Chasing Life

12 Dia doze - I Feel Good


Notas iniciais
Estou oficialmente atrasada 1 dia no desafio ahahaha. Bem, eu realmente fiquei com o block de escrever esse capítulo. Tentei usar o "I feel good" de maneira irônica (vão entender quando lerem). Mas acabei não gostando muito do resultado final, fiquei sem ideias pra desenvolver e terminar. ahahahaha. Enfim. A música do capítulo de hoje é "I Feel Good", do James Brown.

Byakuya honestamente não compreendia a razão de ser convidado para eventos como aquele. Jamais comparecera a algum. E também não pretendia. Além do mais, todos na Seireitei o conheciam suficientemente bem para deduzirem por si mesmas, de que, Kuchiki Byakuya não frequenta festinhas, e, tampouco, bares. Suas distrações giravam em torno de práticas nobres, que enriqueciam o espírito e proporcionavam a reflexão, como: cultivar a arte shodo, caminhar solitariamente sob o luar ou dedicar-se a alguma valiosa leitura.

Mas ali estavam, mais uma vez, os envelopes em sua mesa.

— Renji.

— Sim, taichou. Pode falar.

Aquele era um dia de pouco movimento na Sexta Divisão. Byakuya havia ido cedo até ao Instituto de Desenvolvimento e Pesquisa, para assistir a uma exposição e palestra acerca de algumas invenções recentes. O capitão-comandante havia o incumbido da tarefa de resenhar o evento para a próxima edição mensal da revista Seireitei Tsūshin. E era exatamente aquilo que Byakuya estava prestes a fazer. Claro, se não fosse ter chegado ao seu gabinete e a primeira coisa a ver em sua mesa fossem aqueles envelopes.

— De onde vêm esses convites? — O Kuchiki os ergueu entre os dedos.

— Ah, taichou, é que os tenentes recebem dois. Um é nosso e o outro é pra ser entregue ao capitão. Então eu sempre deixo um na mesa do senhor. Hoje, por exemplo, estão convidando a gente para a comemoração do aniversário do tenente Shuuhei. Vai ser bem diver...

— Hum, entendo. Se é assim, da próxima vez basta que traga apenas o seu.

Byakuya afastou sua cadeira e se levantou.

— C-certo, taichou.

— Irei até a sala de documentos, enquanto isso, limpe minha mesa e reabasteça os tinteiros. Também irei precisar de mais folhas. Providencie.

O Kuchiki ficou ali, parado, diante da mesa de seu tenente, aguardando sua confirmação. Mas Renji tinha uma expressão estranha no rosto, o que não passou despercebida aos olhos do capitão.

— O que é?

— É só que... bem, taichou, o senhor é o único capitão que nunca participa das confraternizações e... as pessoas fazem comentários, alguns até bem maldosos.

— Não me importo.

— Mas eu sim, taichou!

Algo na alteração do tom de voz do tenente o surpreendeu. E não apenas isso, mas também as palavras. Renji era um devoto, esforçado e prestativo oficial. Certo que, algo a respeito daquele seu temperamento poderia ser trabalhado, sobretudo quando em combate. E também sua frequência nas reuniões de tenentes, que às vezes deixava a desejar.

Apesar disso, a convivência com ele era harmoniosa e agradável. Mas não estavam acostumados a trocarem impressões pessoais daquela natureza. E saber que Renji se importa com a sua reputação para além do âmbito profissional, era algo, no mínimo, curioso.

—x—

Ao adentrar na área da Nona Divisão, os soldados em patrulha informaram-lhe a sala onde a festinha estava sendo realizada. Naquele momento, Byakuya viu o capitão Ukitake se aproximar, juntamente ao inseparável capitão da Oitava, Shunsui. O Kuchiki viu que ambos traziam um pequeno embrulho em mãos.

Ele também não tinha se esquecido de levar algo para Shuuhei, apesar de não ser íntimo e ter dúvidas a respeito de seus gostos. Poderia ter perguntado Renji antes que o expediente encerrasse, já que seu tenente era amigo próximo de Hisagi. Mas, até aquele momento, não havia decidido se compareceria ou não na comemoração.

— Byakuya! Ora, que surpresa admirável. — o homem de cabelos brancos foi quem falou primeiro. — Tenho certeza de que o Hisagi-san ficará bastante satisfeito de saber que veio cumprimentá-lo! Quanta honra!

— E quem sabe a gente não divide uma garrafa de saquê, heim, Kuchiki-san? — Shunsui o olhou com sua cara mansa e um sorriso preguiçoso.

Irritava a Byakuya a razão de um membro de família nobre se comportar de maneira tão descuidada, como fazia o Kyouraku. Para o Kuchiki, pessoas de sua categoria deveriam agir como exemplos a serem seguidos.

— É uma lástima que um nobre se prenda a atividades tão indevidas.

— Que é isso, Byakuya?! Precisa aprender a relaxar um pouco mais esse seu jeito. — Ukitake deu uns tapinhas amistosos no ombro do Kuchiki, quem apenas o encarou do canto de olho.

— É verdade, tenho pena do Abarai-san, pobre rapaz... preso o dia todo num gabinete com um capitão de cara tão amarrada... tsc tsc tsc.

— Não tem nada com isso, Kyouraku Shunsui, mas asseguro-o de que o meu tenente trabalha com grande satisfação para manter a ordem deste lugar.

— A gente não duvida de você, não é mesmo, Kyouraku? — Ukitake disse, tentando evitar uma discussão mais séria, com alguém tão teimoso quanto o Kuchiki. Às vezes ele perdia a noção de uma brincadeira inocente.

— Bom, por que a gente não pergunta diretamente? Ele tá vindo ali. — Shunsui disse, apontando.

Byakuya girou a cabeça na direção que o capitão da Oitava indicou. Renji se aproximava com Rangiku, Rukia, Ikkaku e Yumichika. Cada um carregava embrulhos em suas mãos, no entanto, Matsumoto carregava com certa dificuldade uma caixa relativamente grande com as duas mãos. Parecia pesado.

Assim que Byakuya percebeu que seu tenente o notara, decidiu esperá-lo. Mesmo naquela distância, percebeu a estupefação no rosto do Abarai, que apressou os passos para encontrá-lo, deixando os outros três para trás. Rukia também o acompanhava em sua pressa.

— Nii-sama, que bom que veio!

Enquanto se cumprimentavam, Rangiku, Ikkaku e Yumichika os alcançaram. Seguiram todos para o local da comemoração. Byakuya os acompanhou, ouvindo-os conversar animados a respeito do presente que cada um havia comprado para o aniversariante. Com exceção de Rangiku, que estava mais preocupada com as variedades de bebidas que iriam servir.

Quando entraram na sala, diversas pessoas já se encontravam lá. Havia três mesas compridas dispostas paralelamente, com comes e bebes. O grupo que acaba de entrar se acomodou na pontinha de uma delas, ao passo que cumprimentavam Shuuhei pelo seu aniversário e entregaram-lhe seus presentes. Rukia deu um curso prático de guitarra em fascículos; Renji uma miniatura de motocicleta que achara no mundo material. Byakuya deu o volume um da primeira edição de “Lei e Ordem”.

— Espero que a leitura o incentive a ler os dezenove volumes restantes.

— C-claro que sim, Kuchiki-sama. — Shuuhei disse, tentando não soar tão intimidado pelo presente e pela presença de Byakuya.

Quando o capitão da Sexta Divisão retornou ao seu lugar, viu que aquilo seria impossível. Isso porque Rangiku havia ocupado sua almofada e estava debruçada nos ombros de Renji, cochichando algo em seu ouvido. O Abarai pareceu tremendamente irritado com o que ouvira e questionou se ela já havia bebido antes de ir para lá. Rangiku riu, e, quando notou a presença do Kuchiki atrás dela, levantou-se, puxando o homem pelo braço.

— Venha, Kuchiki-san, tem uma coisa aqui que alguém do seu nível irá amar!

Byakuya não teve muita escolha. Rangiku não havia lhe dado sequer tempo de falar. Ficara perplexo com a atitude de ser arrastado daquela maneira. E não era da sua natureza gritar ou agir escandalosamente para impedi-la.

— Não faça isso outra vez. — pediu.

— Uhh, que cara feia, Kuchiki-san. Vamos, experimente isso aqui! Shuuhei disse que é considerada bebida de gente rica no mundo material. Então comprei uma caixa inteira de presente. — Ela não diria que pagara por aquilo com os fundos da Décima Divisão. Enfim.

Rangiku encheu um ochoko com um líquido amarelo-dourado e o ofereceu ao Kuchiki. A princípio, Byakuya menosprezou a bebida, mas o cheiro picante o atraiu. Arriscou um gole.

— Hum. É aceitável.

A loira deu piruetas e serviu-se também. Apanhou duas garrafas da bebida e carregou para a mesa onde estavam sentados. Quando chegaram lá, os outros já tinham seus copos cheios de chá ou saquê. Byakuya tomou seu lugar ao lado de Renji e Rangiku sentou-se do outro lado do ruivo.

Eles começaram a conversar a respeito da última festinha, que foi a junção da comemoração dos aniversários de Ichigo e Shunsui, pela diferença entre eles ser de apenas quatro dias. As histórias constrangedoras daquele dia estavam sendo revividas, e Rangiku parecia protagonizar a grande maioria delas, embora negasse tudo com veemência. Falaram também sobre a proximidade que se encontravam dos exames na Academia Shinou e da recruta de novos oficiais. Os cargos vagos do Gotei foram discutidos brevemente, uma vez que o assunto trazia certa tristeza e pesar que preferiam evitar naquele dia.

Durante as conversas, Byakuya via seu ochoko ser frequentemente reabastecido por Rangiku. Num dado ponto, quando a primeira garrafa se esvaziara, Renji preveniu que a segunda fosse aberta e tirou-a dali, levando-a para longe. Rangiku resmungou, mas logo encontrou consolação em roubar o saquê do Kyouraku. O Kuchiki não disse nada, pois Renji suspeitara de que ele sequer vira o momento em que saiu e voltou para a mesa. Byakuya tinha a cabeça apoiada numa mão, e de vez em quando seus olhos cinza iam se fechando, devagarinho, até que, num sobressalto, algo o acordava.

— Taichou, o senhor está bem? — Renji o tocou no ombro, como que para alertá-lo de que estava ali. — Quase não tem falado nada.

— Eu... eu tenho sede.

— Certo, vou buscar um copo de água, fique aqui.

— Eu vou junto. — Byakuya esticou a mão e agarrou-se à manga do shihakusho do Abarai, causando nele um leve desequilíbrio. Renji agiu por reflexo, segurando o capitão pelo braço, ajudando-o a colocar-se de pé. A sorte era que, como estavam na extremidade da mesa, aquilo passou despercebido para a maioria.

Eles caminharam até um balcão no fundo do local, onde havia uma jarra com água e alguns copos. Renji assustou-se com a quantidade e a voracidade com a qual o Kuchiki bebeu. Parecia que as entranhas do homem haviam secado e ele precisasse regar todas elas.

— Taichou, eu acho que o senhor deveria ir pra casa.

Byakuya sorriu, os olhos abrindo e fechando.

— Não era... não era você quem estava preocupado com o que falam de mim quando não compareço a esses eventos? Bom, aqui estou.

— Certo, taichou, mas assim vai acabar dando motivos de verdade pra que falem mal do senhor. Por que foi dar ouvidos à Rangiku-san, também, heim? Ela quis te embebedar e conseguiu.

O Kuchiki havia parado de acompanhar o que seu tenente dizia. Encostou-se de ombro à parede como se encontrasse nela um cantinho confortável para que pudesse descansar até aquela moleza passar. Em algum lugar de sua cabeça a voz de Renji matracava, mas estava distante, e ele tinha muito sono para prestar atenção nela. Uma sensação gostosa e irresistível ia se apoderando do seu corpo, convidando-o a se entregar.

—x—

Quando tornou a abrir os olhos, a primeira coisa que viu foi Renji muito próximo do seu rosto. O ruivo deu salto para trás quando o capitão acordou, mas, ao mesmo tempo, mostrou-se também aliviado de certificar-se que Byakuya não havia desmaiado.

— Kuchiki-taichou, como está se sentindo?

A cabeça dele girava. Demorou até que percebesse que estava deitado no sofá do seu gabinete. Renji estava ajoelhado ao seu lado, e, pelo jeito, já fazia algum tempo que não saia dali.

— Renji...

— Sim?

— O que estamos fazendo nesta sala?

— O senhor veio comigo, eu te ajudei a chegar aqui.

Nada do que seu tenente dizia fazia algum sentido. Byakuya não se lembrava de muita coisa entre o momento em que estava na mesa com os outros e de abrir os olhos naquele lugar. Tampouco gostava de como soava o que o Abarai dissera sobre ter sido ajudado a chegar até lá.

Byakuya virou o corpo para o lado, e percebeu que não estava usando seu haori. Com um olhar mais atento, viu que a peça estava dobrada sobre sua mesa. Renji pareceu ter notado que aquilo o incomodou.

— Não se preocupe, taichou, eu tirei para que ficasse mais confortável. O senhor quer alguma coisa?

— Quero sair daqui. — Byakuya sentou-se no sofá e sentiu a cabeça pulsar. Tomou um impulso para se levantar, mas acabou tombando outra vez no estofado.

— Eu te ajudo, vamos lá!

Renji passou o braço na cintura do Kuchiki de modo que ele pudesse jogar parte do peso dele sobre o seu corpo. O que Byakuya fez, inconscientemente. Então caminharam para fora do gabinete, indo na direção do lugar mais sensato: os alojamentos particulares do capitão. O Kuchiki não falava enquanto andavam, e também não era como se estivesse em condições de se expressar claramente.

Ao chegarem no local, Renji esforçou-se para puxar a porta de correr com Byakuya praticamente deitado em seus ombros. Ele sequer estava tentando parar em pé. O Abarai o colocou para dentro, e, dali em diante, guiou o homem até a sua cama puxando-o pelo braço.

— Pronto. Agora o senhor pode se deitar, vai ficar bem e seguro. Sinceramente, que roubada, vou levar a sério aquilo que me disse mais cedo. Não deixo mais convite nenhum na sua mesa! Se eu soubesse que ia causar tudo isso. Que droga!

Byakuya deitou e rolou na cama feito pedra. Abriu os olhos e ficou encarando Renji, mas não era como se estivesse prestando atenção nele de verdade. Nada estava certo dentro da sua mente, e seu corpo começava a dar sinais de que, de fato, ele estava ruim. Muito ruim. Ainda tinha muita sede, mas seu estômago revirava e sentia que não era capaz de engolir nada. Deu outra virada na cama, deitando-se de costas pra o futon.

— Renji... por que disse...

— Disse o quê, taichou? Quem disse? — Renji ajoelhou-se ao lado da cama. Byakuya estava bem próximo dele, na beirada.

— Você... disse que se importa.

Se o Kuchiki estivesse em posse de sua razão, poderia ver seu tenente corar ligeiramente naquele minuto. E também não teria lhe passado despercebido o modo como seus olhos castanhos se abriram, admirados, como se pegos de surpresa.

Renji estava hesitante, e seu capitão ali, vulnerável e semi-inconsciente numa cama.

— Eu me importo porque é isso que as pessoas fazem quando tem alguém que significa muito pra elas. — o ruivo apanhou uma das mãos do Kuchiki e a apertou entre as suas. Ele sequer pareceu se importar, pois não se mexia. Os olhos cinza apenas pestanejavam, pesadamente. — Eu nunca vou permitir que ofendam a honra do senhor.

Então, dizendo isso, Renji beijou a mão do capitão sobre o nó de seus dedos, soltando-o logo em seguida. A única reação de Byakuya foi recolher o braço para junto do corpo sem mostrar qualquer alteração. Sua cabeça estava ainda mais pesada e parecia afundar no travesseiro. Aos poucos o torpor foi o dominando, até que suas pestanas caíram, e entregou-se completamente a ele. Era uma pena que, ao acordar na manhã seguinte, nada daquilo ficaria registrado em sua memória.