Charlie
2 Manhã Seguinte
Na manhã seguinte eu não me lembrava quantas doses nós tomamos, apenas que depois de começarmos a dançar, a noite se tornou um enorme borrão em minha cabeça e eu esqueci de tudo, até mesmo meu nome. E na manhã seguinte eu consegui estar mais perdida do que naquela noite.
Um barulho de trem me acordou, daqueles bem altos, como se eu dormisse nos trilhos. Sem abrir meus olhos eu estava com calor, minha cabeça doía e soava como se um sino incessante, o chão era macio e havia um corpo quente ao lado do meu. Abri os olhos e o sol fez com que a dor aumentasse, ressaca. Jack parecia estar ao meu lado direito, seu corpo nu reluzia ao sol, e junto dele estava um outro garoto.
–Jack. – o cutuquei, com cuidado, ele se moveu um pouco, então repeti aquilo mais algumas vezes até perder a paciência. – Jack, seu viado de merda!
–Que porra, Charlie! – ele gritou, dando um pulo assustado, segurou a cabeça durante algum tempo e então se sentou.
–Onde merdas é isso? – me sentei, nua.
Estávamos sobre um cobertor branco, felpudo, do qual eu sabia que tinha alergias serias. A sala onde tudo se passava não tinha moveis, apenas uma enorme janela sem cortinas. Tudo ali era feito de madeira, o que explicava o calor infernal.
–O que está acontecendo? – Raquel se sentou.
Todos ficamos ali paralisados, tentando achar algum sentido em toda aquela confusão, claramente sofrendo com a ressaca geral, até que o acompanhante de Jack se sentou, Rupert. Eles eram uma espécie de constantes.
–Isso foi um trem? A única estação que eu conheço fica naquela cidade acima da capital, qual o nome dela mesmo? Estávamos na capital, certo? – ele coçou sua cabeça e se apoiou na parede e ficamos ali.
Rupert tinha razão. A única estação de trem estava à uma cidade acima da nossa, não era muito longe, mas como tínhamos chegado ali? De quem era aquela casa? A casa estaria vazia?
Sem dizer palavra alguma, Raquel se levantou e andou pelos cômodos da casa. Estava aterrorizada, mas não queria transparecer, então fiquei ali, abraçada aos meus joelhos, tentando manter as aparências. Assim que voltou, ela usava a sua escura blusa da noite anterior. Ela detinha um sorriso no rosto, diferentemente de todos nós.
–Tem uma cozinha ali. – ela apontou para um corredor, bem em nossa direita, havia uma porta ali, bem em nossa frente, o interior do cômodo era coberto em azulejos verdes. – A casa está vazia, mesmo, eu conferi para assombrações. Tem um banheiro na frente da cozinha, que funciona. As nossas roupas estão dentro da pia da cozinha. Segundo uma loja ali na frente, ainda não são 10 da manhã, e eu aconselharia a sair daqui o mais rápido possível, ainda mais se tiver comida na cozinha, eu vou tomar um banho. – Raquel entrou pelo corredor.
–Ela é estranha. – Jack se levantou e foi até a cozinha.
Coloquei minha blusa e procurei por comida, por algum motivo eu nunca tinha sentido tanta fome em minha vida. Achei cereal dentro da validade e leite, vasilhas incrivelmente limpas e talheres. Comi rapidamente, antes de entrar no banheiro, aberto, pois não haviam portas.
Raquel estava lá, embaixo da agua corrente do chuveiro e depois de todo o estresse da situação eu realmente notei seu corpo. Seu corpo moreno estava ali sendo completamente lavado por agua, com seu cabelo preso.
–Você sabe que psicopatas tem a tendência de observar? – sem abrir os olhos ela sorriu.
–Tem... com-mida – as palavras saíram emboladas, embaralhadas e completamente ridículas.
–Eu acho que você deveria entrar, a agua está incrivelmente morna para um chuveiro do qual não tem nenhuma regulagem. – ela se virou para mim e eu engasguei.
Limpei minha garganta, retirei a blusa branca e entrei no chuveiro, aquilo pareceu automático, pareceu estranhamente mecanizado para mim. Eu queria? Eu não sabia, mas ela tinha me prendido em algum tipo de feitiço maluco no qual eu precisava. Seus braços estavam em volta do meu pescoço, seu corpo quente tocava o meu. Suas mãos, macias, tocaram a minha nuca. Eu arrepiei. Sentia todas as partes do meu corpo que encostavam nos seus, desde meus pés, meus joelhos, minhas coxas, minha virilha, minha barriga, meus seios, tudo.
Raquel me beijou, e aquele foi o primeiro beijo seu do qual eu me lembro e tinha gosto de bebidas de ontem. O beijo fez com que meu corpo tremesse, por inteiro, eu paralisei, e então ela saiu do banheiro, indo para a cozinha, sem ao menos se secar.
***
Não muito tempo depois estávamos todos prontos e vasculhando os bolsos e a casa por dinheiro para poder pagar o ônibus de volta. Por incrível que pareça, conseguimos achar cerca de 400 reais ali dentro, em uma gaveta, e mesmo em meio de ladrões, dividimos o dinheiro igualmente. Rapidamente saímos dali, tendo de arrombar a porta, por dentro. A história desse arrombamento saiu nos jornais na manhã seguinte, mas ninguém se preocupou com isso, não naquele momento.
Não demoramos muito para encontrar o ônibus, nem ao menos para pega-lo. Eu diria que em duas horas estava em casa, contando o tempo que paramos para fumar um baseado. Naquele mesmo dia, inclusive, eu consegui trabalhar algumas horas, brigar com meu irmão mais velho e responder mil mensagens diferentes de Raquel, com o meu telefone que estava intocado em meio as minhas roupas.
A ideia daquela manhã insana e noite bizarra não me incomodou. Eu já havia passado por inúmeras experiências inusitadas enquanto bêbada. Em minha cabeça, aquilo seria um evento único, do qual eu poderia sentar e contar aos meus filhos futuramente, se possível, meus filhos com Raquel, da qual eu sabia que já estava loucamente apaixonada.
Ainda há dias nos quais eu queria que aquela fosse a única lembrança da qual eu ainda detenho dela, mas a verdade corroeu até mesmo os seus olhos verdes.
Fale com o autor