Chasing Life

7 Dia sete - River Flows in You


Notas iniciais
ESTAMOS CONSEGUINDO. Por enquanto. Hoje a música foi instrumental, linda se querem saber. Recomendo todos a irem atrás. Este capítulo é continuação do 5. "Dia cinco - Beautiful Day". Já adianto que ele terá mais uma continuação, no decorrer desse desafio. Boa leitura! (há um glossário no final deste capítulo)

O jogo estava no nono inning. Os Yakult Swallows estavam empatados com os Yomiuri Giants, o que não era bom. Se a partida não fosse decidida naquela rodada, teriam de estendê-la até que um dos times conseguisse a proeza de virar o placar, e assim, sair dali vencedor da semifinal da Central League. A ideia de uma prorrogação não agradava ninguém. Quanto mais decisivos os jogadores fossem capazes de ser dentro dos tradicionais nove innings, mais satisfatório era o rendimento. O Tokyo Dome* estava em delírio.

Renji corria de um lado para o outro fotografando, e, vez ou outra tentando extrair informação ou opinião de algum membro da equipe técnica. Mesmo observando-o de sua cadeira, Byakuya percebia que o rapaz mal podia acreditar na própria sorte. O fato de terem chegado quinze minutos após o início da partida sequer o abalou, tamanho era seu entusiasmo. O Kuchiki conseguira um lugar privilegiado, junto a jornalistas e repórteres da mídia internacional. Não se sentia confortável debaixo dos holofotes, mas, estava fazendo um pequeno sacrifício em troca de uma gentileza. Podia tê-lo matado naquele acidente...

Após chegaram ao hotel, Byakuya se trocou e ligou para o pai, colocando-o a par da situação. Para a sua sorte, nada relativo ao acidente havia chegado aos ouvidos dele até o momento. Sojun pediu para vê-lo imediatamente, mas Byakuya decidiu que seria mais sensato pedir que ele aguardasse até o dia seguinte. Então, pediu para que o pai tentasse se comunicar com alguém do MEXT*, pois havia um certo jogo que ele deveria comparecer e estava atrasado.

— É agora, Kuchiki-sama!! — Renji sentou-se ao seu lado, eufórico. A câmera fotográfica pendurada no pescoço e já preparada em mãos. Uma camada fina de suor brilhava na testa tatuada do ruivo.

O cleanup hitter dos Giants recebeu o clarão ofuscante de dezenas de milhares de flashes na sua direção. Ele caminhou calmamente com o taco sobre os ombros, como se não se importasse que aquela fosse a jogada crucial. Então se posicionou na área do ataque para receber a bola. Era sua última chance. O estádio retumbou em torcida, despertando da apreensão. Enquanto isso, o arremessador do Yakult Swallows também tomava o seu lugar, determinado a dificultar as chances do cleanup hitter de rebater sua bola.

Os jardineiros e o apanhador ocuparam também, cada um, suas respectivas posições. O interno de primeira base – um sujeito magrelo e comprido –, flexionou os joelhos pondo-se estritamente concentrado no arremessador, e, em sequência, os outros o imitaram, com exceção dos jardineiros de esquerda, direita e central. Estes permaneciam empertigados, vigilantes a quaisquer movimentos do rebatedor.

Todos a postos, o apito do árbitro ecoou pelo campo.

O arremessador do Yakult Swallows apertou a bolinha repetidas vezes entre a luva e a mão despida. Dobrou o tronco tirando a perna direita do chão flexionando-a até a altura do diafragma, tomando impulso para o arremesso rasante. Mirou com precisão cirúrgica no apanhador atrás do cleanup hitter rival e lançou a jogada final. No mesmo segundo, sem nem dar pausa para olhos desatentos pestanejarem, o rebatedor impulsionou seu bastão num movimento arqueado de cento e oitenta graus, repelindo o arremesso para longe. Furioso, o arremessador largou a luva com força ali no gramado mesmo.

A bolinha viajou numa velocidade extraordinária, indo parar além dos limites do campo. Imediatamente, os gritos ensurdecedores de trinta mil pessoas tomaram conta do Tokyo Dome. O rebatedor dos Giants disparou na tradicional corrida através do campo em formato de diamante, percorrendo todas as bases, para no fim, retornar ao home plate completando o score.

— Fantástico! Uhuuul! Giants! Giants! Giants! — Renji ficou de pé, batendo palmas, entoando o coro. Byakuya permaneceu no seu assento, de pernas cruzadas, apenas observando a festa que tomava conta do estádio.

Uma dezena de repórteres passou na sua frente, ignorando sua presença por completo. Disputavam uma entrevista com os jogadores e técnicos de cada time. Renji fotografou a movimentação de diversos ângulos e depois disso anotou algo em sua prancheta.

— Que partida, heim, Kuchiki-sama? Os Giants ganhando em casa, que clássico! Ainda mais podendo ver desse lugar, a gente quase sente que tá lá dentro do campo com eles. Foi um dos melhores jogos que já vi, tô doido pra chegar em casa e começar a escrever. — Renji começou a guardar suas coisas na maleta. Apanhou a garrafinha de água e deu um gole demorado. — Obrigado por conseguir isso pra mim, nunca vou ter como agradecer o senhor.

— Não tenho apego com esportes, mas compreendo o que diz. Foi um jogo difícil. Espero que escreva um bom artigo sobre ele.

— Meu chefe vai pirar demais quando ver essas fotos que tirei. Olha só.

Renji inclinou-se para perto do Kuchiki, que fez o mesmo para olhar o visor da câmera. O rapaz foi lhe passando as imagens, que precisava admitir, eram realmente boas. Às vezes ele parava e comentava algo a respeito de alguma fotografia. E como seus rostos estavam muito próximos, Byakuya sentiu o perfume almiscarado invadindo-lhe as narinas, despertando uma onda de calor. E nem era porque o estádio estava abafado do suor das trinta mil pessoas.

— Realmente, as fotografias estão boas.

— É, vai ser difícil escolher na hora de fazer a diagramação... — Renji guardou a câmera no case, e, em seguida, na maleta. — Se pudesse, dava um jeito de usar todas.

— Pode vender as que não for usar para jornais e revistas menores. Além de lucrar, estará promovendo seu trabalho.

— O senhor tem razão, quando eu chegar em casa vou upar no meu portfólio e divulgar. Valeu pela dica.

As pessoas começavam a esvaziar o estádio. As filas eram gigantes, mas muito bem organizadas, sem arruaças ou confusões entre as torcidas. Byakuya poderia sair por onde quisesse. Se fosse do seu desejo, poderia até pedir que abrissem o domo do estádio para que um helicóptero descesse no gramado para buscá-lo. Mas não faria isso. Usaria a mesma passagem dos times e equipe técnica pela qual entrou com Renji, escoltado por seguranças. O jornalista agradeceu mentalmente por não precisar encarar as filas, como normalmente fazia, chegando a sair dos estádios uma hora depois do fim da partida.

— Bom, ainda há algo que gostaria de fazer aqui, Renji?

— Ah, não. Consegui tudo que precisava. Que partida! Ainda nem tô acreditando. E pensar que se não fosse o senhor, eu não estaria aqui.

— Não foi nada. Então, vamos?

— Certo.

No estacionamento, chamaram um táxi. Apesar de os arredores do Tokyo Dome estar abarrotado de pessoas, carros e ônibus, o veículo chegou antes do esperado. Talvez fosse pelo motivo de ter rodeado a área de maior trânsito e aglomeração, já que os dois estavam do outro lado do estádio, onde praticamente não havia congestionamento algum.

Quando o taxista perguntou o destino, houve confusão. Renji precisava ir para Ichigaya, onde morava, e Byakuya retornaria para o hotel, em Chiyoda. Naquele ponto, estavam mais próximos do distrito de Byakuya. Não seria problema algum, para o Kuchiki, deixá-lo primeiro, e depois seguir até o hotel. Então o rombo de fome no estômago de Byakuya o fez pensar que talvez, ainda pudessem aproveitar melhor o começo de noite.

— Renji. Não me alimento desde que aterrissei em Tóquio. Se importa de me acompanhar?

Naquele momento, Byakuya já não estava mais agindo em prol de um ato de generosidade ou coisa parecida. Desejava apenas jantar na presença de uma companhia agradável, coisa que não experimentava havia eras. Sua esposa sempre fazia as refeições antes que chegasse em casa, e, quando jantava com os colegas de universidade, levavam o trabalho para ser discutido na mesa. No caso da mulher, não havia muito que fazer, pois mal se falavam, e quando tinham a oportunidade, ambas as partes saiam magoadas ou enfurecidas do confronto.

— Importar eu não me importo, senhor, mas talvez seja inapropriado, quero dizer, o que vão pensar? Não quero causar mais problemas.

Byakuya franziu o cenho para o que o rapaz possivelmente estaria insinuando por “inapropriado”. Mas a referência lhe pareceu vaga demais.

— Fique tranquilo, conheço um lugar discreto.

A viagem demorou vinte minutos, dentro dos quais, os dois homens pouco conversaram. Renji se preocupou com o que estava vestindo, com seu cabelo, e, principalmente, com seu bolso. O Kuchiki vestia um impecável terno risca de giz, com colete, camisa e gravata. O conjunto completo. Enquanto que ele estava de calça jeans, camisa sem gravata e uma trança embaraçada. Desejou ao menos poder entrar num banheiro para se arrumar.

Para o alívio do ruivo, havia pouquíssimo movimento no restaurante. Byakuya colocou a culpa no horário. O local se enchia depois das 21h00, que era mais ou menos a hora em que as pessoas costumavam sair para jantar fora, num lugar como aquele. Mas o Kuchiki preferia assim. Era mais calmo, e a chance de ter privacidade também o agradava imensamente.

Renji pediu licença para usar o banheiro assim que pisaram no local. O outro o aguardou no saguão, antes que dirigissem à mesa. Quando o rapaz retornou, com uma expressão de ansiedade no rosto, o Kuchiki perguntou se estava tudo bem, e a resposta foi afirmativa.

Byakuya escolheu um lugar no andar de cima, próximo das janelas. Escolheu uma mesa de onde a vista do Monte Fuji lhe parecia mais magnífica. A cidade, vista daquela altura, também não deixava a desejar. Ao sentarem, frente a frente, Renji não resistiu em abrir sua maleta e retirar sua câmera para registrar Tokyo daquela perspectiva. Após alguns cliques, disse:

— Desculpe... é que não consigo me controlar às vezes. Além do mais, não é todo dia que se vem num lugar desses, com uma vista dessas. — Renji sabia que nunca mais colocaria os pés no local outra vez, a não ser que fosse promovido a dono de todo o editorial em que trabalhava.

— Hum — Byakuya apoiou o queixo sobre as mãos unidas. — Gostaria de ver como ficou.

O rapaz estatelou os olhos. O fato de estar jantando com o filho do quarto homem mais poderoso na hierarquia política do Japão, se tornava, a cada segundo que passava, mais desesperador. Era como se a ficha estivesse rolando aos poucos, mas nunca alcançando o fundo de uma vez.

— Ah, tudo bem. Pode ver, toma aqui. — Ele estendeu a câmera, um tanto constrangido.

O Kuchiki ficou em silêncio alguns segundos. O rapaz tem visão e talento.

— Novamente, excelente trabalho, Renji. Disse que tinha um portfólio.

— Ah, sim — ele apanhou de volta sua câmera. — Gosto muito de fotografar, é minha segunda paixão depois dos esportes. De vez em quando faço uns bicos, mas nada muito profissional.

O garçom veio para atendê-los. Byakuya dispensou o menu, e fez seu pedido prontamente, com bebida e tudo mais. Renji demorou-se um pouco mais, procurando algo que não o desfalcasse a ponto de precisar mendigar para pagar as contas no fim do mês. Os preços eram altíssimos, e não arriscaria comer algo para depois pedir que parcelassem na hora de pagar. Decidiu que comeria apenas a sobremesa, já que não tinha assim tanta fome. Para beber, escolheu Manhattan, com bastante cereja.

— Renji, convidei-o para que ficasse à vontade.

— Eu não estou com fome, sério, janto muito tarde, e quase sempre é com um amigo que mora comigo. Ele cozinha muito bem.

— Hum, entendo. Se sente-se mais confortável desta maneira...

Os dois conversaram sobre trabalho e um pouco mais sobre a vitória dos Yomiuri Giants. Byakuya ouviu sua companhia mais do que falou, já que provavelmente, tudo o que tinha a dizer, já era do conhecimento dele. Mas não sabia nada a respeito daquele jornalista. De onde vinha, quais seus objetivos, suas opiniões... Ele se animava com muita facilidade ao falar das coisas que gostava, principalmente do trabalho e de seus amigos. Sentia que poderia — e gostaria — de ouvi-lo por horas e não se cansaria. Era cheio de histórias.

— Então vive com um amigo. O que faz quando não está envolvido com trabalho?

— Ué, gosto de ficar em casa. Se não fosse a lesão que sofri jogando basquete na época do colegial, não ia sair da quadra. Queria jogar profissionalmente, já tinha tudo encaminhado... — Renji deu um gole no seu drink e brincou com uma cereja na borda do copo. — Mas eu saio de vez em quando... tem uns lugares interessantes...

— Por exemplo?

— Er, um amigo é dono de uma boate no ni-chome, frequento bastante lá. — ele riu, corando um bocado. Ele sentiu que Byakuya compreendeu o que aquela referência queria dizer. Procurou desviar a atenção. — E o senhor, o que faz pra distrair a cabeça?

— Leio, dirijo, toco piano...

— Sério? Eles têm um piano aqui, ia ser bacana se pudesse tocar. Você viu minhas fotografias, agora o senhor poderia me mostrar o que sabe fazer também.

Byakuya limpou a boca e bebericou o seu vinho. Talvez não seja de todo mal a ideia.

— Creio que talvez seja possível.

Finalizou seu jantar e pediu para que Renji o seguisse, para sentar-se mais próximo dele. Era comum que, fora dos horários oficiais de almoço e jantar, o piano do andar de cima ficasse livre para o uso dos clientes, se algum possuísse talento o suficiente para tal. O ruivo deixou seus pertences na mesa e seguiu o homem.

Levou alguns instantes pensando em algo apropriado e que estivesse mais nítido na sua memória. Não queria começar algo que teria de largar pela metade.

— Tenho praticado esta canção há alguns dias. É uma composição original. — disse, só para Renji ouvir.

Então os dedos longos tocaram as teclas arrancando uma melodia que a princípio era bastante simples, mas que aos poucos mostrava seu encanto, ganhando notas, tomando forma. A música era triste, mas não por isso menos bonita. Byakuya fechava os olhos, abrindo-os ocasionalmente, e quando o fazia, era para Renji que olhava. O ruivo podia jurar que em uma dessas vezes o vira sorrir, de leve, quase como se fosse sua visão lhe pregando peças.

Byakuya se deixou levar pela música, de olhos fechados, até que, com muita graça e elegância, seus dedos tocaram as notas finais. Em seguida fechou a tampa do piano e voltou-se para Renji.

— Então... o que achou?

O rapaz estava como que num transe. Era a coisa mais linda que já ouvira e vira acontecer pessoalmente. Ele suspirou, com a respiração entrecortada, como se precisasse se recompor antes de falar.

— O senhor é maravilhoso. Quero dizer, o seu talento, é realmente fantástico.

— Fico feliz que tenha gostado. — ele fez uma pausa erguendo a cabeça e mexendo os ombros. — Podemos ir?

Fecharam a conta e chamaram, mais uma vez, outro táxi. Desta vez não havia erro. Renji ficaria em Ichigaya, e Byakuya, em Chiyoda. A viagem seria mais demorada, mas nenhum se sentia muito à vontade para conversar abertamente na presença do taxista. O Kuchiki ficou absorto, observando a noite com o rosto apoiado numa mão. O silêncio gerou apreensão e ele tinha consciência disso. Talvez a impressão seja apenas da minha parte.

Renji deu as especificações do seu endereço ao taxista, que não custou a encontrar as melhores ruas para cortar caminho até lá. O veículo parou diante de um prédio residencial. O rapaz pegou suas coisas, abriu a porta, e Byakuya fez o mesmo. Os dois se encontraram ao pé da portaria.

— Então é isso aí, né. Esse dia vai ser uma história e tanto pra contar pros amigos. — Ele riu, sozinho, raspando a sola do sapato no cimento. — Brincadeira...

Byakuya pareceu não se importar.

— Renji. Desculpe ter batido em você. Espero que o que lhe passei seja suficiente para reparar os danos.

— É claro que vai ser. Vai dar até pra fazer uma pintura novinha e trocar os bancos.

— Ótimo. Então ficamos por aqui.

— Parece que sim... — Renji ajeitou os óculos e esfregou a testa com a ponta dos dedos. Sorriu, soltando um muxoxo, como se desistisse do que pretendia falar. — A gente se esbarra por aí. Se bem que é mais fácil o senhor esbarrar em mim do que o contrário, né?

— Hum, tem razão. — e se isso se repetisse, não se importaria em fazer uso da adorável companhia daquele rapaz mais uma vez, pensou o Kuchiki, mas jamais revelaria. — Hoje foi uma noite agradável, Renji. Faça um bom trabalho. Até logo.

Renji ficou parado, observando o Kuchiki partir. Esperou até que perdesse o táxi de vista para poder entrar. Enquanto isso, Byakuya carregava um coração agitado e uma mente repleta de confusões. As luzes passavam rápidas pela janela do automóvel. Tóquio não dormia. E nem ele iria, naquela noite.

Notas finais
Esse foi o capítulo menos Byakuya centered que fiz até agora. É DIFÍCIL me conter e não revelar um pouco do que se passa na cabeça do Renji. Acho que perdi o controle disso nesse capítulo ahahaha. Won't happen again. . . *Tokyo Dome é um estádio de 55 mil assentos localizado em Bunkyo, Tóquio, Japão. É a casa do time de beisebol Yomiuri Giants, e já sediou dentre outros partidas de futebol americano, kickboxing e eventos musicais. . *MEXT: Ministério da Educação, Cultura, Desporto, Ciência e Tecnologia do Japão . Inning: unidade de tempo nas partidas de Baseball. O objetivo de um time é marcar mais corridas que o time adversário, ao final dos 9 innings (duração da partida). . Cleanup hitter: é quase sempre um dos melhores rebatedores do time; muitas vezes aquele com maior potência. . Home Plate: Uma corrida é marcada quando um jogador do time de ataque percorre todas as quatro bases do campo e retorna a “home plate” (local onde rebateu), antes do término daquele inning.