Cher Maître
9 Não dá mais!
Notas iniciais
Respirava fundo enquanto ouvia os conselhos de minhas amigas. Luíza continuava em silêncio, além dela já estar mal pela situação com a maconha, eu não havia ajudado tratando-a com grosseria quando ela me encontrou triste. Monalisa e Clarice estavam empolgadas. Elas diziam que se eu queria mesmo Vicente, deveria mexer minha bunda e fazer algo para conseguir. As ideias de Monalisa eram mais sérias, as de Clarice eram todas cômicas.
— Vai dar muito certo! — A branca disse. — Você descobre o endereço dele, compra uma lingerie sensual e deita na cama dele! Não vai dar outra, ele vai cair de amores por você.
Não queria, mas achei muita graça daquilo. Imaginar Vicente ficando vermelho ao me encontrar deitada em sua cama foi uma ótima forma de esquecer de seu suposto caso com Soraia.
— Não escuta ela, Rebeca — Monalisa falou. — Isso seria ridículo e ele só comprovaria que você é imatura.
— Claro que eu não faria isso, né? — Me defendi. — Não perdi o juízo.
Luíza finalmente pareceu se interessar pelo assunto.
— Por que você não chama ele e simplesmente diz o que sente? Seria muito mais fácil e você não pagaria nenhum mico — A loira opinou.
Por mais que essa opção fosse ótima, jamais conseguiria fazer aquilo. Não mesmo. Eu nem conseguia falar com ele sem parecer uma boba, imagina falar que estava apaixonada. Tinha certeza de que não era recíproco, ele estava com a Soraia.
Enjoada daquelas conversas malucas, deixei minhas amigas e fui em direção ao portão. Achei que já pudesse ir embora, mas estava enganada. O porteiro disse que eu deveria continuar na escola, por isso voltei. Quando vi a cena que estava na frente de meus olhos, desejei ter fugido. Soraia e Vicente conversavam incessantemente. Ele parecia muito concentrado no que ela dizia, enquanto a morena jogava o cabelo e sorria.
Eles formavam um belo par, tinha que admitir. Ela era alta como ele, bonita como ele, carismática como ele. Soraia tocou o peito de Vicente, que não se importou com o toque e continuou parado. Em seguida, ela deu um sorriso completo e ele continuou concentrado nela. Ele não estava sorrindo, mas não parecia estar achando a situação ruim. Continuei me torturando observando os dois. Até agora não tinham demonstrado nada que entregasse que eram um casal.
Meus olhos deviam estar presos nos dois, já que Vicente percebeu que observava atentamente. Ele me olhou com uma expressão de confusão, como se estivesse me estudando. Meus olhos estavam arregalados, ainda não conseguia digerir que ele estava mesmo tendo um caso com ela. Pode não ser verdade. A possibilidade de não ser verdade existia, era fato, mas duvidava que não fosse real. Ela tinha colocado as mãos no peito dele!
Não sabia se estava com raiva ou com inveja dela. Ela podia tocá-lo assim, na frente de todos, e ninguém parecia se incomodar. Eles eram adultos, responsáveis, sabiam exatamente o que fariam da vida. Eu não tinha chance contra ela. Se já não tinha chance antes disso começar, agora elas tinham se extinguido. Como ele olharia para uma adolescente com distúrbio de crescimento com uma mulher exuberante daquelas ao seu lado? Era melhor desistir.
Os olhos verdes dele continuaram me encarando. Se você outro dia, eu estaria retribuindo seu olhar, mas não hoje. Hoje eu queria sumir, simplesmente desaparecer da face da Terra. Percebendo que desviava o olhar para o chão, ele acenou. Por que ele estava acenando para mim? Eu já estava sofrendo o suficiente, não precisava aumentar o nível de desgraça. Minha realidade estava tão podre, que comecei a cogitar ouvir sertanejo universitário.
— Podem ir, crianças — O porteiro abriu o portão e eu praticamente corri.
Não adiantou, Vicente me apanhou e colocou uma de suas mãos em meu ombro. Parei com seu toque. Revirei os olhos, respirei fundo e finalmente fiz contato visual.
— Aconteceu algo que você queira me dizer? — Ele foi direto.
— Não.
Ah! Aqueles cabelos, como eu queria deslizar os dedos por eles. Seu cheiro também estava contribuindo para que eu quisesse agarrá-lo ali mesmo, na frente de todos. Por que o desgraçado tinha que ser tão irresistível?
— Você não tá bem, dá para notar que andou chorando… — Como ele podia ter percebido tão rápido? — É algo que eu possa ajudar?
Sim, ele poderia ajudar. Entretanto, essa ajuda só poderia ser feita se ele me jogasse em uma parede e me beijasse até perdermos o fôlego. Era desse tipo de ajuda que eu precisava, de resto, eu me virava.
— Definitivamente não.
É, ele estava mesmo preocupado. Sua expressão o denunciava. Será que ele me odiaria quando descobrisse que sonho em passar os dias deitada em uma cama com ele? Será que ele me odiaria se soubesse que penso em mais do que apenas ficar deitada nessa cama? Com certeza ele me acharia uma adolescente idiota e nunca mais falaria comigo. Eu não podia arriscar a pouca relação que tínhamos construído.
— Precisa de uma carona? Você pode se sentir melhor para contar o que está acontecendo, Rebeca.
Era tentador aceitar aquela carona, tentador até demais. Eu queria, queria muito. Era isso, aceitaria e pronto. Infelizmente quando estava prestes a formar um belo e alto sim com meus lábios, o carro de Matheus parou do meu lado e o moreno saiu, me observando curioso.
— Não vai dar — Respondi rápido. — Meu amigo veio me buscar.
Matheus olhou para Vicente com a expressão mais feia que já tinha visto. Será que tava tão óbvio que a namoradinha dele estava afim do professor? Como ele já podia não gostar dele se nem o conhecia?
— Oi, Beca — Matheus beijou minha testa. O vermelho tomou meu rosto. — Oi, quem é você?
Matheus era um descarado de marca maior. Lembro perfeitamente quando ele me pediu em namoro dizendo simplesmente que deveríamos ficar juntos porque poderíamos trazer mais pessoas bonitas ao mundo. Não resisti e me entreguei naquele dia. Agora ele estava na frente do meu objeto obscuro de desejo e algo me dizia que ele podia imaginar o que estava acontecendo. Ele não era burro.
— Vicente Bordeaux, professor de Filosofia — Vicente respondeu educadamente.
A expressão do moreno suavizou-se. Talvez pensasse que ele não oferecesse ameaça.
— Não sabia que tinham substituído o Ghaleu! Mas que ótimo, porque ele era insuportável — Meu ex namorado ou sei lá o que, respondeu.
Vicente deu uma risadinha abafada.
— Não posso falar sobre isso — O loiro afirmou. — Se me dão licença, tenho que ir. Até mais, amigo da Rebeca. Até mais, Rebeca.
Meu amor platônico caminhou até Soraia, que o abraçou antes de se despedir. Se eu já estava irritada antes, agora parecia que ia explodir.
*/*
Cheguei à casa de Matheus ainda irritada.
— Caramba, que gata aquela professora — Ele comentou sobre Soraia. — Não sabia que agora contratavam professores por beleza. Primeiro aquele professor de Filosofia com cara de galã de novela e depois aquela professora com cara de atriz mexicana.
Sim, ele estava falando de Vicente e Soraia. Na verdade, ele passou a viagem me perguntando sobre Vicente. Ele o achou simpático e admitiu que ele era um cara bonito. Uma coisa sempre me encantou em Matheus, ele odiava convenções sociais. Se ele achava um cara gato, ele simplesmente dizia e não se importava.
— Não podiam contratar gente tão bonita com você como aluno, extrapolaria o limite de beleza na escola — Fui sedutora de propósito.
— Só você já extrapola o limite, meu bem — Ele respondeu.
Começamos a nos beijar, Matheus me jogou em sua cama e enfiou-se no meio de minhas pernas. Mordi sua boca, precisava parar de pensar em coisas estressantes e aquele era o melhor método, no entanto, cada vez que eu me esforçava para focar no que estava fazendo, minha cabeça doía mais. Ele abriu os olhos e me encarou curioso.
— Que foi, Beca? — Ele perguntou. — Tá tudo bem?
— Tá sim, é só uma dor de cabeça…
— Já volto — Ele levantou da cama e foi até a cozinha.
Um minuto depois, voltou com um copo d’água na mão e um comprimido em outra.
— Toma, você vai melhorar.
Não sei foi o gesto carinhoso de Matheus ou se foi a constatação do óbvio: eu não gostava dele, estava usando-o para esquecer outro, mas simplesmente comecei a chorar. Não pequenas lágrimas, mas uma enxurrada delas desceu de meus olhos. Estava soluçando em cima da cama do meu ex namorado e ele parecia prestes a chorar também. Ele era sensível, sempre fora, odiava me ver triste ou nervosa.
— Poxa, Rebeca, você tá mal mesmo — Ele me abraçou. — O que está te afligindo? É alguém que anda mexendo com você? Se for, me diga que eu arrebento essa pessoa.
Oh, Matheus, se você soubesse! As lágrimas pareciam eternas. Chorar parecia ato cotidiano na minha vida desde que conheci Vicente. Essa é a prova mais concreta de que paixão destrói, se apaixonar não é bom. O nosso coração parece um atirador sem mira, sempre acerta as pessoas mais erradas e sempre faz com que machuquemos os que gostam da gente. Seria tão mais fácil só gostar de Matheus.
Como de uma hora para outra meu humor tinha mudado tão rápido?
— Matheus, acho que não dá mais — Comecei. — Não mesmo.
A expressão de choque tomou o rosto do moreno.
— Por que? Você tá saindo com outro cara, né? — Ele disse calmamente. — Pode falar, Beca, você sabe que não vou brigar.
— Não é isso, Math — Fui sincera. — Só não dá mais. Não tá a mesma coisa, já não sinto o mesmo.
Notei o seu revirar de olhos.
— Como não está a mesma coisa? Nós transamos todos os dias desde que eu cheguei! — Agora ele estava irritado. — Dê outra desculpa, mas não diga isso.
Meninos são tão burros! Não é porque estávamos bem sexualmente que a relação estava indo de vento em polpa, aliás, ele me pediu para voltar? Não me lembrava disso. Por que todo esse drama?
— Um relacionamento não é feito só de sexo, Matheus! — Me defendi. — Eu tô querendo dizer que eu não gosto mais de você!
As palavras saíram mais cruéis do que imaginei. Estava admitindo em voz alta o que estava sentindo, era o certo. Eu não gostava mais dele, isso era verdade. Não sabia como ele lidaria com isso, porém duvidava que ele fosse ficar extremamente abalado. Ele não fazia a linha apegado, não derramou uma lágrima quando terminamos.
— Não gosta? Você não pode me esquecer assim, Rebeca — A fúria começou a tomá-lo. — Quem foi o seu primeiro namorado, o seu primeiro homem?
Sério que ele seria machista a esse ponto?
— Não sou obrigada a escutar isso, não mesmo — Levantei da cama. — Quando você quiser conversar sem ficar dizendo aos quatro cantos do mundo que tirou minha virgindade e por isso sou obrigada a te amar, me procure.
E assim meu dia que já estava péssimo, ficou pior.
*/*
— Filha, mas você não ia dormir na casa do Matheus? — Minha mãe perguntou.
— Decidi não dormir, na verdade, acho que nunca mais dormirei.
Minha mãe me olhou confusa, mas ficou em silêncio.
— A Monalisa esteve aqui, ela estava andando pelo gramado quando a avistei — Papai chegou contando. — Disse que estava te procurando.
Monalisa me procurando? Devia ser algo sério, ela não era de vir na minha casa. Na verdade, nós é que íamos muito na sua casa. Era simples, ou na casa de Lisa ou na de Clarice, Luíza evitava porque não suportávamos sua mãe e ela sabia e eu evitava porque minha casa é a mais distante.
— Nossa, vou mandar uma mensagem, deve ser algo importante — Respondi e saí de perto.
Ia tranquilamente para o meu quarto quando um ser humano subiu nas minhas costas e puxou meu cabelo. Estava tão estressada que soquei a pessoa com força. Não foi surpresa ver os cabelos escuros e a barba por fazer de Ricardo.
— E aí, pirralha?
— Vá te catar, desgraçado! — Gritei.
— Ui, ela tá irritadinha…
— Nem imagina o quanto.
Meu irmão riu.
— Brigou com o namoradinho?
— Eu não tenho um namoradinho — Bufei.
— Está irritada porque não tem um namoradinho?
— Cala a boca! — Soquei-o novamente. — Vá procurar o que fazer.
Ele deu língua.
— A Bruna está chegando, já terei o que fazer.
Minha vida era uma maravilha mesmo! Além de aguentar inúmeras decepções no setor amoroso, ainda teria que aguentar minha maravilhosa cunhadinha chegando.
— Por que ela não veio com você? — Perguntei.
— Tive que vir antes, tinha alguns compromissos na cidade.
Compromissos na cidade? Não lembrava que ele tivesse algum antes, mas mantive meu silêncio, não queria falar com ninguém.
— Não precisa me chamar quando a Bruna chegar, não quero ter que ficar me perguntando quantos litros de silicone ela colocou dessa vez! Sou de Exatas, mas tudo tem limites! Falando nisso, eu fico calculando o volume que os plásticos do corpo dela ocupam dentro da altura de 1,76 dela…
— Você é uma peste, Rebeca — Ricardo me chutou de leve. — Vá tomar um banho porque você está com seu típico cheiro de gata molhada.
Mostrei o dedo do meio e finalmente fui para o meu quarto.
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