Charmed
11 Capítulo 10
Capítulo 10
Ryuichi
Acho que estava vivendo um pesadelo. Ao menos essa era a única explicação que eu encontrava para o fato de estar caído sobre uma porta despedaçada enquanto presenciava feito um otário o Caçador esfaquear Tatsuha e depois levá-lo embora em um piscar de olhos sem eu não fazer nada. Eu simplesmente não fiz nada!
- MIKA! — gritei quando o torpor de tudo o que presenciei finalmente passou. Quando a dor em minha perna, onde um caco de vidro estava enterrado, me fez perceber que eu estava bem acordado e que aquilo realmente aconteceu enquanto eu estava feito um zumbi, assistindo tudo sem me mexer. — MIKA! — gritei mais uma vez. Se eu bem me lembro das aulas de Tatsuha sobre magia, um dos poderes dela era ouvir o chamado de bruxos em perigo. Bem... eu não era um bruxo, no momento não estava em perigo, mas necessitava desesperadamente de ajuda.
Girei sobre o meu próprio corpo, mordendo o lábio inferior para impedir um gemido de dor, e vi que o pedaço de vidro encravado na minha perna era o que impedia o ferimento de sangrar mais do que estava sangrando. As minhas costas doíam por causa do impacto contra a porta, a minha cabeça latejava e eu dei um grito de susto quando a parede explodiu perto de onde eu estava, espalhando poeira e gesso por todos os lados.
Com o coração aos pulos e o peito arfando, mirei o local da explosão com os olhos largos, somente para ver que havia um buraco na massa de tijolos e concreto. Parecia que a bola de energia de mais cedo tinha voltado ao seu estado normal de movimento.
- MIKA! — gritei mais uma vez, agora compreendendo a frustração que os irmãos Uesugi sentiam quando precisavam da mulher, a chamavam e a mesma não os atendia.
Tentei me levantar, somente conseguindo na terceira tentativa, e mancando fui até o local na varanda onde minutos atrás estava Tatsuha atacando aquele demônio e me ordenando que eu voltasse para dentro da casa. O mesmo Tatsuha que eu acusei mais cedo de não ter tempo de viver a própria vida, então como ele conseguiria salvar a minha? E agora, por minha causa, era capaz de ele não ter nem mais uma vida para viver.
Quis chorar, mas algo me disse que era um ato inútil e por isso segurei as lágrimas.
- PELA ÚLTIMA VEZ! MIKARIN UESUGI, TRAGA O SEU TRASEIRO MESTIÇO PARA CÁ, AGORA! — porque a minha paciência estava acabando e se aquela metade bruxa, metade anjo não aparecesse no próximo segundo eu não respondia por mim.
As abençoadas luzes e o familiar tilintar foram como música para os meus ouvidos e em seguida a forma mal humorada de Mika surgiu na minha frente, com o rosto contorcido em uma expressão nada feliz.
- Meu ouvido está zumbindo por causa do seu grito. Agora eu sei como você consegue alcançar aqueles agudos irritantes e... — mas então ela parou, porque os seus olhos perceberam a confusão a sua volta assim como o fato de que, para me manter de pé, eu precisava da ajuda da pilastra de sustentação da varanda e que havia uma trilha de sangue que vinha desde os restos mortais da porta até onde eu estava. — Onde está o Tatsuha?
A pergunta fez um bolo entalar em minha garganta e o meu corpo todo tremer, sabendo que eu deveria ter ficado alguns tons mais pálido que o normal se a expressão horrorizada de Mika fosse alguma resposta a minha reação.
- Sakuma! — ela rosnou, dando um passo largo em minha direção e fechando os dedos de unhas longas e manicuradas de maneira dolorida sobre o meu ombro. Me encolhi, porque realmente não precisava de mais este ferimento fazendo par com os outros que já adornavam o meu corpo. — Sakuma? — o tom incerto dela me fez perceber que eu devo ter ficado ainda mais pálido, porque a minha visão embaçou por um momento e os meus joelhos tremeram. E então, no instante seguinte, me vi deslizando pela pilastra até cair sentado no chão, com Mika acompanhando a minha vergonhosa queda. — Oh meu... — qualquer coisa que Mika fosse dizer, ela mudou de ideia ao ver o estado da minha perna.
- Eu sei. — murmurei, engolindo um gemido de dor. — Pode fazer alguma coisa por isso? — Mika me olhou, fez uma careta de desagrado e sem aviso arrancou o pedaço de vidro da minha perna.
Um grito ficou entalado na minha garganta e antes que eu pudesse recuperar o fôlego, a mão dela já estava sobre o ferimento, emitindo um brilho dourado e morno que foi fechando o buraco na minha carne pouco a pouco até não sobrar nenhum vestígio do machucado. Nem mesmo o rasgo que o caco havia feito na minha calça estava mais lá. Devo dizer que esse poder dela é muito prático.
- O que aconteceu aqui? — perguntou enquanto me ajudava a levantar, percorrendo os olhos pelo lugar, pelo estrago que o ataque fez. — Aquilo é sangue? — ofegou, me soltando e indo até o ponto da varanda onde havia respingos de sangue. — Me diga, por favor, que este sangue é seu. — pediu em um tom suplicante e não consegui respondê-la, porque qualquer coisa que eu fosse dizer não iria mudar o fato de que Tatsuha estava em perigo. — Oh meu... — Mika ofegou, ficando pálida e cobrindo a boca com as mãos. Pude ver que os olhos dela começavam a brilhar com lágrimas não derramadas e subitamente senti a mesma raiva de cedo apoderar-se do meu ser.
- Ele não está morto. — rosnei para ela, indo a passos largos em sua direção e agora sendo eu a segurar com força o seu braço. — Ele não está morto! — repeti entre dentes, a sacudindo com força para tirá-la daquele torpor.
- Não, claro que não. — a minha bronca pareceu ter surtido efeito, pois com um sacudir de cabeça e uma inspirada de ar ela retomou rapidamente o controle. — Mas quem fez isto vai estar. O que exatamente aconteceu aqui? — perguntou novamente em um tom firme e eu dei a ela um breve resumo do ataque. — Certo. Você vai até o Livro das Sombras, vê se encontra algo, alguma coisa que nos dê uma pista de como localizar esse sujeito. — abri a boca para protestar. Eu não era um bruxo e pelo que ouvi Tatsuha falar anteriormente, era praticamente impossível localizar esse Caçador. — Não me interessa se você tiver que escrever uma passagem nova no livro só para termos alguma coisa. — ela me cortou, como se soubesse exatamente o que eu pensava. — Eu vou buscar o Eiri. — e com isto desapareceu em uma chuva de luzes azuladas.
Fiquei por alguns segundos mirando o ponto em que Mika esteve, piscando abobalhadamente, até que o senso voltou à minha mente em um estalo, me fazendo lembrar que eu estava perdendo tempo tentando processar o que exatamente tinha acontecido. Como o ordenado, tomei o caminho para dentro da casa, subindo as escadas até chegar ao sótão, e fui ao pódio onde o dito Livro das Sombras, o qual havia sido apresentado uns dias atrás, estava. Com os dedos trêmulos folheei as páginas, tentando encontrar alguma coisa, qualquer coisa, mas fracassando. Passei por algumas listas de demônios, alguns com poderes curiosos, outros com feições assustadoras, assim como por alguns feitiços e poções, como a poção que Tatsuha fez para extinguir o Caçador, mas nada sobre como encontrar o mesmo.
O tilintar e a chuva de luzes interromperam a minha busca e ergui os olhos para ver Mika retornar com Eiri em seu encalço. Um Eiri que tinha uma expressão nada feliz no rosto bonito e que parecia estar fumegando de raiva.
- Você! — ele rosnou para mim e eu recuei um passo temeroso, pois o escritor não estava com cara de bons amigos e creio que se ele tivesse o poder de Tatsuha, estaria me explodindo neste exato minuto.
- Não Eiri. — Mika interviu, segurando, graças a tudo o que era mais sagrado, o irmão pelo braço e impedindo que o mesmo quebrasse a minha cara. Se o brilho assassino nos olhos claros fosse alguma indicação de quais eram as intenções dele. — Temos problemas mais importantes para resolver. Como por exemplo... — nisto ela o soltou e eu a mirei com os olhos largos, implorando silenciosamente que ela voltasse a segurá-lo pois quase podia sentir a raiva emanando de Eiri. — encontrou alguma pista? — engoli em seco, com medo de dar a resposta. Se Eiri não estava feliz e culpando pelo que aconteceu com Tatsuha, quanto tempo levaria para Mika fazer o mesmo quando descobrisse que eu não achei nada no Livro que ajudasse?
- Isto é ridículo! — Eiri soltou entre dentes, vindo em minha direção e eu não pude evitar de me encolher, esperando pelo pior, mas somente recebi um olhar zangado da parte dele e um encontrão de ombros que me deslocou de minha posição. — Não vamos conseguir nada desta maneira. — ele resmungou, mirando o teto e eu também olhei para lá, tentando encontrar o que quer que ele estivesse vendo. — Podemos dar Tatsuha como perdido então porque este Livro – e nisto ele fechou o mencionado livro com força. — não tem nada! — se eu não soubesse bem, diria que o homem tinha enlouquecido, mas algo me dava a impressão de que ele estava fazendo isso de propósito.
E as minhas suposições foram acertadas quando do nada o Livro se abriu, folheando as suas próprias páginas até parar em uma em particular.
- Sempre funciona. — Eiri soltou presunçoso, voltando a se posicionar sobre o livro, sendo acompanhado por Mika. Confesso que não captei metade do que ele fez, mas estava agradecido por termos recebido ajuda, seja lá de onde ela tenha vindo.
- Feitiço para procurar bruxos perdidos? — Mika falou em voz alta e rolou os olhos para o teto. — Não foi de ajuda alguma! — gritou exasperada para quem quer que fosse.
- Por que não? — perguntei curioso, indo até eles e lendo por sobre o ombro de Mika o mencionado feitiço. Bem, tinha que admitir que pelo que via não parecia ser um caminho direto para encontrar Tatsuha, mas se o Livro nos tinha oferecido essa opção, alguma razão havia.
- Se Tatsuha está no covil do Caçador, sob feitiços de proteção, não adiantará em nada convocá-lo, o feitiço não irá funcionar. — Eiri explicou, afastando-se do pódio e indo até o outro lado do sótão onde uma mesa com um caldeirão, ervas e outros ingredientes estava, tirando um cigarro do bolso e acendendo o mesmo.
- Seu otimismo me impressiona irmão. — Mika debochou, o que a fez receber uma careta infantil de Eiri, coisa que jamais esperaria ele fazer mas que me lembrou em muito o Tatsuha. — E além do mais, você esqueceu da nossa principal arma. — o escritor mirou a irmã em confusão, até que percebi que o olhar dela não estava fixado no loiro, mas sim em mim.
- Ele? Ele que deixou o demônio esfaquear o nosso irmão e levá-lo? — soltou com um resmungo de escárnio e desta vez eu me senti extremamente ofendido. Já tinha sofrido com as tiradas ácidas de Eiri antes mas, para mim, essa foi a gota d'água.
- Verdade? — rebati no mesmo tom venenoso. — Eu deixei Tatsuha ser levado? Se bem me lembro, era a função de vocês me ajudar, não somente dele. Mas onde vocês estavam mesmo? Ah sim! Vivendo as suas vidinhas felizes e faceiros e deixando toda a responsabilidade nas costas do seu irmão que... — fui até ele a passos largos, apontando o dedo bem no meio da cara dele e quase rindo quando vi os olhos de Eiri cruzarem para ver o meu indicador na ponta do seu nariz, mas me lembrei a tempo que eu estava fulo com ele. — devo lembrá-los, ainda nem saiu do colegial! — silêncio seguiu-se ao meu discurso acalorado, com Eiri somente me olhando sem nenhuma reação.
- Não disse? — Mika foi a primeira a se manifestar. — Nossa principal arma. — me senti ainda mais ofendido. Depois de tudo o que disse eles agiam como se as minhas palavras não tivessem feito nenhum efeito. Como eles poderiam ser bruxos bons se no momento, ao meu ver, não passavam de criaturas egoístas e mesquinhas? — Eu entendo a sua frustração. — entendiam mesmo? Então por que não faziam nada para mudá-la? — Mas este é o modo como funcionamos. — como é?
- Com é? — manifestei a minha indignação em voz alta.
- O Poder dos Três é composto pelas nossas peculiaridades, pelas nossas diferenças. Pode não parecer, mas é assim que funcionamos. — Eiri intrometeu-se na conversa. — Com as nossas brigas, nossas manias de empurrar responsabilidades um para o outro, nossas crises de fuga, querendo esquecer nossas origens, nossos gênios. Por mais que não pareça, é assim que nos entendemos, é assim que nos mantemos unidos. Mika com o jeito mandão dela, eu com os meus complexos e Tatsuha com as neuras dele e sarcasmo. Você é novo nisto, por isso se incomoda, mas quando menos perceber vai ver que para nós, isto é o normal.
- Normal? — protestei. — Normal deixar Tatsuha sozinho em um templo sem proteção? normal nunca darem atenção a ele? Normal...
- Tatsuha não gosta de ser paparicado ou super protegido. Nunca gostou, porque ele sempre teve isso por ser o caçula. Ficar sozinho... Quem disse que ele fica sozinho? — abri a boca para contradizer Mika, mas ela somente ergueu uma mão me calando. — Eu sempre estou com os meus sentidos abertos focalizado nele, Eiri com as suas visões centradas nele e nem vou começar a falar dos espíritos alcoviteiros dos nossos antepassados que mesmo depois de mortos ainda gostam de se meter em nossa vida. E você por um acaso já ouviu Tatsuha protestar em voz alta sobre isto? — abri a boca para responder mas, se fosse avaliar bem, não.
Tatsuha nunca reclamou de nada. Na verdade, ele até tentou me explicar que estava acostumado, que para ele era normal, mas eu estava muito contrariado por tudo o que presenciava naquela família para entender.
Acho que cada família tinha a sua dinâmica. Talvez por eu ter sido criado por uma avó amorosa, protetora e sempre presente, acabei acreditando que todos fossem assim, mas não eram. Eiri estava certo. Se fosse avaliar bem a situação, eles eram os irmãos mais desajustados que eu já conheci na minha vida, mas eles se entendiam.
- Ótimo! Agora que isto entrou na sua cabeça oca. — começando por Eiri, óbvio, que sendo um empata era incapaz de sentir qualquer empatia por uma pessoa. Se ele mordesse a língua acho que sairia veneno. — O que você estava dizendo sobre Sakuma ser a nossa arma principal? — continuou, mirando a irmã com as sobrancelhas erguidas.
- Lembra do que vimos no livro lá na Escola de Magia? — falou Mika
- Sim, e? — verdade, e? Do que diabos eles dois estavam falando?
- Bem, você o viu neste instante defendendo o nosso pobre irmão. — e o que isto tinha a ver com a história? Eu defendi Tatsuha porque achava injusto o que faziam com ele, porque não tinha compreendido a dinâmica dos Uesugi, e talvez porque eu estivesse um pouquinho atraído por ele. Ou muito, se o meu desapontamento de mais cedo por não ter sido beijado pelo garoto fosse alguma indicação.
- Mika, não creio que dois bruxos e um dragão irão fazer esse feitiço funcionar. — Eiri rolou os olhos e eu também queria rolar os olhos porque não estava entendendo nada.
- Mas dois bruxos e um dragão apaixonado sim. — um... O QUÊ? A minha incredulidade devia estar estampada na minha cara se o sorriso de escárnio de Mika em minha direção e a expressão debochada de Eiri fossem alguma indicação. Gente, só porque eu achava Tatsuha uma graça em forma de garoto do colegial não significava que eu morria de amores por ele. E somente enfatizando: Tatsuha era um garoto. Quinze anos mais novo, com um futuro inteiro pela frente e com o qual seria uma péssima ideia se relacionar. O escândalo que isto ocasionaria seria de proporções apocalípticas.
- Mika, acho que não chega a tanto. — Eiri riu, ainda me olhando com aquela expressão presunçosa que me fazia perguntar o que Shuichi tinha visto nele.
- Mas está quase lá, o que para mim basta. — e ainda em meu estado de torpor diante desta acusação absurda, senti Mika segurar em minha mão e me puxar até a mesa onde estava o caldeirão, começando a jogar dentro do mesmo pedaços de ervas, raízes e outros ingredientes que começaram a soltar uma fumaça esbranquiçada assim que tocaram o fundo de estanho. — Que os poderes dos bruxos se levantem... — começou a recitar, parando por um minuto para mirar Eiri. — Faça alguma coisa Eiri. — ordenou. — Pegue a adaga, pegue a mão de Ryuichi, feche o círculo. — o loiro somente arqueou as sobrancelhas, fazendo o que ela mandou. — e venham através dos céus neste instante... Recite conosco. — desta vez a ordem foi direcionada à mim no momento em que Eiri pegou a minha mão esquerda, com Mika segurando a direita, fechando o círculo entorno do caldeirão fumegante. Sem saber direito o que fazer, comecei a repetir o que ela dizia.
- Que os poderes dos bruxos se levantem e venham através dos céus neste instante... — repeti, continuando à medida em que Mika e Eiri recitavam o feitiço que eles pareciam saber de cor.
- Venham à mim e se fixem aqui. Sangue do meu sangue – nisto cada um deles fez um furo na ponta do dedo, espremendo o sangue dentro do caldeirão que exalou ainda mais fumaça. - eu convoco a ti. Sangue do meu sangue, retorne à mim. - terminamos de cantarolar e esperamos alguns segundos, mas nada aconteceu.
- É isso? — perguntei incrédulo quando não vi explosão, não vi luzes, não vi nada que trouxesse Tatsuha de volta.
- Não. — Mika apertou a minha mão com força. — Você se concentra no Tatsuha, Eiri e eu continuamos a recitar o feitiço.
- E no que isto...
- Apenas faça! — ordenou e eu me calei, dando de ombros e fazendo o que ela mandou, torcendo para que desta vez desse certo.
Tatsuha
Demônios, não importava a origem, não importava a espécie, todos tinham o mesmo defeito: falavam demais. E, obviamente, que este Caçador não seria diferente.
No momento que aparecemos em uma caverna do submundo – clichê, clichê – e ele jogou o meu corpo ferido contra uma parede fria, começou a tagarelar, contar vantagem e a se vangloriar de ter conseguido capturar um dos Encantados.
- Eu soube – continuou atolando os meus ouvidos e se eu não soubesse que dormir seria uma má ideia diante do meu ferimento, permitiria que os meus olhos se fechassem para uma boa cochilada. — no momento que o vi naquele sótão, que você iria ser a chave para obter o último do Clã do Tempo. — quis rolar os olhos, mas isso com certeza pioraria a minha dor de cabeça.
Do que diabos ele estava falando? Quer saber, eu não queria saber. Mas o meu desejo não foi atendido porque aparentemente, para alguém que nos últimos dias as aparições constavam em enviar demônios esporadicamente para ataques, até que ele era bem falante para um sujeito de poucos confrontos diretos.
- E o Destino realmente gosta de ser maroto vez ou outra. — não diga? De Destino eu já estava graduado o suficiente para saber que ele era um grande filho da puta, mas isto não vinha ao caso no momento.
O que vinha ao caso era que o ferimento em minha barriga latejava, a pressão que eu colocava sobre o mesmo não estava sendo o suficiente para estancar o sangue, os meus olhos estavam ficando turvos e a cada vírgula saída da boca deste demônio aumentava a minha ânsia de explodi-lo em caquinhos, mesmo sabendo que qualquer tentativa de minha parte seria fracassada.
Recostei nas pedras frias, o que tornou-se um alívio, pois podia sentir a minha pele quente, mais quente que o normal, começar a me incomodar sob as roupas de inverno que eu usava, fazendo suor cobrir com uma camada fina o meu corpo e irritando ainda mais o corte causado pela adaga. Adaga essa que eu estou começando a suspeitar que era enfeitiçada para causar tanto mal estar assim em minha pessoa.
- Olhe para mim! — dedos apertando o meu queixo e forçando a minha cabeça na direção do rosto feio do demônio me fizeram voltar ao plano terreno e perceber, por terríveis segundos, que eu quase me deixei levar pelo cansaço e pela dor. — Ele virá. — quem? Buda? Ele vai voltar? Quando que ninguém me avisou? — Preste atenção! — os dedos me apertaram mais forte e eu soube que eles deixariam marcas.
Aparentemente o Caçador não gostava de ser ignorado. Egocêntrico, achando que o mundo deveria girar ao redor dele. Precisava apresentá-lo à Eiri. Seriam bons amigos, com certeza.
- Eu até faria... — consegui balbuciar entre os meus lábios que pouco a pouco ficavam ainda mais ressecados, sinal de que a febre que começou a dominar o meu corpo aumentava gradualmente. — mas você é pior do que o meu professor de história explanando os acontecimentos da era Meiji. — eu adorava história, mas o meu professor tornou a capacidade de entediar alunos praticamente uma arte. Os olhos escuros dele pareceram brilhar de ódio diante dessa colocação. Demônios, sinceramente, precisavam de uma boa terapia.
Com um gesto brusco ele me soltou, o que piorou a minha dor de cabeça porque o ato fez a mesma chocar contra a pedra atrás de mim. Gemi de dor. Geralmente não gostava de demonstrar fraqueza na frente do adversário, mas, às vezes, era inevitável. Esperei pela tradicional tirada de escárnio que os demônios soltavam quando viam um Encantado sob sua mercê, mas nada veio.
O que veio foi um olhar estranho que ele deu para o teto da caverna, o que o fez franzir a testa e piorando aquela cara feia que ele tinha. Só de curiosidade, segui os olhos dele para as pedras acima de nós e percebi, com um leve temor, que farelos estavam soltando-se delas, começando a cair como pequenas nuvens de poeira. Algo brilhou sobre a superfície das rochas castigada pelo tempo e então, para a minha completa surpresa, o covil inteiro tremeu.
Por um acaso terremotos afetavam o submundo? Talvez sim, já que, em teoria, estávamos mais próximos ao centro da Terra.
- Mas olhe só. — o sorriso macabro dele não foi confortador e em um piscar de olhos o Caçador estava novamente sobre mim e pressionando o meu ferimento com força.
Soltei um grito agoniado de dor quando senti como se agulhas quentes estivessem perfurando a minha pele, começando pelo ponto onde a adaga tinha cruzado carne e músculos e espalhando-se por todos os membros do meu corpo. Era horrível, torturante, e quanto mais eu gritava, mais ele apertada, com certeza obtendo prazer em minha dor.
- Foi mais rápido do que eu pude imaginar. — entre lágrimas de sofrimento, arfadas de ar e gemidos, consegui mirá-lo com raiva enquanto poeira o adornava e esbranquiçava os fios escuros do cabelo dele. Ele me soltou, graças aos Antigos, e afastou-se em um pulo com aquele mesmo olhar psicótico característico de qualquer demônio.
Soltei um longo suspiro de alívio, virando sobre o meu próprio corpo e encolhendo-me sobre a minha barriga na tentativa de dissipar a dor. De rabo de olho vi que ele perambulava de um lado para o outro da caverna, como se esperasse algo, enquanto via com estranha satisfação as paredes tremendo e brilhando. Franzi as sobrancelhas, somente agora avaliando melhor o ambiente ao meu redor.
Como todo buraco habitado por demônios, não havia muita coisa aqui que poderia classificar o lugar como lar. Carcaças de algo que eu supus fossem animais — ao menos esperava fervorosamente que fossem animais para assim o meu estômago mareado não ficar pior somente com as possibilidades — faziam uma pilha em um canto, sendo acompanhadas de moscas e insetos. Havia trapos e alguns outros badulaques jogados sobre uma pedra do outro lado e que servia de mesa e nas paredes estavam pendurados amuletos, vários deles, os mesmos que me impediram de escanear o localização exata do covil.
Amuletos esses que tremiam nas paredes e alguns chegavam até a rachar.
Me arrastei no chão, recuando fracamente e deixando um rastro de sangue na areia, quando uma pedra mais robusta soltou-se do teto e espatifou-se no solo, bem perto do meu pé. E o Caçador, em vez de estar desesperado com o que parecia ser uma possível invasão, parecia se divertir com isto. Criaturas estranhas esses demônios, era o que a minha falecida avó dizia, junto com um: “se cruzar com eles, mate-os!”. Bem direta era a vovó. Até faria isso, se não estivesse parecendo um porco estrebuchando no chão.
Mais um tremor sacudiu tudo e destruiu mais amuletos e por um momento insano pensei que eram os meus irmãos, que eles vieram me salvar. E então a esperança sumiu quando o pensamento lógico me assolou: sem o Poder dos Três eles jamais conseguiriam entrar no covil.
- Vamos ver do que eles são capazes. — eles quem? Quis perguntar, mas as palavras ficaram entaladas em minha garganta quando o Caçador me segurou pelos cabelos e me ergueu com força do chão. Tropecei nos próprios pés diante do movimento e o mundo rodou em frente aos meus olhos com a mudança brusca de posição. Senti as minhas costas baterem contra um peito largo coberto por couro e o cheiro enjoativo de suor, fumaça e enxofre me fez tossir. Algo frio e pontiagudo tocou a pele do meu pescoço, enquanto ele usava os meus cabelos como âncora para puxar a minha cabeça para trás, e eu prendi a respiração.
- O que você está fazendo? — rosnei, ou ao menos tentei, mas parecia que eu não tinha mais controle de nada em meu corpo.
- Me preparando para a chegada dos seus irmãos. — o quê? — Surpreso? Eu sabia que eles viriam e por isso relaxei nas proteções. — uma armadilha. Típico! E Mika e Eiri cairiam nela rapidinho. — E eu sei que o seu adorado dragão virá junto. — se ele vier eu mesmo o mato por tamanha burrice.
Soltei um riso de escárnio, tentando passar uma confiança a qual eu não sentia.
- Não creio que seja pra tanto. — arfei, pois falar era um esforço desgastante no momento. — Ryuichi e eu não somos tão próximos assim. — a gargalhada soou na minha orelha. Baixa, rouca, com uma promessa de dor e destruição, e eu tremi.
- Sabia que os dragões escolhem parceiros para a vida? — aula de biologia à essa altura do campeonato? Me polpe. — Parceiros estes que eles reconhecem somente em um olhar. Foi daí que surgiu a expressão “amor à primeira vista”. Por causa dos dragões. — esse cara deve ter passado os últimos anos lendo romances baratos, era a única explicação para tamanho discurso piegas. — Eu matei o pai do Ryuichi e a parceira dele e iria atrás da velha e do moleque se a mesma não tivesse selado os seus poderes. Sem eles, um Caçador não consegue rastrear a sua caça. São os poderes dos dragões que nos atraem.
- Com tanta coisa poderosa por aí, por que logo eles? Por que logo essas criaturas mágicas? — novamente a risada de dar calafrios.
- Todo ser vivo possui um predador natural. Não serei o primeiro e nem o último. Mas serei aquele que finalmente teve sucesso em conseguir exterminar um clã inteiro e adquirir os seus poderes.
- Só sobre o meu cadáver! — ameacei. Ele não tocaria em um fio imaculado do cabelo de Ryuichi. Não se dependesse de mim.
- Não será tão difícil assim, não é mesmo? Sua morte chegará mais rápido do que você pensa e sem o Poder dos Três, Ryuichi estará vulnerável. — me debati contra ele, coisa inútil a se fazer devido a minha fraqueza, mas ao menos tentei. — Mas até lá, preciso de você bem vivo para ajudar a despertar o poder do jovem dragão. — pisquei intensamente entre lágrimas de dor e nuvens de poeira.
- Como é? — poderia não ver o rosto dele, mas quase pude sentir o sorriso sarcástico que surgiu no mesmo.
- Ninguém te avisou? Um dragão faz qualquer coisa pelo seu parceiro, até mesmo matar. E você meu caro bruxo, é o parceiro de Ryuichi Sakuma. — arregalei os olhos no momento em que um tremor mais violento e uma explosão ecoou na caverna.
E então, em uma chuva de luzes douradas, surgiram Eiri, Mika e Ryuichi. Merda!
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