Chasing Life

14 Dia catorze - La Bamba


Notas iniciais
Eu realmente não sabia o que fazer com a história de hoje. Quebrei a cabeça, até que uma luz veio. Procurei usar a música como temática pro cenário, TÁ-DÁ. Essa história terá continuação. Pensei duas vezes antes de mexer com o assunto dela, porque tive medo de cometer equívocos. Eu não sou psicóloga, psiquiatra, tampouco médica. Tive 2 anos da matéria de psicologia na faculdade, e uso as informações que estudei nesse período além das que pesquisei por fora. Mas não tenho propriedade nenhuma nessas áreas. Se algo deve ser mudado, me avisem nos comentários! Muito obrigada e boa leitura! :)) A música desse dia é "La Bamba", dos Los Lobos.

Ele deveria saber que a ideia de aceitar um convite de Yoruichi para uma casa noturna chamada “Sombrero” não tinha chance de render qualquer coisa boa. Mas, quando concordou em ir, jamais poderia prever uma tragédia daquela dimensão. Muito menos envolvendo seu problemático ex-paciente.

Quando a mulher irrompeu em sua sala naquela noite, protestando contra sua decisão de passar a noite no hospital, Byakuya terminava de preencher o prontuário da sua paciente. Sequer conseguia tirar da cabeça o surto psicótico que assistira há algumas horas. Havia sido necessário mobilizar os enfermeiros para ministrarem o sedativo intravenoso antes que uma tragédia maior acontecesse tanto com a paciente, quanto com ele. Gostaria de permanecer para acompanhar a evolução do seu quadro, mas, Yoruichi o arrastara de seu escritório. Byakuya sentia que o restante do seu dia perdia o sentido após presenciar incidentes como esse. Entregava-se facilmente à tristeza e ao isolamento como estratégia para driblar a ansiedade que tudo aquilo lhe causava. Mas não foi sempre assim.

Antes da morte de sua esposa, Byakuya clinicava com mais frequência. Mas, aos poucos, o posto de diretor geral do hospital começou a pesar, obrigando-o a restringir sua atuação para dedicar-se exclusivamente à administração do instituto. E essa distância da prática, de certa forma, o enferrujara. No entanto, graças a um opulento investimento privado, o Kuchiki conseguiu ampliar a equipe da diretoria, o que aliviou significantemente sua agenda no último ano, graças à redistribuição de responsabilidades. Por isso, pensou que seria boa ideia retomar sua atuação em clínica. Já Yoruichi, sua diretora técnica, não concordava tanto.

— Não vou deixar você voltar pra casa com essa tromba, Byakuya-bou. — Ela o olhava do retrovisor, com as mãos no volante. Urahara, seu marido, estava ao lado, no banco do passageiro. Os dois se davam muito bem, e Byakuya era grato por tê-los em sua instituição.

Kisuke, assim como a esposa e o Kuchiki, haviam sido colegas na faculdade de medicina. E hoje todos eles eram psiquiatras de grande reputação. Mas, além de clinicar, Urahara também encabeçava a central de pesquisa agregada ao hospital.

— Também não estou indo de livre espontânea vontade, se isso te conforta, Kuchiki-san. — o homem virou o tronco no banco e sorriu para Byakuya, quem simplesmente bufou um “hm” em resposta.

A fachada da casa noturna saltava às vistas, mesmo a dois quarteirões de distância. Bem como o título sugeria, os letreiros luminosos piscavam no formato de dois sombreros multicoloridos sobre o nome do local. Mesmo dentro do carro, o ritmo latino penetrava as janelas num volume ensurdecedor. As pessoas ao redor vestiam-se com cores vivas, e a grande maioria era composta por jovens. Byakuya era um viúvo de trinta e dois anos, e dono de uma personalidade que contrastava com absolutamente tudo a respeito daquele lugar.

Sua maior razão para aceitar o convite, era fazer Yoruichi acreditar que estava fazendo uma boa ação, porque, no fundo, por baixo de todas as gracinhas e alfinetadas, ela se preocupava. E também tinha argumentos mais convincentes que os dele. Houve um tempo em que perdiam tempo discutindo, mas, no presente, era menos desgastante deixá-la acreditar que tinha razão ou ignorá-la por completo. E nem sempre a segunda opção era a mais viável.

Yoruichi estacionou o carro e todos se dirigiram para a entrada. Byakuya sentiu-se um tanto deslocado ao lado do casal, mas Shihouin o assegurara de que havia chamado Kyouraku e Ukitake mais cedo, e que teriam dito pensar no assunto. Mas o Kuchiki não viu vantagem naquilo, uma vez que, aqueles dois, mesmo que não oficializassem a relação, eram tão casados que só faltavam dividir o mesmo espaço, no mesmo corpo. E provavelmente estavam caminhando para isso.

O que restava ao Kuchiki era torcer para que as próximas horas passassem o mais depressa possível.

Já dentro do clube, Yoruichi os conduziu para o andar de cima, onde havia mesas com assentos mais confortáveis, e o bar era menos concorrido. Ao redor das escadas, dançarinas exibiam o ritmo da salsa com seus corpos curvilíneos, cobertos por pouquíssima roupa. Ao tomarem seus lugares, escolheram uma mesa com vista panorâmica para a pista de dança. O garçom veio imediatamente para atendê-los. O casal pediu cerveja, enquanto que Byakuya escolheu conhaque.

— A Yoruichi-san me contou o que houve com a sua paciente. — Urahara disse.

— Ao que parece, o marido deu uma identidade falsa na recepção e os dois se encontraram. Ele a ameaçou. — Byakuya respondeu, alterando seu tom habitual de voz. Era caótico tentar conversar num lugar daqueles. — A polícia foi acionada e recolheram as imagens das câmeras de vigilância para análise.

— Você deveria largar disso e focar na direção. — Yoruichi disse. — Se quer tanto assim trabalhar, poderia desenvolver algum projeto na Central. Qualquer coisa que não o sobrecarregasse tanto. Precisa curtir um pouco a vida que tem. Eu pelo menos sei fazer isso muito bem.

Ela passou o braço em torno do pescoço de Urahara e puxou-o para um beijo. Byakuya agradeceu-a por dispersar o assunto, descartando a necessidade de ele se pronunciar a respeito disso mais uma vez. O trabalho clínico lhe trazia dignidade e fazia com que se sentisse útil. Não havia estudado seis anos para mofar na cadeira de diretor. Ele tinha uma habilidade, e soava justo que a usasse da melhor forma possível.

— E aí? Bora dançar? — Yoruichi deu um gole demorado no que restava de sua cerveja. — O Kisuke não vai se importar se eu te usar um pouquinho, não é?

— Neste lugar? Jamais.

A Shihouin fez uma careta e o provocou com as alfinetadas de sempre, zombando do seu jeito de ser. Ele era mesmo fechado, não havia muito que fazer a respeito. Byakuya era consciente de que esse era seu mecanismo de defesa. Mas ele o ajudava a manter a cabeça onde deveria, na maioria das vezes.

— Vou dar uma passadinha no banheiro. — Kisuke se levantou.

— Eu também. — Byakuya o acompanhou, recusando-se a ficar a sós com Yoruichi, pois corriam o risco de retomar assuntos que ele preferia deixar que caíssem em esquecimento, ao contrário da amiga.

Urahara foi à frente e Byakuya o seguia. No meio do caminho um homem trajando um poncho tentou colocar um sombrero gigante na cabeça do Kuchiki, que se desequilibrou na tentativa de desviar. Havia agarrado as barras de proteção do piso para se segurar, mas, acabou precisando se segurar ainda mais firme, pois seus olhos focaram em alguém muito específico na pista de dança.

Ele era inconfundível. A cabeleira ruiva, de um vermelho impossível e aquelas tatuagens que Byakuya sabia bem até onde se estendiam. Estava com uma loira voluptuosa agarrada pela cintura. Os dois dançavam lascivamente alguma coisa num ritmo animado, que soava como música mexicana — como qualquer outra coisa naquele lugar. Ele parecia impecavelmente feliz.

— Kuchiki-san — Urahara o chamou de volta para o planeta terra. — Não interfira. Ele é agora responsabilidade da Unohana-san. Além do mais, sabe como borderlines são... lembra da última vez? Não queremos que aquilo se repita, não é mesmo?

Ele sabia que Kisuke tinha razão. E sim, sua memória jamais o permitiria esquecer o fatídico dia. Byakuya havia o carregado para a emergência com suas próprias mãos, ensopadas do sangue daquele rapaz. A lembrança do cheiro impregnado em sua roupa ainda lhe trazia náuseas.

— Esqueci minha carteira de cigarros na mesa. — Byakuya disse, fazendo o caminho de volta. Urahara o olhou desconfiando, mas deu de costas e seguiu para o banheiro.

Byakuya caminhou reto, até a escada lateral. Desceu-a trotando, pois o trânsito congestionado de pessoas não permitia que parasse para contar os degraus. Durante o trajeto, certificou-se de manter o dono dos fios vermelhos ao seu alcance. Havia muita gente. Um mar sufocante de corpos dançando, se esfregando. E o ritmo frenético daquela música perfurando seus tímpanos.

Ele sabia o que estava fazendo. Conhecia os riscos. Entendia o que todo aquele processo de impulso representava. Ora, tratava pessoas para que elas não tomassem a mesma decisão estúpida que acabara de tomar. Mas o que poderia fazer contra o coração que esmurrava contra o seu peito? Era apenas um homem, no fim das contas.

Mas agora havia perdido seu alvo de vista. Byakuya girou em volta, perscrutando toda aquela gente em busca de uma cabeça que, com facilidade, se destacaria de todas as outras. Talvez aquele fosse um aviso cuidadosamente lançado pelo acaso, alertando-o para manter distância. Bastava um pouco mais, apenas para ter certeza. Ele desistiria se não o avistasse dentro de mais alguns segundos, foi o que disse a si mesmo.

E então viu Urahara no piso de cima, retornando para a mesa. Byakuya embrenhou-se na multidão, andando apressado na direção do bar. Quando suas mãos atingiram o balcão, sentiu-se como tivesse cruzado a linha chegada e estivesse em segurança. Talvez devesse pedir alguma coisa para comemorar aquilo.

— Uísque, por favor. — Disse para o barman.

— Uma margarita pra mim! — A mão bateu na bancada e o susto causado por ela automaticamente atraiu o olhar do Kuchiki para o seu lado direito.

Qual não foi a surpresa estampada no rosto de ambos quando se olharam. Byakuya sentiu o coração descer para o estômago. E, apesar do calor abafado que fazia ali dentro, sua cabeça parecia ter sido mergulhada num balde de água fria. O rapaz ficou o encarando antes de dizer qualquer coisa. Então o Kuchiki disse, num tom óbvio de admiração:

— Renji!?

— Nossa! Esse é o último lugar do mundo onde eu esperava te encontrar, Dr. Kuchiki.

— Vim com a Yoruichi-san e o Urahara-san.

— Sei, que bacana. Mas e aí? Tá gostando do lugar?

Byakuya meneou a cabeça de leve e respirou fundo, o que fez com que Renji compreendesse de imediato o que ele queria dizer. Naquele minuto o barman trouxe seu uísque. O Kuchiki provou um gole e em seguida falou, elevando seu tom de voz:

— Como está indo com a Unohana-san?

— Muito bem, ela é realmente incrível! Tá tudo bem tranquilo.

Era verdade, Byakuya sabia disso. Unohana possuía a mesma especialidade que a sua, no ramo da psicoterapia analítica. Aliás, essa havia sido a principal razão para que Renji fosse transferido para os cuidados dela. O Kuchiki acompanhava o progresso do tratamento de longe e sabia que o rapaz vinha obtendo melhoras significativas desde que se afastaram, há quase um ano.

— Fico feliz, Renji.

— Oi?

— Eu disse que fico feliz por isso. — havia dois alto-falantes acima de suas cabeças, o que impossibilitava a chance de estenderem qualquer diálogo naquele lugar.

O barman trouxe a margarita do ruivo. Byakuya observou aquilo com desaprovação, embora não coubesse mais a ele dizer àquele homem o que fazer. E mesmo que isso dissesse respeito a ele, não estavam dentro de um hospital ou consultório. Mas às vezes era difícil, para Byakuya, viver fora de sua profissão.

— Ah, relaxa, Dr. Kuchiki. Não é pra mim. — disse o outro, lendo a preocupação no olhar do moreno. — É pra Rangiku, uma amiga minha. A gente tá ali. — ele fez um gesto, apontando umas mesas ao fundo. — Quer vir?

— Não acho que seria apropriado. Deixei os outros me esperando lá em cima.

— O senhor é quem sabe.

— O quê? — Byakuya inclinou a cabeça para perto, de modo a ouvi-lo melhor.

— Nada não. — Renji aproximou-se um pouco mais do rosto dele e estava quase berrando. — Qualquer coisa estamos ali.

O Kuchiki não teve tempo de se despedir, ou melhor, foi fisicamente impossibilitado de fazê-lo. O homem de cabelos azuis veio a passadas enormes, rasgando o caminho, empurrando tudo e todos do lugar. Antes de Byakuya ter a chance de reagir ou se defender, o punho cerrado esmagou sua mandíbula contra o crânio, fazendo-o cambalear. O Kuchiki tentou se equilibrar segurando-se no balcão, mas sua visão estava movendo em círculos. Seu copo de uísque escorregou, e agora sentia que pisava em seus cacos.

— Desgraçado, esqueceu o que eu te disse aquele dia? Heim, seu filho da puta!? Eu mandei ficar longe dele!

E então o homem o pegou mais uma vez, erguendo-o com facilidade pela gola da camisa. Empurrou-o com força contra a bancada e desferiu um soco frontal que fez com que o doutor jogasse a cabeça para trás, fazendo um urro escapar da sua garganta. Byakuya deixou seu corpo escorregar para o chão, sentindo que a dor reverberava por todos seus membros. Não estava enxergando nada.

Ouviu a voz de Renji gritar, mas não conseguia distinguir o que ele dizia em meio àquela barulheira maldita. Abriu e fechou os olhos, apertando-os com força, repetidas vezes, tentando recuperar a visão, mas os flashes coloridos não estavam ajudando. Byakuya perdeu a noção de quantos minutos se passaram. Via borrões de pessoas agachadas ao seu redor, fazendo-lhe perguntas.

Então um par de braços o levantou e alguém lhe estendeu um saco plástico com gelo. O Kuchiki sequer conseguia encontrar o foco da própria dor, mas pareceu apropriado simplesmente encostar algo gelado na lateral da face, para que ao menos não sentisse sua carne latejar. Sua mão vasculhou os bolsos internos do terno e apanhou o celular. Ligaria para Yoruichi, mas acabou desistindo e guardou de volta o aparelho. Decidiu que seria melhor sair logo dali e chamar um táxi.

Ele agradeceu ao barman pelo gelo e apanhou um copinho plástico que havia ali, para cuspir o sangue que havia se juntado dentro da sua boca. Agora enxergava bem melhor, apesar de que a tontura ainda fizesse suas pernas vacilarem. Passou a língua ao redor da boca e sentiu um talho por onde sangrava profusamente. Provavelmente iria precisar dar pontos. E de tirar uma radiografia, apenas por precaução.

— Dr. Kuchiki! Peraí, Dr. Kuchiki!

Byakuya foi interceptado por um rosto aflito e duas mãos fortes que o detiveram sobre seus ombros. Era um ofegante Renji com seus cabelos vermelhos jogados na cara.

— Vem comigo, eu vou tirar o senhor daqui.

Notas finais
Essa história terá continuação.