Charlie
5 Fernanda
Buscando evita-la desliguei meu telefone. Fui trabalhar no dia seguinte sem querer vê-la. Se eu a visse, teríamos de conversar a respeito do que descobri na noite passada e eu realmente não queria conversar sobre aquilo. Fiquei me entretendo com os estranhos que passaram pela loja, brincando com os meus companheiros de trabalho, porém, no final do dia, ela era a única pessoa para quem eu queria compartilhar aquelas piadas de humor negro.
Fechei toda a loja, com um péssimo pressentimento que se concretizou assim que eu saí pela porta.
Raquel estava ali, parada, me esperando, enviando mensagens em seu celular, com o cenho fechado em uma careta de ódio e um batom vermelho.
Pensei em falar ou fazer alguma coisa a respeito do meu sumiço, mas antes que esses pensamentos se transformassem em ações ela me beijou. Seus lábios chegaram ao pé do meu ouvido e sussurrou que ela queria me mostrar um lugar. Eu não queria ir, mas de alguma forma ela sabia como me derreter e me ter em sua mão, e foi exatamente o que ela havia feito.
Enquanto ela me contava do seu dia e eu falava do meu – bem nervosa-, caminhávamos até aquele bar no qual tivemos o nosso primeiro “encontro”, que na verdade não era bem longe da minha loja. Atrás do palco que havia no lugar havia uma pequena porta e foi ali que ela entrou.
Com luzes azuis baixas, paredes de azulejo, baixa temperatura, quatro grandes homens vestidos de preto, um armário gigante, uma mesa de metal, duas cadeiras de metal e uma de veludo vermelho era aquele estranho lugar de filmes de terror.
–Esse é o meu negocio – ela se sentou na cadeira vermelha, sorrindo, como a rainha do mundo -. Jack sabe e ele te contou, então eu vim aqui te mostrar a realidade, sem as fantasias de casos bizarros e encerrados a anos. Eu não sou uma traficante, eu sou a chefe deles. Eu trabalho com enormes quantidades de drogas, enormes quantidades de dinheiro e muita violência, o que pode não parecer porque eu sou seu pequeno e frágil anjo. Eu ganho milhões em uma noite e distribuo quilos de cocaína em uma hora. Em qualquer lugar que você pisar desta sala, houve sangue de alguém – seu sorriso se fechou e ela passou a encarar suas unhas.
Por algum motivo, a sua frieza não me pareceu estranha.
–Como você sabe que Jack me contou? – sim, aquela era a única parte do discurso dela que realmente havia me incomodado.
–Eu sei de tudo – ela se arrumou na cadeira.
Meu ar começou a acabar, como em uma espécie de ataque de pânico. Queria sair dali, sair da sala, sair do bar, mas ela estava me fitando tão fervorosamente, como uma assassina, eu tive medo de me mover.
Comecei a sufocar, então eu corri, para longe dela. Saí da sala e queria correr para fora, mas a falta de folego me fez apenas andar rápido. Esbarrei com uma garota baixa, dos cabelos negros e um longo vestido de seda, daqueles bem antigos. Ela me encarou como se fosse a morte e quisesse levar a minha alma, seus olhos eram prateados e eu podia jurar que eles reluziram um azul igual o dos meus, então eu comecei a sentir algo horrível e corri para a porta como nunca antes na minha vida.
Na rua eu consegui me livrar daquela sensação horrível, consegui respirar. Fiquei ali, apoiada sobre os joelhos, ofegante.
Então eu vi uma garota de cabelos azuis sentada no meio fio, fumando, bem na frente do bar. Assim que ela se virou para me olhar, eu vi o quão borrada sua maquiagem estava, como se ela estivesse chorando durante horas. Por incrível que pareça, ela me passou uma estranha e enorme calma, então eu simplesmente me sentei ao seu lado.
–Noite difícil? – delicadamente peguei o cigarro de sua mão e traguei.
–Já tive piores – ela sorriu -. Você viu a Dark lá dentro?
–Quem?
–Sim, a cantora. Dizem que ela é tipo um dementador... Você realmente parece ter visto um dementador. – ela tomou o cigarro, brincando.
–A garota naquele vestido que saiu de Game Of Thrones?
–Sim – ela tragou e me passou o cigarro.
–Charlie – fiz que sim com a cabeça e a cumprimentei com um aperto de mãos.
–Fernanda – ela sorriu novamente.
–Eu nunca te vi aqui – continuei a conversa com medo de que ela fosse embora e levasse aquela sensação boa que estava me passando.
–Você trabalha em um Sex Shop em cima daquela avenida ali – ela apontou para o local certo -. Eu e minha ex fomos lá uma vez, ela é sua amiga – ela riu, como se fosse realmente engraçado o fato de eu ter me esquecido dela.
Então eu tive de pensar e uma lista de meus amigos se passou pela minha cabeça até que:
–Priscila! – exclamei.
Havia alguma coisa naquela garota que me acalmou. Instantaneamente eu já gostava de conversar com ela, meus problemas não pareciam existir ao seu lado.
–Sim, mas eu acho que você deveria parar de me associar a ela, já que ela acabou de me chutar – ela jogou sua cabeça para baixo e a cobriu com suas mãos.
–Não sei o que dizer – suspirei, queria abraça-la ou algo do tipo, algo que funcionasse, mas eu realmente não sabia o que podia fazer.
–Ei, está tudo bem. Não é a primeira vez que ela mente e me traí – Fernanda levantou a cabeça e sorriu, como se nada tivesse realmente acontecido.
–Disso eu entendo bem.
Ficamos paradas ali, durante algum tempo, nos entreolhando, nos encarando e suas bochechas rosaram. Ela era linda, mas não como Raquel era, porque, na verdade, ninguém nunca seria tão lindo quanto ela.
Então eu tive uma ideia que limparia meu nome e arrancaria alguns sorrisos de Fernanda. Em 10 minutos ela se arrumou, estava limpa, maquiada e animada, não precisou nem ao menos entrar em algum banheiro, ela só usou uma câmera frontal, uma garrafinha de agua, um pouco da minha manga e algum tipo diferente de mini maquiagem que se leva na bolsa. Entramos no bar e bebemos, ela me beijava sempre que Priscila passava perto de nós ou nos notava, mas sempre de uma forma tímida e cuidadosa, como se ela tivesse medo de ficar com outra pessoa depois do que havia acabado de acontecer e eu entendia. Porém, quando Raquel passou ao nosso lado, eu a agarrei com certa voracidade amedrontadora, o que fez com que Priscila saísse do bar e ela precisasse de alguns shots de tequila. Conversamos muito, ela parecia saber tudo sobre todos os filmes que já existiram, assistimos ao show da dementadora.
Mostrei para todos os presentes que eu não era a namorada da traficante que comandava o lugar, que eu não era dela, mas acho que isso não adiantou muita coisa.
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