Charlie
1 Já disse que sou horrível com títulos?
A verdade é que eu reescrevi isso algumas vezes, então vou apenas começar.
Prazer, eu sou a Charlie, filha do meio de três irmãos, a terceira deles a sair do armário, uma desistente de 20 anos viciada em cigarros e balas mentoladas. E eu tenho que contar sobre a Raquel e tudo que me aconteceu nesses últimos dois anos, já que depois de tudo e dela, não me restou mais ninguém.
Tudo aconteceu numa quarta-feira, começou e terminou, não sei ao certo porque. Eu acho que há algo sobre o meio da semana ou da vida que sempre se encaixou em mim. Estava saindo do meu trabalho em uma loja para artigos adultos quando ela estava tentando entrar. E eu meio que abri a porta na cara dela.
–Estamos fechando. – segurei a porta rápido para que não fosse de encontro ao seu rosto.
–Mas eu realmente preciso ver algum vibrador. – ela disse em um tom sarcástico abrindo seu sorriso.
Até aquele ponto ela era só uma maluca tentando comprar algo na loja, mas foi abrir seu sorriso que despertou algo em mim. Raquel nunca teve nada de especial. Ela era uma garota bonita, muito bonita, mas não daquelas que parariam o transito. Naquele momento eu notei como a sua pele era morena, seu cabelo era cheio, em cachos e sua boca era maravilhosa. Então eu abri a porta e ela entrou, com cuidado, como se ali fosse perigoso.
–Então você realmente precisa ver um vibrador? – eu ri, baixo indo em direção ao balcão, que não era muito longe da porta.
–Eu acho que você escuta isso o tempo todo, não? Afinal, isso é uma loja para artigos pornográficos. – ela caminhou comigo.
–Na verdade, não. – sorri, de canto de boca.
Apontei para meu lado esquerdo onde havia uma infinidade de vibradores em uma prateleira redonda giratória gigante e seu sorriso se abriu de novo. Aquilo poderia ser estranho, mas era uma face comum que eu tinha de ver todos os dias. Acho que quando se trabalha em um lugar assim de tempos em tempos esquisitices ficam cada vez mais normais.
Raquel então escolheu um e eu a entreguei um formulário para poder levar o produto.
–Eu não tenho 18. – ela sussurrou baixo enquanto o completava.
–Só coloca que tem, não checamos essas coisas. – olhei o que escrevia, ela tinha uma caligrafia estranha – Só nunca diga isso para qualquer outro funcionário de qualquer outro lugar que precise que você tenha 18 anos, meio que não é legal.
Ela fechou o sorriso, me entregou o dinheiro contado –inclusive as moedas — e a fixa, tocando a minha mão levemente e rapidamente, então saiu da loja, escondendo sua compra na mochila.
–O que aquela garota veio fazer aqui? — Senhora C veio abrir o caixa assim que ela foi embora.
Minha chefe, a Senhora C deve ter uns 70 anos e eu nunca soube realmente seu nome, como ninguém que trabalhava naquele lugar. Ela podia dar um pouco de medo em crianças e ficava sempre trancada em seu escritório, e mesmo que fosse simpática com todo mundo que trabalhava ali, havia algo de muito errado com ela.
–O que toda garota vem fazer aqui? Comprar vibradores. – brinquei, a entregando dinheiro e a fixa.
–Não sei o que aconteceu nesses tempos que toda garota agora precisa de um vibrador. Acho que algo com vocês gays. – ela brincou, retrucando, ainda com a sua voz seria e rouca.
–Eu não vejo muita lésbica usando um vibrador, se você quer saber. – peguei a minha bolsa e saí do balcão, esperando que ela falasse algo mais para poder ir embora.
–Eu acho que você ganhou o coração de mais uma menor. – ela rasgou um pedaço do formulário e me entregou, seus olhos estavam alegres, mas eu nunca vi aquela velha sorrindo.
“Prazer, Raquel, a louca dos vibradores. Você com certeza gosta de mulheres, porque esse corte de cabelo não engana ninguém, então, se gostar de vibradores também, aqui está meu número J” era o que dizia o pequeno bilhete.
Guardei o papel em meu bolso da minha jaqueta de couro e fui embora para casa. Nunca fui de correr atrás das pessoas, então aquilo não mudou meu dia, muito menos a minha semana. Aquele bilhete só chegou a me incomodar na sexta-feira da semana seguinte quando um dos meus amigos, Jack, resolveu experimentar a minha jaqueta e o achou.
–Ela era bonita? – ele se virou me mostrando o bilhete.
–Sim. Era morena e tinha uns lábios cheios. – continuei sentada em minha poltrona, mexendo com meu pequeno boneco de madeira.
–Para de ser idiota, eu te ouvi reclamar hoje mais de cinco vezes que gostaria de transar, o que pode ser melhor do que uma garota que você conheceu no sex shop? – ele se sentou em minha escrivaninha, atrás de mim, e sua brincadeira irônica acabou me arrancando um sorriso de canto de boca – Deixa de ser ridícula, Charlie, leve esses seus olhinhos azuis a caça.
–Eu odeio quando você me obriga a sair com as meninas. – segurei sua mão que estava ao meu lado, colocando o boneco ali. – Eu sempre acabo namorando elas e elas me fazendo de trouxa e voltando com a ex.
–Isso só aconteceu duas vezes. – ele riu.
–Três. – peguei o papel e o telefone, me levantando.
Fui até o corredor para conversar no telefone, procurando privacidade, então me sentei ao lado da minha porta, ouvindo a música que saia do quarto do meu irmão mais novo.
Não gostei da ideia de início e fiquei pensando naquilo enquanto o telefone tocava, mas eu nunca gostei de nenhuma ideia, eu só iria seguir o curso, talvez pagar algumas bebidas e fugir no meio da noite, como fazia na metade dos meus encontros.
–Alô. – Raquel parecia ter sono, mas eu não saberia direito o que aquela voz grossa e abafada significaria até o final de toda essa estória.
–É a menina dos vibradores? – brinquei.
–E você é a menina que trabalha no sex shop? – o tom de voz mudou completamente, como se estivesse realmente feliz em ter me ouvido.
–Sim, Charlie. Pode parecer um pouco bizarro mas... –minha voz saia sussurrada.
–Mesmo sendo bem masculina você gosta de vibradores? – havia algo sobre brincar com ela que parecia muito natural.
–Eu posso gostar. Mas seria um grande segredo. Teria como você manter isso, um segredo?
–O que eu ganho para manter esse segredo?
–Eu posso te pagar bebidas, já que você é de menor e com certeza não pode compra-las.
–Mas isso teria que acontecer rápido, porque você não quer que eu saia espalhando o seu segredo para todo mundo.
–Verdade.
–E se eu te contar que estou em um bar, você viria em meia hora? Eu posso estar um pouco alterada.
–Eu acho que você está muito alterada, mas eu vou. Me manda uma mensagem com o endereço.
Entrei no quarto, já tirando a camisa, indo em direção ao guarda-roupa
–Você vai comigo. — me virei para Jack.
–Eu não quero ser algum tipo de castiçal para lésbicas. – jogado em minha cama, ele enfiou o rosto em meio aos travesseiros.
–Não deveria ter me arranjado com qualquer uma. É o que acontece, lembra? Eu tive que te ver fazer sexo oral em um cara de 35 anos de idade, ok? Você aguenta me ver flertar por 20 minutos. – vesti qualquer camisa branca que pude achar e coloquei meus coturnos de volta.
–Boquetes são muito mais interessantes do que você nas suas tentativas ridículas de elogiar meninas. – Jack começou a calçar os tênis.
–Você acha isso porque ninguém nunca elogiou seus olhos.
–Geralmente, Charlie, os homens no qual eu saio gostam de elogiar o meu pênis, não os meus olhos. As garotas elogiam os seus olhos porque não há nada que se pode falar para uma lésbica de 2 metros, masculina que anda de chapéu 10 horas da noite em um pub qualquer. Isso aqui não é França, bebê. Aliás, elas estariam muito mais interessadas na sua vagina se ela não fosse tão cabeluda assim. – ele jogou seus pés contra mim e sorriu.
Ri, peguei as chaves, a carteira, olhei as mensagens nós fomos. O bar era um pouco longe, mas era bem bonito. As luzes azuis cobriam todo o lugar, pequenos bancos de couro e mesas redondas cercavam todo o estabelecimento. Como sempre, me sentei no canto, esperando que ela me encontrasse e não bastou muito para que Jack encontrasse algum cara e fosse em uma saída de horas com ele, mas Raquel parecia não chegar nunca, até que ela simplesmente chegou.
–Quando você acha que seu segredo vale? – ela se sentou em minha frente.
Seu cabelo estava desarrumado, coisa que eu achava extremamente sensual, sua maquiagem já estava parecendo velha, mas eu não ligava, porque ela ainda estava linda. Seus lábios ditaram aquelas palavras enquanto seu batom vermelho me prendia.
–Uma garrafa de Jack Daniel’s. – sorri.
–Pena que eu não sou tão cara assim, eu gosto de shots de tequila e de dançar. – seu sorriso era alucinante sobre aquelas luzes e a pouca bebida que eu já havia tomado.
–Sobre dançar... Você vai ter que me embebedar muito primeiro. Já a tequila, que venha.
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