Charles Quill
1 Pilot
Ele fungava demais. Provavelmente a cada cinco minutos. um barulho irritante e rouco que fazia os punhos de Charles tremerem dentro do bolsos do moletom. Talvez o ruido de porcos copulando seria mais agradável do que aquele grande e vermelho pedaço de cartilagem que não sabia controlar a própria respiração.
— Aqui está Mr.Quill. — Disse o diretor arrancando um pedaço de papel de seu bloco amarelo e extendendo-o para o garoto com dedos engordurados. — Traga assinado amanha pela manhã. Deve encontrar seu supervisor hoje mesmo depois da aula.
Com ombros estreitos e braços relaxados o Diretor se rescostou novamente na cadeira ergonômica de couro puído. Charles segurou o papel e xingou assim que seus olhos percorreram a letra desleixada do diretor.
—Você só pode estar de sacanagem. — Disse desdenhosamente jogando o papel de volta na mesa. — Sem chance.
O diretor contentou-se apenas com o levantar de uma sobrancelha.
E outra fungada.
— Se preferir um reformatório, não me importarei de fazer o seu pedido de tranferência. — Disse o homem com voz arrastada que combinava com as feições cansadas de alguém que lidava com jovens desajustados já há muito tempo. — Mas acho que invasão de propriedade privada e desacato a autoridade já são o suficiente para a ficha de alguém que ainda nem completou os dezoito anos.
— Eu não ligo para o que você acha. Não vou para a merda de um centro comunitário.
O diretor Sanders encarou o garoto de porte alto e cabelo cortado rente ao coro cabeludo. Pelas vestes era provável que já estivesse metido em alguma gangue local, mas não seria nenhuma novidade. A maioria dos alunos vinham de bairros difíceis e por isso havia contratado um bom time de psicopedagogos para o acompanhamento da instituição.
Não eram muitos que se esforçavam tanto por uma escola, isso havia rendido a Sanders alguns prêmios importantes. Mas nada que o preparasse para esse confronto diário a jovens perdidos e geralmente hostis.
Fungou já cansado daquela discussão.
— Quill, não deve encarar isso como uma punição. Aliás, é exatamente o que estou querendo evitar aqui, gerar mais raiva e sede de vingança, coisa que vocês crianças de hoje em dia pensam ser a resposta para tudo.
Charles revirou os olhos e deixou o corpo escorregar na cadeira. Era pequena para seu porte e estava bem desconfortável, mas quanto menos parecesse se importar, menos tempo passaria encarando aquele homem patético de óculos grandes demais para o rosto. Fez um sorriso sínico com o maxilar quadrado e bem marcado.
—Não gosto de crianças.
—E eu não gosto de adolescentes pretenciosos que se acham vanguardistas por pixarem um desenho obsceno no muro da escola com o rosto do professor de matemática e da senhora Margaret da tesouraria, porém, como um profissional capacitado estou aqui para direcioná-los ao caminho certo. — Disse o diretor foleando alguns outros documentos já não dando muita atenção para os protestos do rapaz a sua frente. — Você não tem escolha, Quill, e minhas opções estão se esgotando quanto a você. Estou pegando leve aqui, mas quando sua ficha cair nas mãos do conselho, estarei de mãos atadas.
— Não preciso da sua proteção. — Vociferou com olhos incisivos. — E muito menos da sua pena.
— Pena? Este é um privilégio que o senhor não usurfrui vindo de minha pessoa. — entrelassou os dedos sobre a mesa. — Eu estou me certificando que quando o serviço social bater na minha porta para apurar a sua ficha, não venha me acusar de negligência.
Quill trincou os dentes.
— Você e esse seu traseiro egoista. Não vou para merda de centro comunitário nenhum. Nem perca seu tempo.
Com uma fungada mais grave, ruidosa e grotesca que as anteriores, Sanders encarou o rapaz no fundo dos olhos e espalmou as duas mãos sobre a mesa em um gesto firme que pegou ambos de surpresa.
—Saiba que eu e meu traseiro egoísta só estamos tentando evitar que a polícia bata na porcaria da porta da sua mãe com um mandato de prisão para o filho dela. Sabemos que nas atuais condições de saúde em que ela se encontra, será um choque maior do que qualquer um de nós poderíamos suportar, não é mesmo? — Sanders mantinha os lábios crispados e pode ver um lampejo de emoção nos olhos castanhos esverdiados do rapaz. — Pois bem. Se não gosta de crianças, pelo menos faça isso pela sua mãe. Só Deus sabe o que aquela mulher tem que suportar.
Quill quis rebater, chegou até a se aprumar durante a fala do diretor, erguento o corpo em sua direção como se preparasse um ataque ao miserável, mas no fim suas palavras caíram como pedras em suas costas impossibilitando-o de reagir.
Um silêncio pesado se instalou na sala, quebrado apenas por um suspiro rápido do diretor.
— Quando for entregar esse papel na secretaria, certefique-se de procurar pelo seu supervisor. E lembre-se de causar uma boa impressão, ele que irá avaliar sua estadia no final do semestre.
Se levantou ainda sentindo os musculos tensos e o coração acelerado. Sanders estava lá, jogado casualmente em sua cadeira como se tivessem acabado de discutir sobre o tempo ou as manchetes do jornal da manhã. Sua indiferença fazia o sangue de Charles borbulhar. Não se deu o trabalho de se despedir ou se quer ajeitar a cadeira desconfortável no lugar, apenas virou as costa e, nem um pouco delicado bateu a porta de aço e vidro temperado de um modo que até a caneca de porcelana sobre a mesa estremeceu com o estrondo.
Depois que a atmosfera se desfez, o diretor deu outro longo suspiro e massageou a cabeça. Já estava lutando com aquele comportamento hostil e fechado durante muito tempo, e pensar que nenhuma de suas medidas havia surtido algum efeito era sim, de vários modos, desconcertante para ele.
E sabia que algumas rachaduras estavam tão fundas em algumas pessoas, que nem todo o esforço possível que fizesse chegaria às suas origens.
***
— HEY CHUCK! — O grito no corredor fez várias cabeças se virarem pra direção da figura de gorro preto e roupas compridas que pareciam ter o dobro do tamanho do garoto.
Charles apertou com força a mão do rapaz, recebendo tapinha nas costas em seguida.
— Fala sério, detenção outra vez? — Ele riu entre os parcos pelos faciais e uma eterna expressão aérea.
— Não dessa vez, bro. — Respondeu com ar entediado. Os lábios finos acostumados com a posição de descontentamente e o olhar sério já eram características marcantes de Charles.
— Então o que você pegou?
Charles bufou.
— Serviço comunitário.
Marvim suspirou como se tivesse levado uma porrada.
— Que merda, não é? O pior são os idiotas que ficam na cola o tempo todo, todo dia mandam um relatório pra chefia. Se não agradar, é cana pra você. — Com olhos meio avermelhados e cabelos compridos, Marvim era uma caricatura de rua inofensiva. O tipo de pessoa que sabe um pouco de tudo e está sempre atento, por mais que pareça uma mosca moribunda.
—Eu não tenho tempo pra isso. — Charles coçou a cabeça. — Se ele quer me foder, que me jogue logo na porra de uma casa de detenção. Essa enrolação já encheu o saco.
Marvim balançou a cabeça em solidariedade ao amigo. Seus olhos percorreram o corredor até que algo o veio a mente.
— Hey Chuck, tem outra coisa. Os Dinozzo estão te procurando.
Dessa vez Charles ficou um pouco mais alarmado. os Dinozzo não eram de procurar ninguém, muito menos pessoas que você quer encontrar.
— O que foi agora? — Fingiu não se importar.
— Parece que têm um serviço pra você. Não sei de detalhes. — Disse levantando as mãos. — Só... escutei por aí.
Os dois sairam andando para o portão do colégio, de qualquer modo Charles não estava em condições de dizer não a um bico que pudesse pagar bem.
— Eu passo lá depois disso. — Disse balançando o pedaço de papel amarelo antes de amassá-lo e enfiá-lo no bolso.
— Isso ai. — Marvim virou para seu lado da calçada arrastando os tênis desamarrados de cadarços gastos. — E tente não ser preso nesse meio tempo, não vai deixar os Dinozzo muito felizes.
— Estou pouco me fodendo. — Disse para si mesmo levantando o capuz, e cruzando seu caminho pela calçada abarrotada para bem longe dali.
Quill não era o tipo de cara que se metia em confusões. As confusões que topavam seu caminho. Poderia-se dizer que era um fator genético, mas que certeza teria? A última lembrança que tinha do pai era de um homem barrigudo e bêbado, que chegava em casa depois de seu horário de ir pra cama. Algumas vezes, aos cinco anos de idade, presenciou cenas que mudaram totalmente a visão de mundo que tinha quando criança. Acordava de madrugada com o barulho de vidro estilhaçando, alguma coisa se partindo, ou gritos abafados que pareciam ser suprimidos com uma mão calejada. Chegou a levantar algumas vezes, ia na ponta do pé até a sala, esperava a confusão acabar para poder checar com dois dedos em baixo do nariz de sua mãe se ela ainda respirava. Ás vezes tinha de cobri-la com alguma coisa, pois não tinha forças de puxar a roupa arrebentada para o lugar.
Foi aos nove que tentou intervir pela primeira vez. Mais ainda era muito cedo, muito imaturo, muito pequeno. Foram meses de gesso em um braço e semanas com o olho inchado. Na escola pensavam que tinha sido atropelado, mas Marvim sabia que não. Durante semanas ouvia provocações do pai, jocoso em sua poltrona de couro reclinável que fedia a álcool tanto quanto o homem.
— Agora você vai aprender a respeitar o seu velho. — Disse entre um arroto e um sorriso amarelado de dentes semi podres. — Da próxima vez que você pensar em se meter na discussão dos outros, bote na sua cabeça que a sua mãe é uma puta velha que vive as minhas custas. O que eu mandar, ela tem que obedescer. — Os olhos do garoto seguiram até a cozinha onde a mulher magricela de braços pintados de hematomas mexia uma panela em silêncio. — E isso garoto, serve pra você também. — O homem apontou bem perto do nariz do menino. — Meu dinheiro, minha casa. Minha casa, minhas regras.
Essa era uma frase que, mais tarde, voltaria para assombrar os dois.
O menino de cabelos loiros e olhos esverdeados começou a se encolher pelos cantos, destilava sua raiva nos menores, era bom em brigas. Um belo dia, no pátio surrado da escola com grades de corrente e lixeiras fedorentas, foi abordado por um grupo de garotos mais velhos. Quill estava crescendo, era alto. Olhar enfezado e mãos arrebentadas já levantavam seu status.
Más companhias não foram difíceis de encontrar. A desculpa para ficar na rua até tarde era algo que aliviava as costas do menino, só voltando para casa em momentos em que qualquer confusão já tivesse passado.
Rosa, sua mãe, desenvolvera um método simples para manter o menino longe do pai. Ela temia que o descontrole dele pudesse prejudicá-lo mais do que algumas bofetadas e um braço quebrado. Naquele ano, Charles só podia voltar para casa quando houvesse uma toalha branca na janela. Foi a margem que ele precisava para adentrar ao mundo das richas, brigas de rua, furtos a supermercados, alcool e outras drogas.
Aos doze já conhecera as amarguras do mundo.
Certa noite sentou-se do outro lado da rua, cabeça pesada pelo abuso de substâncias, e esperou pacientemente até o sinal da mãe. A obedecia porque sabia que era o único modo de vê-la um pouquinho mais feliz. Esperou a noite toda, mas o sinal não veio. Sem se dar conta, dormiu ali mesmo na grama molhada, o relento e as latas de lixo era suas únicas compahias. Quando acordou, uma pouco depois das seis da manhã, a luz vermelha estrindente de uma ambulância queimou seus olhos.
Ainda cambaleante e de ressaca, levantou-se com as roupas húmidas e foi até a porta de casa, de onde uma maca era retirada as pressas. Os punhos congelaram, a garganta ardeu e lágrimas brotaram de seus olhos.
Passou o dia no hospital. Não teve escola, amigos, ou uma briga de rua. Charles manteve-se encolhido na poltrona gasta do lado da cama, esperando pelo momento em que Rosa acordaria. Os médicos diziam coisas que ele não entendia. Ela estava em coma, isso ele sabia. Mas se voltaria ou não, dependeria da rapidez que seus ferimentos se curassem.
Aquela foi a gata d'água. Charles, nos seus míseros doze anos tivera uma ideia que afetaria seu futuro dali. Ouvira entre conversas sobre uma assistente social vindo recolhe-lo. Seu pai estava desaparecido, a mãe em coma. Viu pela janela da porta uma senhora negra de terno pretro apertar a mão do médico e inclinar-se para a porta. Sem pensar duas vezes, olhou uma última vez para a sua mãe e deslizou pela janela do hospital a fora. Correu sem rumo pelas ruas até seus pulmões arderem. Não estava longe de casa, o bairro feio e as pichações de gangues era muito familiares para ele.
Já ouvira falar dos Dinozzo há algum tempo. Uma família estrangeira que mandava naquele bairro esquecido por Deus. Watts era um bairro que, por muito tempo, abrigou uma população predominantemente negra, principalmente dos anos 40 a os anos 80, mas com a grande demanda de imigrantes, agora comporta uma mistura singular de etinias e uma variedade perigosa de gangues.
Durante o tempo em que seus pais ficaram fora de cena, Charles se virou como pode, e chamou boas atenções por isso. Sua habilidade para pequenos furtos era incrível. O corpo franzino, agilidade e rosto infantil eram uma combinação que dava vantagem.
— Preciso de dinheiro. — Foi a primeira coisa que falou quando se viu de frente para aqueles dois homens que mal sairam da casa dos vinte.
Se olharam. Gargalharam.
A figura mal trapilha e desnutrida de Charles era de certa forma cômica para os irmãos Dinozzo. Um garotinho esquecido pelas ruas que vinha fugindo da polícia não era difícil de encontrar. Mas aquele tinha algo a oferecer, e isso sim era digno de alguma atenção.
— Bom, todos precisam. — Disse Giovanni, o mais velho. Estavam sentados no sofá de uma casa abandonada mais usada como fumódromo e bordel. — A questão aqui, piccolo, é se você está disposto a fazer o que precisa ser feito para conseguir.
E estava. Charles não tinha nada a perder a aquela altura. Começou pequeno, e aos poucos, conquisto confiança.
A poeira abaixou quando Rosa foi liberada quase um mês depois. Ainda debilitada, precisava de um emprego urgente para pagar as contas do hospital. Quando voltou para casa, Charles soube, e deixou o prostíbulo dos Dinozzo para ficar com a mãe. Mas ainda sim, tinha trabalho a fazer. Estava metido em um caminho perigoso, e Rosa quando soube chorou. Porém o dinheiro arrecadado foi bem vindo. Precisavam de comida, roupas, pagar as contas. Charles não queria sair, era um dinheiro fácil, e enquanto pudesse bancar a vida deles, poderia manter o pai longe. Este, que não voltara no ano seguinte, e em no outro. Charles não largara o trabalho com uma condição emposta por Rosa, teria que ir a escola. Estava rebelde, não gostava de ordens, mas não sabia dizer não a ela.
A escola era uma piada para ele, na verdade, poucos levavam a sério. Os professores quase não tinham moral, faltava material, estrutura estava caindo aos pedaços e a maioria dos estudantes mal entendiam inglês.
O diretor Sanders não estava lá há muito tempo, provavelmente uns quatro anos, e vinha pegando no pé dos alunos. Era um homem sério que levava seu trabalho com a esperança de fazer alguma diferença naquela vizinhança. Podia parecer um homem velho e bobo, como costumava se definir, mas a verdade era que cultivava desde a época em que era um adolescente militante um desejo crescente de ser útil a sociedade. Foi por isso que trabalhou com crianças na América do sul, fez pedagogia contra a vontade dos pais, e comprou uma casa pequena a meia hora do trabalho, onde pudesse se dedicar, mas também manter uma distância segura para que os rebeldes não explodissem o seu carro de novo.
Charles já havia passado pelo centro comunitário algumas vezes, mas nunca prestara atenção ali. Era em uma das ruas consideradas mais seguras em Watts, lugar onde políticos e celebridades iam para demontrar suas inclinações à caridade em meio a câmeras e redes de televisão. Era atrás do orfanato San Miguel, antes uma casa de passagem que acabou sendo incorporada como parte do projeto social de uma igreja, e aumentando sua área de atuação. Charles sabia que San Miguel já chamara por ele. Entre uma noite de tormenta e gritos de seus pais, podia imaginar-se no meio das crianças órfãs do bairro, de camisas uniformizadas e terços na mão na hora do jantar.
Quando sua mãe foi internada, lembrava de ver o logo de San Miguel no terno da assistentes social. Uma vez, quando era menino, ele e seus amigos resolveram roubar os tênis de um dos garotos do orfanato e jogá-los na fiação do poste. O garoto teve de andar de chinelos de borracha até conseguirem outro par para ele.
Acendeu um cigarro ainda do lado de fora da instituição. Encostou em um capô surrado com a pintura queimada e observou durante alguns minutos. Não gostava daquele lugar, das lojas sem pichação, dos hidrantes ainda inteiros, o capim dos terrenos cortados com certa frequência. Parecia como qualquer outro bairro. Mas não era, era seu bairro, era Watts. E se tinha algo que não pertencia ali, era dever de Charles se livrar.
Deu uma última tragada, jogou a guimba no chão e pisou com o solado pesado da bota. Olhou o celular para a conferir a hora, e fez questão de se apresentar com cinco minutos de atraso. Charles Quill era como o reflexo das imperfeições do mundo, um reflexo distorcido em pleno ponto de tensão.
Era questão de tempo para aquela imagem se romper.
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