Charmed
4 Capítulo 3
Ryuichi
Quando vi Tatsuha se colocar na minha frente quando, o que agora eu supunha fossem demônios, surgiram no sótão, novamente o meu coração disparou de pavor só de pensar que os mesmos estavam ali para terminarem o que a criatura de mais cedo começou. O primeiro demônio ergueu a mão direita, com uma bola azulada que crepitava como pura energia, e lançou a mesma na direção de Mika. Um grito ficou preso em minha garganta ao ver que a bola quase a acertou, se ela não tivesse desaparecido naquela chuva de luzes e reaparecido no mesmo lugar, dando um relance por cima do ombro para ver que a bola tinha destruído uma velha cômoda.
- Ei! — o grito de Tatsuha chamou a atenção do demônio que tinha atacado Mika e este virou-se na direção dele e antes que pudesse invocar outra bola, explodiu em chamas e tornou-se nada mais do que cinzas.
Mirei o adolescente com o que deveria ser uma expressão surpresa em meu rosto. As mãos de Tatsuha ainda estavam erguidas e quando um demônio correu para fugir do ataque de Mika, o garoto simplesmente acertou a criatura em um gesto rápido, o pegando de raspão e com a explosão o fazendo voar para o outro lado do sótão. O rosto jovem parecia concentrado no que fazia enquanto as sobrancelhas franzidas expressavam desagrado por toda àquela situação. Tatsuha estava sério e não estava para brincadeiras, bem diferente do rapaz piadista e fascinado pela minha pessoa de mais cedo.
- Tire o Ryuichi daqui! — Mika ordenou, me trazendo de volta dos meus devaneios, no mesmo instante em que fazia um gesto largo com o braço e mais dois demônios voaram longe, indo pousar sobre umas caixas de papelão atulhadas de brinquedos velhos. Senti Tatsuha segurar em meu braço e me puxar na direção da porta e quis protestar, mas ele parecia mais concentrado na bola de energia que veio em nossa direção. Com a mão livre Tatsuha ergueu a mesma e sacudiu os dedos e meu queixo caiu quando a bola explodiu no meio caminho, criando uma onda de choque que atingiu o demônio e o atirou para trás, fazendo o mesmo cair sobre uma mesa revirada e sendo empalado pelo pé dela, desaparecendo também em chamas.
- Tatsuha! — a ordem fez o garoto se mover novamente, parando de avaliar o estrago que tinha feito, e antes que eu pudesse dizer alguma coisa já estava sendo puxado para fora do sótão e praticamente carregado escada abaixo.
- Espere! Vamos deixá-la sozinha? — falei, ainda tentando pará-lo, mas ele parecia bem forte para alguém que não tinha físico para isto.
- Acredite, demônios se metendo com a Mika é a ideia mais estúpida que eles poderiam ter. — respondeu e quando dei por mim estávamos na sala de estar, com ele me soltando e indo até uma caixa de madeira, a abrindo em gestos rápidos e retirando da mesma vários cristais que ele arrumou apressadamente em um círculo no chão.
Segundos depois que ele terminou de colocar o último cristal Mika surgiu naquela chuva de luzes que estava começando a se tornar familiar para mim.
- Lá vem. — ela deu um passo para trás, aproximando-se de Tatsuha no exato instante que um demônio apareceu na sala. Tatsuha deu um meio sorriso e antes que a criatura pudesse fazer alguma coisa, soltou o cristal que estava em sua mão, fechando o círculo. Vi uma luz esbranquiçada brilhar ao redor do demônio e depois sumir, fazendo o mesmo rosnar de raiva no que percebi, assim como ele, que era uma armadilha.
- Vocês... Parecem acostumados a lidar com isto no dia a dia. — ambos, Mika e Tatsuha, trocaram olhares e depois o próprio Tatsuha me olhou, dando de ombros.
- É... Acostumados até demais. — soltou em um suspiro. — A honra é sua? — disse para Mika, entregando a ela pequenos pedaços de cristal com os quais a mesma brincou por um breve momento na palma de sua mão.
- Acha que está relacionado?
- Muita coincidência dois ataques no mesmo dia.
- Certo. — a vi inspirar profundamente e arremessar uma das pedrinhas contra o demônio. A mesma não chegou a atingi-lo, mas a luz branca voltou a brilhar e vi faíscas cruzarem o ar no mesmo instante que a criatura gritou de dor.
- O que estão fazendo?! — gritei alarmado.
- Obtendo respostas. — Mika retrucou, lançando outra pedra que fez a luz ficar mais forte por um instante e ocasionando outro grito.
- Vocês o estão torturando? — falei chocado.
- Brilhante dedução. — ela lançou mais uma pedra, desta vez acompanhada de uma pergunta que sobrepôs-se ao grito do demônio. — Quem te mandou? — o mesmo nada respondeu e mais uma pedra foi lançada. — Responda! — ordenou e foi neste momento que percebi o que Tatsuha quis dizer sobre demônios serem estúpidos em quererem enfrentar Mika. A mesma sabia ser assustadora, o que me fazia questionar se ela era realmente uma bruxa boa como Tatsuha tinha falado ou se ambos estavam me enganando.
- Eu não tenho que lhe dizer nada bruxa! — o demônio respondeu em um tom enojado e isto pareceu irritar Mika ainda mais, que disparou outro pedaço de cristal contra aquela prisão mágica, fazendo a mesma brilhar intensamente.
- Mika... — Tatsuha falou ao meu lado, cruzando os braços sobre o peito e inclinando-se na direção dela. — Não acha que está exagerando?
- Não. — foi a única resposta dela antes de soltar outro cristal contra a prisão, causando mais um choque no demônio que rosnou para ela.
- Pode tentar o quanto quiser, mas nada irá conseguir. — disse o demônio antes de surpreendentemente desaparecer em chamas até tornar-se cinzas.
- Tatsuha... — Mika murmurou com desagrado para o rapaz ao meu lado que descruzou os braços e ergueu as mãos em um gesto de rendição.
- Não olhe para mim. Não sei de nada.
- Tatsuha, demônios não se extinguem por vontade própria.
- Bem, esse extinguiu. — Mika rolou os olhos, soltando um longo bufo de frustração. Quanto a mim, eu não consegui entender metade do que eles disseram mas, aparentemente, o que acabou de acontecer não foi normal. Aliás, minuto a minuto estava começando a chegar a conclusão de que nada naquela família era normal.
- E agora? Como vamos descobrir quem está atrás do Sakuma?
- Eu ainda tenho aquele pedaço de pele, posso escanear pelo demônio. — Tatsuha sugeriu e Mika rolou os olhos novamente.
- E você acha que ele vai entregar o jogo de bandeja? Não é bem do feitio deles.
- Por que não começamos pela básico? Por que não perguntamos ao Sakuma-sama o que aconteceu? — recuei um passo quando o olhar indagador de ambos recaiu sobre a minha pessoa.
- Por que vocês acham que eu saberia de alguma coisa? — logo eu que horas atrás não fazia a mínima ideia de que tal mundo fantástico existia.
- Nada de estranho aconteceu antes do ataque? Alguma coisa que você viu, ouviu... fez? — me senti levemente ofendido. Mika estava insinuando que o fato de ter quase sido morto era culpa minha?
- Escuta! A única coisa que me lembro antes de vocês aparecerem explodindo tudo é que aquele cara surgiu do nada assim que eu... — pausei, inspirando profundamente e arregalando levemente os olhos.
- Assim que você o quê? — Tatsuha deu um passo a frente, com as sobrancelhas franzidas e uma expressão curiosa no rosto jovem.
- Assim que eu li o livro da vovó. — novamente recebi olhares indagadores dos dois. — O livro... — percorri os olhos pela sala, procurando por alguma coisa, qualquer coisa, mas não encontrando o que eu queria. — O meu carro ficou para trás?
- Não. — Mika me respondeu. — O que precisa de dentro dele?
- As caixas que estavam no porta-malas.
- Certo. — a vi estender o braço na direção da mesa de centro. — Caixas. — disse e em uma chuva de luzes azuladas as caixas de papelão surgiram sobre a mesa.
- Proveito próprio. — Tatsuha cantarolou, indo até as caixas e percorrendo os olhos por elas, mexendo em uma coisa ou outra com as pontas dos dedos até que chegou em um ponto que as sobrancelhas dele franziram e ele retirou de dentro de uma delas o mesmo livro de capa de couro de mais cedo. — Tem um feitiço na contra capa. — declarou e em dois passos eu cruzei a sala e parei ao lado dele, mirando a mesma rima que tinha lido mais cedo. — Você, por um acaso, não o leu em voz alta, leu? — dei de ombros. E se eu tivesse lido, que diferença faria?
- Aparentemente o feitiço liberou alguma coisa. — Mika interviu.
- Isto é ridículo! — protestei, eu não era bruxo, não tinha poderes mágicos e se tivesse acho que seria o primeiro a saber. — Não sou um bruxo! — declarei em voz alta e Mika assentiu com a cabeça, concordando com a minha colocação.
- Verdade. Então talvez... — mas ela foi interrompida pela irmão.
- Eu não teria tanta certeza disto. — soltou Tatsuha e agora foi a vez dele de receber olhares curiosos de minha parte e da parte de Mika.
- Tatsuha, do que você está falando... — começou a mulher e calou-se quando o viu erguer a mão em minha direção, o que me fez recuar um passo porque eu sabia exatamente do que ele era capaz, e sacudir os dedos umas três vezes. — Oh... Entendi.
- Eu não! — falei inconformado. O que Tatsuha tinha feito que o fez atestar com tanta certeza de que eu tinha poderes mágicos?
- Os poderes de Tatsuha são aceleração e desaceleração molecular. — pisquei sem entender ao ouvir o que Mika disse.
- Posso explodir e congelar coisas. — Tatsuha completou. — Entretanto, meus poderes de desaceleração não funcionam em criaturas mágicas boas e em um ou outro demônio.
- Eu não sou um demônio! — quase gritei. Agora estava ofendido.
- Não disse que você era. Apenas disse que você possui poderes mágicos, poderes esses que o fez ler o feitiço e liberar alguma coisa com ele, apenas não sabemos o que.
- Querem saber?! — os cortei antes que essa baboseira toda chegasse a um nível absurdo de surrealismo. Eu não era uma criatura mágica, um bruxo ou qualquer outra coisa parecida e talvez tenha sido por pura coincidência que aquele demônio tenha me atacado. Talvez ele tenha me confundido com outra pessoa, o que pode acontecer. Certo que meus cabelos castanhos e olhos azuis na sociedade japonesa me destacava dos demais, herança do meu pai ocidental, mas isto não queria dizer nada. — Eu vou pra casa! Eu tenho uma vida para viver e problemas para resolver e isso só pode ser um pesadelo que eu estou vivendo.
- Se acha que é um pesadelo, posso beliscá-lo. — Mika ofereceu solicita e com um sorriso de escárnio no rosto. A mirei com desagrado e pegando duas das caixas, as coloquei sob o braço, recolhendo a terceira pela alça e indo para a porta, a abrindo desajeitado e me encaminhando para o carro. — A sua vida ainda corre perigo! — a ouvi gritar do batente da porta, mas a ignorei por completo.
- Deixe-o ir. — a voz de Tatsuha chegou aos meus ouvidos em tom sério e nada parecido com o tom adolescente debochado de mais cedo. — Nosso trabalho terminou aqui. — foi a última coisa que o ouvi dizer antes da porta da casa ser fechada às minhas costas. Com um resmungo, coloquei as caixas dentro da Mercedes e sentei no banco do motorista logo em seguida, pronto para dar adeus àquela loucura e voltar a minha vida.
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