Chasing Life
9 Dia nove - R. Let's Go
Notas iniciais
A música nervosa e barulhenta vazava pelas frestas do apartamento. Byakuya ergueu o dedo para tocar a campainha, mas desistiu e deteve-se diante da porta. Era impossível discernir as vozes em meio à batida alta e as gargalhadas; ou melhor, havia uma voz que conseguia se destacar das demais, e era justamente a que ele menos gostava. Então ele também veio, concluiu o Kuchiki, evocando em pensamento o desagradável sorriso que pertencia ao dono dos fios azuis. Ergueu o punho do paletó e checou as horas. Era 21h30.
Byakuya afastou-se da porta e caminhou até a janela. Havia muita coisa acontecendo na sua cabeça naquele momento. Estava tomado pela ansiedade de descobrir se tinha feito a escolha mais sábia. Dispensar Sousuke era uma extravagância. Podia discordar de algum de seus métodos, mas sua carreira e pesquisa eram brilhantes. Era inútil mentir que não desejaria que tivesse seu trabalho avaliado por ele. Mas o que podia fazer agora era apenas esperar. Outras prioridades precisam da minha atenção imediata.
Acendeu um cigarro, apoiando os cotovelos na beirada da janela. Estava no nono andar. A visão não se abria para nenhum panorama de tirar o fôlego. Os prédios e casas eram bastante apertados naquele distrito, e o que Byakuya tinha a sua vista era uma residência de família. Viu brinquedos esparramados pela área descoberta e uma casinha de cachorro. Então começou a chover, e as gotas o obrigaram a se afastar da janela.
— Kuchiki-san? — disse o homem que acabara de sair do elevador. Ichimaru Gin era conhecido seu de universidade. Trabalhavam em áreas diferentes, mas mantinham frequente contato nos corredores e reuniões de academia. Apesar disso, Byakuya tinha um pé atrás com aquele homem. Mas também sabia reconhecer a importância de manter os contatos certos num lugar tão competitivo como uma universidade.
Gin tinha sido orientado por Sousuke em sua tese de doutorado. Portanto, tê-lo por perto era ao mesmo tempo um desconforto e uma vantagem. E desde que conhecera Rangiku, amiga de Renji, há alguns anos, tinham se encontrado com mais frequência do que somente no ambiente acadêmico.
— Ichimaru. Não o vi no estacionamento.
— Ah, não, não estou chegando agora. — Ele abanou a mão, rindo. — É só que a Rangiku exagerou e agora não está se sentindo muito bem, desci até a farmácia. — ele sacudiu a sacola que tinha em mãos. — O Renji-san vai ficar muito feliz de te ver aqui. Mas, se a minha memória não falha, teve de cancelar um jantar importante para vir, não foi? Não se preocupe, Aizen irá entender.
Ali estava, um dos motivos pelos quais Byakuya preferia manter uma postura sempre alerta próximo daquela criatura. Dito aquilo, Gin sorriu por sobre os ombros e abriu a porta do apartamento. Desapareceu logo em seguida, para os corredores que levavam aos quartos. Pelo jeito Rangiku havia mesmo extrapolado com a bebida. Mas aquilo não era novidade.
Byakuya deixou seus sapatos no genkan. A música alta o incomodou imensamente, mas não iria reclamar. O apartamento de Shuuhei tinha uma sacada espaçosa da qual poderia aproveitar se quisesse se livrar do barulho.
— Ei, olha o Kuchiki-san ali! — Ichigo parecia surpreso de vê-lo. Assim como todos os outros, quando o viram entrar. Mas não mais que Renji, que bebia ao fundo da sala na companhia de Grimmjow.
Shuuhei correu para abaixar o volume. Cumprimentou o Kuchiki pelo seu aniversário e ofereceu-lhe algo para beber. Byakuya aceitou um conhaque, já que não bebia cerveja. Grimmjow havia feito um drink de vodca com morangos para Ichigo, mas bebidas doces não eram do seu paladar.
Orihime e Rukia vieram para cumprimentá-lo também, e conversaram por alguns minutos antes de Byakuya ir até Renji. As duas estavam no último ano de faculdade, e aproveitaram a oportunidade para fazerem perguntas sobre o futuro depois de formadas. Rukia pretendia seguir carreira acadêmica, enquanto que Orihime optaria por exercer a especialidade da profissão que escolhera.
O Kuchiki mostrou-se bastante satisfeito em oferecer seus conselhos. Era sempre importante que aqueles com experiências orientassem os jovens que estavam prestes a começarem suas vidas. No meio da conversa, a atenção de Byakuya foi roubada, pois vira Grimmjow dar um tapa na cabeça de Renji. A agressividade despropositada foi seguida de um meio abraço e algum impropério dito ao pé do ouvido, pois o Abarai o empurrou com força depois disso. Byakuya respirou fundo, os olhos estreitos observando a cena. Então Grimmjow deixou o amigo e veio na sua direção para cumprimentá-lo.
— Fala, Kuchiki! Meus parabéns, daqui uns dias vai precisar de bengala. — não bastasse a grosseria, o rapaz o esmagou num abraço, mas foi unilateral. — Eu ia ficar muito puto se não viesse. Anda logo, vai lá. — ele apontou com a cabeça no rumo de Renji.
Byakuya pediu licença para Rukia Orihime e a deixou para continuarem a conversa com Grimmjow. Embora aquilo não tivesse como funcionar bem.
Enquanto caminhava, Renji estava sentado de costas, de frente para a sacada. Tocou-lhe nos ombros para avisar que estava ali. O ruivo levantou-se de imediato, deixando seu copo numa mesinha. Eles se abraçaram, a princípio, desajeitadamente. Depois se juntaram mais, num enlace demorado e apertado. Então se afastaram e trocaram um beijo, deixando as línguas se encostarem de leve. Renji se afastou, franzindo a testa. Byakuya sabia que o gosto forte do conhaque não o agradava. O sabor da cerveja também não lhe era o manjar dos deuses, mas não se importava de senti-lo em Renji. Pelo menos ele nunca reclamara do seu cigarro. E lhe era mais fácil nunca mais encostar a boca no conhaque do que parar de fumar. Não que fumasse descontroladamente. Era até bastante moderado.
Renji beijou-o outra vez, mas apenas suavemente, pressionando seus lábios contra os dele. Depois passou a mão por dentro do paletó do Kuchiki, na altura dos ombros, e puxou-o pelos seus braços. Byakuya terminou de tirá-lo sozinho, e dobrou-o no braço do sofá. Renji quis que ele tirasse a gravata também, mas o outro não deixou, insistindo que já estava confortável daquele jeito.
— O Gin-san comentou que você tinha um jantar importante hoje. Eu não sabia, ele me disse depois que te mandei aquela mensagem. Não quis atrapalhar.
— Não vamos falar disso agora, Renji. — Byakuya pegou o copo de Renji e tencionou a seguir para a sacada, esperando que o outro fizesse o mesmo.
Mas o Abarai segurou-o pelo cotovelo, impedindo-o.
— Espera, tem uma coisa que eu quero falar sim.
Renji podia ver Grimmjow do balcão da cozinha gesticulando algo desagradável para irritá-lo, mas não prestou atenção. Ichigo rosnou alguma coisa para ele, que Renji não pôde escutar, mas pela qual ficou grato mesmo assim. Sabia que no fundo o amigo estava apenas tentando motivá-lo a tomar alguma atitude mais consistente e decidida, mas, definitivamente, não escolhia os modos mais civilizados para isso.
— Tudo bem. Mas creio que seja melhor que me fale lá fora. — Byakuya continuou a seguir para a sacada. Deixou os copos sobre o parapeito e cruzou os braços, esperando que Renji começasse.
Antes de segui-lo, o rapaz foi buscar o próprio paletó, coisa que deixou o Kuchiki sem entender, uma vez que a chuva não os atingia e não estava fazendo frio. Quando voltou, puxou a porta para isolar o som, e Byakuya sentiu-se imensamente grato por isso.
— Olha só, antes de mais nada, eu queria pedir desculpas pela discussão de hoje cedo. Não acho que precise deixar de fazer o que gosta, de seguir seus sonhos, só pra salvar nosso relacionamento. Eu só estava pensando em mim e sendo egoísta.
Byakuya sorriu e soltou um muxoxo.
— Mas você estava certo, Renji. — ele viu que havia o deixado confuso e sem ação. Tomou um gole do seu conhaque e voltou-o para o lugar. — Falo sério. Talvez não esteja dando certo nesse ritmo. Sinto a sua falta. Acho que devemos repensar sobre o que fazer a respeito. Gostaria que me ajudasse nisso.
Sem dúvidas Renji era bobo e apaixonado o suficiente para, depois de anos, sentir o coração dar cambalhotas em uma situação como aquela. E Byakuya sabia o quão considerado o Abarai era com suas atitudes e o quanto seu amor significava para ele. Às vezes o Kuchiki não se achava merecedor de todo o sentimento que Renji devotava a ele. Mas era bobagem, pois sabia que o amava nas mesmas proporções. O que os diferenciava, era que, enquanto o Abarai era mais expansivo e transparente com suas emoções, Byakuya era mais sóbrio e contido em si mesmo.
— Fico muito feliz e aliviado de te ouvir falar isso. Até parece que combinou, porque bate direitinho com o que eu comprei pra você. — Renji mexeu no paletó e tirou um embrulho retangular. Entregou-o ao Kuchiki e o abraçou, beijando-lhe a face. — Feliz aniversário.
Byakuya olhou curioso para o embrulho. Desfez o laço e tirou o papel com cuidado, sem rasgar. Ficou confuso quando viu o que era e encarou Renji, com um meio sorriso de canto e uma interrogação no olhar. Era uma agenda. Mas não qualquer agenda, era uma moleskine preta, modelo clássico.
— Eu explico. — Renji disse. — Também comprei uma pra mim. É pra ajudar a gente a se programar e a lembrar de que fazemos parte da vida um do outro. Sei que parece coisa de livro de autoajuda, mas eu quero acreditar que se a gente fizer isso juntos, talvez tenha uma chance de dar certo. Não aguento mais sentir sua falta.
Renji puxou-o forte pela gravata e beijou-o como não fazia há meses. As línguas se chocaram e um disparo de sensações irrompeu, tornando o beijo mais intenso. Byakuya quis que saíssem dali, mas não achava que Renji estava disposto a ir embora tão cedo. O Kuchiki então apartou o beijo, embora seu coração disparasse no peito, desejando que ficassem daquele jeito por mais tempo. Mas não na frente de outras pessoas.
A porta atrás deles se abriu. Era Rangiku, que parecia ter se recuperado do mal-estar. Byakuya ficou surpreso com seu novo corte de cabelo, repicado e curtinho.
— Eu detesto atrapalhar a demonstração de amor dos pombinhos, mas precisamos do Kuchiki-san. Vem, vamos cantar parabéns pra você.
Por mais que ele insistisse que não gostasse, que não havia necessidade para aquilo, nada convenceu a loira. Eles também não haviam preparado nenhum bolo, pois tratava-se apenas de uma reunião informal entre amigos. E para falar a verdade, sequer esperavam que Byakuya fosse, de fato, aparecer. Rangiku empurrou o Kuchiki para dentro do apartamento, e, no mesmo instante, Grimmjow deu o bote sobre ele, carregando-o para o centro da sala.
Renji riu, sentindo imensamente feliz. Byakuya não sorria naquele exato momento, mas compartilhava do mesmo sentimento. Amanhã fariam planos e teriam uma conversa longa, porém, não fazia mais sentido adiar.
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