Chertov
2 Odin #1
Itália, dias atuais.
Cinco anos após Tsunayoshi Sawada se envolver com a máfia.
Destruição. Esse era o novo padrão para a pequena vila no interior do norte da Itália. Isso é, desde essa tarde. As flores, casarões e transeuntes davam lugar à labaredas, ruínas e pessoas fugindo desesperadamente para todas as direções possíveis, e impossíveis também. As chamas trepidavam saindo por todos os lados. A mansão ia desmembrando-se aos poucos dando a impressão de que o ar havia sido sufocado e as cinzas caíam de forma melancólica, eram apenas partículas que exprimiam a vontade do fogo de consumir tudo a sua frente, fazendo todas as coisas perderem a forma e se reduzirem ao pó.
Em meio ao cenário, de forma desfocada poderia se ver uma criatura pequena de corpo esguio e pálido, parecia não entender o que estava acontecendo ao sair cambaleante da mansão. Ao abrir os olhos grandes e confusos, foi como imergir naquele exato momento da prisão confusa de sua própria mente, sentia o calor queimando sua pele e chamuscando seus fios bagunçados. A característica que mais marcava seu rosto, era sua inexpressividade em meio ao pandemônio. Usava uma camiseta branca dois números maiores e um calção em trapos, os pés descalço.
Não se moveu, mal respirou, ainda era como se sua existência tivesse começado naquele instante, virava o rosto lentamente observando a situação em que estava e nada parecia estar em seu lugar, principalmente o homem de longos cabelos prateados que decepava rindo toda e qualquer forma de vida que ainda se movimentasse. Este era o último elemento que providenciara a nova decoração: uma lâmina especialmente canhota, acoplada à um homem especialmente barulhento, que estava especialmente irritado, não que isso fosse novidade.
— VOOOOOOI!! VOCÊS TIVERAM O AZAR DE SER DA ESTRANEO, VEREMOS SE ACHAM DIVERTIDO QUANDO O RATO ENCURRALADO SÃO VOCÊS ! — gritava o homem para os corpos que jaziam no chão. Sua voz era tão poderosa que parecia estar usando um megafone, o que fez a pequena criança observadora, levar ambas as mãos aos ouvidos mesmo estando a muitos metros de distância.
— Squ-chaan — a voz saiu de um homem que usava roupas estravagantes, o corte de cabelo era um moicano laranja, uma franja verde caindo pro lado e o resto da cabeça era raspada. Usava óculos escuros e ele balançava o mindinho ao falar — Não é assim que se faz, vai sujar todo o seu uniforme! — suspirou profundamente balançando o quadril de uma maneira desagradável.
— VOOOOI!!! CALE A BOCA LUSSÚRIA! NÃO ME DIGA O QUE FAZER!! NINGUÉM ENSINA UM TUBARÃO A CAÇAR!! — respondeu quase cuspindo no rosto do ser de aparência exótica.
Não tão longe dali, um jovem observava a cena agachado. Tinha cabelos na cor verde-água curtos e repicados que iam até quase os ombros e a franja que ficava concentrada no meio da testa e órbes do mesmo tom com duas marcas pretas para baixo que continuava a extremidade do olho. A parte mais estranha do vestuário era um capacete preto em forma de sapo bem maior que sua cabeça. Se tinha alguma opinião sobre todo aquele escândalo que ecoava pelo local, não demonstrava.
— ... Será que o Squalo-senpai pretende que os mortos acordem com seus berros? Ele notou que esta gritando com uma pilha de corpos...? — falava o de cabelos esverdeados com uma expressão vazia e voz extremamente monótona, em seu indicador usava um pequeno fantoche que lembrava o homem de cabelos prateados segurando uma espada.
O loiro ao seu lado virou-se abruptamente. A franja dele tapava os olhos e usava uma coroa em meio aos fios bagunçados. Toda a destruição fora provocada por esses indivíduos que usavam como uniforme sobretudos pretos com listras amarelo-queimado e o brasão da Varia, alguns no braço esquerdo e outros no peito. Esse era o temido esquadrão de assassinos profissionais que nunca aceitavam uma missão com menos de noventa por cento de sucesso.
— Ushishishi desde quando um plebeu tem direito a fazer perguntas ao príncipe?? — esse era Belphegor, como vinha de uma linhagem real era conhecido com “Prince the Ripper”, e ele possuía um enorme complexo de superioridade devido ao seu sangue azul — Ande logo sapo inútil, continue as buscas — Bel subiu nas costas de Fran, o indivíduo de cabelos esverdeados, e começou a esporeá-lo como se fosse uma espécie de montaria humanóide — Carregue o príncipe seu serviçal inútil!
— Beel-senpaai — sua voz era monótona e carregada de tédio — Saia das minhas costas, você é muito pesado… — a expressão em seu rosto era nula. — O príncipe não é pesado, você que é muito fraco — se a testa do loiro ficasse a mostra teria sido vista uma veia saltando em meio a indignação devido ao insulto do jovem — Ushishishishshishi~ Seu novato imprestável…
— Hwaaaa..! — O garoto se espreguiçou, esticando-se e jogando Belphegor pra trás, que caiu de cabeça no chão.
— Dessa vez você me paga, seu sapo inútil! — Bel atirou facas no Fran, que as pegou facilmente.
— Hmm, essas facas deformadas de novo Bel-senpai? Já disse que elas machucam… — mesmo que seu tom fosse sempre o mesmo o sarcasmo era algo que acompanhava cada frase sua.
— Um verme como você não tem direito de reclamar, ushishishi ~ — tremeu de raiva prestes a saltar no pescoço de Fran, que escapou ao serem interrompidos por um ruído misterioso originado de um monte de entulho próximo.
— O que foi isso...? — O barulho se repetiu, e Bel atirou uma faca quase que imediatamente contra o monte de destroços que havia se mexido. — Ushishishi~ seu sapo idiota, fez o príncipe se descuidar! — olhou torto para o novato o culpando.
— Bel-senpai, ao invés de ficar perturbando o seu kouhai deveria estar fazendo sua parte da missão — Fran tentou parecer o mais inocente possível
— Quieto, Plebeu! Você já viu sapos dando ordens pra realeza? Aprenda o seu lugar, e vá verificar qual lixo ainda está se mexendo! — chutou o esverdeado o empurrando em direção ao local de onde ouviram os ruídos.
— Bel-senpai, já disse que não gosto que fique me chutando — falou tropeçando quase caindo ao chão.
— Ushishishi ~ me poupe dos seus guinchos sapo inútil!!!
Fran ignorou o loiro egocêntrico e se dirigiu ao local onde possivelmente só iria encontrar alguns mortos-vivos se debatendo de agonizante. Tinha alguns lixos ali e aqui, um deles tinha bigode. A maioria das coisas estavam ou pegando fogo, ou sangrando, ou pegando fogo e sangrando. Se aproximou e levantou uma telha para abrir caminho. Quando o fez, ficou confuso por um momento. Conhecia aquilo de algum lugar, como num dejá vù. Sua mente parou por um instante e causou uma pontada aguda de dor, como se algo o impedisse de associar o motivo daquilo lhe ser tão familiar. Não era exatamente assim, mas tinha certa semelhança, se você analisasse bem a situação. O que Fran encontrou tinha cores de tons azuis-esverdeados, e o formato de um garotinho. Parecia ter por volta de uns seis anos, cabelos repicados até um pouco acima do ombro, uma curiosa e familiar falta de expressão, e marcas nos cantos dos olhos, como as de Fran, apenas menores. Vestia um conjunto complexamente chamuscado de farrapos, tinha vários cortes e queimaduras. Estava muito sujo, e fitava calmamente algum lugar em outro plano espacial, enquanto tremendo resmungava algo sobre aranhas.
O guardião da névoa — era esta a posição que ele ocupava no esquadrão — não piscou, não pensou, nem nada, só ficou olhando aquela coisa que parecia estar forçando sua mente a buscar algo dentro de um profundo abismo emaranhado de lembranças. Esqueceu de algo importante, mas não conseguia lembrar nem mesmo da importância desse algo, tão menos do que se tratava. O que estava fazendo ali mesmo? Missão? Varia? O que é esse garoto? E então as coisas ficaram lentas, quando os olhos azuis-escuros do pequeno encontraram os do membro mais jovem da Varia.
Pareciam refletir o oceano profundo, com todos os mistérios que carrega em sua imensidão. Emitiam o tipo de medo que costumamos sentir após pensar muito sobre como o universo é grande, ou como somos pequenos, ou como o mar é escuro e desconhecido, ou depois de olhar comparações do nosso sol com a estrela Antares, que é dez milhões e meio de vezes maior. Mas não sentia esse medo. Sentia o tipo de segurança que costumamos sentir ao mergulhar numa banheira quentinha, ou ficar submerso no silêncio total, ou dormir na sua cama num dia muito frio e chuvoso. De forma magnética, se aproximou lentamente daquela criaturinha, o rosto sem expressão não parecia temê-lo. E sem encontrar alguma explicação lógica, não hesitou em pegá-lo no colo e o levar consigo. Não ligou pras facas que Bel tentou atirar no garoto, que foram parar em suas costas, pois julgara ser um destino bem melhor pra elas. Ignorou o lixo bigodudo que infelizmente não estava em chamas ou sangrando, e também o cabeludo que gritava qualquer coisa sobre matar todos os lixos ali presentes. Só queria proteger aquele frágil ser.
“Quando tento me lembrar daquele dia as coisas ficam confusas, como se as fadas da memória estivessem de férias e não contratassem estagiárias para repôr e fazer a manutenção das lembranças, mas havia uma poesia em minha mente que me lembra você … Acho que sempre somos atraídos um ao outro como a gravidade, mesmo em meio as reviravoltas do tempo.” Isso fazia tanto tempo, a única coisa que Fran lembrava era que suas pernas se moveram por conta própria enquanto caminhava para um lugar seguro.
“A neve branca cai (eu não posso ver)
Em meu coração preto (em frente a mim)
Me diga de um modo que eu possa entender
Como eu pude Neve*, te esquecer.”
Foi como se o universo se encaixasse naquele momento, como uma canção que esperou tanto tempo pra ser ouvida e agora preenchia a mente de Fran. Uma certa nostalgia o dominou, ainda se perguntaria durante muito tempo o que tinha o levado a necessitar proteger aquela criança que era tão parecida consigo, mas nada parecia ser importante agora, nada além dele, nada que não fosse Nevi Strëva.
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