Chasing Life

8 Dia oito - Live and Let Die


Notas iniciais
Este capítulo é a continuação do 6. "Dia seis - Viva la Vida". Pode ser que ele ainda tenha mais uma continuação, mas é incerto. O capítulo de hoje foi subjetivamente baseado em "Live and Let Die", dos Guns N' Roses

O sol do começo da manhã incidia em seu rosto enquanto Byakuya contemplava a lápide dos seus pais. Há algumas décadas estivera ali, com as mesmas intenções que moviam seu coração no presente momento. O que diria se estivesse aqui, pai? O senhor me rechaçaria também? Ficaria ao meu lado? Era impossível, para ele, saber. Sojun não levava os assuntos e formalidades do clã para o convívio familiar. No pouco período em que o pai tomou as rédeas da família, Byakuya ainda era jovem e dono de um temperamento explosivo, que facilmente o conduzia a agir impulsivamente. Naquele tempo, isso não importava a ninguém.

Byakuya se ajoelhou, depositando camélias sobre a sepultura de cada um. O sol pareceu mais alto, mas era morno e agradável. Há três dias o Kuchiki não via a claridade do dia. Receber aquela luz machucava seus olhos, mas ele não parecia se importar. Enxugou um filete de lágrima antes que o permitisse rolar pelo seu rosto e respirou fundo, decidido a ficar ali um pouco mais. Reavivar as lembranças de seus pais o ajudava a refletir com calma em momentos difíceis como aquele. Jamais pensei que viria até aqui para desonrá-los, de mãos abanando. Olhou para o túmulo ao lado, o de seus avós. Pensou em Ginrei e lembrou-se de suas palavras: “O poder deve ser respeitado e dominado. Aqueles incapazes de conhecer o próprio coração, não são capazes de dominar o próprio poder”.

Aquelas eram sábias palavras, mas não se aplicavam ao presente e à sua situação. Nunca estive tão cônscio e seguro do meu coração e dos meus sentimentos. Nunca o encarei de forma tão honesta. Não fazia sentido. Queria apenas viver aquilo que irrompia tão naturalmente de dentro de si. Por quê um sentimento tão puro deveria ser punido como se tratasse de algo tão errado? E essa sequer era a primeira vez. Ficaram contra mim quando me casei com Hisana. Censuraram-me quando adotei Rukia como uma de nós.

Byakuya admitia que a lei não era perfeita. Mas, ainda assim, até onde se deveria ir, sob o pretexto de manter uma sociedade pacífica e organizada? A privação das liberdades pessoais, do desejo de amar livremente... Tudo isso sempre lhe trouxe dor. Todos os sacrifícios e confrontos o deixaram com um gosto ruim na boca, de vitória amarga. Não se sentia orgulhoso de nenhuma delas, não o permitiram que se sentisse de tal maneira. Os olhares duros, condenatórios, estavam sempre à espreita, sobre ele, sobre Rukia. Teria tudo de ser sempre assim?

— Kuchiki-sama.

A voz que não ouvia há três dias o fez se levantar imediatamente. Virou-se para se deparar com Renji de pé, a brisa a lhe sacudir os cabelos. Sentiu uma imensa tristeza e um desejo de evitá-lo. A distância seria o caminho mais fácil. No próximo segundo arrependeu-se do pensamento estúpido e caminhou na direção do ruivo, encarando a grama sob seus pés. Parou apenas quando os braços de Renji o envolveram, fortes, seguros. Aquele homem tinha todos os motivos para indagar e esbravejar sobre ter sido afastado e mantido na ignorância durante esses três dias. Mas, ao invés disso, oferecia seu lado calmo e seu carinho. Quando achava que já tinha se surpreendido o suficiente com o ruivo, atitudes como aquela diziam que ele estava apenas começando.

Ficaram em silêncio naquele abraço por um longo tempo, como se as palavras a serem ditas a seguir corressem o risco de serem suas últimas. O tenente, no entanto, quebrou o silêncio.

— A Seireitei está em escândalo. Estão todos procurando uma razão, tentando entender, criando suas próprias teorias sobre o que poderia ter levado o senhor a renunciar o clã. — Renji o abraçou com mais força e então se afastou, o suficiente para ver o rosto do seu capitão. — Rukia está fora em missão. Dei ordens para que nada disso chegasse aos ouvidos dela, até que o senhor pudesse se encontrar com ela pessoalmente.

— Fez bem, Renji. Agradeço pela consideração.

— O que o senhor vai fazer agora?

Podia-se dizer que Byakuya tinha o rascunho de um plano. Jamais agia de forma totalmente incalculada. Havia informações e hipóteses que precisaria discutir com Renji num outro lugar, e de forma confidencial. Não tinha muito que lhe dizer sobre seus próximos passos, sem que certas coisas fossem antes discutidas e avaliadas.

— Tenho muito que resolver ainda. — Byakuya tocou o rosto do Abarai e beijou-lhe de leve nos lábios. — Não desisti. O clã é meu dever, foi passado a mim, é minha responsabilidade. Irei recuperá-lo. Por isso vim até aqui, diante dos meus pais, mais uma vez. Não para fazer outra promessa que não serei capaz de cumprir, mas para jurar que, como líder deste clã, defenderei os princípios em que acredito até o fim, mesmo que isso signifique subjugar um de meus iguais.

Renji não disfarçou o tom de preocupação. E também não precisava. Era evidente a gravidade da crise pela qual o Kuchiki passava. Sempre soube que esse risco o aguardava, quando dizia a ele que o chateava ter viver ao seu lado por trás de portas fechadas. O futuro de agora em diante seria incerto. E a única certeza que tinha, era a de que Byakuya poderia contar com seu apoio e amor até o fim.

— O senhor, falando rebelde assim?

— Não se trata de rebeldia. Acredito na ordem e na lei, Renji, mas não apoio aqueles que fazem uso indiscriminado desse propósito para causar sofrimento.

Eles deram as mãos e caminharam para fora dali, em direção à mansão. Os dedos de Byakuya esmagavam os do ruivo com certa ansiedade, pois dali em diante, qualquer minuto poderia ser o último. E nada naquele mundo iria os impedir de vivê-los até as últimas consequências.

Notas finais
Adorei como a letra dessa música que adoro, casou tão bem com esse capítulo! Obrigada aos leitores que estão me acompanhando =)