Charles, grafite, skate e garotos
9 Capítulo - VIII
Notas iniciais
Sexta-feira à noite, estava voltando para casa.
Suado e cansado.
Havia andado de skate a tarde adentro depois do colégio. Meus pais não estavam em casa, então não me importei em chegar tarde. Já passava da meia noite. A rua estava silenciosa. As pessoas já estavam indo dormir. E eu sentia insônia.
Bernardo estava parado no meu portão, eu o vi assim que virei o quarteirão. Mesmo de costas eu o reconheci. Ele estava tentando pular o portão.
Aquilo era realmente sério?
Pulo no skate e deslizo pelo asfalto para chegar mais depressa.
Bernardo grita pelo meu nome.
Naquele momento me sinto aliviado por ser sexta, e meus pais terem a reunião semanal com os amigos.
— Que droga você pensa que está fazendo?
Bernardo se vira para mim. Seu olho esquerdo está roxo. Ele cheira álcool. Está bêbado e havia se metido em briga.
— Alê… — Sua voz está enrolada- eu vim te ver.
Olho ao redor, sabia que meus vizinhos eram discretos, mas não queria uma plateia assistindo aquilo.
Abro o portão. Empurro Bernardo casa adentro. Ele tropeça e cai no primeiro degrau da escada. Seu estado é de dar dó. Não acredito que ele estava nessa.
Seguro ele pelo ombro. Seu corpo pesa. Ele está quase inconsciente. Bebeu demais.
Acendo a luz da sala, o coloco no sofá.
Ele está me encarando, eu posso ver lágrimas em seus olhos.
Choro de bêbado. Era tudo que faltava.
Vou até a cozinha e sirvo uma xícara de café. Levo para ele.
Ele se senta com dificuldade.
Aceita o café sem pestanejar.
Me sento ao seu lado. Ele pensa em dizer alguma coisa, mas desiste. Começa a chorar.
Eu fico sem entender. Aquele não era o Bernardo habitual. Aquele Bernardo estava acabado, destruído.
Sinto pena. É uma sensação estranha, confusa. Aquele ainda era o cara pelo qual me apaixonei. Mas vê-lo assim o tornou mais humano. Mais alcançável. Todos temos nossas fraquezas, afinal.
Me levanto para ir até a cozinha, e então ele diz:
— Eu terminei com a Tatiane.
Penso em simplesmente ignorar o que acabo de ouvir e seguir para cozinha. Mas algo dentro de mim parece em extrema euforia. Me sinto patético. Envergonhado. Me viro para encará-lo. Bernardo mantém o olhar fixo no nada.
Eu pergunto o que aconteceu.
Mas ele não diz.
Só chora.
Eu volto a me sentar, desisto de tentar fugir daquele momento. Talvez, Bernardo esteja precisando de apoio. Mesmo não sendo a pessoa mais indicada, ele me procurou.
Sua cabeça cai sobre meu ombro, toco seu cabelo e ele então diz:
— Cara, eu não sou gay. Eu gosto de boceta. Garotas.
Eu tento ignorar o que ele diz. Ele está bêbado. Não devo levar a sério. Mesmo sabendo que ele diria esse mesmo discurso sóbrio.
Ele se afasta. Sua cabeça tomba para o outro lado do sofá. Eu continuo em silêncio. Não quero me arrepender por dizer algo. Se tem uma coisa que venho aprendendendo é que o silêncio é a melhor resposta.
— Ela me traiu.
Ele continua quando acho que o assunto havia acabado.
Eu encaro ele. Não sei se sinto raiva ou pena. Ele estava assim porque sua namorada troféu o traído.
Me sinto mal. Quero que Bernardo suma daqui. Grande hipócrita. Ele a traiu também. Comigo.
— Eu a amo, Alexander! Você entende isso?
Sinto algo crescer dentro de mim.
Ódio. Raiva. Ciúmes. Inveja.
Naquele momento eu entendo que nunca vou ter seu amor. Bernardo é incapaz de me amar. Amar outro garoto.
Tudo se silencia. Sinto minha garganta seca, sei que vou chorar. Mas não ali. Não na frente de Bernardo. Engulo o choro e fico apenas em silêncio.
Não demora até que ele pegue no sono.
Não havia rastros de Bernardo na manhã seguinte, ele se foi. Sumiu feito fumaça.
Meu pai está na cozinha quando desço, ele prepara o café. Me sento à mesa. Ele está com o roupão. É sábado. Ele não trabalha.
— Bom dia.
— Bom dia, filho.
Me sirvo com uma fatia de pão e geleia. Meu pai não diz nada sobre Bernardo, então presumo que ele saiu sorrateiramente.
Deixo a cozinha e volto para meu quarto. Diferente das outras vezes não tem bilhete, tampouco uma mensagem. Dessa vez ele simplesmente se foi.
_
A chuva caia forte quando Bernardo resolveu que era hora de irmos. Estávamos na casa de praia dos seus pais. Ficava no Guarujá, era um domingo. Seu motorista nos esperava na entrada da casa, dentro do carro. Enquanto corríamos com nossas bagagens eu ficava me perguntando como era ter um motorista. Alguém para dirigir para você. Vinte e quatro horas por dia. Um serviço de táxi permanente.
Bernardo abre a porta de trás, entramos. Jogamos nossas mochilas no banco e nos esprememos. Bernardo tem seu cabelo molhado, as pontas claras tinham pequenos acúmulos de água. Ele sacode a cabeça molhando meu rosto. Eu bato em seu ombro e digo para tomar cuidado. O motorista arranca com o carro.
A viagem é silenciosa, Bernardo fica no celular e eu aproveito para olhar a estrada. Gostava desse lance de observar os lugares.
Quando chegamos na capital a chuva havia dado lugar ao sol, não parecia mais um dia nublado. O verão estava de volta.
Sinto quando a mão de Bernardo toca a minha, seus dedos estão frios. Eu acaricio a palma da sua mão, então eu sinto algo. É um pedaço de papel. Eu pego para mim.
O motorista me deixa na porta de casa. Salto do carro. Bernardo diz que me liga qualquer hora. Eu apenas concordo.
Encaro o pedaço de papel branco que tenho na mão, assim que o carro arranca eu abro. É um bilhete. A caligrafia perfeita de Bernardo.
Eu estou me apaixonado.
Encaro o bilhete com os olhos arrega-los, aquilo era mesmo verdade? Não podia acreditar. Um sorriso surge em meus lábios. Me sinto uma garotinha de doze anos. Era uma sensação frustrante e boa. Eu coloco o bilhete no bolso.
Nunca falamos sobre aquele bilhete.
Bernardo parecia nem ter escrito.
Talvez aquele fosse o grande lance, ignorar o que parecia óbvio . Me frustrar, me destruir.
***
Já passava das três quando Cecília me mandou mensagem. Ela estava no MASP e queria me ver. Eu penso em furar, inventar qualquer desculpa. Não estava no clima para conversar. Mas era Cecília. Minha melhor amiga.
Chego no MASP quarenta minutos depois, ela está sentada em frente ao museu e sorri quando me vê. Nos abraçamos. E ela diz que sentiu minha falta.
Enquanto trocamos cumprimentos eu me pergunto porque garotas são tão calorosas. Sei lá. Às vezes falta um pouco disso nos garotos. Um pouco disso em Bernardo.
Me sento na calçada, ao seu lado.
— Andei pensando — ela começa — quero fazer uma lista de todas as coisas que quero fazer.
Eu a encaro e sorrio. Aquela era Cecília sendo ela mesma.
— Isso não dá certo. Já tentei.
Penso nas coisas que prometi fazer, que prometi largar e principalmente as que prometi não fazer.
— Não deu certo porque você não se dedicou o suficiente.
Cecília está certa. Talvez falte um pouco de dedicação da minha parte. Eu desisto muito rápido. Foi assim com o Eurico, foi assim na natação, foi assim basquete e está sendo assim com Bernardo. O famoso conformismo me persegue.
— Sabe, Charles. Acho que devemos colocar a cara para bater. Dizer o que sentimos. O que somos. Sem temer.
Eu encaro Cecília, suas palavras me deixam confuso. Não sei exatamente o que pensar.
— Talvez você esteja certa.
— Claro que estou — ela sorri — eu acho que está na hora de arriscar.
Não entendo o que ela diz. Mas sinto como se ela já soubesse sobre mim e Bernardo.
Me sinto mal.
— Charles, eu estou apaixonada por você.
O silêncio foi constrangedor. Minha cara de espanto foi constrangedora. Cecília está me olhando e eu sinto um misto de surpresa e pânico.
Suas palavras não parecem reais, aquele momento não parece real. Eu me sinto um cara mau.
Cecília apaixonada por mim? Aquilo não poderia acontecer.
— Você não vai dizer nada?
Cecília insisti.
Pisco algumas vezes. Abro a boca mas fecho no momento seguinte.
Cecília revira os olhos. Minha falta de fala está a irritando, eu sei.
— É… Por que? Somos amigos.
Ela suspira, como se a minha pergunta fosse a coisa mais idiota de se perguntar.
— Esse tipo de coisa acontece.
Lembro de Bernardo, e sei que ela tem razão. Não escolhi me apaixonar por ele. E sei que ela também não.
— Cecília eu não posso…
— Eu sei — ela me interrompe — você tem a Cibelle, e sinceramente não daríamos certo como um casal. Você usa meias pretas.
Ela brinca. Sei disso porque ela sorri. Porque ela é Cecília. A garota mais doce que conheço.
— Não é por Cibelle. Eu estou gostando de outra pessoa.
Cecília está me encarado, e naquele momento eu sei que vou contar sobre Bernardo. Sua sinceridade me obrigou a ser sincero. Ela merece a verdade.
— Eu meio que me envolvi com o Bernardo.
As palavras saem rápidas, pareço calmo, mas eu sei que estou surtando por dentro. Minhas mãos estão frias.
Cecília parece surpresa, ela abre a boca mas desisti de falar. Ela passa a mão no cabelo e então diz:
— Foi por isso que você perguntou sobre estar em dúvida sobre duas pessoas? Droga. Bernardo primo da Cibelle?
Ela leva a mão na boca que está em formato de “o”.
— Por que você não me contou?
Eu não sei o responder, não havia um motivo. Eu simplesmente não me sentia confortável com a situação. Eu confio em Cecília, mas contar sobre Bernardo era o mesmo que confessar um pecado mortal.
— Desde quando?
— Foi durante as férias. E depois das férias… também.
A sensação de admitir aquilo era ruim. Sinto que naquele momento todas as pessoas sabem. Mas sinto um misto de pânico e alívio.
— Bernardo… Nunca imaginei que ele fosse — Cecília me olha, ela não parece chateada — Ele gosta de você?
Lembro do bilhete.
“Estou me apaixonando.”
Lembro da noite passa.
“Cara, eu não sou gay.”
Tudo está confuso.
— Eu não sei. Bernardo é uma incógnita.
Silencio.
Cecília parece refletir.
— Você vai contar pra ela?
Cecília pergunta, e eu sei que ela se refere a Cibelle.
— Não sei.
— Você deveria. Esse tipo de coisa não se esconde. Seja honesto. Eu odeio ela. Mas odeio mais ainda mentiras.
Fico em silêncio. Odeio admitir, mas ela está certa. Talvez esse fosse meu medo de confessar. Porque eu sabia que ela diria a verdade. Ela ia me induzir a fazer o certo.
— Eu ainda te odeio por não ter me contado.
Eu a abraço e ela faz uma careta engraçada.
— Sempre soube que você preferia os garotos.
Naquele momento não parece que ela acabou de se declarar. Ou que eu tenha confessado sobre Bernardo. Estamos bem. Eu sei disso porque não tem como estar mal com alguém como Cecília. Eu a amo.
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