Charlotte

2 Capítulo I


Charlotte

Petit Ange

Parte I

I

A pouca claridade da tarde filtrava-se pelas cruzes que se incrustavam nos túmulos em sopros inclinados de luz que nunca tocavam o solo de fato. Ao meu redor, sons indistintos de vozes que discutiam negócios e assuntos pessoais. O menor dos assuntos era aquele caixão, os lírios perfumados ou mesmo o corpo que ali dentro descansava.

Quando eu soube que James Shelser nunca mais abriria os olhos, meus próprios não puderam segurar as lágrimas. Desde a infância eu soube que estava sozinho, mas naquele mínimo instante onde senti sua pele entregar-se ao frio da morte, enquanto os olhos nublados não refletiam absolutamente nada senão o vazio eterno, todo meu corpo sussurrou que, desta vez, era verdade.

- O jovem Shelser irá comandar os negócios sozinho agora, não?...

- Ele recém fez dezessete anos. – a voz abafada por um leque sussurrou. – Não creio que será competente o suficiente para tal...

- Se não me engano, James arranjou, antes de morrer, uma família que está disposta a um casamento.

- Tudo para salvar os Shelser!...

Não há mais volta para um órfão como eu. Sei disso há muito tempo. Desde quando meu pai avisou-me naquele dia feito de brumas líquidas bafejando na janela, já enfermo, que muito em breve deixaria aquele mundo. Ele havia tocado meu ombro gentilmente naquele momento. Tão gentilmente, tão frágil, que eu achei que iria quebrar.

...Em verdade, e isso eu jamais dividi com ninguém, meu pai parecia feliz em morrer. E eu jamais o culparia por isso.

Se fosse possível, eu também queria morrer e esconder-me nas profundezas do Inferno para sempre. Ou, ao menos, em algum lugar em que pudesse ficar em paz comigo e com meus pensamentos. Longe de toda a dor, de toda a humilhação e de todos os códigos que regiam minha existência.

Por isso, eu sinceramente não desejava a alma de meu pai no Céu, por mais que isso pudesse soar maldoso. Tampouco no Inferno. Eu apenas desejo que ele tenha um pouco da espírito que tanto almejou.

- A família está no velório...?

- São os Wheeler. – disse a mesma voz abafada, trazendo-me a nostálgica sensação de irritação por aquele tom teatral. – Estão por aí. Meu marido estava conversando com o senhor até pouco tempo.

- Os Wheeler têm uma rede de brinquedos infantis, não é?

- Realmente, não parece ser de muita ajuda aos Shelser ou aos seus oficiais treinados...

- James devia estar mesmo desesperado!...

Ao ouvir aquelas pessoas rindo, não importava quem fossem, minha vontade foi de ir até lá e partir-lhes todos em dois. Mas eu aprendi, com um pouco de dor e muito autocontrole, em meus quase dezoito anos (eles eram tão infames que ainda achavam que eu recém tinha feito aniversário!) que a vida é bem mais graciosa àquele que é prudente em seus atos.

Limitei-me a cerrar os punhos, contentando-me com a idéia de que, ao menos, meu pai nunca mais precisaria ouvir aquilo.

Nunca mais precisaria sentir a dor...

Instintivamente, minha mão rumou para os ombros, tocando o direito de leve. Foi como se eu houvesse levado um choque; eu reconheci aquele ato. Reconheci a dor de lembrar-me daquela marca de vergonha. Quando eu entrava naquele mundo onde apenas eu e a marca existíamos, era como se minutos e horas transcorressem como numa alucinação.

Memórias estilhaçavam-se em mil pedaços, como se a própria agonia silenciosa penetrasse em uma galeria de espelhos, e sua identidade produzisse milhares de reflexos díspares e, ao mesmo tempo, um só. Era uma só dor compartilhada por milhares de lembranças.

Os sons de vozes, fogo em brasa e gritos de agonia eram minha mais primordial lembrança. O gosto de metal e sangue também eram constantes.

E, atrás de mim, sempre como uma enxaqueca, olhos. Sempre os mesmos olhos, os mesmos sorrisos... A mesma voz.

- Jovem Edward?

Um segredo vale o quanto vale aqueles dos quais temos de guardá-lo. Meu segredo poderia valer toda minha existência.

Um manto de nuvens carregadas de eletricidade estendia-se no céu quando meus olhos encontraram os dele.

Era alto, de cabelos escuros e traços que lembravam uma ave de rapina. Vestia-se em luto, com uma capa tão negra quanto a noite jogada em seus ombros, mas eu sabia, com um ódio passivo, que Gerard Sunderland não sentia nenhum remorso ou tristeza pela morte de meu pai. Ele traçava desenhos incompreensíveis na superfície dourada da bengala, enquanto eu estava tentado a desviar os olhos dos dele e acompanhar aqueles movimentos.

Tão distraído, só percebi que havia outro alguém com ele quando o próprio movimentou-se de forma que eu o reconhecesse.

Alrick Sunderland era uns poucos anos mais velho que eu. Tinha a mesma falta de beleza marcante de seu pai, e vestia-se da mesma forma que ele. Não podia nunca deixar de associá-lo ao progenitor, como se fossem duas pestes da mesma laia (e, de fato, eram), como gêmeos siameses.

- ...Ah, cond Sunderland. Lord Alrick. Boa tarde.

- Vim-lhe apresentar minhas condolências... – o cond meneou a cabeça. – Sei como deve estar sofrendo por essa perda.

- Meus pêsames, Edward. – o filho me disse, fazendo-me conter-me para não deixar transparecer o asco.

- Muito obrigado, senhores. – inclinei-me respeitosamente.

- ...Agora você será cond, não é?

- Sim, senhor.

- Já sabe como irá prosseguir, jovem Edward? – o tom, para alguém de fora, poderia muito bem dar a entender que ele estava interessado. Mas eu sabia que Sunderland tinha outros significados em mente.

- Sou jovem. – forcei um sorriso. – No começo, receio que terei de ouvir atentamente os conselhos de outros conds.

Ele aquiesceu. Enquanto falava comigo, encarava o caixão de meu pai, o corpo morto lá dentro. Vasculhei em seus olhos qualquer sinal de reconhecimento, mas não encontrei nada. Com um choque que eu não devia mais sentir, percebi que Gerard Sunderland via, mesmo na morte, James Shelser como um mero objeto com um defeito irreparável.

- ...Falaremos sobre sua situação mais tarde, entre os patriarcas. – ele me disse, enquanto continuava olhando o caixão.

- Minha presença é necessária, cond Sunderland? – engoli em seco. Poucas vezes senti vontade de matá-lo tanto quanto ali.

- Não.

Sobre mim, camadas de negro e cinza derramaram-se e mostraram-se cada uma mais sombria. O farfalhar do tecido de sua roupa soprou em meus ouvidos como uma tortura grega, enquanto o corpo alto inclinava-se até meu rosto, com o sorriso congelado a presentear-me.

- ...Você pode ficar com o Alrick, jovem Edward. – e ele tocou em meu ombro, deixando claro o que aquilo significava.

Sempre era como receber um comunicado de morte.

Eu devia estar acostumado, mas não conseguia. E perguntava-me, secretamente, até mesmo me envergonhado de pensar aquilo, se meu pai também se sentia assim...

- Vamos nos comportar, não é, Edward? – o infame sorriu-me.

...Se eu pudesse, certamente mataria Alrick Sunderland. Ele e seu pai.

- Sim, senhor. – assenti, baixando os olhos.

- Muito bem. – satisfeito ao perceber a dominação que tinha sobre mim, o cond tomou a direção contrária. – Vou deixá-lo um pouco a sós, jovem. Mais tarde, nos falaremos. Mais uma vez, meus pêsames.

- Até, Edward.

Um gosto amargo permeou minha garganta. Eu já sabia que não conseguiria mais receber os pêsames e agradecer. A cada mão que apertava, era como adentrar ainda mais em algum ambiente com cheiro de madeira podre, onde o eco era pontuado por pingos úmidos de orvalho.

Com um sorriso irônico, inconsciente, percebi que estava descrevendo mentalmente a prisão nos subterrâneos de minha mansão. Era isso mesmo. Eu estava sentindo-me numa grande prisão. Com um suspiro, desculpei-me com os superiores ao meu redor e pedi um pouco de solidão. De certa forma, eles compreenderam. Era tudo o que eu queria. Só ficar longe dali.

Uma vez mais, e percebi isso com uma melancolia crescente, abandonei meu pai à própria sorte. Mas não tive coragem de ceder aos meus impulsos e voltar, velar por seu cadáver. Minha sanidade não agüentaria mais daquilo. Por isso, também com indescritível alívio, eu via cada vez mais o retângulo de claridade vaporosa ficando para trás, enquanto o céu plúmbeo que desenhava nuvens de aparência carregada vinham brindar-me com o complemento dos anjos de pedras dos túmulos, que se desfaziam silenciosamente.

St. Helens era perfeita para velórios, pensei. A única luz que ficara muito atrás de mim tingia de ocre a neblina do que parecia ser miasma no ar. Encarei distraidamente um dos túmulos, podendo adivinhar na escuridão da tarde o nome de algum nobre.

Subitamente, a visão do cadáver ensangüentado de Orchid Shelser fez-me sentir como se o chão houvesse sumido diante de meus olhos.

O que eu achei ser a laje de uma sepultura cedendo com um rangido brusco, na verdade, foi meu próprio corpo caindo. Drenado de forças, eu só pude encarar pateticamente um nome qualquer no túmulo à minha frente, o qual escolhi para apoiar meu cotovelo, antes de cair realmente.

O vestido, um exemplar luxuoso em azul celeste, comprado na capital meio ano antes, era a única coisa que coloria aquelas lembranças monocromáticas. Mais parecia uma mortalha divina. Se forçasse a memória, eu até mesmo podia lembrar do fedor de mofo e umidade que violentava-me o olfato, da sujeira e a escuridão que coroavam os ângulos do teto.

Ela estava lá no meio, ainda de olhos abertos. Só muito tempo depois meu pai teve coragem de ir até minha mãe e fechar-lhe os olhos.

...E, em meio àquele cenário, o delicado aroma de perfume perdurava.

Não o perfume de lady Shelser. Era a colônia que Gerard Sunderland usava, aquele cheiro que eu reconhecia de longe, que era capaz até mesmo de evocar-me pesadelos apenas pensando nele.

Ele impregnava todas as lembranças...

Ao passar a mão pelos cabelos, ponderei se não estava enlouquecendo. Talvez, fosse a pressão de ser um patriarca aos dezessete anos. Poucas vezes isso acontecia. Pensar que eu teria, mais do que nunca, agüentar a presença dos conds, principalmente o cond Sunderland, era o suficiente para fazer-me cogitar ser um ladrão de minha própria vida.

Porém, a razão era muito mais forte que a vontade. E as palavras de meu pai igualmente.

\"Um ‘objeto’ não deve tirar sua vida\", ele me disse.

Seu senhor é que deve fazer isso por ele, quando o mesmo desejar. Um \"objeto\" não tem direito nem a controlar sua própria existência.

Um riso inconsciente escapou-me dos lábios. Aqueles irmãos que nunca nasceram de Orchid Shelser, ao menos, não tiveram de viver para serem marcados e mal-falados para sempre por pertencerem à linhagem da família que ousou desafiar a autoridade.

- ...Você está bem?

Virei-me na direção da voz no mesmo segundo, estremecendo. Por mínimos instantes, achei estar diante de uma assombração.

Os cabelos estavam presos em um coque sem nenhum fio displicentemente caído, e eram como se o cobre e o bronze, de uma só vez, houvessem ali se fixado magicamente. Não consegui definir a cor exata daquele cabelo. Mas dos olhos, aqueles orbes que me hipnotizaram, eu pude ver a exata cor: mel. Uma espécie de dourado levemente maculado de marrom.

Eram olhos que me perscrutavam de muito longe, de uma fortaleza impenetrável que era vista largamente em sua pose altiva, em seu vestido luxuoso de luto. Mas o mínimo traço de preocupação, controlado o suficiente para não atrapalhar-lhe a finese, também deslizava até mim.

- Eu... Eu sinto muito. Desculpe...

Sem pensar, ergui-me. Algo fez minha mente simplesmente nublar, como uma manhã daquela cidade esquecida, e correr atrás daquele calor do feitiço de pele pálida. Antes de segurar-lhe a mão, percebi que seus olhos me encaravam, enquanto ela virava, surpresa.

Num instante que pareceu mais uma eternidade, eu desejei segurar aquela mão. Mesmo que parecesse tão distante, eu desejei realmente segura-la...

...Mas ao perceber a cena ridícula que eu estava protagonizando, enquanto culpava minha própria fraqueza, limpei a sujeira de minha roupa.

- ...Estou bem, sim. – assenti, fingindo que aquilo não havia acontecido, e inclinando-me numa reverência polida. – Desculpe, eu a assustei?

- Não. Eu é quem peço desculpas... Cheguei num momento muito pessoal.

Aproximando-me mais da moça (enquanto pensava em como aquilo seria desagradável, se alguém visse o herdeiro recém \"coroado\" engraçar-se com uma desconhecida em pleno velório do pai), percebi, com um princípio de ânsia, que o cheiro dela muito me lembrava aquele que incitava-me lembranças que me fizeram, há pouco, cair diante de mim mesmo.

- Está tudo bem. – sacudi a cabeça. – Eu quem fui descuidado. Afinal, este é o único lugar onde se pode ficar sozinho por aqui.

Perguntei-me o que uma senhorita estava fazendo sozinha naquele lugar tão desolado, que estranhamente combinava com ela e aquele vestido negro. Não parecia certo alguém tão etérea e, ao mesmo tempo, tão austera estar ali.

- ...Suponho que você seja o novo cond Shelser, não é?

Mais uma vez vi-me surpreendido com sua presença, desta vez por outros motivos: senhoritas não costumavam ser assim, diretas.

Ao menos, as que eu conhecia não o faziam.

- Edward Shelser, prazer. – porém, não demonstrando o quanto seu ato despretensioso me surpreendeu, inclinei-me respeitosamente mais uma vez diante dela, evitando beijar-lhe a mão. Alguém poderia ver-nos, principalmente ladies desocupadas, e propagar um boato desagradável a nosso respeito.

Os olhos cor-de-mel que pareciam me hipnotizar cravaram-se como lâminas de pontas agudas em meu rosto. Ela parecia estar analisando-me.

- ...Liliana Wheeler. – e o mau gosto em sua voz quando se apresentou deixou-me confuso, apenas até que eu entendesse seu significado.

Um sopro de ar frio silvou por nossas silhuetas, lambendo meu rosto enquanto eu percebia onde estava. Diante de mim, a senhorita Wheeler, da família que meu pai, James Shelser, arranjou como desejosa de um casamento para fortalecer ambos os negócios.

Diante de mim... Estava minha noiva...?

Notas finais
FAQ:

P: Por que você não escreve da Irisa, que tão pouco teve a história mencionada em "Bavarois" ao invés de perder tempo com o Edward? ò_Ó
R: Tenshi e eu discutimos muito isso. Tínhamos 3 opções: "Millefeuille" (Irisa&Matthew), "Éclair" (Miles&Evangeline) ou "Charlotte". Os três tinham (mais ou menos) a mesma carga dramática, mas entre os três, o que mais tinha situações de "Bavarois" era o conto do tio Ed.
Isso não quer dizer que eu, um dia, não possa publicar os outros, mas é que o gosto da nostalgia (e até mesmo para que se aprenda que em toda a história há mais de um ponto de vista) está em ver o Edward como 'mocinho'. Meio impossível, mas até alguém como ele já foi (ligeiramente?) bom. Acho que dá pra considerar "Charlotte" como a ascenção e queda da alegria dele. E olhem pelo lado bom: vocês já sabem como isso acaba. xDD
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.