Checklist e Poltronas (Zanour)
4 Capítulo 3 - O desastroso encontro
Nour Ardakani
Domingo. Chuva. E tédio.
A combinação perfeita pra um dia arrastado, daqueles em que o tempo parece conspirar pra não passar. Desde que acordei, o barulho constante da chuva batendo no vidro da janela era o único som que quebrava o silêncio da casa. Alex, como havia prometido, passou a noite na casa da Sofya e, sinceramente, eu estava agradecida por isso. Pelo menos, dessa vez, não teria ninguém me provocando antes do café da manhã. Na tentativa de ocupar a mente, eu fiz de tudo um pouco. Arrumei o quarto, lavei o cabelo, organizei meus livros por cor (de novo), até tentei assistir a uma série… mas nada segurava minha atenção por mais de quinze minutos. Suspirei e me joguei no sofá da sala, enrolada em uma manta, observando as gotas de chuva escorrerem pelo vidro. O som da televisão estava baixo, passando algum programa aleatório, mas meu celular vibrando sem parar chamou mais a atenção. Peguei o aparelho e vi o grupo com Sofya e Savannah em plena atividade.
Savannah: “Bom dia, minha gente! Eu e o Josh estamos indo pro chalé, desejo sorte a vocês que estão presas na cidade kkkk 😘”
Sofya: “Sorte? Eu tô com o Alex, vou precisar é de paciência 🤦♀️”
Savannah: “Paciência e fones de ouvido, amiga kkkk”
Ri sozinha, digitando uma resposta rápida:
Nour: “Amo que vocês duas estão ocupadas, enquanto eu tô aqui quase conversando com o espelho de tanto tédio.”
Sofya logo respondeu:
Sofya: “Vai sair, garota! Faz alguma coisa, não fica trancada em casa o dia todo.”
Suspirei, olhando pra tela por alguns segundos antes de largar o celular sobre o sofá. Fácil pra elas dizerem. Uma estava em um chalé romântico e a outra provavelmente com o namorado grudado igual chiclete. Eu? Estava ali. Sozinha. Num domingo chuvoso. Olhando novamente pra janela, pensei que talvez Sofya tivesse razão. Ficar o dia todo dentro de casa só estava piorando meu humor — e eu precisava respirar um pouco, nem que fosse por algumas horas. Peguei o celular de novo, abri o aplicativo de cinema e vi que estava passando um filme que eu queria assistir há semanas. Olhei o horário, olhei a chuva… e dei de ombros.
“Por que não?”
Levantei do sofá, fui pro quarto e comecei a me arrumar sem pensar demais. Um moletom confortável, jaqueta jeans, tênis e o cabelo preso num coque bagunçado. Nada demais afinal, não era como se eu fosse encontrar alguém interessante por aí. Era só eu, o cinema e um balde grande de pipoca.
Terminei de colocar o celular pra carregar e, antes de sair, parei em frente ao espelho do quarto.Soltei um suspiro.
— É… talvez eu esteja simples demais. — murmurei para o meu próprio reflexo.
Eu estava com o mesmo moletom que usei pra arrumar o quarto pela manhã e o cabelo preso de qualquer jeito. Nada contra o conforto, mas… algo dentro de mim queria se sentir um pouco mais viva do que apenas “a garota entediada de domingo”. Abri o guarda-roupa e comecei a revirar as prateleiras até decidir o básico que nunca falha: uma calça jeans preta justa, uma camiseta azul-clara leve, e por cima, a minha jaqueta de couro favorita aquela que me fazia parecer minimamente confiante, mesmo quando eu não estava. Nos pés, um tênis confortável, e uma bolsa pequena, só o essencial. Soltei o cabelo e passei os dedos pelos fios até ver meus cachos caindo naturalmente pelos ombros e costas. Sorri de leve.
— Melhor assim. — murmurei, ajeitando um dos cachos rebeldes que insistia em cair na frente do rosto.
Peguei o celular, chamei um Uber e, minutos depois, já estava a caminho do shopping. A cidade estava molhada e cinzenta, mas a chuva fina tornava o cenário até um pouco acolhedor. As gotas deslizavam pelo vidro do carro enquanto eu observava as ruas vazias, as pessoas com guarda-chuvas apressadas e o som suave da música tocando no rádio. Talvez sair realmente tivesse sido uma boa ideia. Quando o carro parou em frente ao shopping, agradeci ao motorista e respirei fundo antes de descer. O ar frio me fez puxar a jaqueta um pouco mais para perto do corpo. Entrei no prédio, sentindo o cheiro familiar de pipoca misturado ao de café uma mistura estranhamente reconfortante. Fui direto até o balcão do cinema, comprei o ingresso para a sessão das 16h e, com tempo de sobra, resolvi dar uma volta. Passei por algumas vitrines, entrei em uma livraria (óbvio), folheei alguns livros e saí de lá tentando resistir à tentação de comprar mais um. Depois dei uma olhada rápida em uma loja de acessórios, só pra passar o tempo. Quando o relógio marcou quinze minutos antes da sessão, decidi seguir o caminho que mais fazia sentido naquele momento: a lanchonete do cinema. Peguei minha pipoca média, o suco de maracujá meu preferido, sempre, e um chocolatinho que piscou pra mim no balcão. Equilíbrio perfeito entre doce e salgado, conforto e distração. Com tudo em mãos, entrei na sala escura, procurando o meu assento. O ar-condicionado estava gelado, e a luz fraca das propagandas iluminava o ambiente com um tom azulado. Me acomodei, ajeitei a bolsa no colo e soltei um suspiro tranquilo.
Domingo chuvoso, cinema, pipoca e silêncio. Talvez fosse exatamente disso que eu precisava.
Zane Carter
A cozinha ainda cheirava a tempero e pão assado quando terminei de enxaguar o último prato. O som da chuva do lado de fora misturava-se ao barulho da torneira, e minha avó, como sempre, falava sem parar enquanto secava a louça ao meu lado.
— Então você tem certeza que não vai ao bingo comigo? — ela perguntou pela terceira vez, me olhando por cima dos óculos.
Sorri de canto, entregando-lhe outro prato limpo.
— Absoluta, vó. Já disse que não vai dar.
— E o que é mais importante do que o bingo da igreja, me diga? — ela retrucou, cruzando os braços, claramente pronta pra me dar uma bronca.
— Um filme — respondi com naturalidade, desligando a torneira e secando as mãos com o pano de prato. — Já comprei o ingresso. Sessão das quatro.
Ela arqueou uma sobrancelha, tentando disfarçar o interesse.
— Um filme, é? Sozinho?
— Sozinho. — confirmei, rindo. — Antes que a senhora pergunte, não é um encontro secreto com a neta da Dona Célia.
— Poxa vida — ela fingiu decepção, mas um sorrisinho escapou. — Eu até ia torcer por você.
— Vó, a senhora tá transformando minha vida amorosa em um projeto de caridade.
Ela riu alto, me dando um leve tapinha no braço.
— É que você é um bom rapaz, Zane. Inteligente, trabalhador, bonito… só falta uma moça boa pra te acompanhar.
Revirei os olhos, embora não conseguisse esconder o sorriso.
— Lá vem o discurso motivacional.
— Eu só quero que você seja feliz, meu filho. — Ela pousou o pano de prato sobre o balcão, o olhar suave. — Mas se vai ao cinema, então aproveite. Vai te fazer bem sair um pouco, respirar, esquecer o mundo por duas horas.
Sequei minha mão e me inclinei pra beijar o topo da cabeça dela.
— Pode deixar, vó. Prometo que vou aproveitar cada minuto.
Ela sorriu, satisfeita.
— Isso. E se o destino resolver te apresentar alguém especial… não se assuste.
Balancei a cabeça, rindo baixo
— Só a senhora mesmo pra transformar uma ida ao cinema num evento romântico.
Ela piscou.
— Eu chamo de “otimismo”.
Saí da cozinha ainda rindo, enquanto o som suave da chuva continuava caindo lá fora. Depois de finalmente convencer minha avó de que eu não mudaria de ideia, subi pro quarto pra me arrumar. Não era nada demais afinal, era só uma ida ao cinema, mas mesmo assim eu queria parecer apresentável. Abri o guarda-roupa, peguei uma calça jeans escura, uma camiseta preta básica e minha jaqueta favorita, aquela que já era quase uma segunda pele. Nos pés, um tênis confortável. Simples, prático, sem muito esforço.
Me olhei no espelho por um instante e dei um meio sorriso.
— Perfeito. Simples, mas decente. — murmurei.
Desci as escadas com as chaves do carro na mão, e encontrei minha avó já de casaco, pronta pra sair.
— Vai me deixar na igreja primeiro, não vai? — ela perguntou, ajustando o lenço sobre os ombros.
— Claro, vó. — respondi, abrindo o guarda-chuva pra protegê-la da chuva fina que caía. — Prometi, não prometi?
Ela sorriu satisfeita e, durante o curto trajeto até a igreja, foi falando sobre o bingo, as amigas, e o bolo de fubá que a Dona Nádia ia levar. Eu só assentia, rindo de vez em quando. A verdade é que eu gostava desses momentos com ela. Era simples, mas… familiar. Quando chegamos, parei o carro em frente à escadaria e ela se virou pra mim.
— Divirta-se, meu filho. E come pipoca por mim.
— Pode deixar. — respondi, rindo. — Mas sem prometer dividir.
Ela me lançou um olhar divertido antes de descer, desaparecendo entre os guarda-chuvas coloridos que se acumulavam na entrada da igreja. Assim que ela entrou, olhei o relógio: 15h30. O filme começava às 16h, então eu ainda tinha tempo suficiente pra ir com calma. Liguei o carro e segui pelas ruas molhadas até o shopping. O céu estava de um cinza preguiçoso, e a cidade parecia mais lenta, como se todo mundo tivesse decidido tirar o dia pra descansar. Estacionei no subsolo, desliguei o motor e respirei fundo antes de sair. A chuva fina ainda caía, batendo contra o telhado metálico do estacionamento. Subi as escadas rolantes até o piso do cinema, e logo o cheiro de pipoca tomou conta do ar. Aquilo, de alguma forma, me fez sorrir. Fazia tempo que eu não tirava um tempo só pra mim. Comprei o ingresso direto no totem e, em seguida, fui pra fila do balcão de lanches. Pedi uma pipoca grande e uma refrigerante, e quando olhei o relógio novamente, já marcava 15h50. Perfeito. Tempo exato pra entrar, achar meu assento e aproveitar o filme sem pensar em nada, sem ninguém pra me distrair.
Narrador
A sala de cinema estava quase vazia. O som das propagandas ecoava suavemente pelas caixas de som, misturado ao estalar de pipocas sendo mastigadas pelos poucos casais espalhados nas fileiras da frente.
Mais ao fundo, Nour estava sozinha, acomodada confortavelmente com seu balde de pipoca no colo e o suco apoiado no porta-copos. O cabelo caía em cachos soltos sobre os ombros, e o brilho suave da tela iluminava seu rosto de forma delicada. Zane entrou na sala alguns minutos antes do início do filme, equilibrando a pipoca em uma mão e o refrigerante na outra. Seus olhos percorreram rapidamente as fileiras, procurando o número da poltrona. Havia poucos lugares ocupados — o que tornava o ambiente ainda mais silencioso e intimidador. Ele caminhou com cuidado pelo corredor, tentando não fazer barulho. Quando encontrou a fileira correta, deu um meio sorriso satisfeito e começou a entrar, desviando-se das poltronas Mas bastou mais dois passos para o destino resolver se manifestar.
Sem perceber, Zane tropeçou na alça da bolsa de Nour, que estava caída no chão ao lado da poltrona. O tempo pareceu desacelerar por um instante, a pipoca voou, o refrigerante balançou perigosamente e, antes que ele pudesse se equilibrar, o inevitável aconteceu: caiu. Bem à frente dela.
Nour se sobressaltou, levando a mão à boca.
— Ai, meu Deus, moço! Você tá bem? — perguntou, a voz carregada de preocupação enquanto se inclinava pra ajudá-lo.
Zane soltou um gemido leve, apoiando uma das mãos no braço da poltrona pra se levantar.
— Eu… acho que sim. — respondeu com um sorriso torto. — Só um leve ataque de pipoca voadora.
Ela piscou, sem saber se ria ou se continuava preocupada.
— Eu juro que não vi minha bolsa cair no chão, me desculpa!
Ele balançou a cabeça, limpando a calça com uma das mãos.
— Tudo bem. Pelo menos o filme ainda nem começou. Seria bem pior cair no meio da cena principal, né? — brincou, tentando aliviar o constrangimento.
Nour riu, meio sem graça.
— Verdade… mas mesmo assim, desculpa de novo.
— Relaxa — disse ele, olhando ao redor. — Com o meu talento, era questão de tempo até eu tropeçar em alguma coisa.
Ela mordeu o lábio, tentando conter o riso, e foi então que Zane olhou para o número da poltrona dela… e o dele.
— Não acredito nisso.
— O quê? — perguntou Nour, ainda segurando a bolsa no colo.
Zane levantou o ingresso amassado entre os dedos, um sorriso surgindo no canto dos lábios.
— Adivinha quem vai ter o prazer de sentar bem ao seu lado?
Ela arregalou os olhos e depois soltou uma risadinha.
— Sério?
— Sério. — respondeu ele, rindo junto. — Prometo que fico quieto… e que não caio de novo.
Nour balançou a cabeça, divertida, e se ajeitou na poltrona enquanto ele se sentava ao lado. A luz da sala começou a diminuir lentamente, e ambos ficaram em silêncio. Qundo as luzes da sala se apagaram completamente, e o brilho da tela tomou conta do ambiente. Zane ajeitou-se na poltrona, ainda meio desconfortável por ter quase caído minutos antes. Ao seu lado, Nour segurava o balde de pipoca e o suco, tentando se concentrar no início do filme.
Os primeiros minutos mostravam a protagonista discutindo com o vizinho por causa de um cachorro perdido. Zane, com os olhos semicerrados, inclinou-se levemente para o lado dela e murmurou:
— Então eles brigam por causa… de um cachorro? É sério isso?
Nour conteve o riso.
— Sim, é sério. É o jeito do diretor de mostrar o primeiro conflito deles.
— Ah — ele assentiu, pensativo. — Então isso é tipo… o início do romance?
— Exato. Eles se odeiam agora pra se amarem depois.
Zane arqueou a sobrancelha, um sorriso debochado nos lábios.
— Interessante. Eu costumo começar meus relacionamentos sem precisar xingar ninguém primeiro.
Nour riu, baixinho.
— Talvez você esteja vendo os filmes errados.
Conforme a história seguia, Zane não conseguia ficar calado.
— Mas por que ela tá chorando se o cachorro tá vivo? — perguntou em voz baixa.
— Porque ele foi adotado por outra pessoa! — ela respondeu no mesmo tom, tentando não rir.
Alguns minutos depois:
— E esse cara é o mesmo que apareceu na cena do café?
— É o irmão do protagonista — explicou ela, paciente.
— Então tá. — Zane se recostou, fingindo entender. — Achei que era o mesmo cara, só com menos barba.
Nour mordeu o lábio pra conter o riso, mas acabou soltando uma gargalhinha abafada.
De repente, um “psiu!” alto veio de algumas fileiras à frente. Um casal de idosos virou-se, lançando olhares reprovadores para os dois. Nour arregalou os olhos, sem graça, enquanto Zane levantava as mãos num gesto de rendição.
— Desculpa, prometo que fico quieto. — sussurrou ele.
— É bom mesmo — ela respondeu, divertida. — Daqui a pouco eles jogam a pipoca da frente na gente.
Zane deu uma risada abafada, e enfim, se calou ou quase. De vez em quando, soltava um comentário baixinho, que fazia Nour segurar o riso com dificuldade. Quando os créditos começaram a subir e as luzes voltaram a acender, ela se levantou ajeitando a jaqueta, enquanto ele espreguiçava-se preguiçosamente.
— Bom — disse Zane, esticando o pescoço —, eu oficialmente não acredito que consegui assistir a um filme de romance sem dormir.
Nour riu, cruzando os braços.
— Isso é um elogio ou uma crítica?
— Um elogio — respondeu ele, com um sorriso torto. — Acho que o mérito é seu. Se não fosse pelas suas explicações, eu teria desistido nos primeiros quinze minutos.
Ela balançou a cabeça, rindo.
— De nada, então.
Eles caminharam juntos pelo corredor até o saguão. O shopping já começava a esvaziar, e o som da chuva fina ecoava do lado de fora.
— Tá com fome? — perguntou Zane, virando-se para ela. — Posso te pagar alguma coisa, já que te fiz perder metade do filme respondendo minhas perguntas.
Nour olhou o relógio e suspirou leve.
— Eu adoraria, mas já tá meio tarde. Acho que vou direto pra casa.
Zane assentiu, compreensivo.
— Tudo bem. Mas obrigado pela companhia… e pela aula de cinema.
Ela sorriu.
— Obrigada você. Foi… divertido.
Ele retribuiu o sorriso, genuíno, enquanto ela se afastava em direção à saída.
Por um instante, Zane ficou ali parado, observando-a desaparecer entre as pessoas, com a sensação estranha, e boa, de que aquele domingo, que tinha tudo pra ser só mais um dia entediante, acabava de mudar de significado.
Fale com o autor