Checklist e Poltronas (Zanour)

3 Capítulo 2 – Café, conselhos e lembranças


Zane Carter

O som dos passarinhos misturado ao barulho suave do vento foi o que me acordou naquela manhã de sábado. Ainda era cedo — cedo demais pro meu gosto —, mas eu já estava de pé. Prometi à minha avó que ia ajudá-la com os serviços do quintal, e promessa pra ela era coisa séria. Desci as escadas com o cabelo bagunçado e o humor típico de quem ainda não havia tomado café. No entanto, assim que entrei na cozinha, o cheiro de pão fresco e café preto me fez esquecer qualquer traço de sono.

— Bom dia, meu garoto — disse vovó Lídia, virando-se com aquele sorriso sereno que parecia iluminar tudo ao redor. — Dormiu bem?

— Dormi — respondi, me espreguiçando. — E pelo cheiro, o café tá melhor do que o da padaria da esquina.

Ela deu uma risadinha, colocando uma caneca fumegante à minha frente.

— É o mesmo de sempre, mas vindo de mim, sei que fica melhor.

Sentei-me à mesa, pegando um pedaço de pão ainda quente, enquanto ela se ajeitava na cadeira em frente. Ficamos um tempo em silêncio, apenas ouvindo o som do rádio antigo tocando uma música qualquer dos anos 80.

Até que ela quebrou o silêncio com o tom animado de quem está prestes a mudar de assunto.


— Amanhã vai ter bingo na igreja. Prêmios bons, viu? Um liquidificador, uma cesta de frios e até um vale de supermercado. Você devia ir comigo.

Quase engasguei com o café.

— Bingo, vó? Eu?

— Claro! — respondeu com naturalidade. — Vai ser divertido, e você precisa sair um pouco.

Balancei a cabeça, rindo.

— Acho melhor eu passar o domingo descansando. Quero começar a semana bem.

Ela me olhou com aquele olhar que eu conhecia bem — o olhar de quem estava prestes a puxar um assunto delicado.


— Você vive dizendo isso, Zane. Treino, campeonato, descanso… Mas e quando vai arrumar tempo pra outra coisa?

— Que “outra coisa”, vó? — perguntei, já sabendo a resposta.

— Um relacionamento, oras! — disse, como se fosse óbvio. — Você já tem quase vinte e quatro anos e não tem ninguém.

Soltei uma risada curta, tentando disfarçar o incômodo.

— Depois do último relacionamento, eu não penso em ter outro tão cedo.

Ela pousou a caneca na mesa, o olhar firme, mas carinhoso.

— Ah, meu filho… Você não pode achar que todas as pessoas vão ser horríveis só porque teve uma experiência ruim.

Suspirei, passando a mão pelos cabelos.

— É mais fácil falar do que fazer, vó.

— Pode ser — ela respondeu, com um leve sorriso. — Mas às vezes, o amor aparece quando a gente para de procurar.

Dei de ombros, fingindo não dar importância, mas as palavras dela ficaram ecoando na minha cabeça enquanto a gente terminava o café e saía pro quintal. O sol já estava alto quando a gente terminou o café e foi pro quintal. O ar da manhã estava fresco, com cheiro de terra molhada e folhas cortadas. Peguei a mangueira enquanto minha avó recolhia algumas flores secas perto do muro. Era um daqueles momentos simples, mas que sempre me faziam sentir em paz.

— Cuida das roseiras pra mim, Zane — ela pediu, apontando com o dedinho enrugado. — Elas estão pedindo um pouco de carinho.

— Pode deixar, vó. — Abri a água e comecei a molhar devagar as plantas, observando a terra escura absorver cada gota.

Por um tempo, ficamos em silêncio. Só o barulho da água e o canto dos pássaros enchiam o ar. Mas, inevitavelmente, minha mente começou a viajar como sempre fazia quando tinha tempo demais pra pensar. Fazia quase um ano desde o término com Vanessa, e mesmo assim, às vezes, eu ainda sentia o eco daquilo tudo. Ela havia sido intensa daquelas pessoas que entram na sua vida com tanta força que, quando vão embora, parece que levam uma parte do seu chão junto. No começo, era tudo risadas, planos e promessas. Até que as cobranças começaram. Os ciúmes. As brigas sem sentido.

Lembro da última discussão como se fosse ontem: ela me acusando de colocar o basquete acima dela, e eu tentando explicar que era o meu futuro, o que eu vinha construindo há anos. No fim, percebi que Vanessa queria um tipo de amor que me sufocava — e eu, talvez, esperasse dela uma calma que ela nunca teve.

Terminar foi difícil. Mais do que eu admitia pra qualquer um.


E por mais que eu tentasse seguir em frente, a verdade era que o relacionamento deixou marcas. Fez eu duvidar da ideia de que amar podia ser leve. Fez eu achar que me apaixonar de novo seria só abrir a porta pra mais decepção.

— Tá tudo bem aí, meu filho? — a voz da minha avó me tirou dos pensamentos.

— Tá sim, vó — respondi, desligando a mangueira. — Só pensando um pouco demais, eu acho.

Ela sorriu, com aquele olhar sábio de quem já entendeu tudo sem precisar perguntar. — Pensar é bom, mas viver também é. Sorri de volta, tentando disfarçar o incômodo.

— Pode deixar, vou tentar equilibrar isso.

Terminamos o serviço perto do meio-dia. O quintal estava limpo, as flores molhadas e o portão, o famoso portão que eu ia “encontrar” no domingo brilhando depois de uma boa escovada. Quando entrei em casa e me joguei no sofá, já planejava mentalmente o dia seguinte: acordar tarde, pedir algo pra comer e talvez assistir a algum filme repetido. Nada de sair, nada de gente, nada de confusão. Tomei um banho rápido e me joguei no sofá novamente, pronto pra aproveitar o resto do sábado em paz. O silêncio da casa era confortável só o som da televisão ligada em um volume baixo, passando algum programa de culinária que eu nem prestava atenção. Minutos depois, ouvi o portão se abrir e o arrastar lento dos passos da minha avó entrando pela porta da cozinha.

— Voltei! — ela anunciou, animada. — Fui ali conversar com a Dona Célia, a vizinha da esquina.

— Hum, que perigo — respondi, rindo. — Sempre que vocês conversam, alguma fofoca nasce.

Ela fingiu me ignorar e continuou, toda empolgada:


— E adivinha? A neta dela está passando o fim de semana aqui! Uma moça linda, educada, estudando medicina, parece ser muito simpática!

Olhei pra ela, já imaginando aonde aquela conversa ia dar.

— Vó… não me diga que…

— Que elas também vão ao bingo amanhã! — completou, como se fosse a notícia do século. — Eu já avisei que estarei lá e que você pode ir comigo. Vai ser uma ótima oportunidade pra conhecer gente nova.

Balancei a cabeça, segurando uma risada.

— Vó, nem começar com isso. Você pode me oferecer o prêmio do bingo inteiro, que ainda assim não vai me convencer a ir. E conhecer a moça, então… menos ainda.

Ela cruzou os braços, me olhando com aquele misto de ternura e provocação.

— Tem certeza, Zane?

Ergui as mãos em rendição, tentando escapar da conversa.

— Tenho. Aliás… — improvisei rápido, buscando a desculpa perfeita —, amanhã eu vou sair, sabia? Já tenho planos pro domingo.

Ela arqueou uma sobrancelha, desconfiada.

— É mesmo? E quais seriam esses planos tão misteriosos?

— Só… sair um pouco. Respirar, sabe? — respondi, tentando parecer convincente. — Não se preocupe, vó. Pode ir pro bingo tranquila, eu me viro.

Ela ainda me encarou por uns segundos, mas acabou sorrindo, balançando a cabeça. — Tá bom, meu filho. Mas um dia, quando você menos esperar, vai me agradecer por todos os meus palpites.

Dei uma risada curta.

— Pode deixar, vó. Quando esse dia chegar, prometo admitir que você tinha razão.

Nour Ardakani

O sábado estava calmo. O tipo de dia perfeito pra fazer absolutamente nada.

Eu estava na área da piscina, deitada em uma espreguiçadeira com um livro nas mãos, aproveitando o sol suave e o som da água batendo de leve nas bordas. Nenhum plano, nenhuma obrigação — apenas eu, meu livro e o raro silêncio da casa.

Ou melhor… o silêncio até o meu irmão aparecer.

— Olha só, a intelectual da família — a voz de Alex cortou o ar, carregada de ironia. — Deixa eu adivinhar: romance dramático, cheio de caras perfeitos que só existem nas páginas?

Fechei o livro devagar, levantando os olhos pra ele.

— E olha só, o atleta inconveniente que não sabe o significado da palavra “paz”.

Ele riu, se sentando na borda da piscina e chutando um pouco da água com o pé.

— Poxa, eu chego cheio de boas intenções e já sou atacado? Que recepção calorosa, irmãzinha.

— Minhas boas intenções incluem você ficar quieto e me deixar ler — retruquei, voltando a encarar o livro.

Alex não se deu por vencido.

— Tá, mas fala sério, você passa muito tempo sozinha. Um sábado desses e tá aqui… lendo.

— Acredite, é mais interessante do que ver você errando arremessos — provoquei, sem desviar o olhar da página.

Ele fingiu indignação.

— Ei! Eu tô indo bem no time. Inclusive, recebi elogios hoje no treino.

— Uau, parabéns. — Fiz uma pausa dramática. — Quer que eu ligue pro jornal pra divulgar a conquista?

Alex soltou uma risada alta, claramente se divertindo com a minha falta de entusiasmo.

— Você é impossível, Nour.

— E você é irritante — rebati, mas com um pequeno sorriso escapando sem querer.

Ele se levantou e foi até a mesinha ao lado da espreguiçadeira, pegando o copo do meu suco e bebendo sem pedir.

— Alex! — reclamei, tirando o livro do colo e me levantando. — Eu juro que um dia vou te afogar nessa piscina.

— Duvido — respondeu, rindo. — Eu nado mais rápido.

Revirei os olhos, tentando não rir. Era sempre assim: ele chegava, bagunçava o meu momento de paz e, de alguma forma, ainda conseguia me fazer rir no fim. Alex ainda estava ali, rodando pela área da piscina como se não tivesse absolutamente nada melhor pra fazer da vida.

— Aliás — comecei, fechando o livro de vez e cruzando os braços —, você não ia encontrar com a Sofya hoje?

Ele olhou pro relógio no pulso e deu de ombros.

— Só mais tarde. Vai ter uma festa na casa da família dela, nada muito grande. Depois eu devo dormir lá e passar o domingo com ela também.

— Hm, claro. — arqueei uma sobrancelha. — Coitada da Sofya, daqui a pouco ela vai pedir socorro por namorar um cara tão grudado.

Ele riu alto.

— Ah, para, vai. Ela gosta.

— Gosta nada, Alex. Você deve ser tipo um gato de estimação: aparece em todos os lugares, não dá espaço e ainda quer atenção.

— Pelo menos sou um gato — retrucou, piscando pra mim com aquele sorriso convencido.

Revirei os olhos, mas acabei rindo. Era impossível discutir com ele sem que a conversa virasse uma piada.

— Tá, vai lá então, “gato” — ironizei. — Deixa eu aproveitar meu silêncio enquanto posso.

— Antes disso — ele se inclinou contra a espreguiçadeira —, me responde uma coisa. Você não pretende arrumar um namorado, não? Tipo… pra curtir o final de semana, sair um pouco, viver?

Dei uma risada curta.

— Alex, eu já aceitei meu destino. Meu futuro é ficar sozinha, acompanhada apenas dos meus livros e da minha xícara de café.

Ele balançou a cabeça, divertido.

— Você fala isso agora, mas ainda vai aparecer alguém que vai bagunçar suas certezas.

— Ah, claro. — voltei a pegar o livro, abrindo na página marcada. — Do mesmo jeito que você jurava que nunca ia se apaixonar, né? E olha você aí, prestes a ganhar o prêmio de “namorado mais grudento do ano”.

— Toca aqui — ele estendeu a mão com um sorriso. — Esse eu aceito com orgulho.

Suspirei, rindo.

— Você é impossível.

— E você é teimosa. — Ele deu dois passos pra trás, já indo em direção à porta. — Mas tudo bem. Só não esquece de me avisar quando resolver provar que eu tô certo.

— Pode deixar — respondi, sarcástica. — Quando eu tiver um namorado imaginário, você vai ser o primeiro a saber.

Ele gargalhou, balançando a cabeça, e desapareceu pela porta, me deixando sozinha novamente.

Suspirei fundo, recostando de novo na espreguiçadeira. Silêncio. Finalmente.

Mas, por alguma razão, o que ele disse ficou ecoando na minha cabeça

“ainda vai aparecer alguém que vai bagunçar suas certezas.”

O som do portão se fechando indicou que Alex finalmente tinha ido embora. A paz, por fim, reinava de novo. Voltei a me ajeitar na espreguiçadeira e tentei retomar a leitura, mas as palavras começaram a se embaralhar diante dos meus olhos. Minha mente, claro, não colaborava.

A conversa com ele ainda ecoava em mim

“Você não pretende arrumar um namorado?”

como se uma parte de mim tivesse começado a se questionar o mesmo. Suspirei, apoiando o livro sobre o colo e observando a superfície calma da piscina. Talvez… ele tivesse razão. Eu passava tanto tempo dizendo que não precisava de ninguém, que às vezes me esquecia de que querer alguém não era sinal de fraqueza. Era só… humano.

E então, inevitavelmente, pensei na lista.

Aquela lista absurda que Sofya e Savannah tinham me feito escrever no dia anterior.


Amoroso. Carinhoso. Engraçado. Responsável. Paciente. Inteligente.


Depois, as que eu mesma acrescentei:


Goste de exercício físico. Goste de sair para distrair a cabeça. Tenha boa educação. Saiba se vestir bem. Esteja sempre pronto para socorrer. Que seja sincero.

Olhei pro nada, rindo sozinha. Era uma lista bonita, quase perfeita. Talvez perfeita demais. Será que existia alguém assim, de verdade? Ou será que eu tinha criado um tipo de ideal impossível de encontrar, só pra justificar o fato de continuar sozinha? Fechei os olhos por um instante, deixando o vento morno tocar meu rosto. Talvez eu devesse tentar. Sair um pouco, conhecer gente nova. Não necessariamente procurar o “cara da lista”, mas… me permitir ver o que o mundo tinha pra oferecer. Sorri de leve. Mas isso ficaria pro futuro — e, se dependesse de mim, bem distante. Peguei o livro novamente e voltei à leitura, decidida a não pensar mais no assunto. Mas no fundo, uma parte silenciosa de mim sabia: o universo tinha um senso de humor peculiar. E, às vezes, tudo o que a gente passa a vida evitando… é justamente o que está prestes a acontecer.


Notas finais
✨ Nota da Autora: Ufa! Chegamos ao fim de mais um capítulo 💖 Me contem nos comentários o que acharam, e não esqueçam de votar/salvar pra ajudar a história a crescer!