Charles, grafite, skate e garotos
11 Capítulo - X
Notas iniciais
O encontro com Eurico despertou algo em mim, foi estranho, mas era como se revê-lo tivesse me dado uma nova esperança. Não sei explicar. Eurico foi meu primeiro amor, não o grande amor, mas foi o primeiro que fez meu coração acelerar. Meu primeiro namorado. Sim. Namorado. E vê-lo novamente me fez desejar viver aquilo que vivemos. Não com ele. Mas sentir as mesmas emoções que sentíamos juntos.
Parece um pouco fantasioso demais, e talvez seja. Eu nunca parei para pensar nessas coisas.
Quando chego em casa, tem duas mensagens de Eurico.
Ele foi rápido.
Ele disse para salvar seu número.
Mando resposta.
Digo que vou salvar, mas sei que isso não vai acontecer.
Sem mensagens ou ligações de Cibelle. Ainda me sinto culpado, penso que talvez devesse procurá-la. Mas não tenho coragem.
Talvez eu só esteja adiantando o inevitável.
Deixo o celular e vou para o banho.
Minha mãe preparou uma espécie de macarronada vegetariana, não estava ruim, mas não era seu melhor prato.
Sentamos a mesa e comemos.
Meu pai conta sobre o dia de trabalho, eles adoram contar as experiências no trabalho, aquilo parecia realmente empolga-los. Me sentia entediado.
— Encontrei Eurico hoje.
Digo na esperança de mudarem o assunto.
Eles me olham.
Meu pai bebe o suco e então olha para minha mãe.
Eles trocam um sorriso.
— Eu gostava de Eurico. Ele era um rapaz bem educado — minha mãe diz — como ele está?
Dou de ombros.
— Bem, eu acho. Ele entrou na faculdade.
Minha mãe sorri orgulhosa.
— Que boa notícia. Podemos marcar um almoço qualquer dia.
Suspiro encarando-a.
— Sem fazer disso um evento.
Minha mãe me encara sem entender, meu pai cai no riso. Meus pais se olham e então minha mãe diz:
— Eu só gosto do rapaz.
— Eu sei, querida.
Meu pai olha pra mim. E eu sei que ele também acha minha mãe exagerada.
***
Encontro Cecília no caminho para colégio, ela me mandou mensagem, pediu para que eu a encontrasse a duas quadras. Ela estava cabisbaixa. Perguntei o que ela tinha. Mas ela não respondeu.
Penso que talvez seja por conta da nossa última conversa, me sinto mal. Estou tão envolvido nessa droga toda que não consegui dar a atenção que Cecília merecia.
Eu sou uma droga de pessoa.
— Cecí… — começo me sentindo constrangido — você quer conversar sobre…
Ela me olha, a palavra foge, não sei como dizer aquilo sem parecer um grande babaca. Mas sinto que precisamos conversar, ela é a minha melhor amiga. Não quero que tudo acabe por conta de uma falta de interpretação de sentimentos.
Me sinto frustrado.
Ela sacode a cabeça, tem um sorriso nos seus lábios, mas não é seu sorriso habitual. É um sorriso triste.
— Charles, não tem nada a ver com a minha declaração. Esquece isso.
Mesmo com as suas palavras eu não consigo relaxar. Eu preciso saber o que está acontecendo.
— Minha mãe vai se mudar para Austrália — ela começa, sua voz está distante, como se ela não tivesse participando da conversa — eu vou com ela. Meus pais decidiram isso por mim.
Seus olhos estão marejados, e sinto que os meus também.
Aquilo só podia ser uma piada de mau gosto.
— Isso é o que você ganha por ser uma droga de adolescente de dezesseis anos. Eles nem ao menos perguntaram o que eu queria.
Cecília está chorando. Chorando de verdade.
Não consigo me conter, eu a abraço forte. Estamos parados entre os pedestres. Cecília agarra minha camisa, posso sentir o tecido umedecido.
— Por que os pais se acham no direito de escolher nosso futuro?
Eu afago seu cabelo, beijo seu rosto.
— Ei, vai ficar tudo bem.
Tento me manter firme, Cecília não precisa do meu choro, ela precisa do meu apoio.
— Você promete que não vai me esquecer?
Sua voz é embargada.
Eu sorrio.
— Sim. Eu vou te ligar toda noite por skype.
Ela ri.
— Eu te amo.
Eu olho em seus olhos.
— Eu te amo, chorona.
Ela me empurra enquanto limpa o rosto.
Rimos.
— Estou chorando feito uma garota.
— Pode não parecer, mas você é uma — Digo de uma forma burlesca.
Cecília sorri.
Seguimos em silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Cecília vai deixar saudades. Eu sei.
Mas sei que isso será bom para ela, morar fora, conhecer uma nova cultura. Talvez por isso, só por isso, eu não esteja surtando por perder minha melhor amiga.
Ela vai no fim do ano, temos alguns meses pela frente, mas parece uma contagem regressiva. Eu já estou vendo o dia que não vou ter mais sua companhia. Isso me assusta.
Cibelle está conversando com as outras garotas quando chego, eu me aproximo com cautela, vejo que Tatiane está lá. Ela me encara, sei o que seu olhar quer dizer, ela quer me intimidar. Quer que eu entenda que estou em suas mãos.
Beijo Cibelle nos lábios. Ela sorri.
— Desculpa pelo sumiço, andei ocupada com algumas coisas.
Apenas sorrio.
Tati ainda me encara, acho que ela espera que eu conte tudo. Mas não sei como fazer isso. Desvio o olhar.
Encaro Cibelle. Digo se podemos conversar depois da aula, ela concorda então o sinal toca.
Bernardo está jogando bola com os outros garotos no intervalo, ele olha em minha direção enquanto lança a bola com perfeição para o gol. Desvio o olhar.
Cecília se aproxima.
— Você ainda está a fim dele?
Ela pergunta enquanto morde seu sanduíche.
Eu olho para Bernardo com toda a sua pose máscula e dou de ombros.
— Não. Foi só um lance.
Digo tentando me convencer.
Ela me olha, e eu desvio o olhar. Ela sabe que estou mentindo, mas não insiste no assunto.
Sei que algum momento vou ter que lidar com meus sentimentos de uma forma clara. Vou ter que entender o que sinto verdadeiramente por Bernardo. E quando esse momento chegar vou ter que estar preparado para o pior.
Cibelle está me esperando na frente do colégio quando saio, ela está sozinha, sem nenhuma das suas amigas. Seu cabelo está preso em um rabo de cavalo. Ela parece estranha.
— Oi.
Digo.
Mas ela não responde.
Eu me inclino para beijar, ela vira o rosto.
— O que foi?
— Quando você pretendia me contar, Charles?
Naquele momento sei que ela descobriu, meu coração bate forte. Me sinto encurralado.
Tatiane.
Tatiane contou. Ela contou tudo.
Eu não posso negar. Aquele era o ponto em que tudo viria à tona. Negar meu erro me tornaria ainda mais ridículo. Assumir me tornaria um traidor.
— Eu sinto muito.
Ela me empurra. Ela tem lágrimas no rosto. Naquele momento me lembro quando a pedi em namoro. Me lembro do seu sorriso quando coloquei a aliança em seu dedo. De repente todas as coisas viraram uma espécie de lembrança distante, como se nada daquilo tivesse acontecido de fato. Como se a vida não fosse minha. Eu sou apenas um telespectador da minha própria vida.
— Eu te odeio! — Ela socava meu peitoral, mas eu não conseguia sentir nada.
Estava estagnado.
Os olhares estavam sobre nós, todo mundo nos olhava. Ela gritava, me batia e eu ficava estático. Não conseguia fazer nada.
— Por que você fez isso?
Ela chorava. Chorava muito.
— Eu não sei! Eu não sei!
— Você me traiu! Me traiu com um cara!
Naquele momento sinto tudo desabar ao meu redor.
Nunca imaginei que ouvir aquilo dos lábios de outra pessoa me deixaria tão envergonhado.
E tudo que acontece no momento seguinte parece acontecer em câmera lenta. Bernardo vem furioso em minha direção. Ele sai do colégio, posso sentir meus batimentos acelerarem enquanto ele corre até a mim.
Ouço a voz de Tatiane mandando ele parar, ouço os gritos de Cibelle, vejo Cecília correr, Laura me olha espantada e de repente tudo se torna um zumbido distante.
Bernardo me acerta bem no rosto. Eu giro a 360º graus e vou direto para o chão.
Ele está por cima de mim, soca meu rosto repetidas vezes, ouço uma gritaria generalizada, mas tudo está distante. Tento revidar, mas é em vão, havia sido pego de surpresa. Bernardo estava fora de controle.
— Bernardo para!
Aquela é a voz de Cibelle ela tenta puxar o primo pelo ombro.
— Isso não tem nada a ver com você!- Ela súplica.
— Esse veado precisa de uma lição!
— Seu monstro! Para!
Entre os inúmeros socos de Bernardo posso ver Cecília o puxando tentando inutilmente detê-lo.
Mais um soco, e tudo se silencia.
Tudo se apaga.
—
Bernardo está me fitando enquanto o metrô avança pelos trilhos, tem um casal ao nosso lado. Dois rapazes. Parecem mais velhos. Vinte anos, talvez. Eles parecem apaixonados. Bernardo me olha, mas não diz nada. Saltamos na estação Paulista. Já fora do metrô enquanto cruzamos a Augusta com a Paulista ele passa a mão pelo meu ombro e então diz:
— Você namoraria com um cara?
Eu o encaro.
— Eu já namorei um cara.
Bernardo parece reflexivo, ficamos em silêncio por um bom tempo. Então ele diz:
— Esse lance todo de ser gay é estranho — ele me olha, parece que realmente aquilo o preocupa.
— Bernardo, só relaxa.
Ele assente, mas não parecia relaxado.
— Ninguém pode saber — ele diz soltando suas mãos dos meus ombros.
— Tudo bem.
— Se alguém souber eu te mato.
Sua voz não parece um tom ameaçador, mas tenho certeza que ele fala sério.
— Tudo bem.
— Eu não sou gay.
Ele caminha do meu lado, mas não estamos juntos. Não somos um casal. Não somos amigos. O que somos afinal?
— Tudo bem.
— Gosto só de garotas.
Bernardo, o garoto que me beija de surpresa, que transa comigo, me liga madrugada adentro. Diz que está se apaixonando, mas que não demonstra. O garoto que não gosta de garotos, mas gosta de mim. Gosta de mim? Será que ele é capaz de gostar? Gostar verdadeiramente.
Quantos Bernardos existem por aí?
— Eu sei.
Digo, mas na verdade não estava tão convencido.
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