Chasing Life
13 Dia treze - The Age Of Aquarius
Notas iniciais
A vaga deixada por Shirogane no posto de tenente da Sexta Divisão começava a atiçar a ambição dos oficiais que cobiçavam o título. O gabinete de Byakuya se enchia de cartas com recomendações e ofícios que o convidavam para assistir a torneios nos dojos de cada esquadrão. Algumas indicações eram realmente promissoras. Em especial, aquelas vindas da Quinta e Terceira divisões.
Mas, apesar de todo o empenho, Byakuya já havia elegido um nome de sua preferência, e não mudaria de ideia tão facilmente. Na verdade, aquela era uma decisão de muitos anos, quando ainda o vira pela primeira vez. Devo mantê-lo por perto, pensara, quando seu orgulho era o que mais desejava proteger. Farei da sua vaidade a minha arma. Sua força será a minha força. Sua espada cortará ao brado de minha voz. Lutará por mim e não contra mim. Farei com que entenda, que não há como tomar de volta algo que nunca lhe pertenceu.
Byakuya o observava, estudava seus movimentos, estava atento a cada passo e palavra sua. Dia e noite, a imagem do persistente vira-lata lhe fazia companhia. Sabia que também era observado por ele, não nas sombras, mas por entre recantos e esconderijos. Sentia nele o cheiro do medo, mas, ainda assim, ali estava o tolo presunçoso, cercando-o, acossando-o. Bastava que Byakuya se virasse para esmagá-lo com sua própria sombra. No entanto, não o fazia. Permitia que a caça continuasse, estéril e debilitante. Eu o escolho, Renji Abarai, para que siga os meus passos, para que seja meu escudo.
Mas, para o azar do Kuchiki, sua decisão não era sinônimo de poder de escolha. Mesmo para um capitão do seu nível. O oficial em questão era membro da Décima Primeira Divisão, e não havia sido listado dentre as indicações fornecidas pelo capitão da unidade. Sua única opção era negociar. E Byakuya sabia que, tratando-se dele, Kenpachi cobraria um preço alto para permitir que selecionasse qualquer que fosse o oficial que desejava dentre os seus.
— Trata-se de Abarai Renji, que atualmente ocupa a sexta posição no seu esquadrão.
— É um bom soldado, por que eu o ofereceria de mão beijada pra um fresco feito você? Vai estragar o miserável na sua divisão. — Zaraki o recebeu deitado em suas almofadas, apesar de aquele ser horário de serviço. Byakuya não mostrou surpresa. Ali a ociosidade era tão bem valorizada quanto a selvagem sede de luta.
— Hm. Soube que a verba do seu esquadrão está entre as mais baixas. Talvez os oficiais daqui estejam ocupados demais roncando ou guerreando entre si, ao invés de trabalhar.
— Admiro as bolas que você tem de vir até aqui achar que pode dizer as merdas que quiser e ainda pedir favor. Aliás, o que mais me surpreende é que você tenha realmente alguma coisa aí dentro dessas calçolas.
O interior do Kuchiki fervilhou com os insultos a ponto de chegar a tocar o cabo de sua zanpakutou, cogitando um ataque. Mas então respirou, deixando que a prudência organizasse suas emoções. Há muito treinara para dominar seus ímpetos e mantê-los sob controle. E não seria um bárbaro daqueles que conseguiria arranhar sua imagem. Byakuya tirou um embrulho de dentro do haori e deixou que caísse no colo do homem.
Kenpachi apanhou e desfez o lacre. Centenas de moedas tilintaram se espalhando sobre o seu hakama. Um sorriso maníaco brotou em seu rosto.
— Isso deve cobrir as dívidas do seu esquadrão e compensar demais prejuízos.
— Pelo jeito, esse Abarai soube direitinho onde morder pra te fazer abrir as pernas desse tanto. Mesmo pra um rico metido a besta como você.
— Eu não lhe devo satisfações sobre as minhas razões. — Byakuya tirou outra coisa de dentro do haori, desta vez, um envelope — Aqui está. Repasse esta carta o mais breve possível.
—x—
Ele veio mais cedo do que imaginara a princípio. Byakuya contava com a possibilidade de Kenpachi malograr o acordo ou de que sua preguiça o impedisse de entrar o documento em menos de três dias. Mas ali estava o rapaz em seu gabinete, ajoelhado, curvado para o seu novo capitão.
Byakuya deu a volta em torno dele, em silêncio. Parou à suas costas, de modo que sua sombra se projetasse sobre Renji. Ele tremia e suava de nervosismo. O Kuchiki quase conseguia ouvir o coração dele martelar contra o peito. A reiatsu turbulenta oscilava, como se um vento tempestuoso a assoprasse em todas as direções. Byakuya imaginou o quanto aquele momento era emblemático para o rapaz. Pensou em como passara anos se preparando para confrontá-lo cara a cara, para chegar ali, e ajoelhar-se apavorado perante o homem que bradou aos quatro ventos derrotar. Mas a caçada havia chegado ao fim.
— Abarai Renji. Por que está aqui?
— Porque o senhor quer me promover a tenente da Sexta Divisão.
— E você sabe o significado disso?
É claro que, por alto, havia uma única e satisfatória resposta. Mas não era essa que o Kuchiki gostaria de ouvir. E, como esperava, Renji permaneceu em silêncio.
— Bem, significa que de agora em diante você deve lealdade, serviço e obediência a mim. Minha palavra é sua lei. A voz do capitão-comandante é a única que deve acatar com exceção da minha. Você aceita, Renji Abarai, o cargo de tenente da Sexta Divisão, diante dessas condições?
O rapaz agarrava seu hakama nervosamente com as mãos em garra. Byakuya ouvia-o puxar a respiração pela boca, mas, naquele exato instante, ele havia a prendido na garganta. A tensão estava condensada no ar.
— Sim, Kuchiki-sama, eu aceito o cargo. — a voz de Renji soou como um trovão nos ouvidos de Byakuya. Era determinada e corajosa. O novo tenente não poderia ver, mas, às suas costas, o capitão ergueu de leve os cantos dos lábios.
— Levante-se.
O ruivo obedeceu. O Kuchiki deu meia volta ao seu redor, encarando-o de frente. Pôde ver que Renji era alguns centímetros mais alto e também mais largo em dimensão. Sabia que o Abarai treinava incansavelmente. Havia se destacado por dominar por completo seu shikai, e, já falava em iniciar seu treinamento para atingir o bankai. Poderia ser um tolo, mas ao menos era um tolo impressionante.
— Irá começar semana que vem. Faça sua mudança de alojamento durante esse período. Não admito atrasos. — Byakuya deu costas e caminhou até a sua mesa, onde puxou a cadeira para sentar-se. — E também preciso conhecer sua habilidade. E só há uma maneira de fazer isso.
— O senhor quer dizer que iremos lutar?
— Sim.
O que Byakuya esperou ver nos olhos de Renji era pavor e perplexidade. Mas, ao invés disso, suas pupilas dilataram-se, brilhantes e destemidas. Sabia o que aquilo queria dizer. Era a sua primeira oportunidade de medir forças com o homem que desejava superar. Byakuya não estava disposto a decepcioná-lo. Era a hora de a caça e caçador finalmente mostrarem suas presas.
Renji pediu licença e deu de costas para deixar o gabinete do Kuchiki, quando estacou na porta e voltou para diante do capitão. Ele tinha os lábios apertados e os ombros retraídos.
— Kuchiki-sama, não é como se eu estivesse questionando seu julgamento, mas, sei que tinha oficial muito melhor que eu que se candidatou pra essa vaga. Por que me escolheu?
Byakuya uniu as mãos na altura do queixo. Encarou-o com os olhos cerrados. O Kuchiki sabia que o Abarai já tinha a resposta para aquela pergunta. Mas buscava confirmação.
— A caçada acabou, Renji. Eu venci. Você foi capturado. — o capitão tinha uma expressão serena na face, enquanto que seu tenente se engasgara com o próprio despreparo diante do que acabara de ouvir. — Uma nova era começa para nós dois. Agora vá, deve ter assuntos a tratar com seu ex-capitão.
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