Notas iniciais
Boa leitura!

Quando acordo sinto minha garganta seca, a claridade me incomoda, meu rosto está dolorido, minhas costelas também.

Estou em um quarto com móveis brancos, é um hospital.

A primeira imagem que vejo é a minha mãe sentada na poltrona, ela lê uma revista. Abro minha boca e tento gesticular algo, mas me sinto incapaz de dizer qualquer coisa.

Minha mãe nota que eu acordei e corre até a mim. Seu rosto tem uma sombra de preocupação.

Me sinto mal.

— Querido!

Minha mãe me abraça, e sua demonstração de afeto dói, quando ela percebe que me incomoda ela se afasta.

— Desculpa, Char. Está doendo muito?

Balanço a cabeça.

— Eu quero água.

Minha voz está rouca, minha garganta arranha.

Minha mãe sai e retorna com uma garrafa de água. Despeja um pouco no copo e me entrega.

— Obrigado.

Dou goles curtos apenas para umedecer a garganta.

Minha mãe se senta no pé da cama, ela me olha, sei que ela quer conversar sobre o que houve. Mas não estou pronto. Me sinto envergonhado. Não quero falar sobre isso.

Como se tivesse lido minha mente ela não diz nada.

Levei quatro pontos na cabeça, a briga com Bernardo me rendeu um olho, luxação no ombro, arranhões pelo corpo e uma fratura na costela. Mas nada disso se comparada com a humilhação. A humilhação de ter me envolvido com alguém como Bernardo. Me sinto frívolo. O garoto que apanhou. Virei o grande coitado. Uma droga de piada. Odeio me sentir assim.

Minha mãe acaricia minha perna, a única parte do meu corpo que não dói.

— Seu pai está na delegacia.

Eu não consigo encarar minha mãe nos olhos, não queria que as coisas chegassem a esse ponto.

— Você quer conversar sobre o que aconteceu?

— Ele vai prestar queixa contra Bernardo?

Minha mãe tem o olhar afetuoso, mas eu sei que ela me culpa. Eu a desapontei.

— Querido, você ficou desacordado… Aquele rapaz estava fora de si. Os pais dele e seu pai estão na delegacia. E assim que você estiver bem você vai prestar depoimento.

Eu nego em silêncio.

— Eu não quero.

Minha mãe parece não entender, eu não a culpo, eu também não me entendo. Eu deveria odiar Bernardo, mas tudo que eu quero é que ele fique bem.

— Querido, ele te machucou. Ele precisa pagar pelos seus atos.

Sinto que meus olhos estão marejados, eu não quero chorar por Bernardo na frente da minha mãe.

— Charles, o que aconteceu?

Eu sou incapaz de responder.

Punir Bernardo não vai diminuir minha culpa, não vai mudar todos os erros cometidos.

Eu sabia que estava pisando em um campo minado. Minha atração pelo perigo me trouxe aqui.

Em uma droga de cama de hospital.

Não fomos a delegacia, minha mãe nem meu pai insistiram, mas eles estavam desapontados. Nenhuma palavra foi dita em todo o caminho, mas conheço meus pais, conheço cada troca de olhares que eles fazem entre si.

Eu não era o filho exemplo. Não sou motivo de orgulho.

Já é noite quando chegamos em casa, me desloco de forma lenta para meu quarto. Minha mãe vai para cozinha preparar o jantar, meu pai fica na sala.

Quando me olho no espelho sinto vontade de chorar, pela primeira vez em muito tempo sinto a tristeza me atingir em cheio. Bernardo havia me fodida de todas as maneiras.

Deslizo meu dedo indicador pelo meu rosto traçando uma trilha invisível pelos meus lábios cortados, meu supercílio inchado, pela mancha esverdeada na maçã do meu rosto.

As lágrimas rolam silenciosas, são lágrimas de arrependimento. Eu nunca devia ter me envolvido com alguém como Bernardo. Alguém que não aceita quem é.

O celular toca, é tarde da noite. Agarro o aparelho ainda com olhos fechados e levo ao ouvido.

— Alô.

A voz de Bernardo está rouca, suponho que ele também estivesse dormindo.

— Te acordei?

— Não.

Minto.

— Eu estava pensando em você.

— Coisas boas?

Ele solta um riso.

— Depende do que seja bom pra você.

Sinto malícia em sua voz. Sorrio.

— Charles, eu quero de novo.

Eu sei exatamente o que ele quer. Mas me permito fingir não saber.

— O quê?

Eu quero ouvir. Ouvir o que ele quer.

Bernardo pigarreia. E noto o tom da sua voz mais baixo. Talvez mais sexy.

— Quero transar com você. De novo.

Eu sorrio, meus olhos estão fechados. Eu estou pensando em seu corpo nu.

— Isso é perigoso -Bernardo está em silêncio, eu completo — podemos nos machucar.

— O único lugar que quero te machucar é na cama.

Tem uma estranha malícia em sua voz, aquilo me causa arrepios. Sua brutalidade sexual me causava tesão.

— Então sem ferimentos?

— Sem ferimentos.

Rimos.

— Essa foi a promessa mais estranha que já fiz.

— Sou um cara estranho.

Digo por fim.

— Com certeza.

Cecília vem me ver na manhã seguinte, ela traz uma pilha dos seus filmes antigos, sacos de salgadinhos, bombons, entre outros doces. Ela se joga ao meu lado na cama enquanto eu mexo em seus filmes.

De volta para o futuro é bom.

Ela concorda, mas está distante. Encara o teto.

— As pessoas estão comentando sobre o que aconteceu — ela vira seu rosto na minha direção, seu olhar está pousado em mim — estão dizendo que Bernardo te bateu porque achou que você tinha contado tudo para Cibelle.

Eu desvio o olhar e volto a encarar a pilha de filmes.

— Quem contou foi a Tatiane. Mas ela não havia contado sobre Bernardo.

Cecília fica em silêncio, ela sabe que o assunto me incomoda.

— Bem, agora todos sabem.

Digo cabisbaixo.

Cecília sorri de uma forma cautelosa, ela quer me animar.

Eu abro um sorriso. Cecília deita a cabeça no meu colo.

— Acho que temos que começar pelo Noivo neurótico, noiva nervosa.

Cecília sugere.

— É um dos seus romanceloides, né?

Cecília ri.

***

Eurico aparece alguns dias depois na minha casa, havia comentado com ele sobre o que aconteceu, e foi uma surpresa quando o vi entrando no meu quarto acompanhado pela minha mãe. Ele trazia um buquê de flores em uma das mãos. Aquilo era tão Eurico.

Quando minha mãe finalmente nos deixou a sós ele se sentou ao meu lado na cama, as flores estavam colocadas em um vaso, minha mãe fez questão de colocá-las em meu criado-mudo.

Eurico encosta as costas na cabeceira, estamos lado a lado.

— Eu me lembro desse quarto.

Eurico me olha e sinto malícia em sua voz.

Sorrio em concordância.

— Bons tempos.

Ele diz.

Eu concordo.

Ele fica em silêncio, mas não é algo constrangedor, era agradável, como se estivessemos em uma espécie de transe nostálgico, estávamos relembrando o que vivemos e o que poderíamos ter vivido. Cada um na sua privacidade. Gostava daquilo em Eurico, da forma como o espaço e tempo era respeitado quando estávamos juntos. Ele parecia me entender mesmo com todas as diferenças.

— Sabe — Eurico começa, ele me olha nos olhos — esse cara que fez isso com você é um imbecil.

Eu não queria falar sobre Bernardo, não naquele momento, não com Eurico, não nunca mais. Mas Eurico tinha um jeito tão pacífico na fala que até mesmo quando ofendia alguém era algo agradável de se ouvir.

— Obrigado por ter vindo.

Eu digo aleatoriamente, ignorando o que ele diz sobre Bernardo.

— Estava com saudades da comida da sua mãe.

Eurico graceja.

Aquilo me faz sorrir.

— Tudo bem. Você fica para o jantar.

Meus pais e Eurico tagarelavam na mesa, minha mãe fez um delicioso risoto de frutos do mar, não era algo que ela costumava servir durante a semana, mas era o prato favorito de Eurico e ela quis impressionar.

Minhas mãe e seus exageros.

— Charles falou que você entrou na faculdade.

Meu pai pergunta.

— Sim, senhor Carlos. Eu estou no segundo semestre de Rádio e Tv.

Meus pais fitam Eurico com orgulho, e naquele momento eu penso se algum dia eu vou ter aquele olhar sobre mim. Um olhar de orgulho. Orgulho sincero.

— E você está namorando?

Eu encaro minha mãe com censura.

Ela dá de ombros tomando mais um pouco do vinho.

Eurico sorri, ele provavelmente ainda se lembrava o quanto meus pais poderiam ser intrusos.

— Sim, senhora Leonora. O nome dele é Gregory. Ele é australiano. Eu conheci ele em uma ida no museu.

Naquele momento eu finalmente descubro o verdadeiro nome do seu namorado.

Meus pais trocam um sorriso malicioso entre si. Eu sei o que eles estão pensando. Eles devem estar achando porque eu não arranjo pessoas legais. Porque eu só me meto em confusão.

Depois do jantar eu e Eurico vamos para fora, estamos na calçada da minha casa, Eurico me olha com seu sorriso perfeito.

Ainda sinto dores, mas agora tudo está mais suportável. Até pensar em Bernardo está suportável. Era quase um tanto faz.

— Eu gosto dos seus pais.

Eurico quebra o silêncio.

Risco o asfalto com um galho de árvore, estamos sentados no meio fio.

— Eles também gostam de você.

Eurico abre um sorriso, mas ele não está olhando para mim. A sensação que eu tenho é que ele está distante. Eurico tinha esse lance de viajar para outro mundo em sua mente. Era seu jeito. Uma das suas tantas manias.

— Charles, por que não demos certo?

A pergunta de Eurico me deixa surpreso e ao mesmo tempo envergonhado, não estava esperando, ele tinha essa péssima mania de me deixar sem articulação.

— Eu não sei.

Mas eu sabia, sabia exatamente porque não tínhamos funcionado como um casal. Eurico queria tudo. E eu estava fadado a mesmice. Ele me quis por inteiro. E eu só disponibilizei a metade. Eu fui egoísta. E Eurico se cansou do meu jogo de não saber o que quer. Naquele momento eu me vi como Bernardo. Como o grande cara egoísta que se acha o manipulador das pessoas. Esse pensamento me deixou mal.

— Espero que um dia você encontre a resposta, Charles — Eurico diz pausadamente — para tudo.

As palavras de Eurico pairam como uma profecia.