Notas iniciais
Olá, maravilhosos! O capítulo é dedicado à mg13, que recomendou a história. Gente, sério, eu tô muito realizada com essa história. Os que me conhecem sabem que tinha um ano que não escrevia nada e ver que vocês estão gostando tanto assim, me faz querer escrever toda hora. Sério, vocês são demais. Continuem comentando e favoritando, isso ajuda todo tipo de autor do mundo. Vocês são os melhores! Beijinhos e boa leitura ♥

Levantei-me da cama vagarosamente, não queria acordar Matheus, mas foi em vão. O moreno logou arregalou os olhos castanhos e sentou-se, fitando o nada. Estava na hora de ir para a escola, mas ele não tinha que acordar por minha causa. Desde que ele tinha voltado a cidade — por seu período de provas na faculdade ter terminado e ele querer fazer uma visita —, tínhamos passado todas as noites juntos. Ele ia para minha casa e eu vinha para dele, meus pais não se importavam. Sabia que não era certo usá-lo daquela forma, mas ele não precisava saber.

— Bom dia, Beca — Ele disse. — Quer que eu te leve até a escola?

Minhas amigas sabiam que eu andava dormindo com o Matheus de novo, mas não faziam ideia da frequência. Nós éramos compatíveis em diversos aspectos, aspectos que eu fazia questão de aproveitar o máximo possível. Não me contentava com ele. Era nítido, eu já não sentia nada por ele, mas isso não impedia que o achasse lindo e sexy.

— Não precisa.

Ele, diferente de mim, morava no mesmo bairro da escola. Se eu andasse cerca de dez minutos, estaria lá. Meu ex namorado era um garoto com uma situação financeira tão boa quanto os alunos da escola, ele tinha bastante dinheiro para gastar e levava uma vida confortável. Cursava Engenharia Civil na melhor faculdade do país e fora o melhor aluno da Santa Bárbara. Agora esse lugar era meu.

Todos que nos conheceram enquanto casal, achavam que éramos perfeitos um para o outro. Mesmos interesses, mesma área intelectual, mesma ambição, até o gosto por livros de época compartilhávamos. Talvez se ele estivesse ficado um pouco mais na cidade, eu tivesse me entregado verdadeiramente, mas não tinha acontecido. Não mesmo. Ele não despertava sentimentos românticos em mim. Mesmo assim, tinha sido o que chegara mais perto.

— Anda, Beca, qual é o problema? Não será nenhum sacrifício! Além de que eu quero ver minha antiga escola…

Acabei concordando. O que eu faria? Não poderia impedi-lo de fazer algo que queria. Vesti meu uniforme, calcei meus tênis e prendi meus cabelos em um coque mal feito. Não era uma garota muito ligada em aparência e esse tipo de coisa, mas desde que Vicente chegara, eu tentava não ir tão desarrumada para escola. Não queria que ele me achasse feia, porém não fazia nenhum esforço desumano.

— Alguma novidade por aqui? — Ele perguntou quando parou o carro. — Mudaram o currículo, alguma coisa?

A pergunta me incomodou. Não porque houvesse alguma mudança daquele tipo, não tinha nenhuma, mas porque lembrou-me de Vicente. Meu amor platônico francês tinha sido a única mudança. Ele não só mudou a dinâmica escolar, como mudou à minha pessoa. Pensar que estava descontando o que queria dele em Matheus, fazia eu me sentir mal.

— Não, nada expressivo — Respondi. — Obrigada.

*/*

— Rebeca, você não presta mesmo hein! — Clarice exclamou. — Pensando em um e pegando o outro!

Claro que minha amiga tinha que me lembrar de minha atitude antiética. Claro que ela tinha que fazer isso, era Clarice. Não respondi nada, mantive meu silêncio. Não era necessário aumentar as teorias dela.

— Deixe a menina, Clarice! — Monalisa interveio. — Ela precisa viver à vida dela.

Luíza, que estava sentada conosco, ainda mantinha sua expressão neutra. Desde o incidente com as drogas, ela andava quieta. Não falava mais como antes, não zoava e nem brincava de forma alguma. Estava sempre com a expressão imparcial, como se nada a atingisse. Não queria que ela ficasse assim, queria que ela continuasse enérgica como sempre.

— Luíza, você já começou sua apresentação? — Perguntei, tentando puxar assunto.

— Não e nem vou — Ela disse.

As apresentações eram uma obrigação dos alunos. Cada um tinha que escolher um tema e dar uma palestra sobre aquilo, valia ponto e era muito importante. Luíza tinha ficado animada com a ideia de sua vez estar chegando, ela estava pensando em dar uma palestra sobre a influência da música na vida dos jovens, mas sua vontade havia se extinguido.

— Mas vale ponto! — Argumentei.

— Não me importa — Ela suspirou. — Você acha mesmo que isso vai fazer diferença na minha vida?

Engoli em seco. Era melhor deixá-la quieta.

*/*

Banheiros de escola são sempre um órgão a parte. Era lá que sabíamos das fofocas, dos boatos e de algumas verdades. Estava em uma cabine quando ouvi passos. Pelas vozes estridentes, se tratava de algumas alunas do segundo ano. Não gostava de ouvir conversa alheia, mas como ouvi meu nome, tratei de prestar atenção. — A Rebeca voltou mesmo para o Matheus? — Uma delas disse.

— Acho que sim, ele veio trazê-la hoje — A outra sussurrou. — Ele não é lindo?

Sorri. Gostava de saber que o achavam bonito, porque ele era. Eu não era uma pessoa ciumenta, não com esse tipo de coisa.

— Ele é! Mas a Rebeca também é o tipo de garota que os meninos se estapeiam para conseguir…

Ri de novo. Como assim? Nunca tinha visto nenhuma briga por minha causa.

— Verdade… Ela é tão inteligente, tão charmosa. Ela e o Matheus nunca deveriam ter terminado, fazem um casal incrível!

A conversa estava muito interessante. Não sabia que era tão elogiada pelas pessoas assim. Por mais que tivesse noção de minha popularidade, não sabia de sua extensão. Então as meninas do segundo ano me achavam tudo aquilo? Bem, pontos para mim!

— Agora falando dos professores, você tá sabendo sobre o Vicente e a Soraia?

Pera aí, aquilo ali era muito importante. Vicente e Soraia? Mas quem era Soraia mesmo?

— Eles estão saindo, certo? Fiquei sabendo que ela comprou chocolate na mercearia do lado e entregou para ele dentro da sala!

Caraca, como essas meninas eram fofoqueiras… Senhor, senti meu rosto começando a corar. Não era possível. Vicente estava saindo com quem? Quem era essa Soraia? Eu precisava saber. Precisava de respostas. Abri a porta de minha cabine e saí rapidamente. Coloquei as mãos na cintura, sem perceber, e disse:

— Quem diabos é Soraia?

As meninas entreolharam-se, pareceram assustadas.

— Rebeca, você por aqui? — Uma disse.

— É, sou eu — Falei grossa. — Agora desembucha. Quem é Soraia?

Novamente elas olharam uma para outra. Pareciam muito confusas.

— Soraia é a professora de Literatura, ora! Você não conhece? Uma morena, quadril largo…

Minha cara não podia ficar pior. Ele estava saindo com ela? Ela era mesmo uma sonsa, com aquela cara de boazinha e estava saindo com Vicente! Ela não podia fazer isso, não mesmo. Sem responder nada, saí do banheiro batendo a porta com força e muito irritada. Não podia estar acontecendo. Não podia. Não.

Com uma dor de cabeça e uma irritação que parecia não passar, trombei em Catarina, que sorriu dissimulada.

— Olha por onde anda, demônio! — Gritei.

— Ei, eu não tô fazendo nada com você! — Ela retrucou. — Branca de Neve não fez comida ontem?

Aquilo foi a gota d’água. Não deixaria ela falar assim comigo.

— O que foi que você disse, água de salsicha? — Praticamente gritei.

Não tinha ninguém por perto. Estávamos sozinhas no corredor. Precisava bater nela, era isso, eu a espancaria. Cerrei os punhos e apertei os olhos. Tentava mandar mensagens de calma para mim mesma, mas eram em vão. Joguei Catarina com tudo na parede. Empurrei-a de modo que ouvi sua cabeça bater no cimentado. Ela olhou-me com medo nos olhos. Parecia realmente amedrontada por mim, não me importei. Estava fora de mim, era isso.

— Calma, Rebeca… Eu só tava brincando! — Ela defendeu-se.

— Cala a boca! — Gritei, correndo com dor de cabeça.

Estava desnorteada. Tão desnorteada que trombei em uma série de pessoas. Aquilo nunca tinha me acontecido. O que eu tava pensando? Eu tinha praticamente machucado Catarina, e se ela me denunciasse? Não adiantava, a consciência não voltava a minha mente. Tudo parecia escuro, senti meus olhos enchendo-se de lágrimas. Por que eu estava tão brava, afinal?

— Você tá bem, Beca? — Luíza aproximou-se. — O que foi?

Nem mesmo minha amiga conseguiu fazer com que me sentisse melhor. Não mesmo.

— Só me deixa! — Disse e continuei andando.

Parei em um canto da grama e abaixei a cabeça. Em seguida, comecei a massagear minha testa. A dor não passava, era inútil. As lágrimas que já estavam se formando, começaram a descer pelo meu rosto. Por que? Por que?

Estava sendo infantil. A vida era dele, ele fazia o que quisesse. Ele nem mesmo sabia sobre o que eu estava sentindo, se é que eu estava sentindo. Afinal de contas, o que eu tava sentindo? Eu gostava dele? Era isso, eu tava apaixonada? Por favor, que não fosse paixão. Paixão machuca, destrói, deixa tudo confuso e nos faz chorar.

Eu estava com Matheus, era dele que eu tinha que gostar. Eu era egoísta, enquanto eu passava minhas noites beijando meu ex namorado, Vicente não podia fazer o mesmo com Soraia? E eles até combinavam, não é? Era isso. Eles combinavam. Ambos professores, ambos bonitos, ambos carismáticos. Eles formavam um par e tanto. Da mesma forma que diziam que eu e Matheus combinávamos, deveriam falar sobre Vicente e Soraia.

Queria ir embora, aquele dia estava sendo horrível. Horrível era pouco, na verdade. Para piorar tudo, Marta veio até mim.

— Para sala, agora — Ordenou.

— Estou passando mal, Marta — Disse. — Não quero ir para sala.

— Você não tem que querer, você tem que ir e pronto — Ela falou. — Se está passando mal, passe na emergência e volte para a sala.

Estava prestes a mandá-la ir para o inferno quando Monalisa apareceu. A negra abaixou-se até mim, ignorando a presença de Marta e estendendo-me a mão. Agarrei nela e consegui me levantar. Ela me abraçou e saímos assim de perto da loira diabólica.

— Beca, pode me dizer o que você tem? Você tá com muita cara de choro…

Contar ou não para Monalisa? Ela merecia saber? Sim, ela merecia. Mas ao mesmo tempo, ela não me falava nada sobre ela.

— Eu só… Não estou muito bem hoje — Abaixei a cabeça. — Estou muito confusa.

— Foi o Matheus? — Questionou.

— Não.

— Ah… Foi o Vicente — Ela mesma se respondeu. — Você gosta dele.

Tava assim tão óbvio? Monalisa estava séria, não tinha brincadeira nenhuma em sua voz. Ela era muito séria para falar de certos assuntos, principalmente dos relacionados aos sentimentos.

— Não sei, Lisa… Gosto? — Dei um sorriso forçado.

— Só quem pode responder é você. Você gosta dele, Rebeca?

Eu gosto dele? Comecei a juntar as provas do crime.

Quando ele chegou, fiquei hipnotizada por sua beleza e sua voz. Teve o dia do carro quando ele me ajudou a troco de nada, teve o abraço daquele dia. Teve o presente, como eu me senti quando recebi aquele livro? Era inexplicável. Lembrei também da raiva que sentia por Catarina olhar para ele, como eu era obcecada por sua atenção, como sempre queria impressioná-lo. Lembrei-me do seu olhar na última carona que ganhei, na forma que ele mexeu em seus cabelos. Nos seus lindos olhos verdes me fitando.

Eu gostava dele?

Suas mãos em minha cintura, puxando-me para si enquanto reprimia um sorriso. Seu nervosismo ao falar comigo, seu deboche sobre minha altura. Por Deus, eu tava apaixonada? Lembrei também dos sonhos que tinha com ele, todos muito vívidos. Como esquecer dos beijos que dava em Matheus torcendo para abrir os olhos e ver seus cabelos loiros? A forma que ele explicava as coisas, seus sussurros, o jeito que atendia o telefone.

A cada lembrança, sentia uma sensação maior chegando, uma serenidade. Fechei os olhos e continuei lembrando de cada coisa, cada pequeno ato que denunciava o que estava sentindo. Estava muito bem até que lembrei de Soraia. Rapidamente minha mente começou a formar imagens dos dois juntos, se beijando, com as mãos entrelaçadas. Não! Não! Eu estava muito confusa. Não sabia o que pensar.

Monalisa ainda encarava-me, concentrada.

— Conseguiu sua resposta?

Apertei os olhos e senti meu sangue ferver ao imaginar Vicente com Soraia novamente.

— Eu gosto dele — Admiti. — Estou fodida, mas apaixonada.

Notas finais
O que acharam dessa fofoca? Procede ou não? A Rebeca está morrendo