Chasing Life

6 Dia seis - Viva la Vida


Notas iniciais
Este capítulo é continuação do 2. "Dia dois - Shiny Happy People". O de hoje foi subjetivamente baseado em "Viva la Vida", do Coldplay.

Ao longe, no alto das frondosas copas, casais de andorinhas e cotovias batiam suas asas em rodopios, chilreando canções ao suave farfalhar da folhagem. Dos arbustos desprendia-se uma brisa morna que varria a superfície da represa, sacolejando-a em pequenas ondas. Byakuya piscou, sonolento, encarando o teto do gazebo onde descansava. Um agradável formigamento pululava em seu baixo ventre cada vez que a coxa de Renji eventualmente se movia, pressionando aquela região. Mas o Kuchiki não tinha coragem de despertar o tenente do seu sono profundo, apenas para repetirem o que já haviam feito minutos atrás. Não que ele não quisesse, mas o sono realmente não lhe dava disposição o suficiente.

Moveu-se com cuidado para aliviar uma cãibra, esforçando-se para não acordar o Abarai que adormecera aninhado sobre o seu peito. Renji era não somente espaçoso, como também tinha o hábito de se enroscar todo em Byakuya para dormir. E não era que o capitão desgostasse de todo aquele apego — muito pelo contrário —, mas era incapaz de cair no sono enquanto Renji não virava para o outro lado. E, enquanto isso não acontecia, ele apenas esperava, desfrutando do momento, sentindo o peso do corpo dele contra o seu, aquele cheiro...

— Taichou... — Resmungou, espreguiçando-se em seguida. Sentou-se no futon e ajeitou o desalinho do seu yukata. Procurou a tira que usava para prender o cabelo, mas não a encontrou ao seu alcance. — Tem quanto tempo que a gente tá aqui?

— Poucas horas. Mas não se preocupe. Pode voltar a dormir se quiser.

Renji fez um carinho nos cabelos do Kuchiki, vendo-o fechar os olhos e arrastar-se para deitar a cabeça no seu colo como um gato preguiçoso.

— Parece que não sou eu quem mais precisa de dormir, hum? — O tenente continuou afagando os cabelos pretos, ora descendo a carícia até as costas do capitão. Podia sentir a rigidez de tensão nos músculos dele. — Aposto como deve estar exausto. Esses sanguessugas da sua família não te dão descanso. E eu ainda quero me aproveitar do senhor hoje à noite. Podia ficar em casa amanhã, descansando. Eu consigo me virar no esquadrão.

Byakuya murmurou “hmm”. Então passou os braços em torno dos quadris de Renji e o apertou, aproveitando para aconchegar-se mais em seu colo. Acima de tudo, valorizava momentos como aquele, de carinho e entrega, em que a intimidade entre eles crescia de forma tão natural, que às vezes se esquecia de não estiveram juntos desde sempre. Era com honesta simplicidade que hoje, suas mãos se estendiam, voluntárias, para buscar o toque do outro. Conheciam seus corpos e os exploravam nos lugares certos, sem a hesitação inicial que calculava os movimentos e limitavam suas liberdades. A cortina das reservas e atitudes medidas caíra há bastante tempo. E um privilégio daqueles era algo raro.

Era estúpido, mas às vezes Byakuya se pegava pensando que aquela era a primeira vez que amava como um adulto. Como um homem maduro e seguro de seus próprios desejos. Jamais vivi desta maneira ao lado de Hisana. Apesar disso, não a culpo. Era impossível, para ela, retribuir.

Estava prestes a fechar os olhos e entregar-se a um sono maravilhoso, quando uma borboleta infernal rufou as asas negras próxima do seu rosto.

—x—

A mensagem dizia apenas que Kuchiki Endo tinha algo a lhe falar e o esperava na mansão. Constrangera-se de aparecer diante de um membro do conselho sem seus inseparáveis kenseikan e trajando yukata de passeio. Mesmo que considerasse o fato de estar na privacidade do seu lar. Simplesmente não se sentia à vontade. De todo jeito, procurou focar na especialidade daquela visita, que, por ser tão incomum, despertou nele algumas preocupações.

— Quanta informalidade, Kuchiki-sama. — O homem estava sentado numa almofada bebericando um chá. Tinha os olhos rasgados de raposa, uma barba comprida e uma cabeça lisa. — Oh, vejo que tem companhia. Boa tarde, Abarai-fukutaichou.

Endo pareceu investigá-los, olhando-os de cima a baixo. Seu sorriso era estranho, pegajoso e astuto.

— Renji está aqui para praticar shodo*.

— Compreendo. Mas desejo falar-lhe a sós. Se importa, Abarai-fukutaichou?

Byakuya compreendeu, pelo modo que Renji lhe encarava, que seu desejo era que dissesse ao homem que não havia segredo entre os dois. Sentiu por decepcioná-lo ao pedir que se retirasse. O tenente contornou o recinto sem por um segundo desviar os olhos do capitão. A tensão na sala era palpável. Byakuya incomodou-se com a pressão espiritual turbulenta que Renji mostrou ao ser dispensado. Mesmo que já não estivesse mais ali, demorou até que aquela sensação sumisse por completo. Sabe que faço isso para protegê-lo, mas nunca vai concordar, não é mesmo, Renji?

Kuchiki Endo retirou um envelope de dentro do haori e o colocou sobre a mesa. Byakuya sentou-se na extremidade oposta a ele. Não gostava daquele homem. De todos os membros do conselho, Endo era o de maior influência na opinião pública do clã, e, também, poderia dizer sem medo, o mais ardiloso. Tratava das finanças e despesas. Byakuya desconhecia alguma barganha em que aquele homem não tivesse obtido sucesso. Mesmo quando não havia dinheiro envolvido.

— Kuchiki... sama. — ele riu, como quem faz troça, embora fosse uma característica típica do seu tom natural. — Existe um ditado famoso que diz: das grandes traições iniciam-se as grandes renovações. Infelizmente não me vem à mente o autor. Mas, o que importa...

— Onde está tentando chegar, Endo? Qual o motivo de estar aqui?

— O motivo? Bom, eu não seria tão econômico. Há motivos, Byakuya, no plural. — agora ele tamborilava os dedos sobre a mesa e erguera as sobrancelhas de modo desafiador. — Heresia, difamação, transgressão... aberração. Eu poderia continuar por horas a fio...

As insinuações começaram a alarmá-lo tanto quanto irritá-lo. Byakuya franziu o cenho, demonstrando certa raiva, embora o gesto tenha sido involuntário. Viu um espasmo de satisfação percorrer a face de Endo. Pode ser um nobre, mas é fraco. Basta que eu erga um dedo e sua existência se converterá em cinzas. Mas o desgraçado não valia a mancha no seu elegante e valioso tapete.

— O que quer de mim, Kuchiki Endo?

— Muito simples. Vou ser claro e breve, pois desejo não perder meu tempo nesta mansão de desonra e depravação. Me causa repulsa! Daqui consigo sentir o cheiro da imundice. O maldito está impregnado na sua pele.

— Pensei que tinha dito que seria breve. — Byakuya mal conseguia sequer disfarçar o ódio que continha nos punhos naquele momento. Sempre soube domar a emoção, resolvendo seus problemas de cabeça limpa e equilibrada. Mas estava perdendo o controle, e sabia que Endo tomara nota daquilo. Seu peito fisgou com a ofensa dirigida a Renji. Sentia que sua impassibilidade estava a um fio de ser perdida para ceder lugar a um ato de loucura.

Era a mesma sensação de quando estava no auge de uma penosa batalha e o frenesi começava a agitar em suas veias. Byakuya era ciente de que não estava mais conseguindo conter com êxito o misto de raiva, desprezo e aversão que seus olhos deixavam transparecer.

— O caso, Byakuya, é que, em vista de todo esse histórico de vergonhas e felonia que carrega, o conselho se recusa a dobrar os joelhos e a reconhecer um imoral como seu líder. — Endo contorceu a cara velha numa careta perversa e cuspiu, amaldiçoando aquele chão. — Mas não somos tolos. Afinal, não temos o poder de expulsá-lo do poder, não é irônico? No entanto, Byakuya, vim até aqui para pedir que renuncie abertamente o posto de líder.

— E com que pretensão acha que irá me convencer a fazê-lo?

O velho empurrou na direção de Byakuya o envelope que retirara do haori. Não havia selo, portanto, retirou logo de uma vez o papel que havia dentro. Era uma carta, em nome do clã, condenando Byakuya pelos crimes traição e imoralidade contra a honra da família. Estava endereçada ao capitão-comandante da Primeira Divisão do Gotei 13. O documento pedia o afastamento do capitão da Sexta Divisão, para que fosse submetido ao julgamento do clã.

Uma ameaça. Não. Seria imprudente ameaçar um homem com a capacidade de aniquilá-lo. É uma chantagem. Quer uma barganha.

— Entendo. Então é esse o seu preço. Não deveria esperar dignidade vindo de você.

— E tem mais: a menos que faça herdeiros legítimos com uma genuína Kuchiki, desista de restaurar o prestígio herdado por sua linhagem. Se concordar, a partir da próxima semana, ocupará uma cadeira comum e não mais se pronunciará em nome dos Kuchiki. O conselho assumirá o controle e tomará as decisões em conjunto. De hoje em diante, passa a ser apenas um abastado irrelevante para as questões desta família. Mas... é claro que ainda há a saída mais interessante, que seria a de rechaçar aquele seu tenente para um caminho sem volta, e eu trataria do assunto apenas como fofoca maliciosa.

— Você tem um acordo, Endo. Reúna o conselho. Farei meu pronunciamento amanhã.

O homem gargalhou, asqueroso.

Byakuya sentia náuseas. Estava imerso em perplexidade. Os músculos da sua face contraiam, seu coração estava para saltar pela boca. O esforço extraordinário que fazia para demonstrar circunspecção começava a esgotá-lo, sentia que não iria suportar por muito tempo.

— Então é esse o caminho que você escolhe.

Notas finais
* Arte da caligrafia japonesa. É uma prática bastante conceituada e valorizada no Japão. . . A letra dessa música trata da perda de poder, então aproveitei o gancho do capítulo 3 para tentar tratar disso. Essa fanfic terá continuação. Será no dia 8, com "Live And Let Die". Beijos e até lá!