Charlotte
1 Prólogo
Prólogo:
Despontavam no horizonte os primeiros frágeis raios de sol, cobertos quase que instantaneamente por uma camada de um imenso carmesim vaporoso, num dia que coloria-se aos poucos do habitual tom cinzento que aprisionava a todos.
Tudo do que me lembro daquele dia é que chovia muito. A chuva cobria a cidade como um véu de alguma noiva melancólica. Anos depois, aquele lugar ainda era-me como uma alucinação insana, sussurrando num silêncio louco e cheio de frases desconexas, que eu ainda não havia aprendido a bloquear. A escuridão envolvia-me como o perfume de uma dama.
Tencionei fechar os olhos, sentindo o estômago gemer em contato com as lembranças do que eu soube que viria desde que descobrira a gravidez de minha mãe. Mas uma mão enluvada tocou-me devagar, impedindo-me de continuar a lamentar silenciosamente.
- Abra seus olhos, Edward.
Obedecendo, eu os abri. Mas não ousei encarar absolutamente nada que não fosse seu rosto.
Diziam que eu era igual ao meu pai. Talvez, no fundo, este foi seu único consolo. Um único herdeiro no qual ele podia mirar seu próprio rosto através dos olhos. Lembro-me do alívio em sua voz quando percebia que eu, como homem, poderia levar de fato seu nome adiante. E de como esta mesma voz falhava, incapaz de continuar, quando esbarrava na compreensão de que eu seria o último. E de que ele só estava ali porque duas irmãs mais velhas tiveram de ser sacrificadas antes dele.
- O que você está vendo?
Quatro paredes úmidas e impessoais. Pequenas ninfas cegas dispostas em todo o quarto como guardas, apenas observando, com seus sorrisos gelados. Imóveis como o futuro.
E olhos azuis. Um azul que atravessava a escuridão e me fazia perceber que eles também atravessavam o destino. E prender-lhe-iam para todo o sempre, apenas como um castigo indelével por um pecado que o tempo fez questão de apagar, mas cuja mancha ainda não havia sido esquecida de fato.
- ...Nada mais do que o senhor também vê, meu pai. – respondi, escolhendo deliberadamente cada palavra.
Para seres como nós, apenas aquilo era capaz de nos sustentar. Apenas aquela esperança tola que nos impedia de morrer.
James Shelser assentiu-me, satisfeito.
- Este é o dever.
O dever que me fazia encarar um cadáver perfumado e me perguntar por que eu não conseguia chorar, como um \"humano\", diante da opressão.
Por que eu continuava a me considerar apenas um instrumento frio, como metal... Como um \"objeto\".
Meu pai apertou uma vez mais meu ombro, fazendo-me compreender que, afinal, estávamos sozinhos.
O cheiro de sangue ultrapassava o limiar de minha consciência, minando-me de qualquer defesa ou subterfúgio. Olhamo-nos no escuro, enquanto eu procurava palavras que não existiam. Pela primeira vez, percebi que aquele homem tão inalcançável era, na verdade, apenas uma alma quebrada. Como a porcelana daquelas bonecas.
Um cadáver tem uma forma toda especial de nos encarar. São olhos de névoa, olhos que já não vêem mais nada. Quanto mais eu a encarava, mais sentia vontade de apenas deixar-me abater pela luz morna da madrugada.
- ...O dever. – repeti. Não havia nenhuma outra alternativa senão aprender que aquele também seria meu futuro.
Lady
Shelser estava ainda com aquela barriga que abrigava meus irmãos que jamais nasceriam. Ainda com aqueles olhos que, outrora, tão ternamente me encararam. E ainda com o traço das lágrimas a macular-lhe a pele fria.Eu quis sorrir diante do pensamento, mesmo não conseguindo.
Ao menos, agora, minha mãe já estava longe... Muito longe.
Mais uma vez, ousei encarar meu pai. Seu olhar era tão perdido quanto o daquele cadáver. E eu soube, mesmo que jamais ousei falar a ninguém, que ele morrera ali mesmo, com mamãe.
...Eu estava sozinho desde o princípio.
Notas finais
“Charlotte” é um doce, tal como foi “Bavarois”. É uma sobremesa russa, no caso, mas é um doce amargo, pois há chocolate amargo (introduzido atualmente) e café na composição. Como a história, dessa vez, é do Shelser, combina muito mais dizer que é assim, afinal, grande parte de sua trajetória já está embutida em “Bavarois”. Aliás, muitos personagens que já apareceram lá também fazem ponta neste spin, apesar das situações (idades) serem um pouco diferentes. Ah, mas isso já é outro assunto...
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