Charlotte - Why not?
4 Capítulo 4
Notas iniciais
— Cris. Cris acorde.
Eu abri os olhos com uma certa dificuldade, não tinha dormido muito. Na verdade tinha praticamente acabado de pegar no sono. Mas já era de manhã e Blanca já estava na minha frente, esperando que eu me levantasse.
— Eu tomo banho sozinha — lembrei ainda sonolenta.
— Sabemos disso — respondeu Bia de algum lugar do quarto.
— Mas você já está atrasada — avisou Blanca com a maior calma.
Arregalei os olhos e dei um salto da cama, quase tropeçando nos cobertores. Corri para o banheiro e tomei o banho mais rápido da minha vida.
— Será que deixar o cabelo molhado está fora da moda? — perguntei a elas enquanto tentava encontrar outra toalha para secar os cabelos.
— Cris — ouvi Blanca chamar.
— Alguém já escolheu um vestido para mim? Onde está?
— Cris.
— Alguém sabe que horas são?
— São 6:30 da manhã — respondeu Bia.
Eu paralisei. Como assim são 6:30 da manhã? Hoje o café da manhã só seria as oito! Eu não estou atrasada! Virei para encará-las e as encontrei sorrindo.
— Eu mataria vocês se pudesse — bufei, deixando meu corpo cair na cama — Esqueceram que o café é as oito hoje?
— Ninguém disse que estava atrasada para o café — respondeu Brenna.
Eu revirei os olhos. O que estava acontecendo aqui?
— Então estou atrasada para quê?
— Primeiro vamos arrumá-la, depois lhe mostraremos um lugar.
***
Como ainda era bem cedo para um sábado, o palácio estava vazio, apenas alguns guardas circulavam pelos corredores e nos olhavam torto quando passávamos.
— Onde estamos indo? — perguntei quase num sussurro.
As três apenas me olharam e continuaram a andar. Eu bufei, impaciente. Já fazia alguns minutos que estávamos vagando entre os corredores, quase imaginei nosso caminho como um circulo, como se elas quisessem confundir alguém. Bem, estavam confundindo a mim.
Mais algum tempo e chegamos na porta usada pela maioria dos criados, como uma saída mais direta para fora do palácio. Um guarda estava cuidando daquela entrada, mas ele apenas acenou para elas e se afastou, fingindo que não nos via.
— É sério, onde estamos indo?
— Estamos quase chegando — respondeu Bia sem me olhar.
Era a minha primeira vez no jardim real e imediatamente tive vontade de ficar o resto da minha estadia ali.
— Vamos Cris, ninguém pode nos ver — apressou Brenna.
Apressei meus passos e as segui. Não parei ao notar que estávamos entrando na floresta e que poderia ser perigoso, e decidi não ligar para o fato de que nenhum guarda nos parou. Minha respiração estava quase tão rápida quanto meu coração e nada naquele momento me fazia parar. Não havia arrepios ou meu subconsciente gritando que havia algo errado, apenas uma agonia crescente no meu peito dizendo que eu precisava seguir em frente. A floresta ainda estava úmida e todas as árvores pareciam iguais para mim, mas elas pareciam saber exatamente o caminho. Se eram sequestradoras, então estavam em vantagem.
— Estamos quase lá, alteza — garantiu Blanca que mostrava o caminho.
Decidi ignorar a forma como me tratou e me concentrar em ficar de pé durante o percurso.
Depois de alguns minutos e alguns tropeços meus, nos quais eu recebi ajuda imediata, Blanca anunciou que havíamos chegado. Olhei em volta, procurando algo diferente do resto da floresta. Mas não achei nada.
— Chegamos onde?
Nenhuma delas respondeu. Blanca se aproximou de uma árvore mais a frente e a analisou. Com certeza a árvore é diferente das outras, muito maior e muito mais larga. Mas ela parecia prestar atenção nisso, passava as mãos no tronco como se procurasse por algo. Algum depois ela encontrou, limpando o local e revelando uma flor-de-lis entalhada ali. Eu engoli em seco. O que elas escondiam?
— É aqui mesmo, venham.
Para onde?!
Então com uma certa dificuldade e naturalidade, como se fizesse aquilo todos os dias, ela abaixou-se e puxou uma tampa de madeira que estava escondida pela areia preta.
— Mas o quê? Alguém pode me explicar o que está acontecendo? — pedi assustada. Aquilo era uma passagem secreta ou o quê?
— Agora não, princesa. Primeiro entre e explicaremos tudo — respondeu Bia enquanto se aproximava da irmã.
Entrar? Ai? Nesse buraco desconhecido? Não mesmo!
— Qual é o problema de me explicarem aqui fora? — questionei cruzando os braços.
— Aqui alguém pode nos ouvir e queremos contar somente a você — explicou Brenna pouco antes de se jogar para dentro do buraco.
— Não seja teimosa agora, entre! — sussurrou Blanca irritada — Confie em mim.
Eu mal conheço você, querida. E se me matarem? Me torturarem?
— Tudo bem — concordei desistindo da teimosia.
Aproximei-me e fitei o buraco, não via nada no breu. Nem mesmo o fim dele. Me enterrariam viva? Mas Brenna estava lá!
Respirei fundo e pulei. Cai meio desajeitada, mas ainda de pé, e assim que abri os olhos notei que foi um ato inútil.
— Eu devia enxergar alguma coisa? — questionei. Percebi que minha voz ecoou até mais a frente. É isso. É um túnel! Estava bem obvio que é um túnel! Mas para onde?
— Tenta andar mais para frente — ordenou Blanca — Vamos entrar.
Tateei as paredes, logo notando que não eram de areia compactada como pensei e sim de rochas. Um túnel bem mais antigo que o esperado. Ouvi dois sons abafados seguidos e logo a entrada estava fechada, eliminando a única luz. Bia e Blanca já estavam dentro.
— Toque nas paredes da direita com cuidado e procure pela primeira entrada — Blanca ordenou de algum lugar atrás de mim.
Eu já estava apoiada na parede, então apenas continuei seguindo em frente.
— Não há bichos por aqui? Cobras ou aranhas? — questionei temerosa. O quê? Eu tinha medo de algumas coisas, oras.
— Vai se sentir melhor se não pensar nisso — Blanca respondeu. Pelo tom de sua voz conclui que estava rindo do meu nada secreto medo.
— Aqui — disse Brenna mais a frente — Encontrei. Estou bem na entrada.
— Espere por Cris ai.
Segundos depois do que ela falou eu encontrei Brenna.
— Segure minha mão e mantenha os olhos abertos — ela disse.
Por que se não dá para enxergar nada?
Ela andava em passos largos e firmes, como se fizesse aquele caminho desde o momento que nascera. Eu estava morrendo de medo de cair de cara no chão, mas a pressa dela não me deu a escolha de parar. Interrompendo todo o meu drama interno, enxerguei uma pequena luz piscando na parede próximo ao chão, tão pequena que não iluminava mais do que alguns centímetros além dela. Havia uma fileira delas, mostrando o caminho.
— Todas aqui? — questionou Brenna.
— Sim — Blanca e Bia responderam em uníssono.
Escutei algo sendo empurrado e segundos depois fui forçada a fechar os olhos. A claridade me cegou momentaneamente, mas depois me acostumei e como uma boa curiosa, olhei ao redor.
Parecia uma sala comum, se desconsiderássemos a falta das janelas e a presença das rochas. Mas era bem grande, havia dois sofás, uma mesa com vários papéis antigos em cima, várias estantes cheias de livros, alguns armários e uma porta mais ao fundo.
— Onde estamos?
— É uma espécie de abrigo — respondeu Bia.
— Abrigo?
— Sim, alteza — afirmou Blanca procurando algum livro na primeira estante — E nós vamos explicar tudo.
Eu já ia perguntar porque ela insistia em me chamar de alteza quando notei algo estranho na voz dela. Um sotaque diferente. Arregalei os olhos.
— Não são de Illéa.
As três se entreolharam e Bia se adiantou para responder, enquanto Blanca voltava a procurar o que quer que fosse.
— É verdade. Somos da Nova Inglaterra, Bretanha. Fomos mandadas para cá por ordem do Rei Alexander.
— São espiãs?
— Quase isso. O Rei Maxon sabe que estamos aqui, foi um acordo entre os países.
— Por qual motivo?
Bia respirou fundo antes de prosseguir, eu quase a impedi pressentindo um problema.
— Há muitos anos a Nova Inglaterra foi atacada por rebeldes, conhecidos como Doomes. São chamados assim porque seus ataques são devastadores e monstruosos. O nosso reino sempre soube lidar muito bem com eles, no limite do possível. Mas naquele dia em especial o Rei perdeu, além de muitos do nosso povo, a própria esposa.
— E ele quer vingança — conclui, pois me parecia bem obvio — Vingança nunca trouxe nada de bom.
— Mas entenda o nosso lado — pediu Brenna com a voz falha — Ele perdeu a esposa e nós, assim como muitos ingleses, perdemos quase toda nossa família. Só nos restou nosso irmão mais velho, Steven, que aceitou de bom grado ser um guarda.
Eu olhei para as irmãs. Blanca havia parado de mexer na estante e agora, como as outras, mantinha o olhar vazio. Havia muita dor no passado delas e nada podia mudar isso, o mínimo que elas queriam é vingança. E nada no mundo tiraria essa ideia de suas mentes. Penso que com o Rei Alexander não seja diferente.
— Tudo bem — concordei, decidindo não discutir nada tão sério com elas — Mas o que estou fazendo aqui? O que Illéa tem a ver com isso?
— Os Reis e os Conselheiros de ambos os países acreditam que há Doomes infiltrados em Illéa.
— O quê? — arregalei os olhos. Eu acho que isso é ruim.
— Por isso pessoas da Nova Inglaterra foram enviadas para Illéa, para descobrir quem são eles — Bia esclareceu — Eis o motivo do acordo.
— Mas o que os Doomes querem de Illéa?
— Ainda não sabemos. Eles são inimigos declarados de Bretanha há muito tempo, lá tudo o que eles querem é destruir o poder da família real. Mas são conseguimos pensar em nada que tenha transformado Illéa em um alvo.
Então por que só eu pareço estar assustada?
— E por que estou aqui?
— Precisamos que nos ajude no nosso plano.
— Que plano?
— Vamos chamar a atenção dos Doomes e abrir espaço para que eles ataquem. Mas sem mostrar que estamos preparados para isso.
— O quê?
— Sente-se, e eu explico melhor.
Quando Bia sentou do meu lado eu percebi que não a via mais como uma criada, não conseguia mais olhar para nenhuma delas dessa forma.
O plano parecia ter...falhas demais na minha opinião. De acordo com elas, duas Selecionadas também eram da Nova Inglaterra e estavam como espiãs. Um boato interno teria que começar a rolar dizendo que havia ingleses entre os moradores do Palácio e os Doomes começariam a se mexer para captura-las. Tudo o que eu tinha que fazer é ser amiga delas e ajuda-las a permanecer na Seleção até o momento certo, depois bancar a traíra se eu descobrisse algum rebelde inglês pelo caminho. Eles se revelariam e eu daria uma informação errada. Para mim parecia um plano tão firme quanto um pudim quase cru.
— Não acha que estão confiando demais no ódio cego deles? — questionei hesitante.
E se o motivo deles estarem em Illéa seja maior do que o ódio deles pela Bretanha?
— Nós já vimos eles passarem por cima de muita coisa por causa desse ódio...
— E você precisa saber um pouco mais sobre a história de Bretanha se quiser atuar nesse plano com um pouco mais de confiança — Blanca avisou, entregando-me um livro razoavelmente grosso. Então era isso que ela tanto procurava...
— Preciso estudar isso? — Eu já não tinha muita coisa para fazer?
— Não precisa virar uma especialista — resmungou Brenna — Mas pelo menos saiba um pouco mais quem você está defendendo.
— Pegue isto — pediu Blanca me entregando um pequeno broche — É o símbolo da Nova Inglaterra. Todos os infiltrados de lá usam. Esconda isso em algum lugar do vestido e mostre sempre que necessário.
Encarei o broche em minhas mãos. É uma flor-de-lis feita de ouro puro, institivamente procurei os delas e não tive muita dificuldade em encontra-los. Estavam quase no mesmo lugar, discretamente colocados no cinto dos vestidos que usavam. Ninguém prestaria atenção.
— Tudo aqui dentro pertence à Nova Inglaterra, se ocorrer algum ataque é para cá que tem que correr com as outras duas garotas.
— E quem são as outras duas garotas?
Elas se entreolharam e só quando eu vi os nomes eu entendi a apreensão delas.
— Haley Bass e Nikki Blake.
***
No final eu decidi inventar uma desculpa de que eu estava doente e não comparecer a nenhuma refeição. Simplesmente sentei em cima da cama, cruzei as pernas e fitei o livro sobre a Nova Inglaterra que estava a minha frente. O verdadeiro sobrenome de Nikki e Haley era Morgan, são irmãs, por isso eu as achava parecidas. As únicas pessoas que realmente se aproximaram de mim na Seleção nem pertenciam a ela, e ainda fingiam ser outras pessoas. Eu entendia os motivos de cada uma, não fiquei com raiva ou algo assim. Mas encará-las depois disso, tendo que manter a pose de “eu não sei de nada” na frente de todo mundo e aguentar o olhar congelante de James enquanto eu tentava engolir alguma comida era pedir demais.
A flor-de-lis estava presa na cintura do meu vestido, onde um outro tecido podia escondê-la. Eu tinha acabado de recebe-la, mas já sentia que seu peso era enorme. Durante todos os anos que eu lembro da minha vida, todos os Jornais Oficiais, todas as conversas paralelas nas ruas... tudo o que ouvíamos era sobre os rebeldes da Nova Ásia e de como eles gostavam de destruir as bases de Illéa, matavam sempre que necessário para atingir um objetivo. Mas os Doomes... eles invadiam unicamente para matar, torturar uma nação tão lentamente que chegava a ser mais do que cruel. Eu quase podia ouvir os gritos de cada um da Nova Inglaterra e nunca tinha colocado os pés lá, se o país mais poderoso da Europa sofria com isso... o que seria de Illéa?
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