Notas iniciais
Boa leitura!

Não sei como cheguei em casa, mas agora estou deitado na minha cama.

Encaro o teto. O despertador toca. Minha cabeça dói. Ainda estou bêbado.

Ouço o barulho do chuveiro desligar.

Deve ser meus pais.

A surpresa vem quando a porta do meu quarto se abre.

Bernardo está enrolado em uma toalha branca, seu peitoral está a mostra. Seu cabelo está úmido.

Eu me sento.

Ele sorri.

Não me lembro da noite anterior. Tudo são flashes confusos.

— Que merda você tá fazendo aqui?

Bernardo desfila sem toalha pelo meu quarto, vai até minha gaveta e escolhe uma cueca.

Veste.

Eu o encaro perplexo.

— Sua mãe me fez dormir aqui. Disse que estava tarde.

Tento me lembrar. Mas a única coisa que me vem à cabeça é a nossa transa.

Coço a cabeça. Aquilo não deveria estar acontecendo.

—Se importa?

Ergo o olhar, Bernardo segura uma das minhas camisas na mão.

Dou de ombros.

Bernardo a veste, odeio admitir mas ele fica atraente com a minha roupa.

Levanto.

Estou nu.

Cubro meu corpo com o lençol e caminho até o banheiro.

Me olho no espelho.

Meu peitoral está cheio de marcas.

Bernardo entra no banheiro, ele já está devidamente vestido.

Ele está atrás de mim, ele me encara pelo espelho.

Desvio o olhar.

— Acho que sua mãe gosta de mim.

Diz Bernardo cheio de cinismo. Ele age como se tudo estivesse bem. Talvez para ele tudo esteja. Ele não parece se preocupar com nada. Tampouco comigo.

— Bernardo, vai embora.

Ele não diz nada, apenas sorri. Ele se inclina e beija meu ombro nu.

Deixa o banheiro, eu bato a porta logo depois da sua saída.

Tomo um banho demorado na tentativa frustrante de me livrar da culpa.

Quando saiu do banheiro Bernardo não está mais.

Em cima da cama tem um bilhete, sua letra é redonda.

Adorei transar com você.

Amasso o papel e jogo no lixo. Ele era um cretino de merda. E eu era seu depósito de estocadas.

***

Odeio estar ali. Mas eu devo isso a Cibelle. Seus pais me recebem bem, e isso me deixa ainda pior, sei que é só encenação. Eles não me querem ali. Eu não quero estar ali.

Estou vestindo uma polo amarela, sapato esportivo, me sinto tão patético quanto os outros caras ali. Meu cabelo está penteado e com gel. Aquele não era.

Cibelle brinca comigo dizendo que quer o namorado dela de volta.

Internamente eu digo “eu também

Sua casa é tão grande que correria o risco de me perder. A almoço era um churrasco à beira da piscina. Diferente dos churrascos que estava acostumado, aquele não havia fumaça tampouco tocava samba. Havia uma banda de jazz, e garçons que passavam com bandejas como nas churrascaria.

Cibelle estava linda em um vestido lilás. Ela estava feliz por estar ali. E eu estava me esforçando para não demonstrar o quanto estava incomodado.

Seu pai me sondou em alguns momentos, perguntou quais eram meus planos para o futuro. Eu poderia mentir. Tentar impressionar o coroa. Deixar ele um pouco menos paranoico em deixar sua filha nas mãos de um delinquente juvenil. Mas fui sincero.

— Eu não tenho muita ambição. Quero apenas ser um cara honesto e com um bom emprego. Ter dignidade.

Ele me olha. Abre um sorriso. Mas eu sabia que sua vontade era chutar minha bunda para fora dali.

— Aproveite o almoço, rapaz.

Ele se afasta.

Bernardo chegou junto com seus pais, estava vestido em um suéter azul royal. Ele estava tão careta quanto o resto das pessoas. Incluindo eu.

Ele me olha do outro lado da piscina sorrindo.

Tento disfarçar. Desviar o olhar. Mas sinto meu rosto enrubescer. Estou queimando por dentro.

Meu celular vibra minutos depois.

Gostei do estilo mauricinho.

Ergo o olhar.

Bernardo segura o celular achando graça.

Penso em mostrar o dedo do meio, mas não quero dar mais motivos para que a família de Cibelle não me queira ali.

Apenas dou de ombros guardando o celular.

Desde a nossa transa no duplex não havíamos nos falado. Sem mensagens ou ligações. Ele não me cumprimentava no corredor. Ele não foi na pista a semana toda. Bernardo some. E volta. Como um pesadelo que sempre retorna em algum momento da noite. Ele é instável. Nossa relação é instável.

Será que isso pode ser chamado assim?

Relação.

Quem eu quero enganar.

Não temos nada além de transas ocasionais.

Bernardo me quer para fins sexuais.

— Ai está você!

Cibelle toca no meu ombro.

Ela sorri.

Eu me sinto tão culpado.

— Obrigada por ter vindo.

— Não foi nada.

Cibelle se senta ao meu lado, ela tem um copo com um líquido amarelo, suponho ser suco. Ela me oferece. Eu nego.

— Você quer passar a noite aqui?

Eu encaro Cibelle. Ela era tão adulta para sua idade. Não parecia ter quinze anos.

— Eu preciso ir. Prometi ajudar meu pai com o carro.

Minto.

Cibelle concorda, mas está desapontada.

Eu sei que ela sabe que algo está errado.

Mas não posso dizer. Não posso confessar para ela. Olho para o outro lado da piscina. Bernardo ainda está lá.

Ele era o motivo. Era tudo sua culpa.

Beijo sua testa.

Ela toca minha mão. Me olha nos olhos. Não me sinto digno daquele olhar.

— Eu te amo, Charles.

Eu sorrio. Mas por dentro estou em pânico. Ouvir aquilo aumentava minha culpa.

Eu beijo seus lábios.

Sou incapaz de dizer o mesmo.

***

Cecília me olha enquanto devoramos um hambúrguer com queijo duplo, estamos sentados na entrada do Mcdonald's, ela havia me encontrado assim que deixei a casa de Cibelle. Estava faminto. Literalmente o almoço de aniversário da mãe de Cibelle não me agradou.

Cecília dá um gole na sua coca cola.

— Você já esteve em duvidas entre duas pessoas?

Pergunto.

Ela me olha. Seu olhar é questionador. Ela sabe que a pergunta tem um por quê.

Me arrependo por perguntar.

Mas ela é a minha melhor amiga. Alguém em quem devo confiar.

— Está a fim de outra pessoa? — Ela suga o líquido provocando um barulho agudo.

Sim.

— Não — minto — é só uma pergunta.

Finjo dar de ombros.

Ela joga o copo vazio em uma lixeira.

— Eu sou a favor do amor livre. Você não deve se prender a alguém. Se você está em duvidas entre duas pessoas. Pode ter certeza que a primeira opção é gratidão.

A encaro. Sinto o queijo escorrer pelos cantos da minha boca, limpo.

— Não entendi.

— Bem, é simples. Se existe a segunda pessoa, quer dizer que você não está tão a fim da primeira.

Reflito um instante sobre o que a Cecília diz. Talvez ela tivesse razão. Mas não era tão simples assim.

Na verdade, terminar com Cibelle não resolveria meus problemas. Eu a amo. Mas naquele momento não sei se é o suficiente.

Questões do coração. Popularmente conhecido como a questão das garotas, mas os garotos também sofriam. E no meu caso era ainda pior. A minha outra dúvida era um garoto. Um garoto que não conseguia admitir que gostava de outro garoto.

— Você está horrível com essa roupa!

Olho para Cecília e ela está sorrindo. Dou um soco em seu ombro.

Era bom tê-la como amiga.

Minha mãe ouve Cássia Eller., posso escutar do meu quarto, minha mãe adorava MPB em particular Cássia Eller. Ela diz que foi Eller que estava tocando quando ela conheceu meu pai. Acho romântico. Meio piegas. Mas romântico.

Bernardo está deitado no pé da minha cama, ele veste uma bermuda e regata, o dia é quente ele parece entediado.

Não trocamos uma palavra desde que ele chegou. Não tem muito o que dizer. Eu não sei se é uma boa ideia continuar nos vermos. Mas ele diz que não tem nada demais. Somos amigos. E aquilo me assusta.

— Você gosta de música nacional? — Ele diz olhando diretamente para mim.

Dou de ombros.

— Gosto — volto a mexer no celular.

— Mudaram as estações, nada mudou — Bernardo começa a cantarolar baixinho — Mas eu sei que alguma coisa aconteceu, tá tudo assim, tão diferente.

Ergo o olhar, ele está olhando para mim. Ele está cantando para mim.

Desvio meu olhar e tento fingir indiferença. Qualquer coisa que faça ele ir embora. Estou evitando Cibelle há dias. Aquilo não é certo.

— Se lembra quando a gente chegou um dia acreditar que tudo era pra sempre, sem saber que o pra sempre, sempre acaba…

Eu levanto.

Caminho pelo quarto.

Bernardo levanta, ele não desiste fácil.

Ele me cerca. Antes que consiga desviar ele me pega em seus braços. Nossos olhos estão unidos. Sem desvios. Estamos nos encarando.

— Quando penso em alguém, só penso em você, e aí então, estamos bem.

Sua mão desliza pelo meu rosto. Por um momento eu esqueço tudo.

Esqueço o fato de estar traindo minha namorado.

Esqueço no fato de nunca pertencer a Bernardo.

Esqueço que minha mãe está no andar de baixo.

Esqueço que Bernardo tem namorada.

Esqueço que Bernardo está brincando comigo.

Esqueço tudo.

Eu o beijo. E ele retribui. Cássia Eller termina, mas nosso beijo não.

Bernardo me joga contra cama. E naquele momento eu sei que não tenho escapatória. Estou completamente apaixonado.

— Sabe o que eu acho?

Olho para Cecilia e por um momento penso se devo pedir para ela repetir o que estava falando. Mas simplesmente ignoro o fato de estar distante. Tento me concentrar.

— Amores são temporários. Tinha um garoto, na sétima série. Jurei que ele seria meu amor para sempre. Que não viveria sem ele. E agora, eu nem me lembro como era seu rosto.

Cecília tem algo de especial em sua fala, ela parece realmente saber o que está falando. Não é como a maioria das pessoas, ela é um pouco mais profunda. Ela realmente se importa um pouco mais.

Naquele momento sinto vontade de contar para ela sobre o que está acontecendo, contar sobre Bernardo, sobre minha indecisão. Sobre a traição. E sobre toda a canalhice que estou cometendo.

Mas desisto. Admitir aquilo para alguém, é admitir o quão mau caráter eu sou.

Nos despedimos minutos depois.

Ela pede um táxi. Eu sigo para o metrô.