Chasing Life
1 Dia um - Pro Dia Nascer Feliz
Notas iniciais
Havia acabado de destrancar o carro quando o celular vibrou impaciente em seu bolso direito. A quinta ligação de Renji em menos de meia hora. Na tentativa de tentar finalmente respondê-lo uma de suas alunas o surpreendeu, correndo na sua direção enquanto lhe chamava pelo nome. A iluminação ruim, juntamente ao imenso vazio do estacionamento fizeram com que se sobressaltasse por um segundo com a agitação inesperada. Não podia recusá-la, afinal, era sua orientanda de pesquisa. A apresentação final da parceria seria em uma semana, em um dos maiores eventos de seminários científicos da Universidade de Karakura. Mestres e doutores de todo o país estariam presentes para assisti-los, e, sem dúvidas, para também avaliá-los.
Enquanto a garota lhe entregava uma pasta e tentava justificar seu atraso, os olhos do Dr. Kuchiki vagaram sobre a gesticulação ansiosa e o remexer de papéis. Limitou-se a afirmar com a cabeça e a desejar boa noite quando ela se foi. Enfim, paz. No entanto, bastou-lhe retomar o celular em mãos e sentar-se no banco do motorista que a voz da garota berrou ao longe:
— Quase me esqueci, feliz aniversário, professor Kuchiki!
Byakuya afrouxou os ombros e encarou o celular com suas ligações perdidas, considerando se ainda valia a pena retornar ou esperar chegar em casa para terem aquela discussão. Ou melhor, continuarem, pois jamais pareciam chegar num consenso a respeito de nada já fazia algum tempo. É como se nos dois últimos anos estivéssemos tendo a mesma discussão, sob pretextos diferentes. Eram bastante diferentes, Byakuya era consciente do contraste. Mas, ainda assim, a sensatez não amenizava a sensação de vazio que crescia progressivamente entre eles.
No começo tinha sido fácil convencer Renji de que os quatros anos seguintes seriam difíceis. A rotina, entretanto, somente confirmou a tese popular de que a paciência não é a maior virtude dos seres humanos. “Não é como se precisasse disso, é como se estivesse nadando contra a corrente”, Renji dizia, e sem dúvidas com alguma razão. Não precisava se desgastar numa árdua escalada acadêmica em busca de títulos e publicações de renome, tendo a origem e sobrenome que carregava. “Tem outras maneiras de fazer coisas significativas pro mundo, sem precisar de sacrificar seus amigos e nosso relacionamento”, foi a última coisa que ouviu na manhã daquele mesmo dia, quando deixou a mansão. O motivo? Recusara passar a noite do seu aniversário com Renji e amigos, pois dias antes havia sido designado pessoalmente pelo reitor Kyouraku para coordenar a reunião de colegiado da universidade. Razão pela qual ignorara as ligações de Renji até o presente momento. Creio que, no fim das contas, cada um tem a solidão que melhor lhe veste.
Já no trânsito, o casal do carro ao lado no sinaleiro chamou-lhe a atenção, afastando-o dos pensamentos. Não seria hipócrita de mentir para si mesmo de que não era mais feliz anos atrás, quando estar nos braços de Renji era tão natural quanto necessário. Quando a intimidade, que, conquistada com tanto cuidado ao longo do relacionamento, fluía sem medo ou pudores. A vida que tanto lutei para ter ao lado de Renji. Ao contrário de agora, com toques sempre tão medidos, que na cama se tratavam como estranhos e na manhã seguinte mal se falavam.
— Ih, olha lá, o tiozão espiando, tá gostando, é?
O constrangimento que sentiu ao ser pego só não foi maior que a péssima sensação que abatera sobre ele naquele instante. Jovens. Arrogantes, sempre vivendo suas vidas com pretensão. E quem não vivia, afinal? Num mundo onde até mesmo a felicidade nos pendura num precipício, soava amargo e injusto condená-los por vangloriarem de uma suposta liberdade. Também sou pretensioso e me prendo a um fantasma de liberdade. Enquanto me volto para o sonho de uma carreira, o restante rui atrás de mim. Não se pode exigir que o sol brilhe dos dois lados do mundo, afinal.
O celular vibrou, mais uma vez. Byakuya procurou o acostamento e parou para atender. Sua surpresa ao ver a chamada foi logo substituída por uma interrogação. Não era Renji, mas sim, o reitor Kyouraku.
— Ei, Dr. Kuchiki, nos despedimos sem que eu tivesse a chance de cumprimentá-lo pelo seu aniversário, o que é uma pena. Tem planos para hoje?
— Por que pergunta?
— Bom, se tiver, acredito que não é nada que possa adiar em vista do convite que vou lhe fazer. Estou com o Dr. Sousuke, titular da universidade de Tokyo, e ele está bastante interessado em dar uma espiada no andamento da sua pesquisa. Parece que conseguiu impressioná-lo, Kuchiki. — seguiram-se algumas risadinhas, e, em seguida, fez-se um silêncio sepulcral na linha. — Entendo que deve estar sem palavras, bom, se estiver disposto, volte para a universidade para conversarmos.
Ao desligar o aparelho, a notificação de mensagens piscava no canto da tela.
“Estou na casa do Shuuhei, com Rangiku, Ichigo, Rukia, etc. Sei que tem outras prioridades, mas, caso ainda se importe, sentimos sua falta.”
Seu coração expandia-se e contraía-se em velocidades ridículas, fazendo-o sentir como um adolescente tolo e inexperiente. Conhecia a reputação do Dr. Sousuke e sua influência na área de sua pesquisa. Ter seu parecer em primeira mão poderia ser o pontapé que lhe economizaria tempo e suor nos dias vindouros. Esse era o seu cérebro e sua razão procurando situá-lo no eixo das prioridades. No entanto, ainda segurava o celular em mãos, com as palavras de Renji saltando na tela, causando aquele incômodo de ondas inquietas no seu coração.
Sem se permitir a colocar ambas situações na balança — esse é o meu erro, eu penso e calculo demais —, Byakuya iniciou o carro e rumou na direção do único caminho que traria sossego para aquele mar atormentado em seu coração. O sol não pode brilhar dos dois lados do mundo... mas, posso definitivamente escolher de qual lado desejo acordar.
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