapaz de proteger os que ama. Mesmo que Tenma lhe aconselhasse a pensar no bem estar de Sasha, em sua nova vida, a mente do loiro não se conformava. Haviam pontas soltas em toda aquela história. Homens que trajavam armaduras inteiramente feitas de ouro sabendo da existência de um local miserável como aquele e levando apenas uma das crianças deixando as outras à própria sorte.

Criado na rigidez da santa madre igreja católica apostólica romana, Alone sempre teve extrema resistência em prostrar-se de joelhos e rezar para um criador omisso e, mediante a atual conjuntura, essa postura vinha sendo consolidada e preocupando seus mentores e amigos. Era o mais puro ódio que tomava as esferas celestes quando havia mensura às vontades e propósitos divinos. Julgava um desaforo inclinar-se aos planos daquele que nunca olhou para si, mas provém a fartura na mesa da nobreza e burguesia. Conversas soltas já o intitulavam de anticristo e medidas extremas só não eram aplicadas devido a forte proteção de padre Magno e madre Beatrice, que defendiam-no, alegando ser apenas uma criança que perdera seu último familiar vivo para terras longínquas e não estava sabendo lidar com isso. Muito embora padre Magno soubesse o que se escondia dentro do menino.

A preocupação de Tenma só aumentava a cada dia, as outras crianças que outrora se acercavam de Alone, agora pareciam temê-lo e principalmente as menores. Era como se toda sua tristeza e desespero pela perda de Sasha estivesse aflorando em uma aura gélida. Não entendia como o amigo ainda estava vivo, pois recusava as refeições, recusava o sono e quase já não tinha palavras nem mesmo para ele. A aparência saudável que o loiro exibia, mesmo em condições precárias de um órfão, em pouco tempo deu lugar a uma figura esquálida, com olheiras acentuadas, a escassa fala saiu em sussurros. Em seu âmago, o castanho sentia que estava perdendo seu irmão, embora não soubesse definir ao certo para o que. Para a morte, para as trevas? Não importava, ele tinha que salvá-lo, precisava ver o Alone doce e gentil novamente, troçar de suas falhas habilidades sociais, do tolo rubor sempre presente nas maçãs de seu rosto.Oh, por Deus! Ele precisava ser forte naquele momento e arrancar o amigo daquela escuridão que enraizou-se em volta de si.

— Alone. — chamou suavemente, tocando de leve no ombro do amigo.

— Não deveria perder seu tempo comigo. — a franja longa cobria parte do rosto e o timbre frio não era familiar ao castanho.

— Você não é perda de tempo, é meu amigo. — clarificou Tenma, compadecido da dor do outro.

— Ouça o que as línguas do Esperanza estão a propagar a meu respeito. — um tênue sorriso amargo desenhou-se na face pálida. — Um anticristo, eles dizem, posso ouvir os murmúrios, sinto as pessoas se escondendo ariscas quando passo, como se eu trouxesse uma doença contagiosa. — riu pelo nariz, um misto de desdém e incredulidade.

— Alone… Você tem se recusado a ir à missa, queimou a sua bíblia, tapou os ouvidos e começou a repetir coisas estranhas quando os padres vieram lhe trazer a palavra. Eu compreendo a sua dor, mas as pessoas são beatas e supersticiosas, estão interpretando de forma equivocada. Por favor, seja mais cuidadoso, não deixe que as pessoas pensem que você não crê em Deus.

— Mas eu não creio! — a resposta veio de pronto e incisiva.

— Não diga uma blasfêmia dessas, se estamos vivos é…

— CHAMA ISSO DE VIDA? — Vociferou Alone, os olhos arregalados, as pupilas pequenas e uma expressão aterrorizante que o amigo só viu no dia da partida de Sasha. — Vemos crianças inocentes padecendo de fome, bebês sem ter o que comer, o que vestir, doentes sem medicamentos, enquanto alguns se esbaldam em ouro. ONDE ESTÁ A JUSTIÇA DESSE DEUS CRISTÃO? Somos todos seus filhos, mas o que prevalece é a lei do mais forte e ele só assiste e permite.

— Alone...— o castanho realmente não sabia o que dizer, não tinha maturidade para responder à altura, talvez nem os clérigos tivessem. — Ela está bem, em um lugar bom onde tem comida todos os dias…

— Qual é a nossa garantia? Sasha é jovem e bonita, existem muitos lugares que treinam garotas desde pequenas para…

— Não diga isso, por favor. Temos que acreditar, madre Beatrice e os padres não permitiriam que ela fosse levada por alguém que pudesse vir a lhe fazer mal.

— Você viu os trajes, a qualidade da carruagem, a boa raça dos cavalos, do homem que a levou? Se fosse uma pessoa boa não se compadeceria da situação do Esperanza e se prontificaria a fazer doações? — a observação severa do loiro fez Tenma engolir em seco.— Você entende? Ele esteve entre tantos pobres, bebês famintos, crianças à beira da morte, contudo, sua “caridade” foi direcionada apenas para minha bela irmã.

— Não, não… Não pode ser isso. — murmurou Tenma horrorizado.

— E não é! — a voz imponente de madre Beatrice foi ouvida, a idosa saiu detrás de uma das enormes estantes de livros, os olhos marejados e as mãos sobre o peito. — Não sofra mais por essa possibilidade cruel, meu menino. Aquele homem que levou sua irmã era um santo de Athena e a levou para um santuário.

Um momento de silêncio foi feito.

— Um santo de Athena? — Tenma murmurou oscilante.

— Athena… Como na mitologia grega. — Alone abrandou o timbre, como se procurasse compreender o que foi dito.

— Mitologia até onde os leigos devem saber... — respondeu a mais velha.

— Como assim, não entendo? — indagou Tenma, perdido.

— Na mitologia grega, Athena é a deusa da sabedoria e da guerra, protetora da Terra, escolhida por Zeus. — esclareceu Alone. — Os santos de Athena são leais cavaleiros que abdicam de suas vidas para servir a deusa até a morte, mas isso são apenas...— iria completar sua fala, mas leu a seriedade nos olhos da madre.

— Lendas? Não são apenas lendas, é real. Sua irmã foi a escolhida para nascer como receptáculo da deusa Athena, sei o quanto você a ama, mas agora ela deve se preocupar com a Terra como um todo.

— Deveria ser...— começou Alone em voz trêmula, entrecortada. — sua fala deveria ser considerada uma blasfêmia ao seu deus cristão, o qual a igreja nos doutrina para aceitar como único. Eu não, não posso acreditar nesse absurdo, não aceito!

— Na teoria deveria ser mesmo uma blasfêmia, mas aprendia que nossa igreja mantém a ordem através da disciplina da fé. Imagine o quão desesperador seria para as pessoas mundo afora, saber que uma guerra se aproxima?

Tenma estava abalado, paralisado, sem saber como reagir, enquanto a conversa absurda se desenrolava entre o amigo e a madre.

— Não aceito, não permito, não aceito...— Alone murmurava como se estivesse entrando em um transe. — Não ela! Que se dane as lendas, os mitos, as profecias, ela é só a Sasha, minha doce irmã. Minha irmã, minha… A única coisa que eu tenho neste mundo miserável, não aceito que seja assim!

— Entenda querido, ela não te pertence, nasceu para um propósito maior e será treinada para tal, a única coisa que lhe resta é orar para lhe dar forças. — madre Beatrice foi dura, bem mais do que deveria ser.

O ar pareceu congelar e por alguns momentos tanto a idosa quanto Tenma não puderam respirar, sendo abatidos por uma sensação vertiginosa que os fez dobrar os joelhos. Não havia brisa no local, mas uma rajada pesada de energia espalhou as pinturas pelo ambiente. Com as cabeças pesadas e pressão sobre os ombros, tanto o castanho quanto Beatrice se forçaram a fechar os olhos. Quando abriram e conseguiram se recuperar, Alone já não estava presente.

Demorou um instante até que Tenma conseguiu se colocar de pé e se acercar da idosa, preocupado. As informações recebidas ali ainda conflitavam em sua mente infantil. No dia da partida da amiga apercebeu-se de uma energia poderosa vinda da figura imponente que a levara, não sentiu o perigo, pelo contrário, era uma força acolhedora, encorajadora, uma aura imponente, mas não opressora, arrebatadora. Aquilo bem poderia ser verdade, Sasha conseguia cativar até os animais mais ariscos da floresta e apaziguava brigas mesmo dos garotos mais velhos, estava sempre pronta a se sacrificar pelos outros, era justa e muito sábia para sua pouca idade, ela era deveras especial. Porque não uma deusa destinada a proteger o mundo?


— Madre, a senhora está bem? — questionou preocupado.

— Não podemos deixar. — esbaforida, articulou com dificuldades. — Precisamos salvá-lo, somos tudo o que ele tem neste mundo!

— Madre, a senhora sentiu? — apertou a mão trêmula e fria da idosa. — O que aconteceu aqui?

— Querido… Você ama muito Alone? O ama como se fosse seu sangue? Seu irmão?

— Sim, como se fosse meu irmão, os dois…

— Ele vai precisar deste amor, vai precisar dessa força, essa garra que você possui. Vá atrás dele. Resgate-o de si mesmo, não o deixe se afundar em trevas e sucumbir a elas.

— Mas e a senhora?

— Ficarei bem, vou cozinhar algo para vocês. Agora vá, meu filho, dê o seu melhor!

O castanho anuiu com a cabeça levantando-se abrupto, passando por toda a bagunça de telas e tintas esparramadas pelo chão, tendo sua atenção roubada pela coincidência da tinta vermelha respingada sobre pinturas feitas de crianças do Esperanza e pessoas da cidade, um calafrio percorreu por sua coluna e fez o corpo estremecer. Havia um temor extremo, um mau presságio em seu peito, mas não que isso o intimidasse a ponto de impedir sua corrida de encontro ao amigo.

━━━━❰・❉・❱━━━━

Do alto das fartas formações rochosas, Alone abriu as orbes azuis, antes celestes, agora tomadas de um tom anil embaçados pela dor. As águas revoltas do rio desciam a queda d'água e atritavam-se ruidosas, o céu sendo preenchido de nuvens negras, pesadas. Ele poderia jurar que todo o caos interno que tomava os recônditos de sua alma, pareciam aflorar sendo refletido na natureza. Seu olhar se fixou na tormenta das águas, os punhos cerrados, os trajes escuros em contraste com a cabeleira loura, ambos a esvoaçar com a ferocidade do vendaval que o circundava, raios iluminando os céus e trovões rugindo sonoros. Sua mente não conseguia processar; Sasha era sua, sua herança, seu tesouro, jamais poderia aceitar que ela sucumbisse a uma deusa mitológica para salvar um mundo imundo, apodrecido, nocivo, jamais poderia concordar que sua amada fizesse tal sacrifício. Sempre fora fraco, adoecia com facilidade, deixando-a preocupada, era o mais velho, mas sempre esteve aos cuidados dela. Queria fazer diferente, queria ser forte, viu em seu talento para pintura um meio de dar a ela um futuro digno, mas seus planos foram frustrados.

— EU NÃO QUERO SER UM FRACO! NÃO QUERO SER UM FRACO! NÃO QUERO SER UM FRACO! — vociferou mais alto que os raios e trovões, que a quebra da correnteza nas pedras.

Seu lamento fora intenso, retumbante, atravessou o coração de Kagaho como uma fina adaga envenenada e o fez lembrar-se de seu amado e frágil irmão que abriu mão da própria vida para não ser um peso para ele. A Estrela Celeste da Violência, espreitava seu futuro mestre e de certa forma se compadeceu da dor de seu receptáculo, viu nele o reflexo de Sui, o desejo latente de ser mais forte. Lembrou-se de épocas turbulentas onde tinha que lutar para que ambos tivessem o que comer. Após a morte de seu irmão fora como se a vida perdesse o sentido… Até aceitar lutar por Hades.

Furtivo, o espectro aproximou-se do garoto, era nítido que o poder desgovernado começava a despertar e sem controle, levado pela falta de esperança e amargura. Temia que Alone repetisse o mesmo que seu finado irmão. Cauteloso, tocou-lhe o ombro e recebeu um olhar ressabiado. Kagaho era naturalmente rude e bem sabia de sua falta de tato, mas buscou em seu íntimo toda cordialidade para não assustar o garoto.

— Não é um lugar seguro para admirar a correnteza, pode escorregar e encontrar um fim precoce.

— Ah, você novamente. — murmurou o loiro, amargo. — Não se incomode com o que vier a me acontecer, eu mesmo não me importo, já perdi tudo e não tenho motivos para suportar este mundo.

— Então não o suporte, mude aquilo que não lhe agrada. Você mais que ninguém tem as ferramentas para isso. — passou seriedade, os olhos fixos ao do outro.

— Mudar o que não me agrada? — secundou abismado. — Eu jamais poderei ter de volta aquilo que me foi roubado. — suspirou frustrado, sem saber o motivo de estar a desabafar com um estranho. — Você não faz idéia do tamanho do poder daqueles que a levaram.

— E você não faz idéia do tamanho do seu poder! — clarificou Kagaho.

Os olhares se prenderam, Alone esperando oscilação da parte do estranho e Kagaho mantendo firme sua afirmação. Um raio iluminou a escuridão do céu chuvoso. O loiro sorriu, não saberia dizer o motivo, mas aquela frase foi inspiradora, em todos os anos que foi catequizado pela igreja jamais experienciou uma motivação e uma crença quase palpáveis. O loiro se viu entre dois caminhos a seguir; um ele aceitava ser um perdedor e nunca mais veria sua irmã, outro ele poderia aceitar o que o espectro lhe oferecia, ele não sabia de fato o que era, mas era bem mais tentador. O estranho ofereceu a mão para tirar o menino do perigo de uma queda e este aceitou.

Ambos caminharam sob o temporal, cruzando a relva encharcada e o chão lamacento, até Kagaho abrir os arbustos e apontar em direção a uma catedral envelhecida cercada por uma natureza morta, árvores velhas apodrecidas, a impressão era de que mesmo insetos e animais não se atreviam a entrar ali. Alone estranhou a ausência de medo em si e continuou a seguir o estranho como se aquilo fosse o certo a se fazer. Kagaho abriu as portas da catedral e um padre loiro conhecido de Alone, por já ter ido contemplar suas pinturas, prostrou-se no chão em uma reverência respeitosa.

— Seja bem vindo jovem mestre, estive à sua espera... — cumprimentou deixando Alone sem resposta.

— Não se prenda a míseros detalhes, venha ver o que te espera. — chamou Kagaho, guiando o menino para um imenso salão repleto de telas em branco e toda variedade de tintas.

— Isso é? — balbuciou o menino.

— É seu, para pintar um mundo à sua maneira e realizar a sua vontade. — explicou o cavaleiro de Benu. — Ainda leva consigo o pincel que lhe presenteei?— Alone anuiu procurando o objeto e o exibindo. — Então use-o e imponha seu desejo à este mundo.

Alone tinha que extravasar sua ira e dor, eram telas a se perder de vista e ele não perdeu tempo, ignorando o fato de estar molhado, entre estranhos, ignorando a prudência. A medida que seu coração enegrecido conduzia sua mão a pintar, à sua volta tragédias iam acontecendo.

(...)

Dois agonizantes dias, foi o prazo pelo qual Tenma procurou pelo amigo. Quase sem parar para se alimentar e somente dormindo ao prostrar-se de cansaço à beira do velho fogão de lenha do Esperanza. O loiro desaparecera sem deixar rastros, alguns diziam que algum animal selvagem podia tê-lo devorado, outros cogitavam que o menino se jogara na forte correnteza das águas revoltas do rio, por não suportar a ausência da caçula. Havia até mesmo quem declarava que a criança fora punida por Deus após tê-lo afrontado e queimado o livro sagrado. Madre Beatrice e os eclesiásticos temiam que Hades tivesse possuído o garoto de vez e, que ele fora levado pelos espectros, seu coração de mãe estava fragmentado, sangrando pela perda de seu filho.

Neste período Monteriggioni estava em declínio. Não havia colheita, misteriosas pragas de insetos devoravam todo estoque de comida dos moradores e camponeses, doenças misteriosas abatiam os aldeões, todos os peixes do rio morreram e foram jogados para a margem, se acumulando em pilhas de carne pútrida imprópria para o consumo. As belas vielas, antes cheias de vidas, agora eram sonorizadas por gemidos, choros e lamentações. Moribundos expressando suas dores, pais chorando a perda de suas crianças, crianças tornando-se órfãos famintos e adoentados. As pessoas estavam sucumbindo ao desespero, abandonando a fé cristã e revelando sua verdadeira natureza, fazendo o que tivessem de fazer para garantir a própria sobrevivência, saqueando, matando, subjugando os mais fracos que antes eram vizinhos, amigos, padrinhos de seus filhos.

No terceiro dia, madre Beatrice se opôs a permitir que o castanho saísse à procura do amigo. Ela temia perder mais um de seus filhos. A tempestade que se iniciara no dia da partida de Alone permanecia severa, agravando as condições. O estoque precário de alimentos do Esperanza fora reduzido apenas a batatas. A única cabra leiteira que alimentava os pequenos padecera adoentada. A idosa tentava se manter firme em sua fé, mas essa já estava a titubear.

Contrariando a imposição da velha madre, Tenma escapou do orfanato e voltou a buscar por Alone, passando pelos mesmo lugares os quais já tinha percorrido, se chocando com os horrores que vira em Monteriggioni. As pessoas pareciam animais selvagens, violentas e perigosas, ele teria sido vítima de barbáries se não tivesse tanta força e agilidade. Aturdido e quase sem esperança de encontrar seu irmão, um súbito calor lhe aqueceu o peito e em meio a todo o caos da aldeia, as lembranças daqueles dias de contentamento lhe vieram à mente, em especial o dia do Festival das Flores. O momento que saltitava alegre, segurando as mãos de Sasha e Alone. Instintivamente tocou a pulseira de flores que a amiga o presenteou e fechou os olhos, descansando naquele calor. Por alguns minutos ele fechou os olhos na esperança de regressar ao passado e suspirou pesaroso, ao abrir as orbes castanhas a visão turva, embaçada pelas lágrimas, identificou a imagem desfocada de Alone, aos poucos ganhando nitidez.

— Alone… — o castanho sussurrou incrédulo, ponderando ser sua imaginação, uma vez que três dias se passaram e o amigo estava com trajes limpos e alinhados, do mesmo jeito de quando o viu pela última vez. — É você mesmo? — caminhou hesitante em direção ao loiro.

— Sim amigo. — ofereceu um sorriso assustadoramente sereno, uma vez que estavam em meio ao caos e sofrimento, inclusive de crianças a agonizar em seus últimos suspiros em meio a lama e a chuva, buscando por seus pais. — Quem mais seria?

— É... — concordou Tenma, sem saber se aquilo era certo ou fazia algum sentido, mas afinal Alone estava vivo, estava bem, é o que importava, não? — Vamos voltar para Esperanza, Madre Beatrice está muito preocupada!

O loiro anuiu com a cabeça, aquele sorriso tranquilo ainda lhe enfeitava a face pálida, mas Tenma podia jurar que o azul de seus olhos estava mais escuro, talvez ele só estivesse cansado, faminto e vendo coisas, seu amigo estava consigo e apesar dos tempos difíceis, o castanho tinha esperança de que tudo voltaria a ser como antes.


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Santuário da Grécia

Uma Semana Depois…


Tormentas nunca foram fáceis de se atravessar. Ainda mais quando eram precedidas por fases atribuladas, cheias de dúvidas, medos, tensões, desconfianças e inquietações. Quando a paz é quebrada, o temor impera, como um mal que aos poucos impregnava nas veias daqueles que outrora viviam felizes com a plenitude dos calmos tempos. O Santuário já não era mais o mesmo durante aquela semana após o atentado contra Sasha. As alegres vozes agora eram murmúrios e sussurros de receio, os servos carregavam pesados semblantes de horror e descrença, pesar e luto pela morte das vítimas do ataque dos três espectros. Não se haviam mais músicas, os banquetes eram insípidos, o vinho perdera o sabor, o terror era presente em todos os corações. Jaga de Órion e os outros cavaleiros de prata que defendiam os portais naquela noite e foram massacrados, eram velados e sepultados no imenso memorial das secretas colinas de Star Hill. Tudo era doloroso demais para se seguir em frente… E Sage sabia disto.


O ancião já sabia bem dos estragos que uma guerra santa era capaz de causar. Mas para ele, aquilo era uma nova e traiçoeira ameaça, pois por mais que aquele ataque havia sido escancarado, seu oculto significado ainda não era claro. Ele tinha certeza de que aquilo fora premeditado para incitar e provocar o pavor dentro do templo, para semear a discórdia e dúvida dos guerreiros perante a imagem tanto dele próprio… Quanto Athena. Se nem ele e a deusa eram capazes de proporcionar a proteção de suas vidas… Como continuariam a lutar? Por mais que um cavaleiro jurasse sua vida à Athena, a intenção nunca era morrer por ela, mas sim viver por ela. Viver para defendê-la. Mortos eles não teriam serventia alguma, em todos os quesitos, afetivos e militares. Cada jovem formado como cavaleiro era como um filho para ele, para a deusa e para o Santuário.

Aquela bárbara e grotesca demonstração os assustou, a todos. Eusébio, Vazquez e Theo haviam se transformado em monstros, aberrações, demônios disformes, se reconstituindo como zumbis e vítimas de uma poderosa lavagem cerebral. Eram cadáveres ambulantes a serem manipulados. Era tudo o que um aspirante à cavaleiro jamais queria ser. Era a destruição de seus sonhos!

Na arena onde outrora ocorreu o mágico Anagennisi e depois fora palco de tamanha tragédia, restava o cenário isolado pelos guardas e selado pelos talismãs sagrados de Sage, que ativaria a impenetrável Gaiola Talismã para aprisionar os três renegados quando estes voltassem à vida. O problema era que havia uma semana que não retornavam das respectivas dimensões aos quais foram lançados. Era como se de fato houvessem falecido de vez. Para o Grande Mestre, agora tudo estava claro: Aqueles três já não tinham mais serventia para quem os enviou, não valia à pena os trazer de volta já que não conseguiriam eliminar Athena… Ou mesmo causar ainda mais problemas para o Santuário. E assim a antiga memória dos três cavaleiros de prata agora era manchada de trevas e incertezas.

Finalmente Tokusa, o discípulo mais fiel de seu irmão Hakurei e que estava a espionar as atividades dos espectros há muito tempo, chegou ao templo e numa reunião particular com Sage e seu conselheiro Degél, revelou todas as informações obtidas nos longos meses na linha inimiga e à mando de Hakurei, levou-lhes a preciosa armadura de Altar para que ficasse sob a guarda de Sage quando fosse necessária. Tokusa só confirmou os piores medos do ancião. Também informou que uma incomum série de catástrofes naturais estava a assolar a costa da Toscana, na Itália, bem próximo à Siena, castigando vários vilarejos ao redor… E dentre eles a terra natal da menina Sasha, Monteriggioni.

Os eventos cataclísmicos incluam pesadas tempestades, muitas tsunamis sobre as regiões costeiras, intensas trovoadas que causavam incêndios em áreas florestais, erupções repentinas do núcleo quente a matar a vida selvagem e dizimar plantações e por fim, uma estranha e súbita praga que atacava os moradores. Tremores destruíram os centros e casas, a matar e tirar lares de inúmeros infelizes. Todas as tragédias ocorreram dentro daquela mesma semana após o combate contra os renegados. Todos os indícios e atenções apontados para o palco principal das apostas: O orfanato Esperanza… Um menino especial que fora deixado para trás. Alone. Irmão de Sasha. O garoto pintor de um talento nunca antes visto. Aquele cujo verdadeiro poder também os atraiu… E não somente à eles…


Após a partida de Tokusa, Sage se reuniu junto a Degél e outros conselheiros para decidir o que seria feito. Seria arriscado a participação dos outros santos diretamente envolvidos com o Santuário e para tal missão, deveria haver um homem de valor, de total confiança e principalmente, dotado de inteligência e habilidade para adentrar o terrível território em que Siena se tornou. Um homem que não temesse o perigo, mas que soubesse escapar sem causar danos colaterais, sem prejudicar o Santuário, sábio o suficiente para determinar o momento de agir. Havia um homem assim, entre eles. Um guerreiro feroz, mas igualmente justo e honrado, cujo o maior poder era a lealdade e amizade tanto com o templo e Sage como seu irmão de batalhas, Shion de Áries. A balança perfeita, o equilíbrio entre a brutalidade e a sabedoria. Seria ele… E ninguém mais. O tigre com os punhos de cem dragões.


(...)


Dohko não poderia estar mais ansioso. Ponderado, não era a primeira e muito menos a última missão de campo, num ambiente hostil, já era altamente experiente e já testemunhou mais do que seus vigorosos 18 anos podiam ter. Mas aqueles eram novos tempos. O mal assumia uma nova forma, assim como o bem. Por mais brutal e sangrenta que a guerra santa anterior tenha sido, quando Sage e seu irmão tiveram vitória sobre Hades e as fadas do submundo, aquele momento era diferente. Era uma nova experiência. Um novo e promissor desafio.

Adentrou confiante a sala do trono. Trajado com sua respectiva armadura dourada de Libra, caminhou firme e resoluto até o Grande Mestre, parando à sua frente e lhe reverenciando, respeitoso. O chinês de aparência calma e reservada fitou o atento olhar de seu senhor, seguro daquilo que em instantes lhe seria solicitado.

— Dohko… — Iniciou Sage, agradecendo-lhe com a cabeça a cordialidade. — Tenho uma missão para você. É algo delicado demais para que qualquer precipitado seja enviado e seu nome foi o primeiro a ser apontado devido à sua experiência em lugares extremos.

— Sim, Mestre Sage! — Devolveu o libriano, sorridente. — Mas em que devo ajudar?

— Como você mesmo presenciou, fomos atacados por nossos próprios aliados… — Explicou Sage, em tom de lamento. — E este poder é concedido por uma força vinda diretamente de Hades. Segundo o discípulo de meu irmão, uma mulher chamada Pandora é a líder atual que está a administrar essa força. Foi confirmado que muitos espectros estão estabelecidos na Itália, mais precisamente nas regiões da Toscana, formando um cerco em Siena e nas vilas ao redor de um único ponto: Monteriggioni, o vilarejo da menina Sasha. Lá também reside seu irmão, Alone, que estou a lhe passar os dados e arquivos que levantamos até este presente momento… — Um dos servos entregou ao dourado uma rústica pasta de couro com alguns documentos no interior, manuscritos e uma ficha da criança. — Bom, Sísifo nos relatou que no dia em que levou Sasha embora, aquele garoto despertou um divino e ao mesmo tempo profano cosmo, e até muito antes disto já vinha a demonstrar uma energia tão poderosa quanto de nossa Athena. Recentemente, nesta semana, uma sequência inexplicável de tragédias naturais abateram Siena, isolando, castigando e matando muitos moradores das regiões e em principal este vilarejo. Uma doença, uma peste devastadora também caiu sobre aquela gente, os tornando hostis e animais, além de lhes privar de sustento e alimentos. Degél conseguiu falar com a diocese local… E concordaram com nossa ajuda, desde que não levemos um grande contingente para causar distúrbios. Um único valente basta para viajar até lá! Preciso que você encontre Alone e verifique duas coisas: Se este menino é responsável por todas as catástrofes e a que circunstâncias ele está, diante da proximidade dos espectros que provavelmente o protegem. Vamos ajudar esse garoto… O que me diz, nobre tigre?

— Conte comigo, Mestre Sage! — Exclamou Dohko, prontamente.

— Obrigado, meu amigo… Mas tenho um pedido e uma recomendação a lhe fazer antes de partir… — Suspirou o ancião, pesadamente. — Você não irá totalmente sozinho…

— E qual será meu bravo colega de viagem? Shion, Degél, Hasgard, seu antigo pupilo Manigold…?

— Eu diria que alguém bem menos experiente… — Brincou Sage. — Uma amazona…

— Bom, possuímos boas guerreiras, habilidosas e…

— Uma aprendiz! — Concluiu o ancião, cortando Dohko que o fitou incrédulo.

— Isto é sério? — Indagou o chinês, perplexo, após alguns instantes de um tenso silêncio e olhares inquietos. O Grande Mestre só poderia estar brincando, querendo um pouco de alegria para espantar a pesada tristeza, apesar de ser uma péssima piada de mau gosto. Dohko estava a aguardar a risada de Sage para confirmar que aquilo não passava de uma peça. Permaneceu calado, pronto para rir.

— Totalmente sério! — Confirmou Sage, mais firme.

— Está mesmo a querer mandar um de nossos jovens prodígios em treino para uma verdadeira zona de guerra? — Questionou o libriano, percebendo a seriedade da situação. — Estas garotas ainda são muito jovens para confrontar o real terror!

— Sei disso, Dohko… Mas não foi uma decisão tomada por mim e sim pelo conselho, que confesso ter feito sentido até para mim depois de ouví-la. Você se aproximará de Alone… Mas depois de Sísifo, duvido muito de que o menino colabore com outro enviado do Santuário e apenas uma alma semelhante à dele terá mais chance de o desarmar e fazê-lo se render. Apenas uma criança como ele para lhe compreender e chegar ao seu coração.

— E estarei indo também para proteger esta aprendiz… Mas quem será enviada? — Perguntou o libriano, curioso. — Enviarão minha aprendiz comigo por termos nosso elo de professor e aluno? Já aviso que Lyu é durona e não é de se dar por vencida facilmente.

— A sua aspirante à amazona de dragão é sem dúvida muito forte, corajosa e destemida… Mas preciso de alguém mais doce, gentil, compreensiva e passional para chegar até Alone. Alguém romântico e idealista, que saiba omitir a crueldade deste mundo!

— Espere um pouco, Mestre… — A expressão no semblante do chinês não podia ser outra. — Está dizendo que pretende enviar a aluna de Asmita comigo?

Sage permaneceu mudo, a consentir.

— Senhor… Isto não tem muito como dar certo! — Exclamou Dohko, analítico. — Esta menina é muito sonhadora, brincalhona, tagarela e está sempre a inventar finais inexistentes para as tradicionais tragédias gregas. Certo dia a flagrei alterando o conto de Perseu e a Górgona para os pequenos no templo, afirmando que Athena havia perdoado Medusa e a acolhido em seu templo para ser sua sacerdotisa, livrando-a da maldição para que se casasse com o herói. — Dohko não evitou a espontânea risada. — É uma romântica incorrigível e sensível demais para visitar o inferno de Siena, podendo até me desobedecer. Deixe-me levar Lyu, ela também terá sucesso!

— Peço que confie em Sophie, caro Dohko, e neste doce espírito que ela carrega. Estou bem ciente dos riscos de levá-la para a Itália, e por isso não há candidato melhor que você para que a pequena romântica possa interagir com Alone em segurança, discreto e sem alarmar os espectros e esta Pandora… Se descobrirem nossa intenção de levar Alone, estaremos dando chance para que nos ataquem sem aviso prévio novamente e sinceramente… Posso lhe afirmar o quanto estamos despreparados para uma nova investida, mesmo com nossa atual força. Além disso, Sophie é tão determinada quanto sua aluna e tenho certeza que lhe surpreenderá! O que me diz?

— Bem… — Conformou-se Dohko, num suspiro. — Mãos à obra!

(...)

Após discutir algumas formalidades e prioridades, o libriano se despediu respeitoso e partiu, deixando o salão. Porém não esperava pela pequena surpresa a qual esbarrou sem querer, não enxergando-a à sua frente, bem ao lado da porta de entrada. Olhou ligeiro para baixo, confuso. Fitou a menina com uma atônita expressão.

A garota, de madeixas escuras e presas numa longa trança que pendia até sua cintura, por trás da tradicional máscara que lhe cobria o rosto como todas as amazonas, encarava seu mestre. O típico traje mirim de combate, básico, com as respectivas ombreiras, peitoral, cinto e caneleiras finalizadas em botas de couro duro, era mesclado a um charmoso e antigo quimono esmeralda sob a proteção, adornado por detalhes dourados que apesar de muito simples, caía muito bem para a criança. A veste era uma tradição de seu povo, coincidentemente o mesmo de Dohko, e indicava de longe a origem da esforçada Lyu.

Lyu nascera na China, nos remanescentes do antigo clã Takamuko da dinastia Cao Wei, conhecidos por sua tradição folclórica e ancestral de espiritualidade e habilidade de combate. Aos cinco anos, fora enviada para a Grécia para ser educada e treinada no lendário Santuário após a decisão de seu pai, um dos extintos líderes de exército do imperador Wen, de que a única filha deveria levar adiante a cultura dos Takamuko para além das terras chinesas, a fim de manter o legado do clã. Desde muito nova, Lyu sempre demonstrara coragem e resistência em contraparte às suas outras irmãs, além do dom natural para a cosmo energia, o que também influenciou na decisão do pai. A menina caíra direto para a turma de alunos de Dohko de Libra e desde então têm crescido e treinado com seu espirituoso, porém nada ortodoxo e comum mestre.

— Mestre Dohko… — Balbuciou Lyu, reunindo coragem para indagar seu professor. — O senhor… Sairá em viagem?

— Sim, Lyu. — Respondeu o dourado, suspirando fundo. — Você… Estava a me aguardar aqui fora? Por acaso ouviu sem querer a minha conversa com o Grande Mestre?

— N-não… — Exasperou-se a menina, num tímido mas notável rompante. — M-mestre Dohko, eu jamais faria isto… Desculpe se surgi assim…

— Está tudo bem, minha pequena! — Sorriu Dohko, complacente, a lhe acariciar a cabeça. — É bom que você tenha escutado, pois teria sido a primeira a saber de que vou partir para a Itália, para um lugar difícil, e vou levar a pupilo de Asmita comigo por pedido do mestre Sage. Eu já iria deixá-la a par! Desculpe não ter sido você, eu bem que tentei, mas… — O dourado coçou a cabeça, divertido e contrariado.

— Não se preocupe, Mestre Dohko! — Afirmou Lyu, convicta. — Poderá partir tranquilo com Sophie, ficarei bem a continuar meus treinos e disciplina. Confie de que tudo estará sob controle com nossa turma.

— Tenho certeza disso. Posso pedir para que auxilie os professores de prata com os mais difíceis? Você é a melhor dos meus prodígios e sei que na minha ausência, poderão dar algum trabalho.

— Será uma honra! — Exclamou Lyu, curvando-se levemente para reverenciar seu mentor. — O senhor… Voltará quando?

— Em uma semana, com um garoto que acolheremos aqui no templo. Até lá, lhe deixarei com isto… — Dohko entregou um pequeno colar de ráfia, rústico, adornado apenas com um cintilante e minúsculo pingente no formato de uma pata com garras afiadas, surpreendendo a chinesa.

— Senhor… Isto é o colar do Pequeno Tigre, a matriz de liderança que você só confere a quem está em nível muito mais alto que o meu!

— Você já está a atingir este nível, e a me deixar muito orgulhoso, com esse símbolo os meninos respeitarão você sem precisar da força. Carregue-o consigo sempre e assim que eu voltar… Você me entrega, tudo bem?

— Sim, Mestre Dohko! — Concluiu a garota, emocionada.

Com um carinho em seu cabelo, o libriano a deixou, sem acrescentar nada a mais. Apenas uma promessa, apenas um adeus.

신◈기◈今天


— CÓLERA DO DRAGÃO!

A poderosa rajada de seu esverdeado cosmo serpeou veloz contra as rochas, detonando-as em migalhas com vigor. O som das explosões ecoava pelo vale rochoso, mas ela não se importava, estava além dos domínios do templo, numa área mais alta onde o céu era mais limpo e a visão era magnífica. Poucos conheciam aquele lugar onde bravas árvores secas nasciam do raro verde entre as pedras. Um córrego descia por ali, a trazer uma efêmera vida à árdua paisagem. Era um local de difícil acesso, apenas para os mais corajosos. O que verdadeiramente não faltava para ela.

A tradicional máscara prateada, com detalhes verdes junto à monocromática cor, estava jogada junto à uma pedra, onde o restante de seu material de treino repousava. Ela não queria ter aquele selo a lhe suprimir, impedir de deixar suas lágrimas rolarem soltas como não fazia em muito tempo. Precisava de senti-las a escorrer pelo rosto livre. O belo e delicado semblante de harmoniosas feições estava vermelho, sua pequena face estava inchada e os finos e puxados olhos eram indistinguíveis sob a abundante água proveniente deles. Tudo o que Lyu enxergava era inconformidade… E muita fúria. Uma torrente.

— CÓLERA DO DRAGÃO!

Vociferou novamente, destruindo outra

rocha com seu dragão cósmico, a causar tremores e abrir fendas no petrificado solo. Não! Aquilo não estava sendo o suficiente para lhe apaziguar, para fazer esquecer o remorso, sentimento, flagelo, paixão… Amor. Estava descontrolada, a queimar seu cosmo como se estivesse numa guerra. Não conseguia suportar aquela raiva, aquele desapontamento. Seu bom senso e disciplina, marcas registradas de seu ser, deram espaço a um intenso e doentio ciúmes. Por que não fora ela? Por que não a própria aluna, fiel ao seu mestre? Por que outra tinha de viajar ao lado dele… Conhecer outros lugares do mundo, experimentar novas oportunidades e passar cada segundo daquela épica vivência junto dele, não sendo ela própria? Sophie era uma ótima pessoa, mas não lhe dava o mérito de sair com Dohko! Tinha de ser ela, somente ela! Isso era inaceitável!

— CÓLERA DO DRAGÃO!

Desta vez o ataque fora tão pesado que explodiu uma série de rochedos à beira do desfiladeiro mais próximo, arremessando uma chuva bruta de pedras e poeira contra outros picos menores, mais abaixo, espantando rapidamente vários coiotes desnutridos que estavam a caçar as aves do lugar. Num ligeiro instante, a chinesa parou de concentrar seu cosmo e cessou sua violência, percebendo a besteira que cometeu. Correu aflita para a margem, com o coração acelerado e o suor frio a lhe tomar. Aguçou sua visão para os escombros ao fundo, verificando se soterrou algum animal. Respirou aliviada ao notar os carniceiros a driblar e fugir por entre as fissuras, em uivos espontâneos.

Seu peito doía. Ela precisava parar com aquilo. Sabia o quão absurdo era aquele sentimento por seu mestre, inclusive sabia que era apenas uma criança e que seu mestre a tinha como uma filha, como uma aluna, uma flor que era regada para crescer e futuramente frutificar. Dohko era seu porto seguro, sua mais forte rocha na qual confiava e à sombra se resguardava, lhe dando proteção e força para seguir. Mas o libriano era somente seu professor e acima de tudo, somente um homem. Lyu tinha realmente de esquecer que o amava… Mais do que como uma aprendiz.


Notas finais
Notas Finais Vitrine dos Golds apresenta: DOHKO DE LIBRA - O lendário mestre ancião dos cinco picos antigos de Rozan e cavaleiro de ouro da constelação de Libra. ⊶⊷⊸⋆⊶⊷ Dohko de Libra (天秤座の童虎, Raibura no Dōko) fora um lendário e renomado Cavaleiro de Ouro do Santuário de Athena por ter lutado e sobrevivido a Guerra Santa contra Hades no Século XVIII ao lado de seu parceiro de batalhas, Shion de Áries. Após o fim do conflito e ser incumbido por Athena de vigiar o selo que aprisionava os espectros do Imperador dos Mortos, Dohko ficou recluso nos Cinco Picos Antigos de Rozan até o Século XX, período que passara a ser venerado como Mestre Ancião (老師, Rōshi) e, ao mesmo tempo que mantinha sua vigília, treinou Shiryu, que se tornaria o Cavaleiro de Bronze de Dragão. Dohko de Libra (天秤座の童虎, Raibura no Dōko?) fora um lendário e renomado Cavaleiro de Ouro do Santuário de Atena por ter lutado e sobrevivido a Guerra Santa contra Hades no Século XVIII ao lado de seu parceiro de batalhas, Shion de Áries. Após o fim do conflito e ser incumbido por Atena de vigiar o selo que aprisionava o espectros do Imperador dos Mortos, Dohko ficou recluso nos Cinco Picos Antigos de Rozan até o Século XX, período que passara a ser venerado como Mestre Ancião (老師, Rōshi?) e, ao mesmo tempo que mantinha sua vigília, treinou Shiryu, que se tornaria o Cavaleiro de Bronze de Dragão. Depois de descobrir que Saga de Gêmeos havia tomado o lugar de Shion como Grande Mestre do Santuário, Dohko auxilou seu discípulo junto de seus demais amigos em inúmeras ocasiões a fim de impedir os planos do Cavaleiro renegado de dominar o mundo bem como fora um dos principais articuladores para desmascarar sua farsa. Com a derrota e morte de Saga, Dohko fora escolhido como líder do Santuário em meio ao "novo despertar" de Poseidon e seus marinas. Mais tarde, com ressurgimento de Hades e seus espectros, Dohko decidiu voltar ao campo de batalha uma última vez e reassumiu seu posto como Cavaleiro de Libra. Após a destruição do Santuário na primeira etapa da nova Guerra Santa, Dohko se juntou aos Cavaleiros sobreviventes para invadir o Submundo e destruí-lo completamente, confrontando Shion renegado e instruindo Shiryu e os outros, no sacrifício final para derrubar o Muro das Lamentações e liberar caminho para os Campos Elíseos e para a vitória de Athena. 'Dohko' (童虎) é uma palavra de origem tanto chinesa quanto japonesa que literalmente significa "pequeno tigre", "criança tigre" ou "filhote de tigre". O nome em si faz referência ao mito chinês "A lenda de Naiya" ao qual Kurumada parcialmente se inspirou na elaboração do personagem. Já a ligação de Dohko com a simbologia do "tigre e o dragão" é referente a filosofia chinesa do Yin-Yang, que representa a perfeita harmonia e equilíbrio do universo, o que combina perfeitamente com o signo de Libra, que é simbolizado por uma balança. Dohko foi um dos lendários guerreiros de Athena e que fez história a ser agraciado com o Misophetamenos da deusa, deixando seu legado a Shiryu tanto como o inesquecível cavaleiro de Libra quanto como sábio e honrado Mestre Ancião, formando ao lado de Shion uma das duplas mais incríveis e poderosas da franquia. A perfeita harmonia e equilíbrio da balança! ...................................................................... Bom, como disse nas NAs, gostaria de ressaltar alguns elementos da trama para quem possivelmente estranhar as inovações e diferenças para a trama original. Para posteriores dúvidas, podem tanto ler este insight quanto perguntar à mim ou à Lu. Como já perceberam, há um novo esquema envolvendo os espectros de Hades. Aqui em Chiaroscuro, as 108 estrelas malignas agem sob duas formas: As já reconhecidas pelo Imperador dos Mortos e aqueles a quem são convertidos para tornarem-se espectros, que outrora defendiam Athena como cavaleiros, como Eusébio, Theo e Vazquez. Os reconhecidos são puramente herdeiros do cosmo negro tanto do Meikai (submundo), quanto do Mukai (mundo dos sonhos) e estão diretamente ligados à Hades. Os três juízes do Inferno também estão nessa categoria, apenas Pandora e os deuses gêmeos Thanatos e Hypnos não estão inclusos, mesmo fazendo parte do exército negro. Já os convertidos são aqueles que antes eram cavaleiros de Athena, defensores da deusa, mas que foram corrompidos por Pandora ao utilizar a própria cosmo energia de Hades para causar suas involuntárias imortalidades, mas diferente dos reconhecidos, que voltavam á vida automaticamente, os convertidos precisavam do auxílio da própria Pandora para reviverem, como mostrado neste capítulo onde a rainha se nega a resgatar Eusébio de Samsara (O ciclo das seis existências de Asmita) pois já não via mais serventia para o renegado. Espectros como Eusébio de Perseu, Theo de Auriga e Vazquez de Cérbero, os corrompidos, são as encarnações alternativas de Algol de Perseu, Capela de Auriga e Dante de Cérbero da trama clássica de Kurumada. Assim como Jaga de Órion e outros personagens como o espectro Giganto de Cíclope e as encarnações de cada juíz do inferno, respectivamente representantes tanto de LC, como do clássico e de Next Dimension. Já as batalhas são inteiramente criações nossas, com base nas habilidades e histórico de aparições e podem crer, é muito difícil achar referências claras e precisas de cada personagem, até dos mais icônicos da Shiori. Quanto aos ataques e habilidades dou dourados de Athena, foram baseados também nos dourados do clássico, já que são poderes herdados de constelação para constelação e claro, como também seus golpes exclusivos como "Impulso Luminoso de Quíron" de Sísifo onde apenas pertence à ele, como o Trovão Atômico de Aiolos. Duas técnicas onde os dois sagitarianos não usam de seus arcos e flechas. ..................... Muito obrigado pela leitura e até o próximo capítulo! :)