Charlie
6 Azul de Plástico
Fernanda não tinha para onde ir, então eu a levei para minha casa. Quando eu ofereci, ela brincou:
–Como eu sei que você não é uma assassina que guarda corpos em seu colchão?
–Existe uma enorme chance de você também ser uma. – ri.
Ela dormiu em minha cama, mas nada aconteceu, mesmo que ela e eu estivéssemos seminuas. Sabia que ela precisava disso, precisava confiar em alguém, precisava de cuidados e carinho, sem a menor pretensões ou segundas intenções, nem que fosse por uma noite e eu não me importar de dar isso a ela, até porque eu realmente não queria ficar sozinha. Na manhã seguinte ela pediu uma blusa, já que a sua havia ficado suja e fedia a álcool, e eu emprestei em troca do seu numero de telefone, porque ela precisaria de uma amiga e que ela comesse direito antes de sair e ir enfrentar a sua vida.
De alguma forma bizarra, aquele foi o inicio da nossa grande amizade que terminaria em um romance mal sucedido que durou pouco mais de seis meses. Isso tudo aconteceu antes dela achar o amor da sua vida, que incrivelmente morava na mesma casa que ela todo esse tempo. Mas essa não é a historia sobre as coisas com Fernanda deram certo e sim como as coisas deram monstruosamente errado comigo.
Quando ela foi embora eu comecei a notar a falta que Jack e meus antigos amigos faziam em minha vida. Eu assisti todos se afastarem de mim lentamente, mas não liguei. Passando pela minha lista de contatos eu notei que a ultima pessoa com qual eu conversava era Priscila e agora, eu não podia mais, nem que fosse da forma desapegada que o fazíamos.
Passei um dia inteiro pensando em como ela havia me afetado, havia me destruído e eu cheguei a pior das conclusões que eu podia chegar, mas cheguei.
Eu a queria, como nunca havia desejado alguém antes, de uma forma meio doentia. Eu queria estar com ela novamente, então, fui prestar toda a minha ridícula humilhação na porta de sua escola, já sabendo exatamente o que faria e como faria.
Acho que de alguma forma eu pudesse voltar no tempo esse seria o exato momento em que eu daria um soco na minha cara.
A esperei na saída, recostada no portão que ficava um pouco longe da entrada.
–Então você faz cena e vem me pedir desculpas depois? — — ela veio correndo em minha direção, parou em minha frente e ficou ali, ofegante, ditando aquelas palavras como se tivesse as decorado.
–Eu acho que não posso pedir desculpas por algo que eu não fiz de errado. Porque ninguém pede desculpa por algo que fez certo. – a segurei pela cintura, gentilmente, então, assim que acabei de falar a puxei com força para perto de mim, fazendo com que seu corpo quente recostasse sobre o meu.
–Qual o nome dela? – ela fechou os braços ao redor do meu pescoço, era engraçado o quão mais baixa que eu ela poderia ser.
–Eu não sei. – menti, olhando em seus olhos e virando a minha cabeça um pouco.
–Você está mentindo. – ela tocou a ponta do meu nariz com o indicador.
–Não quero que você assassine estranhos.
–Eu não mato pessoas, Charlie. – Raquel cerrou os cílios, como se aquela fosse uma resposta obvia, então ela me beijou, com cuidado.
Esse foi claramente o momento que marcou o inicio do nosso relacionamento. Cerca de três meses depois eu a pedi em namoro, na porta do meu trabalho com uma dessas rosas de plástico, mas eu me lembro que nós não trocamos o status do Facebook durante semanas. Raquel dizia me contar tudo e eu fingia acreditar toda vez.
Não nos víamos todos os dias, nenhuma de nós queria esse tipo de relacionamento. Queria um daqueles namoros estáveis e seguros, fortes, do qual não há muita necessidade para ciúmes, brigas ou a constante reafirmação do relacionamento e eu tinha conseguido aquilo.
Não nos ligávamos todos os dias, mas sempre nos procurávamos, nunca passamos um dia sem conversar.
Dormíamos todos os finais de semana juntas, em minha ou em sua casa. Bebíamos sempre, juntas, até mesmo durante a semana e foi assim que eu comecei a entrar sutilmente em seu mundo, do qual eu queria distancia.
Conhecia todos os seus amigos e seus sócios, mesmo que não quisesse e em nossas saídas éramos vistas juntas. Eu só comecei a notar o quanto eu estava dentro daquela situação quando começaram a vir a minha loja perguntando por ela.
Queria deixar claro para todos que eu não sabia de nada, que eu não trabalhava com ela, mas aquilo era quase impossível, eu era associada a ela e com o passar o tempo, eu realmente passei a saber das coisas. Devagar, eu conhecia nomes, rostos, quantidades de drogas e de dinheiro. Números de cartão? Eu sabia de cor. Números de telefones? Eu tinha em minha agenda telefônica. Eu encostava em milhões por noite. Eu sabia quem comprava uma droga especifica. Eu assisti gente ser presa, assisti gente ser espancada e aquilo tudo me dava uma falsa sensação de poder.
Entrava nos lugares e me olhavam. Ninguém mais me colocava em problema, nem que fossem mínimos. Eu ganhava bebidas de graça todo o tempo. As pessoas tinham medo de mim, então me tratavam bem. Eu já não me importava com Senhora C, eu usava drogas puras e de graça, eu conhecia policiais e quais deles eram sujos, e a situação que eu queria manter distancia de me cedeu uma cadeira ao lado de Raquel na sala azul.
Porém, quando a minha vida foi ameaçada, tudo caiu aos pedaços.
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