Charles, grafite, skate e garotos
7 Capítulo - VI
Notas iniciais
Chego ao duplex de Tati depois de todos. Esperar por Bernardo por quase duas horas gerou o meu atraso.
Me sinto derrotado. Deveria saber que algo assim aconteceria. Ele não trocaria o conforto da sua heterossexualidade para se aventurar com um cara.
O que eu poderia exigir também? Eu tinha uma namorada. Estava sendo um canalha com Cibelle.
Tati me recebe eufórica, ela veste uma espécie de fantasia de cheerleaders rosa, ela me pergunta por Cibelle, e eu não sei responder.
Estava ocupado demais esperando seu namorado. Penso.
Ela me arrasta para cozinha, me prepara um drink. Ela está bêbada. Quase cai sobre as garrafas de vodkas espalhadas pelo balcão.
— Você trouxe a erva? — Ela pergunta enquanto me entrega um copo com vodka e um líquido vermelho.
Bebo um pouco.
Está forte.
Saco do bolso dois cigarros de maconha.
Ela apanha os cigarros e dá pulinhos.
Ela beija meu rosto, sinto sua saliva molhar minha pele.
Saiu da cozinha, largo o copo com a bebida em algum canto entre o corredor e a cozinha. Tudo está escuro, luzes piscantes.
Procuro Cibelle. Quero dizer o quanto a amo. O quanto estou arrependido. Quero que ela me perdoe por ser uma droga de namorado.
Eu não a encontro.
Fico estático no meio da sala.
Ele está lá. Sentado no sofá. Rindo com outros caras. Ele tem o rosto pintado com uma espécie de tinta fluorescente.
Ele me vê. Mas finge não me olhar.
Ele me despreza.
Eu sou um idiota por ainda acreditar nessa merda toda. Ele não está nem aí. Bernardo é incapaz de sentir qualquer sentimento por mim.
Isso para ele é uma espécie de jogo. Ele manda. Eu obedeço.
Assim que funciona. Ele dita as regras. Eu sou uma peça.
Ele se levanta. Desaparece na multidão.
Eu faço o mesmo. Preciso de algo forte. Algo para me tirar dessa realidade de merda.
Galantis — Runaway (U & I) toca, todos parecem imersos a música. Corpos se movimentando. De um lado para outro.
Tudo parece estar em câmera lenta. Acho que foi o baseado. Estou flutuando.
Preciso voltar, manter os pés no chão.
Minha boca está seca. Preciso beber alguma coisa.
Um coral começa. Todos cantam a letra.
— I wanna run away!
— I wanna run away!
— Anywhere out this place.
Quero fugir desse lugar. Para longe desse lugar. Penso.
Me sinto disperso, como se não fizesse parte daquilo.
Eu estou ali. Mas sou apenas um telespectador. Ninguém me nota. Estão ocupados demais movimentando seus corpos. Bebendo e usando suas drogas.
Dance conforme a música.
Não gosto de dançar. Sobretudo, dançar com aquelas pessoas.
Cibelle também está ali, em algum lugar, entre aqueles adolescentes cheios de drogas no organismo. Eu a vi. Ela beijou minha boca, disse que queria transar. E depois desapareceu. Desapareceu como fumaça.
Minha cabeça está pesada. A batida da música parece invadir minha mente.
Levanto.
Tatiane surge de algum lugar, ela segura em meu braço. Ela parece animada. Ela mexe seu corpo eu tento me desvencilhar. Ela é insistente. Eu a empurro.
Ela dá risada. Não parece se importar.
Vou para varanda. A batida é alta. Alguém vai chamar a polícia.
Todos vão parar na delegacia.
A vista é incrível, São Paulo vira uma tela piscando. Como uma pintura cheia de cores. Parece que tudo se silencia dali. Eles estão no topo do mundo. Por isso se sentem como reis. Eles com suas mansões e seus carros de luxo. Deveria me sentir patético por andar com essas pessoas.
Não pertenço a esse mundo.
Explosão de riso. Alguém fez alguma coisa engraçada.
Aquilo é tedioso.
É uma briga de ego.
Quero sair dali. Não faço parte daquele mundo.
Volto para a confusão de corpos eletrizantes. O ar me sufoca. As palavras me sufocam. Preciso de algo.
Beber.
Me arrasto até a cozinha, todos estão eletrizados. Exceto eu.
Encontro uma garrafa de vodka.
Isso deve servir.
Viro no gargalo, o líquido queima a minha garganta, rasga meu estômago.
Mais um gole.
A bebida sobe rápido.
Tudo gira.
Me apoio na bancada da cozinha. Deixo a garrafa cair na pia.
Não sei onde está Cibelle. Não quero procurá-la. Ela deve estar ocupada demais com seus amigos.
Volto para sala. As pessoas dançam, pulam.
Encontro Cibelle.
Ela está dançando com outras garotas. Quando ela me vê corre em minha direção.
Pula no meu colo.
Eu me desequilíbrio e caímos contra o sofá.
— Onde você se enfiou?
Mas sou incapaz de responder. Sua voz está distante.
— Eu te amo.
Minha voz sai atravessada, quase como um trava-línguas.
A vodka não me fez bem.
Cibelle acha graça. Ela deve saber o quão bêbado estou.
Ela me beija. Eu retribuo.
Ela está provocante.
Rebola no meu colo, posso sentir seu quadril se movimentar. Ela está de vestido, posso sentir suas pernas nuas.
Ela segura meu rosto, mas eu não sinto nada.
Minha língua está dormente enquanto eu tento beijá-la.
Alguém a puxa.
Cibelle não está mais em cima de mim.
Olho ao redor, a música me sufoca.
Ela está no centro da sala, está dançando de uma forma sensual.
Levo a mão na cabeça.
Preciso tirar minha namorada dali.
Não é certo.
Levanto, mas dou um passo em falso. Cambaleio para o lado.
Sinto alguém me puxar. Tudo fica escura.
A pessoa me arrasta até um corredor. Tudo gira.
Sinto quando o som da música abafa. A porta foi fechada. A luz acende.
Sinto alívio.
Demora alguns segundos até me acostumar com a claridade.
Bernardo me olha. Está sentado em um móvel. Estamos em uma espécie de sala.
Aquele dúplex tinha tantos cômodos que era difícil saber onde estávamos.
Ele usa uma regata preta. Seus músculos são perfeitamente definidos.
Levo a mão na cabeça e fecho os olhos.
— Parece que alguém bebeu demais.
Ele diz com ar simpático.
Eu quero que ele vá se ferrar.
— Vai a merda!
Resmungo me sentindo enjoado.
Ele balança seus pés, pra frente e pra trás. Tudo está silencioso. Ele parece pensar em algo. Mas um passo do seu grande jogo.
— Por que você não avisou que não ia aparecer?
Tento demonstrar indiferença, mas naquele momento eu sei que minha feição é de raiva.
—Foi mal — ele começa — A Tatiane ficou grudada em mim o dia todo. Não consegui ir.
Olho para ele, seu rosto parecia sincero e arrependido, mas então, me lembro que aquele é Bernardo o grande manipulador.
Fecho os olhos e respiro fundo. A bebida me fez mal.
Quero ir embora.
Quando abro os olhos ele está em pé. Do meu lado. Sua mão toca meu rosto. Como da primeira vez.
— Não.
Eu murmuro.
Ele me olha nos olhos.
Eu o empurro com força.
— Porra, cara. Sai daqui!
Bernardo mantém o olhar em mim. Eu não quero que ele me encare. Só quero que ele me deixe em paz.
— Vai se ferrar!
Eu ando em direção a porta.
Ele me puxa com força, não tenho forças para resistir.
— Eu não tô a fim.
Ele não se importa.
Ele me beija.
Maldito beijo.
Eu retribuo com urgência, ele me puxa para baixo, caímos no chão. Ele ergue a mão e passa o trinco na porta.
Não devemos fazer isso.
Eu sei que isso vai piorar. Deveríamos parar enquanto ninguém está machucado.
Mas aquele era o grande desafio. Que vença o mais forte. O mais insensível.
Bernardo desata meu ziper.
Posso sentir sua mão explorar meu corpo, ele desce seus dedos por toda a minha barriga. Meu pau está duro feito pedra.
Ele está entre minhas pernas, fecho meus olhos. Eu não quero olhar para ele. Não quero contemplá-lo enquanto chupa meu pênis. Eu o odeio.
Gozo.
Ele me vira de costas, meu rosto toca o chão frio. Me sinto uma boneca inflável. Ele monta sobre mim. Me penetra. Eu gemo. Ele beija minha nuca. Com força.
Um. Dois. Três. Quatro. Cinco.
Ele goza e seu corpo cai ao lado do meu.
Ele me olha nos olhos.
—Senti saudades.
Ele murmura.
Fecho meus olhos.
Tudo se apaga.
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