Charmed
12 Capítulo 11
Capítulo 11
Ryuichi
Quando nos encontramos pela primeira vez, era o Caçador que queria me matar, que sorria macabro para mim enquanto conjurava uma bola de energia em minha direção. Agora? Bem, agora ele continuava a sorrir macabro para mim, no momento não havia nenhuma bola de energia, mas era eu que queria matá-lo.
Por minutos Mika, Eiri e eu ficamos naquele sótão, comigo ouvindo os irmãos recitaram o feitiço incansavelmente e enquanto eu pensava no Tatsuha com uma mistura de culpa e apreensão. Culpa por não ter impedido o ataque, por não ter impedido que ele fosse ferido, por tê-lo colocado nesta situação. Apreensão porque a cada minuto que passava não sabíamos o que acontecia, se ele estava bem, se ele estava sofrendo, se ele estava... Esta última possibilidade eu nem queria imaginar. E então, depois de um tempo interminável tentando, finalmente conseguimos o que queríamos.
Luzes douradas nos envolveram e em um minuto estávamos no sótão, no outro não.
- Não era bem isso o que planejávamos. — ouvi Mika murmurar ao meu lado, quase não captando as palavras dela.
- O feitiço era para nos trazer o Tatsuha, não nos levar até ele. — Eiri completou. Mas que diferença fazia? Estávamos aqui, Tatsuha também, e eu senti a minha pele formigar e o meu sangue correr mais rápido em minhas veias, latejando em meus ouvidos, quando os meus olhos encontraram os dele.
Conhecia esta sensação: era adrenalina, algo que me apossava cada vez que estava prestes a entrar no palco durante um grande show. Mas o momento era diferente, a situação diferente e a adrenalina não era por excitação diante de uma grande apresentação, mas era uma mistura de pavor, inquietação e raiva. Raiva que crescia de maneira desmedida e inexplicável enquanto eu via Tatsuha tremer no aperto do demônio, com suor descendo pelo seu rosto pálido, com a respiração ofegante e a camisa manchada de sangue do ferimento causado pelo Caçador. O mesmo fechou mais os dedos nos cabelos negros do garoto que soltou um gemido de dor, o que causou uma reação rápida de Mika quando ela sacudiu o braço na intenção de arremessar o sujeito longe.
O problema era que o ataque ficou somente na intenção, pois o demônio permaneceu no lugar, com um sorriso prepotente alargando em seu rosto feio, enquanto uma Mika surpresa tentava mais uma vez movê-lo com a sua telecinese e falhando de novo.
- Encantados. — o demônio praticamente cantarolou em satisfação. — Tão previsíveis... E estúpidos. — Eiri deu um passo à frente, para fazer o que eu não sei, mas parou quando o Caçador puxou a cabeça de Tatsuha mais para trás, exibindo o pescoço dele e pressionando uma adaga no mesmo. — Ah, ah, ah! Não queremos causar mais estragos, queremos? Agora Ryuichi... — o seu olhar maldoso veio em minha direção e eu inspirei profundamente para recuperar qualquer controle que se perdia a cada segundo que via o sofrimento do jovem bruxo nas mãos daquela criatura. — Seja um bom dragão e venha até aqui.
- Não! — Mika fechou os dedos no meu ombro, me mantendo no lugar antes mesmo que eu pudesse pensar em fazer qualquer coisa.
- Ou ele vem, ou o menino morre. — ameaçou, pressionando mais a adaga contra a garganta de Tatsuha, o que causou um pequeno ferimento na pele. Mika hesitou, pude sentir isto quando os seus dedos afrouxaram o aperto em meu ombro, e trocamos olhares, nos perguntando o que fazer. Sabia que eu era importante, sabia que se me entregasse ao demônio haveriam grandes e desastrosas consequências, mas também sabia que não podia deixar Tatsuha a mercê desse sujeito.
- Você não faz ideia do tamanho do seu poder. — Eiri murmurou para somente Mika e eu ouvirmos. — É o último de sua raça, concentra em você todos os poderes de seus antepassados. É uma força do bem. Se ele conseguir isto teremos um demônio que talvez nem o famoso Poder dos Três será capaz de derrotar.
- Se eu não for, não haverá Poder dos Três para lutar contra ele. — rebati e eles me olharam longamente, sabendo que eu tinha razão.
Eu tinha estudado, não somente o que Tatsuha me ensinou, mas o que havia nos livros que ele me emprestou, livros parte do acervo pessoal da família Uesugi, livros emprestados da Escola de Magia. Sabia da minha importância no mundo mágico. Sabia que a minha espécie, os Dragões Míticos, era venerada e respeitada. Éramos uma sociedade à parte, com regras próprias e líderes próprios, dividida em clãs que controlavam elementos regentes da Mãe Natureza: Tempo, Fogo, Água, Terra, Ar, Vida, Morte e muito mais. Sabia o desastre que aconteceria se um demônio adquirisse o poder de controlar o Tempo, o poder do meu clã. Assim como também sabia que eu sacrificaria isto e muito mais se fosse para manter Tatsuha vivo e seguro.
Mika tinha razão: eu estava apaixonado.
Talvez estivesse no segundo em que os meus olhos encontraram os escuros e expressivos olhos de Tatsuha. Mas como admitir algo tão improvável? Amor à primeira vista era bonito em músicas, em livros, em filmes. Na vida real era um mito. Mas eu podia atestar que ele existia. Comprovei em cada olhar trocado, em cada vontade de beijá-lo, em cada palpitar do meu coração com a proximidade daquele adolescente que poderia ser a minha salvação e a minha ruína, e era o suficiente para que eu agisse da maneira tola que estava agindo no momento. Arriscando tudo por um amor que eu nem sabia dizer se um dia seria possível, se um dia daria certo.
- Talvez isto os ajude a se decidir. — o Caçador cortou meus pensamentos e com um sorriso maldoso no rosto e um gesto rápido, apertou o ferimento na barriga de Tatsuha que gritou de dor, um grito que ecoou na caverna e me fez prender a respiração.
Vi, com a minha mente pouco a pouco parecendo desconectar da realidade, Tatsuha debater-se no aperto do demônio, tentando se livrar da mão que o pressionava e cujos dedos de unhas longas como garra cravavam na pele, abrindo mais o ferimento e fazendo mais sangue jorrar do mesmo.
Meu sangue novamente correu apressado pelas minhas veias, latejando em meus ouvidos, e a minha respiração ofegante parecia ecoar com os gritos de dor de Tatsuha. Vi lágrimas rolarem pelo rosto pálido dele, vi de rabo de olho Mika e Eiri mexerem-se inquietos, sem saber o que fazer já que os seus poderes eram inúteis contra o Caçador. Vi Tatsuha debater-se até que as suas forças foram sumindo e o seu corpo fraco cedeu a tortura, deixando-se ser abusado enquanto soluços passavam pela garganta dele. Vi tudo isto como se estivesse desconectado do que acontecia, como se o meu cérebro não processasse o que via, como se tudo estivesse desligado no momento em que ouvi o primeiro grito vir dele.
- E então? — o demônio rosnou, puxando Tatsuha mais uma vez pelo cabelo para colocá-lo de pé visto que, devido a dor, os joelhos dele cederam ao peso do corpo e ele foi ao chão.
Os dedos do demônio novamente fecharam-se no punho da adaga e eu vi.
Vi o sangue de Tatsuha manchando os dígitos, vi o líquido carmesim pingar langorosamente no chão, vi a vida de Tatsuha escorrendo pela pele marcada do demônio, com o mesmo pouco se importando se o sangue manchava as suas roupas ou não, apenas obtendo prazer em saber que tinha feito Tatsuha sofrer. E então, o que parecia ter desconectado dentro de mim reconectou em um choque quem fez o meu corpo inteiro tremer e um grito sair da minha garganta.
Um grito que ecoou nas paredes da caverna, um grito gutural, um grito que assemelhou-se a um rosnado e quando dei por mim tudo a minha volta tinha escurecido por um segundo assustador e retornado a claridade de maneira inebriante. E eu pude perceber, naquele momento, pelo olhar surpreso de Tatsuha, pelo ofego de Mika e Eiri e pelo sorriso vitorioso do demônio que algo grande tinha acontecido. Algo impressionante.
Tatsuha
Não importa quantos anos se passassem, quantos demônios eu enfrentasse, quantas poções cozinhasse ou quantos feitiços proferisse. Magia, em um momento ou em outro, sempre iria me surpreender com algo novo. E surpreso eu estava. Um choque misturado com deslumbramento difícil de associar.
Os livros da Escola de Magia foram pobres em descrever o que eu presenciava neste exato momento: um dragão em sua forma real e majestosa bem aqui, na minha frente.
Porque foi isso o que tinha acontecido. No momento em que Ryuichi gritou eu percebi que algo grande estava para ocorrer porque, mesmo entre a dor da tortura que o Caçador me infligia, eu podia ver o conflito e a revolta refletidos nos olhos azuis dele. Isto e algo mais que brilhava nas íris azuladas. Algo que agora percebi ser magia.
Pura e ancestral.
O grito de Ryuichi transformou-se em um rosnado no meio do percurso e logo em seguida o mesmo foi acompanhado pelo o som de algo estourando, fumaça brotando de rachaduras no chão e tremores que sacudiram todas as paredes da caverna. E eu tenho que dizer que, até mesmo para uma manifestação total de poderes, Sakuma sabia fazer isto com estilo e arte.
O Caçador soltou uma risada vitoriosa em meu ouvido enquanto Mika e Eiri afastavam-se da fumaça de tons esverdeados. A minha respiração ficou presa em minha garganta e eu me dividia entre ficar feliz que teríamos uma ajuda extra naquela batalha, já que Ryuichi estava despertando os seus poderes por completo, e medo por ele porque era isso o que o Caçador almejava.
Outro rosnado fez poeira descer do teto e pedras desprenderem-se do mesmo. Senti um puxão doloroso em meus cabelos, um alerta do demônio que dizia para eu acompanhar os movimentos dele quando ele recuou um passo para evitar ser acertado por uma rocha. O que, sinceramente, no momento, eu desejava que tivesse acontecido e não me importava que eu pudesse ser atingido também. O latejar do meu ferimento estava se tornando algo insuportável e agora, ao invés de calor, começava a sentir frio e eu sabia que este sintoma não era nada promissor.
Mordi o lábio inferior para impedir um gemido quando o Caçador fechou mais os dedos nos meus fios de cabelo, pensando que se eu sobrevivesse a isto que ao menos eu não terminasse careca.
A fumaça se expandiu, começando a tomar conta por completo da caverna, nos cegando por alguns segundos antes de sumir como se tivesse sido sugada por um aspirador de pó. E quando isto aconteceu, eu ofeguei.
Porque ali, bem na minha frente, estava a criatura mais magnífica que eu já pus os olhos.
Tinha corpo alongado, patas com enormes garras, escamas esverdeadas que refletiam as luzes das tochas, ganhando vários tons de cores diferentes. O focinho escondia dentes afiados e mortais, os olhos não eram mais os azuis calorosos de antes, mas um dourado intenso, como ouro. E ele era enorme. De altura assemelhava-se a uma casa de dois andares. De comprimento, deveria ter ao menos uns vinte metros da ponta do focinho até a cauda. E ele tinha asas.
Arregalei os olhos.
Imaginava que, sendo de origem chinesa, a forma dragão de Ryuichi se assemelhasse a forma tradicional de um dragão oriental: com o corpo como o de uma serpente. Aparentemente, este não era o caso. Sakuma deveria ter um pouco de sangue europeu em sua linhagem. O que não era surpresa. Afinal: quantos japoneses você via por aí de cabelos naturalmente castanhos e olhos naturalmente azuis?
O dragão deu um passo à frente, com as suas garras tirando lascas da rocha ao pisarem na mesma, e abaixou a sua enorme cabeça para os olhos ficarem na altura dos meus.
- Tsc, tsc, tsc. — o Caçador soltou perto do meu ouvido, puxando novamente a minha cabeça e colocando a adaga em meu pescoço. — Outro passo e eu não respondo por mim. — continuou, apertando a lâmina fria contra a minha pele suada.
Os olhos dourados estreitaram-se eu pude ver refletido neles o desagrado que Ryuichi sentia com aquela situação.
- Por que não fazemos o seguinte: você se entrega à mim de livre e espontânea vontade e eu solto o seu amado Encantado. — o modo como ele disse amado, com aquele tom de nojo e desprezo, me deu vontade de vomitar.
Os meus olhos procuraram os de Mika e eu franzi as sobrancelhas para ela antes de voltar o meu olhar para uma rocha ao lado dela. Mika deu uma pequena negativa com a cabeça, considerando o movimento arriscado, e eu franzi ainda mais a testa. Eu poderia morrer, mas não deixaria que aquele Caçador tivesse o poder dos Dragões do Tempo nas mãos. Que matasse Ryuichi.
Aliás, os meus olhos voltaram para o mencionado, comigo ainda dividido entre ficar fascinado com a criatura na minha frente e bolar um plano de fuga. Não podia evitar. Ver um dragão era tão raro quanto ver um unicórnio e ambos eram extremamente belos. Ao menos eu achava Ryuichi belo. Mas talvez eu fosse um pouco suspeito para falar diante da minha atração recém-descoberta por ele.
Chocados? Eu também.
Cheguei a esta brilhante conclusão no segundo que o vi materializar-se naquela caverna com os meus irmãos, o que fez o meu coração querer sair do peito e ir dar uma surra em Ryuichi diante da burrice dele. Depois de todo o trabalho que eu tive para protegê-lo, o idiota vinha de bom grado se entregar ao Caçador? Ele queria me matar de desgosto? Me fazer ter um ataque? Eu esperava que não, não é?
Afinal, tinha me apegado a ele nesses últimos dias que passamos juntos. Ryuichi era uma companhia agradável, divertido, talentoso e lindo. E sabia, com um único olhar, penetrar nas mínimas rachaduras que a minha armadura emocional possuía.
Um ar quente balançou as mechas do meu cabelo e trouxe a minha atenção de volta para o que acontecia ao meu redor, me fazendo reconhecer, de novo, a dor lancinante que estava gerando pontos pretos em minha visão. O focinho de Ryuichi estava bem perto do meu rosto e um tremor percorreu o meu corpo ao ver enormes caninos serem expostos em um gesto de ameaça para o Caçador que somente riu.
Realmente este demônio não regulava bem das ideias. Porque se eu estivesse na mira de um dragão enorme cujos dentes grandes e ameaçadores estavam arreganhados bem na minha cara, eu já teria me borrado todo.
Novamente troquei um olhar com Mika, ignorando toda a ladainha que o demônio estava dizendo, algo sobre troca justa e que se Ryuichi não se entregasse eu seria morto e blá, blá, blá e blá. Minha irmã apenas me mirou de volta com as sobrancelhas arqueadas e eu assenti levemente com a cabeça.
Mika mordeu o lábio inferior, indecisa e, neste meio tempo, Eiri pareceu captar nas nossas trocas de olhares a minha ideia. Com isto, ele deu um passo para o lado, vagarosamente circundando Ryuichi que bloqueava a visão do Caçador para os meus irmãos, aproximando-se pouco a pouco de onde eu estava.
O demônio ainda estava ocupado em cantar a sua vitória enquanto Sakuma permanecia imóvel, com os seus grandes olhos dourados cravados em nós, com certeza esperando o momento em que o Caçador fosse baixar a guarda. Porque apesar de tagarelar feito uma velha fofoqueira, o sujeito ainda era bom no que fazia e mesmo falando pelos cotovelos mantinha um aperto firme na minha pobre pessoa, com a adaga espetando a minha garganta e os olhos fixos em qualquer movimento das escamas de Ryuichi.
Inspirei profundamente, me preparando para algo que com certeza seria louco e extremamente doloroso, e olhei para Mika que com uma expressão decidida, apontou a mão na direção da enorme rocha. Quando a pedra levitou alguns milímetros acima do chão, me movi.
Agitei uma mão na direção do chão, perto do pé direito do Caçador, explodindo o mesmo. O demônio poderia estar com um amuleto o protegendo dos nossos poderes, mas o covil não estava mais protegido, como ele mesmo disse mais cedo. O ataque súbito o fez perder por um momento o equilíbrio e eu aproveitei este deslize para dar-lhe uma cotovelada dolorosa nas costelas.
Ouvi um estalar de ossos, indicando que algumas foram quebradas, seguido de um grunhido de dor, e de rabo de olho vi Eiri se mexer, terminando de dar a volta por Ryuichi, e em um gesto rápido aproximar-se de mim e segurar o meu pulso, me puxando com força de encontro a ele e me afastando do Caçador. O meu corpo bateu contra o peito de Eiri enquanto vi passar a alta velocidade ao nosso lado a rocha que Mika levitava, com esta batendo contra um Caçador ainda se recuperando do ataque súbito, o que o fez ser arremessado do outro lado da caverna.
Ryuichi aproveitou a confusão e deu outro passo à frente, abrindo as asas levemente de modo a criar uma barreira onde Mika, Eiri e eu nos escondemos e, então, um outro rugido ecoou pela caverna, fazendo as paredes tremerem, e por entre uma fresta cedida pela asa vi Sakuma abrir a boca e lançar um jato poderoso de chamas em cima do Caçador. O mesmo não teve tempo de reagir, somente gritar enquanto o seu corpo era consumido pelo fogo até virar nada mais que cinzas no chão.
Pisquei os olhos, impressionado com a facilidade que Sakuma teve de extinguir um demônio que em um dia comum precisaria de uma poção abençoada pelo Poder dos Três e um feitiço recitado pelos Encantados. Mas, o que eu poderia esperar de uma criatura mitológica de milênios, cuja existência vem desde os primórdios da magia?
Com um bufo Ryuichi espalhou as cinzas pela caverna e em seguida virou a enorme cabeça em nossa direção, recolhendo as asas para junto do corpo para assim nos olhar melhor. Vi um brilho de divertimento nos olhos dourados, o que me fez sorrir de volta para ele antes da dor novamente ser registrada pelo meu cérebro no segundo em que os níveis de adrenalina abaixaram em meu corpo.
E então, tudo escureceu.
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