Charlie
7 O Final
Esse foi o inicio do final de Raquel em minha vida e ele envolve tiros, policia e um braço enfaixado.
Tudo começou no nosso aniversario de um ano e três meses. Exatamente dois anos que nós nos conhecíamos. Eu deveria ir para a sua casa, mas eu nunca cheguei lá e nunca voltei lá também.
Saí do ônibus e desci a rua, a sua casa ficava depois de virar a esquina, algumas casas abaixo do ponto. Notei uma van preta embaixo da rua, mas eu nunca fui daquelas pessoas que tem pavor de ser assaltada ou sei lá, porque nada nunca tinha acontecido comigo antes disso. Assim que eu ia virar a rua um cara veio correndo atrás de mim e me empurrou dentro da van, enquanto outro homem com masca prendia um saco preto em minha cabeça, amarram minhas mãos nas costas e gritaram para que eu ficasse calada porque se não eu iria apanhar.
Eu não consegui nem ao menos contar quantas pessoas tinham dentro daquele carro, eu só tremia e chorava e soava. Decidi não relutar. Fiquei quieta, enquanto eu rebatia nas paredes do carro em todas as curvas que fizemos. O carro me enjoava, meu coração estava disparado, eu chorei e pensava constantemente que aquele era o meu fim.
Para mim, estava a horas dentro daquele carro, mas naquele momento de desespero, eu não podia ter razão de nada.
Um carro então parou, abruptamente, eu ouvi um portão, ouvi pessoas gritando, e então, como um saco eu fui jogada nas costas de alguém. Carregada de cabeça para baixo, com meu corpo batendo no corpo de quem estava comigo eu fui movida. Fui jogada no chão, bati feio com a cabeça e eu não me lembro se desmaiei ou o que aconteceu. Quando tudo estava em silencio eu tirei o saco da minha cabeça usando os pés, o que me tirou umas duas horas.
Estava em um banheiro sujo, mofado, fedido. Vomitei, algumas vezes. A circulação das minhas mãos estava horrível, mas eu consegui as soltar da corda.
Com as mãos todas arranhadas, sangrando, inchadas e roxas eu conferi meus bolsos. Uma chave! Eu estava armada. Me lembrei que guardava meu telefone no sutiã, mandei minha localização para Raquel, pedi socorro para todo mundo, liguei para a policia, mas nada parecia ser suficiente.
Estava aterrorizada, machucada, tonta, enjoada, o silencio me enlouquecia. Até que eu ouvi pessoas chegando. Aquele era o meu maior medo. Coloquei as mãos nas costas como se ainda estivessem amarradas e segurei a chave com toda a força que eu tinha.
Dois homens enormes entraram na sala e eu fiquei quieta os observando. Um pequeno homem moreno com a cara mascarada entrou, usando um terno. Ele se agachou na minha frente e passou os dedos em meu rosto. Eu notei que tinha uma arma em seu sapato, mas nenhum dos grandes homens estava armado.
–Então a sua namoradinha está organizando uma pequena distribuição na minha área? Pelas minhas costas? – ele tocou a ponta do meu nariz, assim como Raquel fazia, sua pele morena reluziu – Eu queria entender, a Raquel. Ela se acha tão poderosa, mas não sabe onde se meteu, mas eu acho que você vai descobrir antes dela não é meu bem?
Sem saber exatamente como, eu acertei seu olho com a minha chave e ele caiu, antes que os grandes homens pudessem chegar até mim eu peguei a arma e corri.
A porta estava estupidamente aberta, mas o corredor era imenso e eu corria, sem saber exatamente onde iria chegar. Em algum momento eu esbarrei com um homem, que tentou me segurar, atirei em seu pé e continuei correndo, correndo e correndo até chegar em um galpão enorme cheio de caras enormes embalando enormes quantidades de droga. Quando cheguei na porta, todos eles se viraram para mim.
Um deles atirou em meu braço e eu caí no chão. A dor era insuportável.
Fui jogada em outra sala, onde estava Raquel.
–Você está bem? – ela arredou para perto de mim, mas suas mãos estavam presas.
–Eu acabei de levar um tiro! O que você acha porra?! – segurava meu braço, mas o sangue não parava de escorrer.
Tinha certeza que aquele era meu fim.
–Me desculpe, eu não... – ela começou a chorar, mas eu não me aguentei.
–Se você disser mais uma palavra eu vou te usar como escudo humano! Eu tenho braços e você não. Se eu sair dessa, eu nunca mais quero te ver na vida.
–Meu telefone está no meu bolso, me desamarre. – ela franziu o cenho.
Sem a menor vontade, eu a obedeci, era a minha melhor chance.
Liguei para o único numero que eu conhecia que poderia mudar vidas. Quando a sua suave voz atendeu o telefone eu jurava que parecia-se com a de anjos.
–Fernanda, eu não sei onde eu estou, eu não sei se você está no serviço, mas eu me fodi.
–Me diz que você pode me mandar a sua localização, eu vou com 50 viaturas agora. – ela ficou seria como nunca antes.
–Eu te amo. – suspirei.
–Você ama a farda. – ela riu.
–Vem com todas as viaturas que puder.
Marcados no relógio, Fernanda levou 4 minutos para chegar com o que eu tenho certeza que eram 50 viaturas da policia. Quando ela foi me buscar na sala, carregava uma arma duas vezes o seu tamanho e me acompanhou até o hospital armada. Era incrível como uma pessoa tão pequena tinha tanto poder, mas ela tinha.
Raquel enfrentou um julgamento que levou ela a muito tempo de cadeia, e eu nunca mais a vi. Muito por minha escolha, mas também por puro medo de me meter naquilo de novo.
E é aqui que outra historia insana começa.
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