Chasing Life
15 Dia quinze - Summer Nights
Notas iniciais
O comportamento do seu tenente nas últimas semanas intrigava-o. Renji havia adquirido hábitos, deveras, curiosos. Byakuya, no entanto, desconhecia qualquer razão para aquilo. Todas as noites, desde então, deitava sozinho em sua cama e encarava com tristeza o vazio ao seu lado. Foi algo que fiz? Ele se perguntava, tateando o escuro em busca de uma resposta.
E não eram somente os hábitos. Renji estava evitando-o. Suas palavras eram esquivas, os seus toques fugidios. Sempre que seus lábios se tocavam, os beijos soavam como uma despedida. Byakuya não conseguia evitar que o Abarai escorregasse por entre seus dedos, a cada vez que tentava capturá-lo, fosse num abraço ou em palavras cuidadosamente costuradas. Ele sorria, com certa melancolia a brilhar em seus olhos, e, no minuto seguinte, desaparecia.
Mas, naquele dia, quando voltou do expediente para o seu alojamento privado, o Kuchiki observou algo diferente. A braçadeira de tenente do Abarai estava cuidadosamente dobrada sobre a sua mesinha de cabeceira. Ele não a usava com frequência, mas, de toda maneira, isso não tornava aquele sinal menos significativo. Byakuya crispou os lábios enquanto segurava a braçadeira numa mão. Guardou-a num bolso interno do seu haori e saiu à procura do seu tenente. Se é que ainda poderia considerá-lo como tal. É um tolo se pensa que pode renunciar sem a minha permissão.
Byakuya sabia para onde Renji ia todas as noites. Quando apanhava os relatórios para confirmar as expedições de seus soldados para o mundo-material, lá estava o nome do seu tenente, por volta do mesmo horário, atravessando o Senkaimon. O Kuchiki não fazia ideia de como Renji conseguia ludibriar o kidou-corps para que o deixassem passá-lo, sem uma ordem direta do seu capitão. Mas, estava prestes a descobrir esse mistério e tantos outros que pareciam acumular em volta do Abarai.
Não era costumeiro que descesse até o mundo-material, portanto, sempre estranhava o ar, que a princípio, lhe soava rarefeito. Levava alguns minutos para que seu corpo se acostumasse.
Ele saltou por entre os telhados residenciais, com o vento quente do verão de Karakura a penetrar seu shihakusho. Era sempre curioso o desacompanhamento de estações entre a Soul Society e o mundo-material. Lá em cima ainda estavam no outono, as árvores perdiam suas folhas e a brisa ondulava fria, carregando-as pelo chão. Mas, em Karakura, um sopro morno dançava por entre o verde vivo da vegetação.
Parou no topo de um templo religioso e concentrou-se para rastrear a reiatsu daquele de quem fora a procura. Surpreendeu-se de o quão próximo ele estava. Era provável que Renji já soubesse de sua presença na cidade. Mas, mesmo assim, preferiu chegar em silêncio, como se pudesse surpreendê-lo. Portanto, usou seu shunpo para distorcer as percepções do Abarai, e, assim, flagrá-lo.
Ele estava deitado sobre um telhado com as mãos detrás da cabeça. Uma luz artificial iluminava seu rosto e o vento cálido lhe sacudia os fios vermelhos. O ar cheirava a asfalto quente e capim esmagado pelo calor. Byakuya pousou atrás de Renji com a suavidade de uma pluma que cai sobre a água.
— O que está fazendo?
O ruivo sentou-se e espreguiçou os braços para cima, soltando um bocejo demorado.
— Nosso verão não é nada se a gente comparar com esse daqui de baixo, não é mesmo, Kuchiki... taichou? Lá em cima passando voando.
Byakuya não respondeu. Não vai me passar para trás com uma desculpa desse nível. Ele se aproximou e sentou-se ao lado do Abarai. A vista a sua frente dava para um parque de muito verde e jardins que o contornavam. Ao longe era possível ouvir o crocitar de insetos e risadas de crianças. Não havia estrelas no céu, somente a lua, sozinha, encimando toda aquela imensidão.
— Renji... — Byakuya franziu o cenho. — Por que está aqui?
Ele recebeu um sorriso forçado como resposta. Depois disso, Renji respirou fundo e seus olhos fixaram-se no horizonte. Aquilo irritou profundamente o Kuchiki. Por mais difícil que a comunicação pudesse ser entre eles algumas vezes, havia limites para tudo. Renji estava sendo ridículo e egoísta.
Byakuya jamais imaginou que fosse chegar a tal conclusão, se tratando daquela pessoa de coração enorme que era seu tenente. E mesmo que estivesse equivocado — e o Kuchiki torcia para que isso fosse verdade —, ainda assim, nada poderia justificar a obscuridade na qual Renji o havia colocado, afastando-o, evitando-o.
— Não pode me ignorar para sempre.
— Eu sei.
Então, finalmente, ele admitia.
— Sendo assim, o que quis dizer com isso? — Byakuya colocou a mão dentro do haori, retirando a braçadeira de Renji e depositando-a no colo do ruivo.
— Quer dizer exatamente isso, taichou, estou devolvendo ela pro senhor. — o ruivo apanhou o objeto entregou-o de volta para o Kuchiki.
Byakuya se sentiu idiota, e isso era algo que jamais acontecia. Há muito não experimentava qualquer sentimento negativo direcionado a Renji, mas o paradigma estava sendo quebrado. Seu peito queimou por dentro, e aquele ar quente que respirava não estava o ajudando de forma alguma.
— Suponho que tenha em mente que não pode fazer isso. Não pode escolher se retirar.
— Sei bem disso. Mas... o negócio é que... é uma situação que não cabe também ao senhor decidir. — Renji disse, com a voz a vacilar. Ele sorriu, triste, e dessa vez pareceu um gesto sincero, o que era um alívio, mesmo que aquela expressão fizesse o Kuchiki sentir-se ainda mais apreensivo.
A mão direita de Byakuya avançou sozinha e pousou sobre as de Renji. O ruivo apertou-a entre as suas e demorou-se, afagando-a devagarinho. Então as carícias subiram para os braços do capitão, trazendo-o para mais perto, até que seus rostos se encostaram. Renji agarrou a manga do shihakusho do Kuchiki apertou os lábios, balançando a cabeça. Ele parecia ridiculamente nervoso como Byakuya jamais o vira em todos os anos de convivência, tanto profissional quanto íntima. Era como se estivesse agindo feito uma criança assustada.
— Renji, precisa ser mais claro.
— Tá certo. Não tem jeito mesmo, né? Droga. — ele se afastou e apertou os olhos com a ponta do indicador e polegar, respirando fundo. Byakuya notou que ele demorou mais que o necessário nesse processo. Ele não parecia estar chorando, mas também não parecia estar longe disso.
Byakuya colocou as mãos nas costas do tenente num gesto incentivador. Estava matando-o vê-lo daquele jeito, ainda que estivesse chateado e irritado pelo ponto a que chegaram. E, por estar completamente no escuro, sua mente só pensava no pior.
— Bom... — Renji voltou a falar, empertigando a coluna e expandindo os músculos da face. — O senhor sabe, todo mundo lá em cima sabe, que desde que o Kyouraku subiu pro posto de capitão-comandante, a Oitava Divisão ficou abandonada. Até mesmo a Nanao-san foi com ele.
Ele parou e ficou encarando ao longe, os olhos vagando na brisa quente que fazia o capim deitar. O ventou então dançou e voltou-se contra os rostos dos dois, deixando as pupilas do ruivo marejadas.
— Entendi. — Byakuya disse. Viu que Renji voltou-se para olhá-lo com uma expressão confusa, quase surpresa. — Por isso me devolveu isso. — apanhou a braçadeira do tenente e voltou a guardá-la no interior de suas vestes. — Agora que é capitão, não precisará mais dela.
Byakuya estava sorrindo. E não era somente erguendo os cantos dos lábios. Sorria abertamente, de um jeito que Renji jamais vira ou pensou que viria a ver. Ele não mostrava os dentes, mas havia alegria e franqueza estampadas ali. E também orgulho, não próprio, mas pelo seu tenente, pelo o que ele viria a representar a partir daquele momento.
— Taichou! Por favor, não fala comigo desse jeito, eu ainda não dei nenhuma resposta!
— Mas vai dar. E será positiva.
— Eu não quero deixar o senhor! Ser o seu tenente é tudo o que sei fazer nessa vida. Além do mais, eu não consigo admitir que outra pessoa tome o meu lugar! E eu... eu não tenho poder e nem sabedoria o suficiente pra liderar uma divisão, não sei nem por onde começar!
— Renji, não seja estúpido consigo mesmo. — Byakuya agora o olhava com a expressão dura. — Esse é o desejo do capitão-comandante. Reconheça-o.
Byakuya respirou fundo e leve. Seu coração estava apertado de uma felicidade estranha. Estava imensamente orgulhoso por Renji. Mas ainda havia um pouco irritação dentro dele. Principalmente por ter sido mantido na ignorância e tratado como se devesse sentir culpa por ter cometido um erro que nunca existiu. Porém, naquele momento, esse sentimento tinha sido ofuscado pela alegria que sentia por Renji.
Seu coração se agitava, mas também diminuía. Não iria mentir para si mesmo: sentiria falta do Abarai estando ao seu lado, todos os dias. Seria difícil aprender a confiar em outra pessoa. Desde que se tornara capitão, aquela era a terceira vez que trocaria de tenente. Ele não era muito bom em estabelecer e firmar laços com qualquer um com tanta frequência, e pensar nisso o deixou ansioso. Mas não iria se abrir a respeito disso com Renji, porque não queria reforçar as inseguranças que se abatiam sobre ele naquele instante.
— Estou feliz por você, Renji. Tenho a certeza de que será um grande capitão.
Os olhos castanhos do ruivo brilharam, mas era mais por gratidão que determinação. Byakuya sabia que o Abarai mesmo não acreditava naquelas palavras. Apesar da confiança e ousadia que mostrava em batalha, Renji sempre teve dificuldade em reconhecer o próprio valor. Não aquele relacionado à força, mas aquele que nos molda por dentro.
Byakuya gostaria que ele aprendesse a se proteger melhor cultivando um pouco mais de amor próprio. Odiaria que essa sua vulnerabilidade se tornasse porta de entrada para que alguém agisse com más intenções. E Renji era estava suscetível a isso. Mas agora não estaria mais ali para protegê-lo ou orientá-lo. Ele faria seu próprio caminho e guiaria outros na mesma direção. Só restava torcer para que a experiência o amadurecesse e tornasse mais firmes as fibras do seu coração.
— Pelo menos o esquadrão da Oitava fica só há uma divisão de distância da Sexta. — Renji disse, com ar pensativo. Ele posicionou zabimaru no ar e girou-a como se fosse uma chave para abrir o Senkaimon.
— Qual o problema se fossem distantes?
Os dois entraram juntos e o portal fechou-se atrás deles.
— Bom, é que daí ficaria mais difícil pro senhor me visitar à noite.
O Kuchiki pigarreou, fingindo não compreender o sentido daquela sugestão. Para quem minutos atrás estava em conflito sobre se tornar capitão, de repente, Renji parecia ter ficado à vontade até demais.
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