Chasing Life
2 Dia dois - Shiny Happy People
Notas iniciais
A familiar sensação, selvagem e primitiva, crescia dentro de si. Para perseguir a torrente de prazer que espalhava pelo corpo, Byakuya deitou a cabeça sobre o braço, de forma que o permitisse tocar seu membro pulsante com maior liberdade. Aquela não era a sua posição favorita, mas, sem dúvidas, era a que proporcionava a Renji um de seus melhores ângulos. Além do mais, o capitão precisava admitir que a ironia de ser dominado pelo tenente daquela maneira, apoiado sobre as próprias mãos e joelhos, era por demasiado interessante para que também não tirasse dela algum proveito.
O modo como seus quadris se empinaram ainda mais contra o membro de Renji, fez com que Bykuya o sentisse mais a fundo de si, preenchendo o seu interior por completo. Remexeu-se, ondulando o corpo contra a ereção, acompanhando o ritmo empenhado das estocadas do Abarai. Por alguns segundos perdera-se naquela cristalina sensibilidade, apenas concentrando-se em sentir o membro de Renji atravessando sua carne com seu avantajado volume. Ainda lembrava-se do quão difícil havia sido acostumar-se a ser violado por aquele tamanho, sem que o desconforto da dor se interpusesse em seu prazer. E durante um tempo, isso foi inevitável, dada à sua inexperiência no sexo com outros homens. Mas nisso, em especial, Renji revelou-se um amante não somente cuidadoso, mas extremamente paciente.
“Quero que o senhor seja capaz se entregar a mim por completo, sem se machucar, e desfrutar disso tanto quanto eu. Não me importo de esperar para que seu corpo se sinta confortável junto ao meu. Nada me faria mais feliz.”
Byakuya não tinha como se sentir mais grato por permitir que o Abarai entrasse em sua vida. Mesmo que outrora dividissem a estreita relação de tenente e capitão, jamais poderia afirmar com a certeza de agora, que, antes fosse possível gozar da mesma felicidade, livre, irreprimível e desimpedida, como a que vivia no presente. Renji e seu amor foram sua carta de alforria, tornaram as cores do seu mundo mais nítidas e redesenharam em seu coração o real significado de nobreza. Mal podia compreender, racional e emocionalmente, como vivera durante décadas a fio se contentando em enaltecer apenas a superfície de ideais cuja essência estava tão longe de seu alcance. Agradecia todos os dias de sua vida por Renji tê-lo elevado para uma condição espiritual mais próxima do nobre e do homem que fora designado a ser.
A triste parte de toda essa boa ventura era não poder compartilhá-la para além dos quartos e aposentos bem fechados, longe de qualquer olhar. “O clã jamais nos aceitaria. Seria expulso. Ainda carrego as manchas de casar-me com uma plebeia do Rukongai e a de adotar Rukia, tornando-a uma legítima Kuchiki. E o que dizer da reação do próprio Gotei diante disso? Além do mais, por lei, já estaríamos violando a norma que proíbe que capitães e tenentes mantenham relações dessa natureza.” As limitações formais, morais e sociais eram parte do mundo em que nascera, e tinha sua própria maneira de lidar e contornar todas elas.
Mas não Renji. Uma criatura impetuosa, bravia, intensa, que crescera nas terras impiedosas do Distrito 78º, ao sul do Rukongai. Portanto, sua rebeldia frente aos códigos da Seireitei não era de todo injustificada, tendo Renji vivido boa parte de sua vida em completa ignorância da existência de tais preceitos. Mantermos um relacionamento por trás de portas fechadas, como se estivéssemos cometendo um crime, lhe causa imensa tristeza e revolta, Byakuya era ciente disso.
Naquele instante, passos se aproximaram do quarto do capitão.
— Renji! — Byakuya ergueu de súbito a cabeça, desconcentrando-se de tudo que estavam fazendo. Até tornou-se consciente de uma cãibra na panturrilha esquerda, que, até o momento, não havia lhe incomodado.
— Sim. — O tenente compreendeu de imediato.
Tão logo a presença inoportuna foi detectada, as batidas na porta a sucederam. Lamentosamente, Renji apressou-se em desprender-se do corpo do capitão. O instante em que o membro rijo deslizou para fora de si, quebrando a deliciosa sensação de plenitude, foi seguido de um gemido rouco de decepção. Byakuya abafou-o contra o travesseiro, enquanto aproveitou para deitar seu corpo no futon para recobrar a razão.
— Kuchiki-sama. — a voz conhecida anunciou do lado de fora do aposento.
— Um momento, irei me vestir. — disse, engolindo a respiração arfante.
Pelo canto do olho, Byakuya observava Renji se vestir apressadamente. Odiava ter de submetê-lo a constrangimentos como aquele. Embora não fossem ingênuos a ponto de não preverem que estariam fadados a se sacrificarem em vista do inesperado. No entanto, ter consciência disso não tornava mais fácil ter de suportar a expressão de Renji, que parecia ao mesmo tempo responsabilizá-lo e sentir pena de ambos por todo o inconveniente.
Ao terminar de se vestir, Renji ajoelhou-se ao lado do corpo de Byakuya. Respirou fundo, e pôs-se a acariciar-lhe as costas nuas com as costas dos dedos, acompanhando a linha suave de sua coluna. Era fácil para um tolo apaixonado como ele perder a razão diante de um corpo como o do Kuchiki. Desejava-o em proporções absurdas, derradeiras, obsessivas. Beijou-lhe com carinho sobre os ombros, e depois na nuca, contendo o impulso de tapar-lhe a boca e voltar a possuí-lo até drenar aquele corpo de todo o prazer que fosse possível lhe arrancar. Mas com Byakuya, Renji era comedido. Aprendera com a prática a reconhecer a importância de respeitar os limites desde que fora promovido a tenente da Sexta Divisão. Os excessos e disparates não eram bem vistos na tradição daquele esquadrão. Que conveniente.
— Renji, precisa ir. Não se arrisque, não aproveite da sorte.
Sem resposta, o amante partiu por entre uma passagem secreta ao fundo dos aposentos do capitão. O caminho levava-o até um cômodo privado nos alojamentos da sexta divisão, de onde faria o trajeto seguro até sua casa.
—x—
Byakuya acordara esbanjando um incomum mau-humor que fez com que evitasse a companhia de pessoas até a hora da reunião com seu conselho. Não era para menos, afinal, devido a uma interrupção na noite anterior, fora obrigado a terminar sozinho o serviço que começara com Renji, em vista de se livrar da terrível tensão acumulada em seu corpo.
Apesar do seu estado de espírito, aquela seria uma noite importante para o clã. Recebera a mensagem de que seria discutido o caso da redução de impostos comerciais, de modo a ampliar o fornecimento e lucro sobre as mercadorias. Não era novidade que a família Kuchiki liderava o mercado da Seireitei — afinal, tamanha riqueza não se multiplicava por magia nos cofres da fidalguia. No entanto, a competição atual com outras casas nobres vinha-se tornando cada vez mais acirrada. E nenhum dos lados possuía experiência e sabedoria econômicas suficientes para lidar com a novidade.
Byakuya passara a manhã se encarregando de estudar propostas de diversos membros do conselho, para no fim, elaborar o parecer que daria início à sessão de debates. Durante a tarde, permitiu-se ao luxo relaxar, imerso em um banho quente nas suas termais particulares — enquanto isso, aproveitava para repassar o texto mentalmente, até tê-lo impecável na memória. Se Renji estivesse aqui, poderia lê-lo para mim. Mas não seria possível encontrar-se com o Abarai naquele dia.
— Com a sua licença, Kuchiki-sama — a empregada aproximou-se da margem em que Byakuya estava recostado e fez uma breve reverência. — Suas vestes e documentos já estão prontos. Os soldados de escolta também já estão de prontidão. Deseja fazer sua refeição antes de partir, Kuchiki-sama?
— Entendi. E não, não haverá a necessidade. — disse, para dispensá-la. A empregada já havia dado de costas quando Byakuya voltou a lhe dirigir a palavra. — Tem algo mais. Envie ordem para que os cozinheiros adiantem o jantar em minha ausência. Meu tenente assumiu o Sexto Esquadrão em meu lugar e está cumprindo hora extra, diga que enviem alguém para servi-lo antes do fim do expediente.
—x—
Sabia que não era querido pela maioria dos presentes naquele lugar. Sabia também que o motivo maior de ainda permanecer invicto ocupando a cadeira de líder daquele clã, era a monarquia hereditária. Mesmo que os baixos líderes e parlamentares me detestem, somente uma rebelião interna seria capaz de derrubar nossa tradição de governo. Mas não seriam tão estúpidos a ponto investirem contra um capitão do Gotei. Byakuya finalizou seu discurso seguido de uma discreta salva de palmas.
Reconheceu o tom de surpresa nos rostos de alguns membros do Conselho, quando declarou que sua posição inicial era não somente a de apoiar a diminuição dos impostos, mas também a de ampliar o território Kuchiki no mercado, aumentando a oferta. Estava preparado para as próximas declarações, apesar de já prever que não obteria o apoio suficiente para colocar todas as suas próprias propostas em prática.
E assim foi, quando finalmente atingiram o consenso ao fim da reunião. Os votos finais decidiram que haveria, de fato, uma redução mínima, mas aplicada somente na região sul da Seireitei, como estratégia experimental. E apenas quatro votos escolheram a ampliação de território e ofertas, o que fez com que a medida fosse prontamente excluída das próximas manobras comerciais.
O fim da reunião anunciava o pior. Havia sempre uma recepção de mera formalidade social, onde comida e bebida eram distribuídas ao longo de horas de entediantes apresentações e conversas desinteressantes. Todos, com sua exceção, congregavam do momento com cumprimentos efusivos, sem jamais permitir que o sorriso lhes abandonassem o rosto. Vários deles se odeiam mutuamente. Tramam contra si mesmos. Seus sorrisos e palavras bem-aventuradas não passam de hábeis artimanhas no palco da vida social. Sentia pelo caráter dos nomes que falavam em nome dos Kuchiki, sabendo que o clã ia muito além disso. Havia poucos a quem Byakuya poderia devotar sua mais cega confiança naquele lugar. Aquilo o perturbava tanto quanto causava confusão ao tentar qualquer forma de interação civilizada. Gostaria de fazer Renji compreender que não vale a pena se angustiar por não podermos compartilhar nossa felicidade num meio de mentiras e hostilidades como esse. Não desejo e nem espero o reconhecimento que vem dessa gente.
Mas, mesmo que procurasse evitar, na medida do possível, tais interações, aquele era também o momento em que chefes de outras famílias vinham lhe prestar apoio e reconhecimento. Apresentavam-no à suas belas filhas e bajulavam-no na esperança de que alguma delas despertasse nele o menor dos interesses. Interesse o bastante para fazer dela um receptáculo de herdeiros e símbolo de transações políticas bem sucedidas.
— Kuchimi-sama, esta é Katsu Kori, minha herdeira primogênita. Sempre o admirou, e, por isso, tenho um pedido a fazer em seu nome. — percebendo a permissão do líder, o homem continuou a falar. — Kori sempre foi uma estudiosa acerca dos shinigamis, e tem devoção particular pela sua divisão. Seria muita ousadia de um homem como eu pedir-lhe que conduza minha filha em uma visita ao seu esquadrão?
— Se é mesmo interessada em conhecer a fundo nossos métodos e filosofia, creio que não seria de todo um incômodo mover esforços para tornar possível esse pedido.
— Em nome de minha filha e sua admiração, peço que aceite estes 10,000 kans de investimentos em sua força e soldados. — o homem estendeu-lhe um pacote lacrado, que foi apanhado por um de seus assistentes.
Enquanto toda a conversa se dava, Byakuya não pôde deixar de notar o completo e puro desinteresse da jovem Katsu em reação às palavras do pai. Mal conseguiu ver seu rosto, pois o cabelo ruivo e sua atenção voltada para outro ponto do salão, impediram-no. Havia um Kuchiki recém-aprovado em quinto lugar na posição de importância da Sexta Divisão, de quem a jovem Kori não conseguia arrancar seus olhos. Pretende investir em mim as chances de casar a filha que ama outro. Quanta audácia.
— Por hoje é só, Kuchiki-sama. — o assistente finalmente pronunciou as santas palavras que desejava ouvir. — Fique à vontade para deixar o salão quando quiser.
— Agradeço sua ajuda, Kuchiki Saito. Já estou de saída, avise os soldados.
—x—
Ao chegar à mansão e finalmente acomodar-se no conforto de seu quarto, apercebeu-se de que seu cansaço mental era tamanho que a mente rodava. Trocou os trajes oficiais pelo singelo yukata de dormir e aguardou para que os empregados viessem lhe oferecer a refeição.
— Dormirei mais cedo, não irei jantar. Dê ordens para que retirem a mesa.
— Entendido, Kuchiki-sama. Apenas mais uma coisa, fizemos o que ordenou mais cedo e o tenente Abarai pediu que lhe entregasse isso.
Um envelope, lacrado com o selo oficial de assuntos confidenciais da Sexta Divisão. Byakuya esperou estar a sós para abrir a mensagem que denunciava sua gravidade antes mesmo de ser lida. Preocupou-se, já antecipando a miríade de coisas ruins que poderiam ter acontecido em sua ausência no esquadrão. Porém, para a sua surpresa, o papel da mensagem era diminuto e havia apenas algumas linhas:
“Espero que o pequeno capricho que me fez não tenha perturbado a cruel e rígida rotina da mansão Kuchiki. O jantar estava delicioso, digno de um rei. Está perdoado por ontem.”
Byakuya literalmente estremeceu ao inspirar e expirar fundo do começo ao fim de sua leitura. Como ousa brincar dessa maneira? Tolo. Não pôde evitar em deixar que um meio sorriso se formasse em seus lábios. Amava-o, era verdade. Amava o modo como suas impertinências evocavam algo de si que ele mesmo estranhava. Me faz descobrir partes de mim que ainda desconheço. Naquele momento, seu coração tranquilizou-se ante as ansiedades de Renji. Entendia suas razões, mas entendia também que a honestidade por trás de se estar tão feliz, de nada tinha a ver com a aprovação alheia. Não precisamos de que almas tão corruptas nos diga o que fazer. Não é correto que algo tão precioso seja tocado por mãos tão sujas.
Afinal, há uma razão para que grandes tesouros sejam protegidos sob os maiores segredos.
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